Febre amarela: a doença e a vacina
Epidemia de meningite
Ainda como candidato à presidência da República, numa visita ao Mato Grosso e ao Amazonas, Geisel conheceu o trabalho do especialista em medicina sanitária Paulo de Almeida Machado, na época diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Ao compor seu ministério, convidou-o para comandar a pasta da Saúde que, em 1º de maio de 1974, teve as partes "ricas" de seu organograma transferidas para o Ministério da Previdência e Assistência Social (D'Araújo e Castro [orgs.], 1977, p. 265). Logo no primeiro mês à frente daquela pasta, defrontou-se com um surto de leishmaniose no Rio de Janeiro, uma ameaça de cólera e a denúncia de venda no Brasil de remédios proibidos nos Estados Unidos. O recrudescimento da epidemia de meningite forçou-o a adotar medidas emergenciais para atender ao número crescente de doentes e barrar a expansão da doença para as áreas rurais.
Epidemia de meningite
Desde 1972, vinham se sucedendo em São Paulo e no Rio de Janeiro casos de meningite provocados pela bactéria do tipo C. Em fevereiro de 1974, o Instituto Adolfo Lutz detectou três casos do tipo A na capital paulista. A ocorrência simultânea das duas bactérias desencadeou um surto de grandes proporções. Somente em julho de 1974, morreram 210 pessoas na cidade de São Paulo. Apesar das tentativas feitas pelo governo militar de abafar a verdadeira magnitude do problema, as estatísticas oficiais registraram 2.575 mortes em hospitais paulistas durante aquele ano. Com o recrudescimento da epidemia no segundo semestre, chegou a 14 a média de óbitos por dia, e 24.458 pessoas deram entrada nos hospitais de isolamento do país, perfazendo uma média de 163 novos casos por dia. A taxa de mortalidade de 10% foi considerada "uma das maiores já registradas em todo o mundo" (Jornal do Brasil, 26.07.1974; O Globo, 30.12.1974).
Na cidade do Rio de Janeiro ocorreram 304 mortes (417 segundo outra fonte), e mais de 1.500 internações, entre 1º de janeiro e 29
de dezembro de 1974. 18 Estes dados diziam respeito apenas às ocorrências registradas nos hospitais. Em outubro, as autoridades sanitárias locais começaram a aplicar 150 mil doses de Meningovax-C cedidas pelo Ministério da Saúde. A doença tomou formas assustadoras nas duas cidades, com hemorragias fulminantes e
necroses que requeriam a amputação de membros.19 Nas altas esferas instalou-se o pânico: a aproximação do Carnaval afigurava-se perigosíssima, pois a bactéria da meningite (Neisseria meningitidis), embora golpeasse principalmente os pobres e mal nutridos, atingia também, com força, as camadas mais abastadas. Para deter a epidemia, a única solução era vacinar (Mérieux, 1988, p. 158).
Já se tinha esboçado uma campanha em dezembro de 1972, quando cerca de setenta mil crianças foram imunizadas na cidade de São Paulo contra a meningite tipo C. O Instituto Adolfo Lutz, considerado, então, pelas organizações Pan-Americana e Mundial de Saúde, o único laboratório brasileiro em condições de diagnosticar com segurança a doença, supervisionou a vacinação e passou a treinar técnicos de outros estados.
Em 1974, o ministro Paulo de Almeida Machado decidiu vacinar toda a população brasileira, meta que nem a campanha contra a varíola tinha alcançado. Pleiteou recursos ao ministro do Planejamento, que incumbiu um técnico de sua pasta, Vinícius da Fonseca, de examinar o assunto. "Eu era o homem da Saúde, e ele me passou o abacaxi. Eram oitenta milhões de doses de vacina a ser compradas, ... a gente gastou com isso um absurdo: quarenta
milhões de dólares!". 20
Em 19 de dezembro, Geisel aprovou o Programa Nacional de Combate à Meningite, apresentado pelos Ministérios da Saúde, Previdência e Assistência Social e Planejamento. A vacinação de toda a população, "sem limitações de grupos etários e com validade para os tipos A e C do meningococo", entre janeiro e outubro de 1975, consumiria recursos da ordem de cem milhões de cruzeiros com a importação, armazenagem e transporte das vacinas, e com o deslocamento das equipes e equipamentos para aplicá-las (Jornal do Brasil, 20.12.1974).
Os Estados Unidos tinham vacina contra o tipo C. O Instituto Mérieux, na França, era o único no mundo que produzia a vacina de que precisávamos, mas numa escala que ficava muito aquém do volume necessário para imunizar tanta gente em tão pouco tempo. O próprio Charles Mérieux admite que foi "uma tremenda aposta" a decisão de atender àquela demanda. Charles e o filho, Alain, que assumira a direção do Instituto Mérieux, iniciaram imediatamente a construção de novos prédios em Marcy-l'Étoile, já que tal escala de produção era inviável na planta existente. Estavam em agosto, mês em que as fábricas francesas trabalhavam a meio pano, com parte do contingente em férias. Os empregados foram chamados de volta às pressas, adquiriram-se novos equipamentos e em reuniões febris ajustaram-se os incontáveis detalhes do projeto. Em cem dias a nova fábrica decolou. Três meses depois, estavam prontos cinqüenta milhões de doses.
Em janeiro de 1975, Mérieux (1988, pp. 158-9) deu sinal verde ao ministro brasileiro para que acionasse a complexa logística daquela operação de guerra contra a meningite. Não bastava ter as vacinas. Era preciso recrutar vacinadores voluntários, montar a rede de refrigeração para armazenar as vacinas, pôr em movimento os meios de transporte que as levariam a pontos estratégicos previamente equipados. Do bom funcionamento destes e de mil outros detalhes dependeria o sucesso do empreendimento. Em março de 1975, iniciou-se a ponte aérea entre as usinas Mérieux e o Brasil.
Balões de vidro com cubas de aço na fábrica do Instituto
Mérieux, na França. Os fermentadores de mil litros permitiram a
produção de grande quantidade de vacina contra a meningite
para o Brasil. Estes equipamentos eram bem mais sofisticados
do que os transferidos para Bio-Manguinhos.
Laffont, 1988.
Na realidade, as vacinações começaram antes. Na cidade de São Paulo, entre 13 de agosto e fins de novembro de 1974, dois milhões de crianças foram vacinadas nas escolas contra os tipos A e C. Na mesma época, a Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro encomendou, por conta própria, um milhão de doses de vacinas do tipo A ao Laboratório Mérieux, e em três meses, vacinou quase 1.200.000 pessoas nas comunidades onde o surto era mais intenso,
e em escolas, hospitais, penitenciárias e quartéis.21 Segundo Charles Mérieux, quando começou a campanha nacional, setecentas equipes vacinaram dez milhões de pessoas em apenas cinco dias em São Paulo. "Vacina-se nas ruas, nas casas, em toda parte. Centenas de voluntários ... com essas novas seringas sem agulha (que evitam a um só tempo as manipulações e os riscos de contágio), vacinam, se posso dizer assim, à tour de bras [com toda força]. ... homens, mulheres e crianças". Para que as vacinas, envolvidas em neve carbônica, não degelassem no transporte, retiravam-se as janelas de antigos DC3 que sobrevoavam as copas das árvores até os confins da Amazônia. Em nove meses, o país inteiro foi imunizado. "A eficácia da organização montada pelos brasileiros é extraordinária!" — declararia Mérieux (pp. 159-60).
A epidemia cedeu, mas em 1978 novo surto ocorreria no estado do Rio de Janeiro, com 329 mortes até setembro (Jornal do Brasil, 22.10.1978). Àquela altura, as vacinas já estavam sendo fabricadas por Bio-Manguinhos.
Vacinação na cidade do Rio de Janeiro em 24 de janeiro de
1975.
Foto: L. Carlos
Coc/Fiocruz
Fila para vacinação contra meningite no Centro da cidade de
São Paulo, em 22 de abril de 1975.
Foto: Waldo
Agência O Globo
O ministro da Saúde, Paulo de Almeida Machado, durante a
campanha de vacinação contra a meningite, realizada pela
Superintendência de Campanhas do Ministério da Saúde/
SUCAM. Nessa época, como anteriormente na campanha de
erradicação da varíola, foi amplamente utilizado o dispositivo