Febre amarela: a doença e a vacina
Notas
1 Esta comissão foi promovida a International Health Board, em 1916; e a International Health Division, em 1927.
2 Rose, W. R. "Unpublished Memorandum", n. 748, Oct. 27, 1914. Citado por Wilber A. Sawyer (p. 35-6). International Health Division. A History of the Activities of the Rockefeller Foundation in the Investigation and Control of Yellow Fever, pp. 35-50. O autor baseou-se nos Annual Reports da Fundação Rockefeller para elaborar este trabalho apresentado à 32º reunião anual da American Society of Tropical Medicine, em Baltimore, Maryland, em 18-20.11. 1936.
3 De cobras e lagartos. Gorgas, que desejava escrever o último capítulo da história da febre amarela, esteve no Brasil em outubro de 1916 e foi portador de uma resolução do Segundo Congresso Científico Pan-Americano, instando as autoridades brasileiras a agirem contra a doença. Carlos Seidl, então diretor geral da Saúde Pública, bem que tentou, mas a irrupção da gripe espanhola ofuscou momentaneamente o problema.
4 The Rockefeller Foundation, Annual Report for 1916, p. 70. (Sawyer, 37). Cueto, 1991, 2.
5 Idem, Annual Report for 1918, p. 83.
6 Noguchi, H. Jour. Exper. Med., 1919, 29, 565.
7 Testes de proteção com camundongos feitos nos anos 1930 revelaram que não havia imunes entre as crianças de Guayaquil e cidades vizinhas nascidas após a campanha de Connor.
8 Pelo decreto nº 16.300, de 31.12.1923, o presidente Artur Bernardes aprovou o Regulamento do Departamento Nacional de Saúde Pública.
9 A posição de Barbosa foi criticada em editorial do Correio da Manhã, 24 out. 1916.
10 Declaração de W. Rose em Rockefeller Foundation Annual Report, 1921, p. 123-4 (apud Stevens, p. 11).
11 "Febre amarela no Norte do país", Revista de Saúde Pública, abr. 1925, p. 66-8.
12 M. E. Connor to F. F. Russel, 20 jul. 1928. Rockefeller Foundation, IHB, RG 1.1, Series 305, Box 20, File 159. Apud Stevens, pp. 20-1. Ainda assim, no começo de 1928, foi confirmado um caso de febre amarela em Sergipe a partir de necrópsia feita por Rocha Lima. Connor contestou o diagnóstico, pois que a presença de um caso isolado numa região tida como não endêmica contradizia suposições básicas da teoria do foco-chave. Foi obrigado a reconhecer seu erro quando, em maio de 1928, apareceram diversos casos típicos no Rio de Janeiro. M. E. Connor to F. F. Russel, 20 abr.1927, RAC, IHB, RG 1.1, S 305, B 19, F 155.
13 Antonio Luiz de Barros Barreto, diretor do Serviço de Saúde Pública da Bahia e do Programa Federal contra a Febre Amarela em Salvador, informou ao diretor do DNSP, em março de 1927, que estava satisfeito com o progresso da campanha. Clementino Fraga, que já chefiara os serviços de saúde da Bahia, em relatório publicado em 1930, iria defender-se alegando, primeiro, que outras doenças, como a lepra e a tuberculose, exigiam mais atenção do governo federal. Reconhecia que havia subestimado os focos domésticos de proliferação do Aedes aegypti, mas responsabilizava os próprios moradores pela existência desses focos. Os cortes orçamentários teriam privado o DNSP dos recursos necessários para pôr em prática uma campanha anticulicidiana como a que Oswaldo Cruz implementara, e de qualquer modo a opinião pública não aceitaria uma campanha tão cara contra "uma doença que [ainda] não existia". Por último, Fraga alegava que se a Fundação Rockefeller houvesse adotado abordagem mais cautelosa, as autoridades sanitárias federais teriam ficado mais em alerta para o perigo (Stevens, p. 26).
14 A biografia laudatória que escreveu (Fraga, 1930) faria parte desta estratégia de associar sua figura à de Oswaldo Cruz.
15 Connor, "Diary", sept. 26, 1928, p. 169. M. E. Connor to F. F. Russell, july 18, 1929, RAC, IHB, RG 1.1, S 305, B 20, F 161. Apud Stevens, p. 32.
16 Stevens 1994 não encontrou evidências de que os representantes da Rockefeller estivessem empenhados em promover o uso de inseticidas produzidos pela Standard Oil. Ao contrário, foi com relutância que admitiram seu uso, e faziam questão de alertar para o caráter temporário das fumigações.
17 Revista da Semana, "A febre amarela: sugestões da CCEFA", 4 maio 1929, vol. 30, n. 20, p. 23; "Guerra ao mosquito!", 20 jul.1929, vol. 30, n. 30, p. 30.
18 No documento citado por Lowy, sugeria-se o uso do estêncil e da tinta preta à prova d'água, quando os funcionários municipais se recusassem ou tardassem a atender a esta exigência. "O empregado mediano numerará duzentos prédios por dia." (Lowy, 1998-9, p. 660).
19 A descrição deste "extrator de fragmentos de vísceras de cadáveres" depositado na Seção de Patentes e Invenções da Diretoria Geral de Propriedade Industrial do Ministério da Justiça e Negócios Interiores (depósito nº 8.836, de 6.8.1930), foi publicada no Diário Oficial em 8 ago.1930.
20 A julgar pelo depoimento de Fonseca da Cunha, a coleta de sangue não suscitou reações tão fortes. Lowy parece ter encontrado evidências de que os coletores também enfrentaram resistências, ainda que menos violentas, atribuindo-as à "superstição" ou 'atraso das populações locais. Medidas coercitivas, como a prisão de pessoas que lideravam a oposição à coleta de sangue, às vezes se faziam necessárias para garantir a execução do serviço (Lowy, 1998-9, pp. 662-3).
21 As viscerotomias resultaram, também, em grande quantidade de informações sobre a distribuição da malária, esquistossomose, tifo exantemático e peste no Brasil ("Ligeiros dados sobre os 25 anos ...", p. 11). Os excedentes do soro recolhido para testes de proteção foram igualmente usados para estudar a distribuição de imunidade a outras doenças. Soper (1939b, p. 10) relaciona diversos trabalhos publicados em O Hospital: "A soroaglutinação no diagnóstico das bruceloses", fev. 1937; "A reação de Weil e Félix no tifo exantemático", mar. 1937; "O diagnóstico sorológico da tularemia", abr. 1937; "As infecções tíficas e paratíficas no interior do Brasil", jun. 1937. Em Brasil-Medico saiu um trabalho: "Segunda nota sobre a ocorrência de determinadas moléstias infectuosas em algumas localidades do Brasil", maio 1937. Soper só menciona a autoria de dois trabalhos de José Guilherme Lacorte, chefe de laboratório do Instituto Oswaldo Cruz e livre-docente de Microbiologia da Universidade do Rio de Janeiro: "A freqüência das disenterias bacilares no Brasil", O Hospital, jul. 1937; "O bacilo tularense e a tularemia", Ata Médica, nov. 1938.
22 Em outro texto, Soper distingue quatro 'cenários ecológicos' da febre amarela: cidades tropicais, apropriadas à endemicidade permanente; cidades em zonas temperadas, próprias para as epidemias de verão; regiões rurais, aptas à endemicidade da febre amarela transmitida pelo Aedes aegypti; regiões rurais e silvestres, nas zonas tropical e temperada, sujeitas a epidemias de febre amarela silvestre e à endemicidade permanente" (Soper, 1939a, p. 20).
23 Em 1932, Davies conseguiu experimentalmente a transmissão do vírus da febre amarela silvestre pelo Aedes aegypti. Depois se conseguiu transmitir outras raças do vírus silvestre obtidas na Colômbia e no estado de Mato Grosso por meio do vetor urbano (Whitman e Antunes, 1938, pp. 135-47). Ou seja, nada impedia a troca do vírus entre a cidade e a floresta (Soper, 1939a, p.17).
24 Este é um tema importante do debate entre Marzochi, Gadelha, Borges, Duarte, Oliveira e Moura Lima em "Dengue no Brasil", História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. V, nº 1, mar./jun.1998, pp. 173-215. A certa altura, Moura Lima comenta que em 1948, quando o DDT começava a ser utilizado no Brasil, "o dr. Soper visitou o Serviço Nacional de Malária, com o dr. Mario Pinotti. Esteve no nosso departamento de entomologia e declarou: "Este departamento vai ser transformado em algo muito simples. A partir de agora, quando o dr. Pinotti receber um telefonema do Maranhão, por exemplo, dizendo que tem malária, ele pega o telefone, liga para o almoxarifado e diz: 'Manda para o Maranhão tantos quilos de DDT e tantos comprimidos de Aralem, e ponto final!'" (p. 178).
25 Os testes em camundongos eram utilizados tanto para detectar casos assintomáticos, como para comprovar o diagnóstico em casos fatais, quando havia dúvida sobre a existência da febre amarela em determinada região, já que "algumas autoridades de higiene obstinam-se em não considerar o exame histológico do fígado como meio decisivo de diagnóstico, quando se trata de casos isolados" (Soper, 1939a, pp.18-9). Quando não se podia inocular camundongos in loco, era preciso extrair sangue dos doentes durante os três primeiros dias de enfermidade e no décimo dia. Uma prova de proteção negativa com a primeira amostra de sangue e positiva com a segunda demonstravam "indiscutivelmente" que se tratava de febre amarela (Soper, 1939a, p.19).
26 "Continuando no combate à febre amarela", Correio da Manhã, 22 jan.1938, p. 6. "Vigilante a profilaxia da febre amarela", Correio da Manhã, 15 fev. 1938, p. 14
27 "Um convite aos dispensados do Serviço de Febre Amarela", Correio da Manhã, 5 mar.1938, p. 12. Também, "A prevenção antiamarílica", Correio da Manhã, 8 mar.1938, p. 14. Parte destes funcionários seria utilizada no serviço contra a malária no Nordeste, como veremos adiante.
28 "Combate ao mosquito", Correio da Manhã, 9 mar. 1938, p. 4.
29 O medo aumentou quando foi noticiada a ocorrência de casos em Itaipava, lugar tradicionalmente imune à doença. O prefeito de Petrópolis apressou-se a explicar que morrera naquela cidade um doente vindo de Paraíba do Sul. "O estado sanitário de Itaipava", Correio da Manhã, 8 mar. 1938, p. 2.
30 "A prevenção contra a febre amarela", Correio da Manhã, 6 mar. 1938, p. 20. Além dos "postos ambulantes" nas zonas silvestres, o Serviço de Febre Amarela mantinha um posto de vacinação em sua sede, na avenida Pedro II, nº 283. Em todo o país, já se tinham vacinado oitenta mil pessoas.
31 Assunção (Paraguai), 1937; Terebinto (Bolívia), 1936; Buenavista (Caldas, Colômbia), 1937. No Brasil, Teófilo Otoni (Minas Gerais), 1935; Figueira (Minas Gerais), Cambará (Paraná) e Lábrea (Amazonas), 1936; Xapuri (Acre), 1937; Campo Grande (Mato Grosso), 1936.
32 As medidas clássicas continuaram banidas: "Durante este período de oito anos, o Serviço Federal de Febre Amarela não pensou em quarentena, nem em vigilância médica, nem na fumigação de habitações, nem no isolamento dos doentes. Não há provas de que o emprego desses métodos tradicionais tivesse impedido a aparição de quaisquer dos surtos ocorridos" (Soper, 1939a, p.21).
33 Depoimento de Milton Moura Lima em "Dengue no Brasil", História, Ciências, Saúde — Manguinhos, vol. 5, nº 1, mar./jun. 1998, pp. 173-215, pp. 178-9.
34 Sérgio Goes de Paula, Relatório parcial da pesquisa "A campanha do Anopheles gambiae no Brasil", mimeo, p. 7.
35 Deane, Leônidas, "A malária no Brasil", Cadernos de Saúde Pública, RJ, jan./mar. 1985.
36 Sua estrutura permaneceu essencialmente a mesma que a definida no regimento de 1932: compreendia a administração e a as seções de Epidemiologia, Controle Antiestegômico, Viscerotomia e Vacinação, atuantes nas circunscrições e setores em que o país estava dividido.
37 Em 1940, a campanha em todo o Brasil mobilizava cerca de três mil empregados, muito menos do que os dez mil arregimentados por Clementino Fraga durante a epidemia de 1928-9, no Rio de Janeiro, e apenas 75% dos quatro mil envolvidos na campanha antiamarílica que teve lugar nesta cidade em setembro de 1931 (Soper, 1942, pp.6-7).
38 Franco, 1968, p. 140. "Para se ter noção exata da coragem precisa para incorporar este artigo é necessário lembrar apenas que o Brasil é um tanto maior do que os Estados Unidos continental e que pelo menos alguma parte de cada estado já foi infestada pelo aegypti. No entanto, o que teria sido, há uma década, apenas um sonho é hoje uma operação em andamento que pode ser concluída pelo atual Serviço Nacional de Febre Amarela dentro de um certo número de anos" (Soper, 1942, p. 7).
39 "Ligeiros dados sobre os 25 anos de atividade da Fundação Rockefeller no Brasil no período de 1916 a 1941". CPDOC, GC 35.02.15/h, p. 12). Doc. dat. 13 pp. Lê-se aí que "a segurança já alcançada nos métodos de combate ao Stegomyia chegou a tal ponto, que tornou possível referências aos casos de febre amarela silvestre, sem provocar qualquer alarme internacional".
40 O serviço começara a fabricar, em instalações próprias, o inseticida que usava, denominado STEG-DDT, cuja fórmula, além do DDT (30%), incluía larvicida e imagocida: Xilol (66%) e Triton (4%). Era transportado em recipientes de dois litros pelos guardas, que preparavam a emulsão secundária a 2,5% diretamente na bomba aspersora, no momento de aplicá-la. "Resumo das atividades do Serviço Nacional de Febre Amarela durante o ano de 1949". Encaminhado em 11 de julho de 1950 por Waldemar da S. Sá Antunes a Clemente Mariano. CPDOC/FGV.
41 Soper (1942, p. 7) calculava que o Serviço Nacional de Febre Amarela e os serviços boliviano e peruano seriam os primeiros a libertar seus territórios do Aedes aegypti, podendo, depois, usar sua influência para obter dos vizinhos idênticas iniciativas. Os demais países se limitavam a tomar medidas de "relativo valor" para evitar o transporte da febre amarela de áreas infestadas para as indenes, tais como a procura de reações febris em passageiros em trânsito, o estabelecimento de vigilância médica e quarentenas. Nenhum país sul-americano, nem mesmo Bolívia e Peru, estava cumprindo a recomendação feita em 1938 de publicar no Boletim da Oficina Sanitária Pan-Americana relatórios trimestrais dos índices estegômicos de seus principais portos.
42 O decreto de Castelo Branco tratou da vacinação antiamarílica em todo o país, da prática da viscerotomia sempre que necessária e da vigilância do Aedes aegypti. Pairava sobre o Brasil a ameaça da reinfestação trazida do exterior através do tráfego aéreo e marítimo, já que muitos países americanos tinham focos do mosquito (Franco, 1968, p. 151).
43 Segundo Aragão (1929, p. 15): "A clínica, a epidemiologia, a anatomia patológica e o modo de transmissão sempre falaram a favor de uma perfeita identidade entre a febre amarela dos dois continentes ... As recentes verificações da sensibilidade dos rhesus aproximaram mais uma vez as duas moléstias e o seu estreito parentesco ainda se confirmou com as provas de imunidade cruzada". Monteiro (1929, p. 141) atribui a Aragão o mérito de haver demonstrado "a identidade do vírus africano com o americano, responsável pelo último surto epidêmico ocorrido no Rio de Janeiro" .
44 A infecção por esta via fora já indicada por Bauer e Hudson (1928 pp. 371 8). Costa Lima verificou que as fezes eram infectantes cinco dias após o repasto do mosquito no macaco infectado. Verificou também que "inoculando um rhesus com pernas de mosquitos infectados era possível contaminá-lo com febre amarela, contrariando assim o resultado negativo de uma experiência de Hindle" (Aragão, 1929, p. 11). Tais observações tornavam pertinentes algumas das objeções levantadas pelos "não convencidos" da exclusividade da teoria de Finlay, defendida por Oswaldo Cruz no Congresso de Medicina e Cirurgia de 1903.
45 Soper, Frobisher Jr., Kerr e Davis (1932, pp. 341-77). Em 14, 21 e 27 de novembro, recebeu 50 a 60 cc de soro imune e, em seguida, foi exposto a picadas de mosquitos infectados com vírus altamente virulento passado várias vezes em cérebro de camundongo. A experiência é descrita, resumidamente, em Soper (1937, p. 381).
46 "Alguns casos apareceram em pessoas com cinco dias após a vacinação e daí em diante até dois meses de vacinadas, só um caso em pessoa com seis meses após a inoculação. Em alguns focos porém se observou proteção absoluta dos vacinados ao passo que pessoas não vacinadas, que com eles habitavam, adquiriram a moléstia como sucedeu no foco de febre de Nilópolis, observado pelo dr. Decio Parreiras, e no da Ilha do Governador segundo verificou o dr. Phocion Serpa ... Também nos rhesus se observa às vezes (Hindle e Aragão) que a dose de vacina que protege seguramente uma série de animais falha num ou noutro" (Aragão, 1929, p. 19).
47 Segundo Bica (1988, p.155), as tentativas de Aragão, Hindle e outros falharam, porque não foi encontrado método físico ou químico capaz de eliminar a patogenicidade do vírus e ao mesmo tempo reter sua antigenicidade.
48 Essa "estirpe neurotrópica francesa", embora apresentasse maior neurotropismo, foi considerada adequada à vacinação humana, entre a 105ª e a 176ª passagem, devido à acentuada diminuição de sua afinidade viscerotrópica (Bica, 1988, p.157). Segundo Lowy (2000, p. 2), o soro imune impedia que o vírus se fixasse nos tecidos. Bica diz que sua função era impedir a circulação do vírus no sangue periférico, o que se verificava diariamente, inoculando-se o soro das pessoas vacinadas no cérebro de camundongos.
49 Hughes e Lloyd, resultados não publicados, citados em Soper e Smith (1938, pp.111-34); Whitman (ago. 1935, pp. 99-110). A esse respeito ver também Lloyd (1935, pp. 2365-8), Pettit e Stefanopoulo (1933, pp. 67-76); Stefanopoulo (1936, pp. 359-60); Findlay (1935, pp.78-96).
50 No artigo publicado no Brasil-Medico em julho de 1929 (p. 849), Aragão registrava um fato paradoxal observado por ele e outros investigadores: as infecções benignas no homem eram mais propícias do que as graves para fornecer vírus capaz de matar o Macacus rhesus quando inoculado nele. "Há casos em que a infecção do rhesus é conseguida com sangue de doentes que os clínicos não se julgaram autorizados a diagnosticar como sendo de febre amarela ... Aliás, o vírus isolado na África provém de um caso extremamente benigno".
51 Segundo Lowy (2000, pp. 19-20), sua morte reduziu o ímpeto das pesquisas sobre vacinação com soros hiperimunes de origem animal.
52 "A injeção intraperitoneal deste vírus no macaco rhesus não lhe produz a doença; mais ainda, a inoculação intracerebral produz encefalite não mortal neste animal, tão sensível à febre amarela. Os macacos inoculados com o vírus 17D, quando reinoculados com o virus Asibi demonstram uma completa imunidade para a febre amarela. O mesmo vírus 17D conserva o poder de produzir encefalite fatal em camundongos brancos, mas o período de incubação é aqui quase duplo do observado com o vírus neurotrópico usado correntemente na prova de proteção" (Soper 1939, p. 13; 1937, p. 386). Bica (1988, pp. 161-2) explica que o vírus 17D perdera a capacidade de produzir encefalite fatal entre 89ª e 114ª subculturas. Não se sabe explicar por que ocorreu esta modificação relativamente rápida. Tentativas posteriores de repetir o percurso que levara ao 17D falharam. É uma cepa única e irrepetível.
53 Lowy baseia-se no "Diário de Sawyer" para 1936, 02 nov. 1936. RAC, RG 1.2, Diários, caixa 55.
54 "Esta foi a primeira tentativa feita no sentido de proteger uma população exposta à febre amarela mediante a vacinação" (Bica, 1988, p.160). Segundo Lowy (2000, pp. 4 e 21), já em 1935, Soper teria proposto que, em caso de epidemia de febre amarela silvestre, a fundação organizasse uma campanha de vacinação com o 17E e soro de cabra. Lloyd se teria oposto. A autora baseia-se em "Diário de Soper", 1935, 14 out.1935. RAC, RG 1.1, Série 305, caixa 29, dossiê 210.
55 Lowy (2000, pp. 5-6). As provas de proteção feitas em 344 pessoas desse grupo mostraram que somente cinco continuavam não imunes (Soper, 1937, p. 385; 1938, p. 3). Smith, Penna e Paoliello (set. 1938, pp.437-68) verificaram que o 17D produzia anticorpos demonstráveis em mais de 95% dos casos. Ver também Soper e Smith (1937, pp. 379-90).
56 "Futuras pesquisas permitirão, possivelmente, a conquista de um ou vários vírus ainda mais satisfatórios que o 17D; no entanto, parece que esse garantirá a imunização das populações rurais das regiões infectadas com a febre amarela silvestre, contra a qual não se dispõe, no momento, de outro meio de proteção ... não quero deixar de frisar que o presente método de vacinação deve ser considerado em fase de observação e experiência e, assim, não pode seu uso ser, por enquanto, generalizado sem o controle a que vem ainda sendo submetido" (Soper, nov. 1937, pp. 388-9).
57 Costa Lima, A., "Considerações sobre a propagação da febre amarela e a vacinação contra esta doença", Rev. Med. Cir. do Brasil, 46: 371-82, mar. 1938.
58 Lowy (2000, p. 6), baseando-se no "Diário de Soper" para 1937, 19 out. 1937. RAC, RG 1.1, Série 305, caixa 30, dossiê 213. Segundo Bica (1988, p.163), entre fevereiro de 1937 e janeiro de 1938, foram vacinadas 59.532 pessoas. Raymond B. Fosdick (Rockefeller Foundation, A review for 1937, p. 21) diz que em fins de 1937 foram vacinadas 38.000 pessoas no Brasil e no Paraguai.
59 "Assim como o chefe de setor é responsável por todo o trabalho das divisões ou unidades perante o seu superior, o médico encarregado da divisão ou da unidade o é perante o chefe de setor. As irregularidades, quaisquer que sejam, mesmo cometidas pelos técnicos vacinadores, auxiliares ou motoristas são indiretamente imputáveis ao médico encarregado da unidade ou divisão" (p. iii-b-10).
60 O SFA fornecia também certificado de imunidade aos doadores de soro que possuíssem anticorpos contra a febre amarela, confirmados pela prova de proteção.
61 A ação destes fatores é cumulativa, explica Fonseca da Cunha (entrevista, fita 02). "Se você... tem uma ampola de vacina, de sarampo ou de febre amarela, tira da geladeira, põe em cima da mesa; terminou o trabalho, você não utilizou aquela ampola, põe de volta na geladeira; no dia seguinte, tira aquela ampola... Esse jogo de temperatura ambiente e geladeira interfere na qualidade da vacina ... vai havendo uma mortalidade, ... uma pressão geométrica. Então, a vacina que agora seria muito boa, amanhã ou daqui a dois, três dias pode não prestar ... Recomenda-se: a vacina saiu da geladeira, ou usa ou joga fora".
62 As unidades de vacinação preenchiam uma série de formulários, que ascendiam na hierarquia do serviço até o arquivo central, que os guardava por período não superior a dois anos, sendo processados pela equipe encarregada de produzir as estatísticas de vacinação. Os modelos descritos no "Manual de Instruções Técnicas e Administrativas do Serviço Nacional de Febre Amarela" eram: ficha para vacinação, referente à pessoa que se vacinava; resumo semanal de vacinação, enviado a cada segunda-feira pela unidade à sede do setor ou da circunscrição; ficha de município, para uso do médico da unidade, contendo informações que dessem um perfil do município onde seria realizada a vacinação. Terminada a operação, as informações manuscritas eram enviadas à sede do setor, que acrescentava outras informações de interesse, antes de remetê-las à circunscrição, que as completava com dados do Serviço Antiestegômico, encaminhando cópias do conjunto das fichas ao Escritório Central. Havia ainda o Relatório Semanal de Vacinação, produzido pelo escritório do setor ou da circunscrição, com cópia remetida ao Escritório Central; Quadro Acumulativo das Vacinações, confeccionado semanalmente para cada município; Relação Semanal de Vacinação, resumindo as atividades de todas as unidades de uma circunscrição.
63 Smith, Penna e Paolielo (1938, pp. 437-68). Segundo Soper (1939a, p. 15), as observações epidemiológicas indicavam que os vacinados obtinham imunidade antes de sete dias. "Em várias ocasiões em que se aplicou a vacina em grupos de população de áreas infectadas, com ocorrência ainda de casos, estes continuaram a aparecer durante três ou quatro dias, mas desapareceram no fim de uma semana".
64 A maioria das pessoas não experimentava reação alguma depois de receber a vacina. De 5 a 10% queixavam-se, espontaneamente, de indisposição que lembrava um ataque benigno de gripe: cefalalgia, febre e fraqueza geral. De 20 a 30% admitiam, quando interrogados, que tinham tido sintomas semelhantes. Apareciam, em geral, do quinto ao oitavo dia depois da vacinação, e não eram suficientemente graves para prejudicar a aceitação da vacina. Somente em 1 ou 2% dos casos a reação era intensa o bastante para desorganizar a vida normal dos indivíduos (Soper, 1939a, p. 16).
65 Soper (1942, pp.8-9). Segundo Lowy (2000, p. 7), foram identificados 1.072 casos de icterícia com 24 mortes.
66 Em junho de 1951, seria detectado um surto de icterícia em Uberaba, Minas Gerais. Madureira Pará, o patologista do Laboratório de Febre Amarela, foi à região e verificou que se tratava de hepatite infecciosa transmitida por contágio direto ou, até mesmo, pelo uso de seringas contaminadas. Ocorreram 88 casos, sendo 28 fatais. "Relatório anual de atividades do laboratório de histopatologia", ano 1951, por dr. Madureira Pará ( volume LAFA05).
67 De acordo com "Ligeiros dados sobre os 25 anos de atividade da Fundação Rockefeller...", o total de vacinados no Brasil até novembro de 1941ascendia a 2.084.668 pessoas, em sua quase totalidade de origem rural.
68 Segundo Lowy (2000, p. 1), a história da contaminação da vacina da febre amarela pelo vírus da hepatite, o "primeiro escândalo do sangue contaminado", pode "esclarecer os estilos de trabalho diferentes em saúde pública, mostrar as interações entre a elaboração das técnicas de laboratório e decisões políticas, e ilustrar os mecanismos que conduzem a um desastre sanitário". De acordo com a autora, alguns destes mecanismos estão na origem do segundo escândalo do sangue contaminado, aquele mais recente da contaminação do sangue e de derivados sangüíneos pelo HIV.
69 Segundo Lowy (2000, p. 6), Sawyer julgava que os problemas encontrados também pelos ingleses eram conseqüência da contaminação das cepas virais 17E e 17EC durante sua transferência para o laboratório na Inglaterra.
70 Em 1942, todos os soldados foram vacinados não só contra a febre amarela mas também contra a febre tifóide, a varíola e o tétano, ficando sujeitos a corte marcial aqueles que recusassem a vacinação.
71 Em 9 de abril, o ainda relutante Sawyer anotou em seu diário que o pessoal do laboratório de Nova York julgava que se devia interromper a produção de vacina com soro humano, opinião compartilhada pelo dr. Maxcy, da Universidade de Johns Hopkins. Nomeado pelo surgeon general dos Estados Unidos para investigar o assunto, este propôs a suspensão do uso da vacina em 13 de abril (Lowy, 2000, p. 12).
72 Segundo Lowy (p. 16), a maioria dos sanitaristas norte-americanos não foi convencida pelos argumentos de Sawyer. Antigos colegas atribuíram o erro à sua personalidade rígida, à dificuldade de dividir o poder e de mudar um curso de ação já tomado. Seu erro foi explicado também por diferenças de estilo entre homens de "laboratório" e de "campo", ou entre a lógica de investigação científica e da ação em saúde pública. Para Lewis Hackett, Sawyer comportou-se como cientista: uma cadeia causal só podia ser aceita no momento em que fosse provada. Soper agiu como sanitarista: se a etiologia de um acontecimento que tem implicações sérias para a saúde coletiva não estiver clara, é preciso seguir todas as pistas e eliminar toda entidade suspeita até o momento em que se possa provar sua inocuidade.
73 "Resumo de atividades do laboratório de preparo de vacina antiamarílica do SNFA, durante o ano de 1947" in Volume LAFA 05.
74 Os anteriores tinham ocorrido em Paris (1930), Londres (1936), Nova York (1939) e Copenhague (1947). O V Congresso foi presidido pelo sucessor de Aragão, Olympio da Fonseca Filho, quando à frente do ministério se achavam os efêmeros sucessores de Mariani, dr. Eduardo Rios e, em seguida, Pedro Calmon. Fonseca Filho (1974, p. 150) qualifica a renúncia de Aragão de "mau precedente, concorrendo para a instabilidade de seus titulares no posto máximo de direção do instituto, posto do qual só por morte se tinham afastado seus antecessores".
75 "Relatório anual, Seção de Febre Amarela, 1952, Instituto Oswaldo Cruz" in Volume LAFA05.
76 "A staining method for the microscopical differentiation of 'Councilman bodies' produced by yellow fever and carbon tetrachloride poisoning"; e "Human and experimental histopathology of the keloid form of Lutz disease (Lobo's syndrome, Glenosporellosi)". Nas Memórias, tomo 48, publicou "Dados estatísticos de viscerotomia sobre doenças e condições mórbidas do homem no Brasil – 2: Malária no período de 1937-1946".
77 "Relatório anual das atividades do Posto do Instituto Oswaldo Cruz em Juiz de Fora durante 1953" pelo dr. Hugo W. Laemmert. Ibidem.
78 Ibidem.
79 "Relatório de atividades da Seção de Febre Amarela do Instituto Oswaldo Cruz, Divisão de Vírus, 1950". "Relatório anual da Seção de Febre Amarela do Instituto Oswaldo Cruz, 1951" in Volume LAFA05.
80 "Relatório anual de atividades do laboratório de Histopatologia , ano 1951, por dr. Madureira Pará"in Volume LAFA05. Em 1949, o serviço de viscerotomia, além de cuidar da rotina da febre amarela, começara a coletar amostras de vísceras que interessavam ao Serviço Nacional de Lepra e ao estudo da doença de Chagas. Os viscerotomistas passaram a atuar nos principais leprosários, puncionando fígado, baço, pulmão, rim e coração. "Resumo das atividades do Serviço Nacional de Febre Amarela durante o ano de 1949". Encaminhado em 11 de julho de 1950 por Waldemar da S. Sá Antunes a Clemente Mariani. CPDOC/FGV, Cmapi/MES SO.05/0700. Texto datilografado.
81 Livro de "Assentamento individual extranumerário do Serviço Nacional de Febre Amarela, 30 de setembro de 1947". Acervo LAFA. Pasta "Proposta de readaptação de médico para biologista. Processo n.º 1.132/64 E/M de 08 de abril de 1964 sob n.º ordem 15 080/64, de Henrique de Azevedo Penna", Acervo LAFA.
82 Em ofício a Cássio Miranda, chefe da Divisão de Vírus, em 3.7.1957, Penna informava que a criação de Aedes aegypti havia sido extinta em 1955, por acarretar riscos à saúde pública, ameaçando, inclusive, a provável erradicação do mosquito no país. Ofício no 38/57. Pasta: Correspondência Interna 1954-1957 – VII.
83 Aragão, Henrique de Beaurepaire Rohan. "Relatório dos trabalhos realizados durante o exercício de 1944" encaminhado ao dr. João de Barros Barreto, diretor geral do Departamento Nacional de Saúde do Ministério da Educação e Saúde. mimeo. Arquivo da COC.
84 "Relatório de atividades da Seção de Vacina durante o período de 1º de janeiro a 30 de junho de 1944" in Volume I (1943-1954). Em julho de 1944, estavam quase terminadas as obras destinadas a isolar o mais possível a Seção de Vacina do resto do prédio. "Relatório de atividades da Seção de Vacina, durante o período de janeiro a dezembro de 1944", in Volume LAFA 05.
85 Memorando nº 1/53 do dr. M. Pará ao dr. Cássio Miranda (diretor em exercício do IOC), em 10 de novembro de 1953. Pasta: Correspondência enviada: 1952-1953 – IV.
86 Ofício do dr. H. Penna ao dr. Cássio Miranda, em 28.5.1956. Ofício nº 45/56. Pasta: Correspondência Interna 1954-1957 – VII. Ofício do dr. H. A. Penna ao dr. Amílcar V. Martins, em 21 de maio de 1959. S.F.A. Ofício nº. 45/59. Pasta: Correspondência anos 50 AV.2.