Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 7 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

A vacina de Domingos Freire

Febre amarela ceifando foliões. “O carnaval de 1876”. Revista

Ilustrada, 04.03.1876, ano 1, nº 10, p. 7.

 

A vacina de Domingos Freire

Em dezembro de 1879, quando as ruas e casas do Rio de Janeiro reverberavam o sol inclemente da "estação calmosa", ou submergiam debaixo de suas chuvas torrenciais, Domingos José Freire, catedrático de química orgânica na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, anunciou a descoberta de um microrganismo que julgava ser os causador da febre amarela. Propôs, também, um remédio contra a doença: injeções subcutâneas de salicilato de sódio, um anti-séptico e antipirético que a indústria alemã começara a fabricar em grande quantidade. As controvérsias a respeito do germe e do germicida envolveram médicos convencidos de que a febre amarela era produto de miasmas, de algum outro envenenamento químico ou ainda de fermentos inanimados; alopatas e homeopatas que propunham tratamentos rivais; doentes que os endossavam ou criticavam; e cronistas que escreviam com muito humor sobre as experiências feitas pelos médicos na capital brasileira.

Freire iniciara a carreira médica como cirurgião na Guerra do Paraguai (1864-70). Depois de obter a cátedra na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, viajou para a Europa, e durante o tempo em que lá permaneceu (1874-76) enviou à congregação da faculdade quatro relatórios contendo um inventário arguto dos progressos em curso na química, biologia e medicina, bem como um mapeamento detalhado do ensino médico nos locais que visitou (Bélgica, Viena, Paris, Alemanha, Suíça e Rússia). Os relatórios revelavam perfeita sintonia com o espírito que presidiu a reforma do ensino médico no Rio de Janeiro (1880-89): ênfase na ciência experimental e no ensino prático em laboratório. Além de ser um dos mentores intelectuais da reforma, Freire integrou a comissão incumbida de redigir a lei que a instituiu. Dos vários laboratórios criados então, o que deu a floração experimental mais exuberante

foi o seu, o de química orgânica. 3

No primeiro semestre de 1883, Domingos Freire desenvolveu uma vacina contra a febre amarela, com o Cryptococcus xanthogenicus, uma planta microscópica cuja virulência atenuou por meio de técnicas recém-concebidas por Pasteur. Excetuando-se a vacina antivariólica, não havia ainda outro profilático dessa natureza para doenças humanas. As realizações de Pasteur nessa área restringiam-se ainda às vacinas contra o cólera das galinhas (1880) e o antraz ou carbúnculo hemático (1881). Seu ingresso nas patologias humanas, com a vacina anti-rábica, envolveria complexas

injunções sociotécnicas superadas só em 1886.4

Circunstâncias inesperadas conduziram o professor de química à presidência da Junta Central de Higiene Pública, em fins daquele ano, tornando, assim, mais fácil a difusão de sua vacina pelos cortiços do Rio de Janeiro. A surpreendente receptividade que teve, primeiro entre os imigrantes, depois entre os nativos, deveu-se ao medo que a febre amarela inspirava e, também, ao apoio dos republicanos e abolicionistas, aos quais Freire era ligado.

Nas imprensas médica e leiga e na Academia Imperial de Medicina houve reações contraditórias, especialmente depois que a vacina recebeu o apoio tácito do imperador d. Pedro II e a entusiástica adesão de um "discípulo" de Pasteur, Claude Rebourgeon, veterinário francês contratado pelo governo brasileiro para iniciar aqui a produção da vacina animal contra a varíola. Em 1884, Rebourgeon apresentou a descoberta de Freire às academias de Medicina e das Ciências de Paris, onde obteve reações favoráveis de parte de personagens importantes da medicina francesa, como

Vulpian e Bouley.5

Pelo menos 12.329 imigrantes e nativos do Rio de Janeiro e de outras cidades brasileiras foram inoculados com esta vacina entre 1883 e 1894. Durante esses anos, Freire publicou estatísticas bastante sofisticadas em comparação com os métodos quantitativos usados na época para aferir a eficácia de outros remédios e vacinas. Igualmente importante para explicar o alcance geográfico e a longevidade da vacina de Freire foi a trama de relações que o enredavam a outros caçadores de micróbios, associações médicas e científicas, autores de tratados que sistematizavam resultados alcançados pela bacteriologia, interesses coloniais e comerciais etc.

“A raiva vencida. Inoculação do jovem Meister ... Segundo a gravura do jornal llustration”. O menino de nove anos, vindo da Alsácia, foi levado ao laboratório de Pasteur em 6 de julho de 1885, commordidas profundas de cão raivoso. Pasteur, que era químico,consultou os drs. Vulpian e Grancher, que recomendaram o uso da vacina até então testada só em cães. Sob a pele do hipocôndrio direito, Meister recebeu, naquele mesmo dia, metade de uma seringa de Pravaz com o vírus proveniente de medula de coelho morto de raiva em 21 de junho, e conservada desde então ao abrigo da umidade. Fizeram-se ao todo 13 inoculações sucessivas de material cada vez mais virulento, até 16 de julho. Pasteur, que havia sofrido um acidente vascular cerebral aos 59 anos, observa o médico injetando a vacina. O sucesso do tratamento teve grande repercussão pública e viabilizou a criação do Instituto Pasteur de Paris. Segundo biografia do cientista francês publicada recentemente por Geison(1995), ele já tinha usado a vacina secretamente num homem que sobreviveu e numa criança que morreu. Meister trabalharia como porteiro do Instituto Pasteur até junho de 1940, quando se suicidou no momento em que as tropas alemãs invadiam Paris. Reprodução/Coc/Fiocruz

O mexicano Manoel Carmona y Valle era o mais notório rival do bacteriologista brasileiro. O micrococcus tetragenus de Finlay foi concebido como alternativa à alga de Freire, e eles se corresponderam na época em que o cubano usava mosquitos infectados em amarelentos como imunizantes vivos contra a doença. A vacina de Freire alcançou Porto Rico, Jamaica, as Guianas e outras colônias da França (ver a esse respeito Benchimol, 1999, pp. 119-68).

 

Domingos Freire na época em que dirigiu o Museu Nacional

(1893-95). Óleo pertencente ao Museu Nacional.

Em sua segunda viagem à Europa (dez. 1886-jul. 1887), Freire submeteu duas comunicações à Academia de Ciências de Paris, em co-autoria com Rebourgeon e um pesquisador do Museu de História Natural daquela cidade, Paul Gibier. Foi recebido também na Sociedade de Biologia, na Academia de Medicina e na Sociedade de Terapêutica Dosimétrica. Estes e outros fatos ocorridos em Paris repercutiram com força na capital brasileira e, ao regressar a ela, Freire foi recebido como o herói da "ciência nacional" por estudantes e professores das escolas técnicas e superiores do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, jornalistas de diversos periódicos, ativistas dos clubes republicanos e sociedades abolicionistas. Semanas depois, viajava a Washington, para participar do IX Congresso Médico Internacional, que aprovou resolução recomendando sua vacina à atenção de todos os países afetados

pela febre amarela.6

Freire empataria o capital simbólico auferido nessas viagens nas polêmicas que iria sustentar nos anos 1890, período durante o qual as expectativas despertadas entre personalidades e instituições estrangeiras retrocederam para o silêncio complacente ou a condenação formal. A vazante começou com a conversão de Paul Gibier à hipótese de Koch e Le Dantec de que a febre amarela era causada por um bacilo similar ao do cólera. George Sternberg, presidente da American Public Health Association e, mais tarde, surgeon general dos Estados Unidos, produziu então o mais consistente e demolidor inquérito sobre as teorias e vacinas em voga no continente, ao mesmo tempo que buscava evidências em

favor do suposto bacilo da febre amarela.7

Segundo os autores que escreveram sobre a história da doença, este relatório foi aceito pela comunidade científica internacional como prova de que os sul-americanos haviam fracassado em suas tentativas de isolar o micróbio e produzir uma vacina eficaz. Até o Instituto Pasteur, que mantivera prudente reserva, corroborou o inquérito norte-americano. Contudo, outras fontes mostram que Sternberg conduziu de forma muito inábil sua investigação no Rio de Janeiro, ajudando a robustecer o prestígio de Domingos Freire junto aos nacionalistas, positivistas e republicanos.

“Dr. Domingos Freire, ilustre médico, autor da vacina contra a

 

febre amarela. Talento distinto, investigador incansável, mais

conhecido e apreciado no estrangeiro do que em seu próprio

país”. Revista Ilustrada, 1889, ano 14, nº 533, p. 8.

Paradoxalmente, o apogeu da carreira do brasileiro engendraria uma contradição fatal para sua vacina. À medida que as camadas médias urbanas aderiam a ela, entusiasticamente, mais vulnerável se tornava às críticas dos adversários, já que se ampliava a defasagem estatística entre a população vacinada — nativos, negros e imigrantes já "aclimatados", considerados imunes à febre amarela — e a população dos suscetíveis, constituída principalmente por imigrantes recém chegados. As mudanças na composição social dos vacinados estão relacionadas às mudanças na forma pela qual a vacina se difundia. Numa época de crescente pessimismo em relação aos remédios para a doença, e de ceticismo quanto à viabilidade do saneamento do Rio de Janeiro, a vacina de Domingos Freire se tornava componente muito bem-vindo na relação dos clínicos com seus pacientes, e dos estabelecimentos filantrópicos com seus destituídos.

A deposição do governo monárquico e a proclamação da República, em novembro de 1889, aconteceram em meio a uma epidemia muito grave e, enquanto o novo governo negociava a federalização dos serviços de saúde, a vacina contra a febre amarela se transformou em instituição governamental.

No Brasil, o principal competidor de Freire era João Batista de Lacerda, um médico que deixou registro mais duradouro na historiografia por conta de pesquisas em fisiologia e antropologia. Sua vida profissional transcorreu quase integralmente no Museu Nacional do Rio de Janeiro, de que foi diretor por longo tempo (1895-1915). Lacerda e Freire iniciaram as investigações sobre febre amarela simultaneamente, no verão de 1879-80, mas o primeiro logo conquistou notoriedade em virtude de outra pesquisa: em 1881 anunciou que as injeções de permanganato de potássio constituíam antídoto eficaz contra a peçonha das cobras (e possivelmente, também, contra os "vírus", isto é, os venenos então associados à febre amarela e outras doenças). Duas a três décadas depois, o Instituto Butantã teria grande trabalho para desalojar o antídoto de Lacerda, amplamente utilizado pelos clínicos brasileiros,

em proveito dos soros antiofídicos desenvolvidos por Vital Brazil. 8

João Batista de Lacerda no laboratório de fisiologia do Museu

Nacional, em 1902. Museu Nacional/Arquivo iconográfico

 

Oswaldo Cruz em meados da década de 1890, quando começava a

carreira profissional. Coc/Fiocruz.

Em 1883, quando Freire ultimava a preparação da vacina contra a febre amarela, Lacerda incriminou outro micróbio como o verdadeiro agente da doença. Seu Fungus febris flavae e microrganismos similares descritos na época tinham uma característica em comum: o polimorfismo, isto é, a capacidade de mudar de forma e função por influência do meio, sobretudo dos fatores climáticos. Zoólogos, botânicos e bacteriologistas tinham opiniões conflitantes a esse respeito. Pasteur e Koch consideravam o polimorfismo incompatível com a especificidade etiológica e com procedimentos experimentais rigorosos, mas outros investigadores reconheciam esta propriedade nos fungos, algas e bactérias que estudavam. A questão tinha a ver com os debates sobre a evolução e, também, com os problemas relacionados à classificação dos "infinitamente pequenos". Ainda era precária, e o termo genérico "micróbio" acabara de ser cunhado com o propósito, justamente, de contornar as confusas categorias taxonômicas usadas nos textos científicos da época, que prejudicavam a discussão da teoria dos germes entre os não especialistas .

Além de estabelecer uma relação de continuidade entre os paradigmas ambientalista e pasteuriano, o polimorfismo legitimava o argumento de que a febre amarela era um campo de investigações acessível apenas a cientistas americanos, pois só aí, nesse meio particular, a doença e seu agente se manifestavam com as características típicas. O polimorfismo foi o cimento utilizado por Lacerda para compor sua mais abrangente teoria sobre o tema, "O micróbio patogênico da febre amarela", apresentada à Academia Nacional de Medicina e ao Congresso Médico Pan-Americano em 1892-93, na época em que George Sternberg divulgava os resultados finais de seu inquérito. A tábula rasa feita pelo norte-americano no campo então atulhado de fungos e algas abria caminho aos bacilos, que iriam competir pela condição de agente causal da febre amarela. O panteísmo microbiano de Lacerda operava em sentido contrário: todas as descrições produzidas até então davam conta apenas de diferentes fases ou formas de um fungo proteiforme.

Os trabalhos de Sternberg e Lacerda mostram que as técnicas da bacteriologia, os instrumentos e conceitos utilizados na exploração do mundo microbiano estavam progredindo rápido à medida que os anos 1880 davam lugar aos 1890. Isso ajudava a erodir teorias estabelecidas, a mudar não apenas a visão mas também o ponto de vista daquele estranho universo de seres vivos.

Naqueles mesmos anos, em meio a desafios sanitários sem precedentes enfrentados pela sociedade brasileira, uma nova geração de bacteriologistas despontou em conflito aberto com os mestres que a haviam introduzido à teoria dos germes. Francisco Fajardo, Eduardo Chapot Prévost, Carlos Seidl, Oswaldo Cruz e outros médicos recém-formados haviam passado pelo laboratório de Freire. Os "discípulos" colidiram com ele quando seus amigos republicanos, agora no poder, o nomearam diretor do Instituto Bacteriológico Domingos Freire, instituição federal que tinha atribuições tão amplas quanto aquelas conferidas pelo governo de São Paulo ao Instituto Bacteriológico criado concomitantemente naquele estado (Benchimol, 1999, pp. 223-48, 299-344). São

conhecidas as polêmicas que seu diretor, Adolfo Lutz,9 travou com os clínicos locais a propósito de febres que estes chamavam por diversos nomes, atribuindo-as às condições telúricas locais, e que Lutz diagnosticava como febre tifóide ou malária, baseando-se na identificação do bacilo de Eberth ou do hematozoário de Laveran. As chamadas "febres paulistas" levaram-no a empreender o primeiro inquérito epidemiológico sobre a malária em São Paulo.

Ao mesmo tempo, no Rio de Janeiro, Francisco Fajardo e outros jovens bacteriologistas também investigavam o parasito da malária. O primeiro trabalho "original" publicado pelo Instituto Bacteriólogico Domingos Freire colocou o inventor da vacina contra a febre amarela no centro dessa controvérsia. Freire identificou no interior de São Paulo a "febre biliosa dos países quentes", que classificou como uma modalidade de malária causada por bacilo similar àquele descrito por Klebs e Tommasi-Crudeli (B. malariae, 1878), os dois principais adversários de Laveran. Fajardo e seu grupo trocavam cartas e preparados biológicos com o bacteriologista francês e com Camilo Golgi. Com seu auxílio, refutaram o argumento de Freire, calcado na geografia médica francesa, segundo o qual a diversidade de climas acarretava diversidade de "espécies infecciosas" e, conseqüentemente, de microrganismos patogênicos, uma lei biológica que excluiria a suposta universalidade do hematozoário de

Laveran e da própria malária.10

Este foi apenas um dos episódios do conflitivo processo transcorrido nos anos 1890, envolvendo diversos atores sociais em desacordo sobre o diagnóstico, a profilaxia e o tratamento de doenças que grassavam epidemicamente nos centros urbanos do Sudeste brasileiro, já convulsionado pelo colapso da escravidão, a enxurrada imigratória, as turbulências políticas decorrentes da proclamação da República e as turbulências econômicas associadas à crise do café e à nossa revolução industrial retardatária.

Outro episódio bem documentado pela historiografia brasileira foi a chegada da peste bubônica a Santos, em 1899, e as controvérsias suscitadas pelo diagnóstico feito por Lutz, Vital Brazil, Chapot Prévost e Oswaldo Cruz, e contestado pelos clínicos e comerciantes daquela movimentada cidade portuária, que escoava grande parte da produção cafeeira do Brasil. O aparecimento da peste acarretou a criação dos institutos soroterápicos de Butantã e de Manguinhos. O primeiro, chefiado por Vital Brazil, logo iria se desprender do Instituto Bacteriológico de São Paulo, singularizando-se pelos trabalhos fundamentais na área do ofidismo. Oswaldo Cruz assumiu a direção técnica do Instituto Soroterápico Federal, inaugurado no Rio de Janeiro em julho de 1900, cargo que o levaria à direção da Saúde Pública três anos depois (Benchimol e Teixeira, 1993).

Sua primeira experiência importante como bacteriologista a serviço da saúde pública ocorreu em 1894-95, com a epidemia de cólera no Vale do Paraíba, a coluna vertebral da economia cafeeira. Os laudos produzidos nos laboratórios que Oswaldo Cruz, Francisco Fajardo e Chapot-Prévost mantinham em suas próprias residências e no laboratório público paulista, identificando a presença do bacilo no Vale do Paraíba, municiaram o rigoroso programa de desinfecções, isolamento e quarentenas implementado em cidades, portos e estações ferroviárias do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

Panfleto anônimo que ilustra a guerra entre os partidários de

Sanarelli e de Freire. Foi enviado a Campos da Paz pelo diretor

de Saúde Pública, Nuno de Andrade, que manuscreveu: "Como

verás pelo prospecto acima, fundou-se aqui uma nova empresa,

que conta com a tua aprovação. Mandaram-me este exemplar

pelo correio. Provavelmente foram os interessados. Chamo

para ele a tua atenção. Quem há sido o encarregado de

distribuí-lo? Vou ver se consigo saber para t'o dizer".

Coc/Fiocruz.

Como chefe de um instituto também oficial, Domingos Freire apoiou os adversários do cólera e da intervenção federal. Com o seu laudo, respaldou os clínicos interioranos que diagnosticavam diarréias determinadas por fatores locais, contestando a presença do bacilo de Koch. O principal oponente de Koch na Europa era Max von Pettenkoffer. A teoria do higienista bávaro sobre o papel crucial das condições climáticas e, sobretudo, telúricas na ativação ou inatividade dos germes do cólera e de outras doenças exercia considerável influência não apenas sobre a questão sanitária do Vale do Paraíba como sobre a compreensão da febre amarela, já que permitia explicar o caráter sazonal e a especificidade geográfica da doença. Tanto é assim que o saneamento do solo e a drenagem do subsolo do Rio de Janeiro tinham constituído as medidas mais urgentes dentre aquelas votadas no Segundo Congresso Nacional de Medicina e Cirurgia, em 1889, para suprimir as epidemias que devastavam a capital brasileira. E em 1892, Floriano Peixoto, chefe do governo republicano provisório, tentara contratar Pettenkofer

para que arrancasse a febre amarela do solo do Rio de Janeiro.11

Novas descobertas incriminando bacilos como os agentes da doença e propondo, agora, profiláticos similares ao soro antidiftérico recém-desenvolvido por Bhering e Roux afloraram dois anos depois da crise do cólera. A descoberta mais importante foi feita por Giuseppe Sanarelli, um experiente bacteriologista italiano que trabalhara com Golgi em Pavia, e Metchnikoff, no Instituto Pasteur, antes de ser contratado para implantar a higiene experimental em Montevidéu. Com o auxílio dos jovens bacteriologistas do Rio de Janeiro, pôs-se imediatamente no encalço do germe da febre amarela e, em concorrida conferência na capital uruguaia, em junho de 1897, anunciou a descoberta do bacilo icteróide. Meses depois, iniciou em São Paulo os testes de campo de um soro curativo. Seus lances rápidos obrigaram diversos bacteriologistas brasileiros a destamparem os resultados parciais ou finais alcançados no mesmo

território de pesquisa. 12

A opinião pública do Rio de Janeiro e de outras cidades vitimadas pela febre amarela já assimilara a noção de que ela era causada por um dos micróbios inscritos na agenda do debate científico ou, quem sabe, não descoberto ainda. O relativo consenso fundamentado na teoria miasmática a respeito do que se devia fazer para higienizar portos como o do Rio de Janeiro deu lugar a um impasse e a candentes controvérsias sobre os elos que deviam ser rompidos na cadeia da insalubridade urbana. As escolhas variavam conforme os hábitats e necessidades específicas de cada germe incriminado e o ponto de vista dos vários atores sociais interessados na reforma do espaço urbano.

Em 10 de junho de 1897, Giuseppe Sanarelli anunciou no teatro Sólis, em Montevidéu, a descoberta do bacilo icteróide perante

larga audiência formada por autoridades uruguaias e

bacteriologistas de diversos países sul-americanos. Em

fevereiro de 1898, veio a São Paulo para testar o soro antiamarílico que desenvolvera, tendo o cuidado de registrar na