Febre amarela: a doença e a vacina
A onda amarela varre o continente
Coc/Fiocruz
Enfrentando as dificuldades durante os trabalhos de campo na época da campanha da Fundação Rockefeller, para erradicar o Aedes aegypti e para realizar pesquisas sobre a febre amarela.
Goiás, 1935.
Coleção Família Penna
A onda amarela varre o continente
As Conferências Sanitárias Pan-Americanas constituem boas balizas para aquilatarmos a evolução dessa problemática epidemiológica. Grandes abalos foram registrados no tempo decorrido entre a VIII Conferência, em 1927, e a IX Conferência realizada em Buenos Aires, em 1934. Além da já mencionada resistência da febre amarela rural transmitida por Aedes aegypti (problema que, em 1934, parecia estar na iminência de ser dominado), e da descoberta de que ela se propagava sem a intervenção desse mosquito, havia sido detectado outro inimigo temível, o Anopheles gambiae, que migrara da África para o Brasil, carregando consigo o parasito de uma das formas mais letais da malária. Em 1934, a febre amarela silvestre era encarada como ameaça permanente às cidades, mas não se tinham ainda elementos para dimensionar sua significação epidemiológica. Não se conheciam os índices de morbidade e mortalidade dessa forma da doença, nem tampouco as probabilidades de invasão de distritos densamente povoados, sobretudo quando circundados por zonas de mata relativamente pequenas.
Na época da X Conferência Sanitária Pan-Americana (1938), já se tinham observado surtos "entre 7º 30', de latitude norte, até 27º de latitude sul; desde a vertente oriental dos Andes até a foz do Amazonas; a alturas que vão do nível do mar a 1.500 metros; em regiões silvestres, e em planícies onde no máximo 5% da terra está coberta de mata; em forma de ondas epidêmicas, e em condições que sugerem a endemicidade local permanente" (Soper, 1939a, pp. 8-10). Argentina, Uruguai e Rio Grande do Sul, únicos territórios que apareciam como indenes (Soper 1939b, p. 7), foram engolfados no ano seguinte pela onda de febre amarela silvestre.
A partir de 1934, foram detectados surtos em todos os estados brasileiros e em diversas províncias da Bolívia, Paraguai, Peru e Colômbia.
Na parte brasileira do vale amazônico, não se observaram epidemias, mas todos os anos eram diagnosticados casos em lugares afastados uns dos outros, indicando que a infecção existia permanentemente na região (padrão que persiste até hoje). Na parte peruana da Amazônia, a febre amarela silvestre foi detectada em 1937, isto é, 16 anos depois dos últimos casos de febre amarela urbana diagnosticados naquele país. A doença, observada primeiro no vale do Perené, alastrou-se pelos vales do Huallaga, Ucayali e Chanehamayo entre 1939-42. Em 1941, houve grave surto em La Merced e San Ramon, a apenas um dia de viagem de automóvel para Lima. Na Colômbia, a viscerotomia revelou que a febre amarela silvestre fora e seguia sendo endêmica na foz dos rios Orinoco e Madalena (Soper, 1942, p. 4).
Na Venezuela, os trabalhos de viscerotomia começaram mais tarde, e até 1938 não se obtivera nenhum resultado positivo. Em 1941, houve alguns casos positivos em Carapito e Guasipati. Na Bolívia, um surto de febre amarela silvestre grassou entre tropas baseadas ao sul de Santa Cruz em 1935. No ano seguinte, irrompeu uma grande epidemia nos llanos e serras do país, que poupou apenas apenas o Chaco e zonas limítrofes com a Argentina. A febre amarela silvestre ressurgiu nas florestas que margeavam o rio Beni em 1939 e 1940, alcançou Concepción e Todos los Santos em 1941, disseminouse pelas fraldas das montanhas ao norte e ao sul de Santa Cruz e reapareceu no vale do Beni em 1942 (Soper, 1939a, p.9; 1942, pp. 3-4).
Cartaz do Serviço Nacional de Febre Amarela exibido durante a
XI Conferência Sanitária Pan-Americana, realizada no Rio de Janeiro em 1942, apresentando as conexões das vias aéreas e
sua importância na migração da doença entre os países do
continente americano.
Coc/Fiocruz
Os primeiros estudos realizados nas Guianas Inglesa e Holandesa não indicaram a presença recente de febre amarela, mas depois se verificou que a forma silvestre existia não apenas em ambas as colônias como no Panamá. Aí as pessoas com menos de vinte anos residentes nas zonas urbanas não apresentaram imunidade à doença, confirmando o êxito do trabalho de Gorgas. Mas amostras de sangue colhidas em Darién, na costa do Pacífico, e em San Blas, na costa do Atlântico, revelaram que havia panamenhos imunes com menos de 13 anos de idade, ou seja, infectados após a inauguração do canal do Panamá.
Depois do vale do Canaã, o primeiro surto de febre amarela silvestre no Brasil foi detectado em Coronel Ponce, no Mato Grosso, em 1934. No ano seguinte, uma epidemia mais grave atingiu o sul de Goiás e parte de Minas Gerais e São Paulo. Em 1936, alastrou-se por grande parte do estado de São Paulo e por regiões contíguas de Minas, Paraná e Mato Grosso, grassando em 1937 em São Paulo, sul de Minas, Mato Grosso e norte do Paraguai. Avançando pela costa do Paraná e Santa Catarina, em 1938, a febre amarela silvestre produziu uma epidemia entre os colonos alemães de Blumenau. Naquele ano, foi detectada numa área enorme, que abarcava o estado de São Paulo, as regiões mais prósperas de Minas Gerais e todo o território montanhoso do estado do Rio de Janeiro (Soper, 1938, p. 2).
Ocorreram casos em locais situados a meia hora de automóvel da cidade do Rio de Janeiro, como sucedera com a cidade de São Paulo, no ano anterior. Quatro doentes ainda na fase virêmica, capazes, portanto, de infectar o vetor urbano, deslocaram-se para a capital federal no verão de 1938, mas não houve casos secundários. Foram descobertos acidentalmente. Na opinião de Soper, muitos outros casos infectantes teriam ingressado na capital federal durante os meses em que a febre amarela silvestre grassou no estado do Rio e na Zona da Mata mineira (Soper, 1939b, p. 9).
Relatórios da Fundação Rockefeller ao Ministério da Educação e Saúde Pública nos dão um instantâneo do funcionamento da maquinaria antiamarílica na virada de 1937 (dezembro) para 1938 (janeiro): 1.326 postos de viscerotomia tinham enviado 5.607 amostras de fígado para exame histopatológico no laboratório central em Manguinhos, cujos entomologistas fizeram, também, a identificação de 24.036 mosquitos. Nesses dois meses, a polícia de focos inspecionara 24.411.635 depósitos de água em 4.797.108 prédios situados em 680 localidades, em dezembro de 1937, e 686 localidades no mês seguinte, sendo que quase 400 tinham passado pelo crivo das turmas especiais de captura. Foram vacinadas
naquele período 34. 292 pessoas. 26
À medida que a onda de febre amarela silvestre se aproximava do Rio de Janeiro, intensificavam-se os trabalhos contra o Aedes aegypti. Em março de 1938, antigos funcionários do Serviço de Febre Amarela, despedidos a partir de 1932, foram reconvocados
com urgência pelo Departamento Nacional de Saúde. 27 Notícias davam conta de que o mosquito, encurralado "nos bairros abandonados e nos subúrbios esquecidos", que os cariocas chamavam de "mato grosso", tinham ultimamente ressurgido "aos
milhões", desde o Centro até Ipanema e o Alto da Boa Vista. 28
Quando se diagnosticaram os casos de febre amarela na cidade, o
pânico se alastrou pela população.29 Muitas pessoas acorreram à repartição de Saúde Pública para saber se deviam se vacinar. Apesar de as autoridades se esforçarem para convencer o público de que a nova modalidade de febre amarela não se transmitia pelo stegomya, e sim por hematófagos que só contaminavam pessoas que tivessem contato com as matas, o Serviço de Febre Amarela, com o aval do Ministério da Educação e Saúde Pública, resolveu "generalizar o mais possível a prática da vacinação", tendo em mira "uma imunização radical e segura contra as duas formas de febre
amarela".30
Foi em meio a esse transe que os jornais anunciaram a "descoberta de uma nova vacina contra a febre amarela", não obstante ela já tivesse sido aplicada em 38 mil pessoas no Brasil e duas mil na Colômbia. "A nova vacina é o primeiro preventivo descoberto para ser usado pelo público em geral. Anteriormente, a Fundação Rockefeller já havia produzido uma outra espécie de vacina ... que, entretanto, só era aplicável a certas pessoas" (Correio da Manhã, 23 mar.1938, p. 14). Logo veremos que vacinas eram essas, e os problemas que surgiram com o uso maciço da segunda.
A chamada "epidemia migratória" apareceu em 1939 no Espírito Santo e também no noroeste do Rio Grande do Sul, invadido pelo Paraguai e pela região de Misiones, na Argentina. No ano seguinte, a viscerotomia revelou nova onda epidêmica no sul de Santa Catarina. Os surtos no Espírito Santo, sempre ao sul do rio Doce, foram particularmente violentos, tendo sido invadido outra vez o vale do Canaã, exatamente oito anos após o surto que levara à descoberta da febre amarela silvestre. Verificou-se, então, que as áreas de mata entre Ilhéus, na Bahia e o rio Doce apresentavam endemicidade permanente, com casos ocasionais contínuos que obedeciam a padrão diferente das áreas atingidas pela onda epidêmica recente (Soper, 1942, p. 3).
Gráfico mostrando a distribuição de casos confirmados de
febre amarela urbana, rural e silvestre, com ou sem a presença
do Aedes aegypti, entre os anos de 1932 e 1941.
Coc/Fiocruz
Mapa do município de Coronel Ponce, MT, indicando a região
em estudo. O detalhe da legenda fornece o nível de
detalhamento das informações levantadas por esses
mapeamentos, que cumpriam com generosidade a função de
controle, em cada ambiente focalizado, de sua topografia, ocupação e intervenção humana, vegetação, entre outros
elementos relevantes às pesquisas epidemiológicas. Fevereiro
de 1943.
Foto: Sílvio Cunha
Coc/Fiocruz
Mapa demonstrando a disseminação da febre amarela no Sul
do Brasil e indicando a cronologia das migrações, entre 1932 e
1942.
Foto: A. Fialho
Coc/Fiocruz
Mapa indicando a distribuição da população urbana e rural no
Sudeste do Brasil. Julho de 1943.
Foto: Sílvio Cunha
Coc/Fiocruz
Mapa apresentando a disseminação da febre amarela no Sul do
Brasil por cada ano compreendido entre 1931 e 1940. 22 de
setembro de 1943.
Foto: Sílvio Cunha
Coc/Fiocruz