Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 28 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

O combate ao Anopheles gambiae

Considerava-se que a presença de mosquitos adultos constituía índice mais sensível que o larvário, anteriormente usado, para medir a situação de determinada localidade, e que resultados de captura negativos justificavam a desativação da onerosa rotina das visitas domiciliárias feitas pelos inspetores do Serviço de Febre Amarela. "Um índice zero permite espaçar muito mais as visitas dos guardas às casas, reduz apreciavelmente as despesas e contribui para evitar choques desagradáveis entre o público e o serviço". O ciclo de visitas domiciliares era alongado de uma para duas semanas, um mês ou até períodos mais longos, "com absoluta segurança" (Soper, 1939a, p. 11; 1939b, pp. 5-6).

 

O combate ao Anopheles gambiae

Em 1927, o Exército francês inaugurou uma linha de navegação entre Natal, no Rio Grande do Norte, e Dacar, capital do Senegal, com o objetivo de colher dados meteorológicos para a criação de uma linha aérea, a atual Air France. Adolfo Lutz, que estava na Venezuela, fazendo estudos de parasitologia, deteve-se no Rio Grande do Norte, em 1928, na viagem de regresso pelos aviões do correio aéreo de Latecoère. Alertou, então, as autoridades brasileiras para o perigo do ingresso de insetos de importância médica no Brasil, oriundos da costa ocidental da África.

A presença do Anopheles gambiae foi constatada em março de 1930, por Raymond Shannon, entomologista do Serviço de Febre Amarela, que coletou aproximadamente duas mil larvas do mosquito em Natal. No telegrama que enviou à Rockefeller, em 30 de setembro de 1930, declarou: "Encontrei gambiae em Natal. Pobre

Brasil!".33 Apesar de ser ainda restrita a área infestada, a epidemia de malária atingiu grande número de pessoas, sendo por muitos confundida com a febre amarela. Entre 1932 e 1937, o mosquito foi localizado em outras partes do Nordeste, mas sem provocar novos surtos da doença. A seca ocorrida nesses anos, com suas dramáticas conseqüências, desviou a atenção das autoridades para outras questões, inclusive a febre amarela, pois se temia que o recrudescimento da emigração de nordestinos pudesse levar a doença de volta ao Rio de Janeiro.

 

Dr. Raymond C. Shannon, entomologista da Fundação

Rockefeller, que em 1930 atestou a presença de larvas do

mosquito Anopheles gambiae em território brasileiro.

Coc/Fiocruz

Médicos do Serviço de Febre Amarela e do Serviço de Malária do Nordeste. Da esquerda para a direita, em pé, drs. Raymond

C. Shannon e Ottis Causey.

Coc/Fiocruz

Em 1938, enquanto sua forma silvestre varria o Centro e o Sul do Brasil, o vetor africano da malária instaurava verdadeira calamidade pública no Rio Grande do Norte e Ceará. No primeiro estado houve cerca de cinqüenta mil casos e cinco mil mortes numa população de 240.000 habitantes. No vale do Jaguaribe, em julho, ocorreram mais de 63.000 casos com cerca de oito mil mortes, sendo que em alguns

municípios a doença vitimou mais de 90% da população.34 O risco do Anopheles gambiae se propagar pela Amazônia e alcançar o canal do Panamá, numa conjuntura em que era iminente a deflagração da guerra na Europa e em que os estudos epidemiológicos apontavam a malária como a principal ameaça sanitária às forças beligerantes, levou os Estados Unidos a se interessarem vivamente pelo problema do Nordeste brasileiro

Em 5 de agosto de 1938, Getúlio Vargas criou o Serviço de Malária, com um orçamento de mil contos de réis, sob a direção do dr. Manoel Ferreira. O fraco desempenho do serviço levou à sua reestruturação em 11 de janeiro de 1939 (decreto-lei nº 1.042), em ação conjunta do governo brasileiro e da Fundação Rockefeller, com orçamento de sete mil contos (dois mil fornecidos pelos norte-americanos). O Serviço de Malária do Nordeste tornou-se uma organização similar à que combatia a febre amarela, "livre de todas as restrições burocráticas, com fundos adequados, pessoal treinado em larga escala e técnica administrativa refinada, na opinião pouco modesta de seus comandantes absolutos, os americanos Soper e Wilson, que em seu livro não deixam de comentar a pronta disposição do diretor do Serviço de Malária de abrir mão do controle administrativo direto" (Paula, et al., 1990, p. 10).

O contingente inicial da campanha antimalárica proveio do Serviço de Febre Amarela: cerca de cinqüenta pessoas, entre médicos, guardas e funcionários administrativos. Shannon e Barber, do International Health Board, e pesquisadores brasileiros como Leônidas Deane e Maria Paumgarten formavam o destacamento científico avançado contra o transmissor africano da malária. "A cepa que migrou para o Brasil foi especialíssima" – registra Moura Lima.

Hoje sabemos que existem seis cepas diferentes; uma que nem

transmite, outras que desovam em água salobra ou que

preferem água doce. O gambiae que veio para o Nordeste

brasileiro só picava o homem, nenhum outro animal. Quantas

experiências fiz com o dr. Deane para verificar isso. ... O

capturador que usávamos era um tubo com um centímetro de

diâmetro, borracha, uma telinha ... íamos aspirando e contando

os mosquitos para botar na gaiola. A certa altura, o dr. Deane

começou a sentir uma coceirinha na garganta. ... Eu disse: "O

senhor pode publicar o seguinte: quem engolir um gambiae com

esporozoíto, fique tranqüilo que não vai contrair malária...".

(Lima, mar./jun.1998, p. 179).

No seu auge, a campanha chegou a mobilizar quatro mil homens, muito bem remunerados. "Um guarda ... ganhava, na época, mais do que um funcionário do Banco do Brasil. Agora, a disciplina era rigorosa. Vi médicos, como vi guardas ou serventes serem postos no olho da rua por desonestidade. Não tinha apelação. Era chegar e ouvir: 'passa no caixa, recebe o seu dinheiro e bye bye '" (ibidem). O serviço medicou mais de duzentos mil doentes, produziu e examinou cinqüenta mil lâminas de sangue, fazendo, no decorrer da campanha, o reconhecimento minucioso de toda a fauna de anofelinos do Nordeste ("Ligeiros dados...", 1941, p. 8).

Organograma do Serviço de Malária do Nordeste, organismo

 

criado em 1938 e reestruturado em 1939 enquanto ação

conjunta do governo brasileiro e da Fundação Rockefeller, a

partir da necessidade de se bloquear a disseminação do

mosquito Anopheles gambiae, vetor da doença, no Nordeste do

Brasil. Na prática, esse serviço era em muitos aspectos

semelhante ao já existente Serviço de Febre Amarela,

especialmente no que diz respeito à estrutura organizacional e

lógica operacional.

Coc/Fiocruz

Da esquerda para a direita, os drs. Fred L. Soper e D. B. Wilson,

 

respectivamente diretor e diretor assistente do Serviço de

Febre Amarela da Divisão Internacional de Saúde na América

Latina. A dupla dividiu o comando do Serviço de Malária do

Nordeste no combate ao mosquito Anopheles gambiae.

Coc/Fiocruz

Dr. Fred L. Soper, chefe do escritório regional da Fundação

Rockefeller no Brasil e diretor do Serviço de Malária do

Nordeste, verificando a presença de larvas de anofelinos

durante campanha de erradicação do Anopheles gambiae na

região Nordeste. 1939.

Foto: Dr. Manoel Ferreira

Coc/Fiocruz

Guarda do Serviço de Malária do Nordeste eliminando focos de

larvas de Anopheles gambiae com petróleo e pulverizador

Excelsior. Ceará, 1940.

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Guardas de capturas do Serviço de Malária do Nordeste,

organismo criado por meio de acordo entre o governo

brasileiro e a Fundação Rockefeller. Dirigido por Fred. L. Soper,

seu objetivo era se dedicar exclusivamente ao combate do

mosquito Anopheles gambiae, responsável pela disseminação

da malária, campanha efetuada durante os anos de 1938 e 1941.

Coc/Fiocruz

Sala de identificação de mosquitos do laboratório do Serviço de

Malária do Nordeste, tarefa de rotina que resultou no

reconhecimento de toda a fauna de anofelinos da região

Nordeste. Aracati, CE, 1940.

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Posto de expurgo do Serviço de Malária do Nordeste em

Cristais, CE, vendo-se uma caminhonete coberta pelo toldo e

guardas com pistolas De Vilbiss.

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Turma de capturas do Serviço de Malária do Nordeste

abordando uma família numa habitação a ser fiscalizada. Ceará,

1940.

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Guardas do Serviço de Malária do Nordeste pertencentes à

turma de capturas, responsáveis pelo combate ao mosquito

Anopheles gambiae, trabalhando com o guarda-chuva

retangular no interior de uma habitação. Ceará, 1940.

Coc/Fiocruz

Em 11 de novembro de 1940, foi localizado o último gambiae no Brasil. As atividades de controle foram mantidas até 1942, quando finalmente se extinguiu o serviço. "A partir de 1941" — conta ainda Moura Lima — "quem encontrasse o mosquito vivo recebia prêmio equivalente a mil dólares por exemplar! Nunca ninguém ganhou esse prêmio". Um batalhão de microscopistas examinava os mosquitos coletados nessa fase de revisão. Para testar a vigilância do pessoal, de vez em quando Deane colocava sorrateiramente uma larva de gambiae num dos potinhos de mosquitos que vinham do campo. Se o microscopista deixasse de perceber o inimigo, era suspenso; na segunda vez, perdia o emprego.

A descoberta de Shannon, em 1930, representara um marco: era a primeira vez, na história da biologia dos anofelinos, que se verificava a sua transposição de um continente a outro ("Ligeiros dados...", 1941, p. 8). Em 1940, fixou-se outro marco: era a primeira vez na história da saúde pública que se eliminava um transmissor de doença procedente de outra zona zoogeográfica. O feito foi atribuído ao competente estudo do Anopheles gambiae, mosquito doméstico e antropofílico, passível de ser combatido no interior das habitações; ao uso sistemático de verde-paris nos criadouros de larvas, e de píretro, no interior das casas; mas se deveu, sobretudo, ao rigor, disciplina e eficiente organização verticalizada que os comandantes

da campanha contra a febre amarela montaram no Nordeste.35 Muitos dos participantes dessa campanha se transferiram para o Serviço Especial de Saúde Pública e continuaram a trabalhar com a malária na Amazônia. Outros foram absorvidos pelo Serviço Nacional de Malária, criado pelo Ministério da Educação e Saúde Pública.