Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 22 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

A febre amarela regressa ao Rio de Janeiro

Segundo Stevens, tanto os sanitaristas norte-americanos como os brasileiros estavam muito preocupados com a movimentação maciça de imigrantes do interior para o litoral. Temiam que Salvador, com população de 350.000 habitantes e um fluxo anual de mais de cinqüenta mil retirantes, viesse a se tornar um centro endêmico capaz de infectar outras cidades brasileiras (Stevens, 1994, p. 24). Por outro lado, ninguém tinha consciência do perigo iminente que pairava sobre a capital federal. Supondo que a Rockefeller tivesse a situação sob controle, Carlos Chagas e seu sucessor, Clementino Fraga, haviam reduzido as ações contra o Aedes aegypti no Rio de

Janeiro, interrompendo-as por completo em janeiro de 1928. 13

Às vésperas da epidemia no Rio de Janeiro, Connor informou a Russel que a campanha estava numa encruzilhada. Julgava essencial coordenar as ações implementadas no Norte e no Sul do país, e expandir a escala de operações da Rockefeller de modo a englobar todas as comunidades com 2.500 habitantes ou mais, no território compreendido entre a capital federal e o vale do Amazonas. Já admitia que o ataque ao Aedes aegypti nas grandes cidades não era suficiente para erradicar a febre amarela no Brasil (ibidem, pp. 26-7).

Além de precisar convencer seus pares de que a teoria dos focos-chave fazia água, teria de enfrentar uma tradição médica solidamente estabelecida, para a qual a febre amarela constituía um de seus mais caros e bem-sucedidos domínios. A intromissão de estrangeiros nesse domínio, na cabeça urbana do país, era encarada como um atentado não apenas à soberania da nação mas aos lauréis mais resplandecentes da ciência brasileira.

 

A febre amarela regressa ao Rio de Janeiro

Em 23 de maio de 1928, foi diagnosticada a febre amarela num soldado recém-chegado do Norte. Já circulavam rumores sobre a presença da febre amarela na cidade. Os casos isolados evoluíram para uma epidemia de grandes proporções, que durou dois anos, e atingiu não apenas o Distrito Federal como outras 43 localidades do estado do Rio de Janeiro: segundo Lintz e Parreiras (1930, pp. 25-8), houve 738 casos no Distrito Federal e 374 no estado do Rio, com coeficientes de letalidade de 59,0% e 47,3 %, respectivamente. A desmoralização da imagem do Brasil no exterior e a traição ao legado de Oswaldo Cruz tornaram-se temas dominantes na imprensa e no Congresso, e aí se martelava a idéia de que o sucesso ou fracasso das medidas a serem tomadas dependeria da maior ou menor fidelidade aos padrões estabelecidos por Oswaldo Cruz.

As forças da oposição atacavam o governo de Washington Luiz e, especialmente, seu diretor de saúde pública, Clementino Fraga, comparando sua competência com a do "saneador do Rio de Janeiro". Um dos mais destacados líderes da oposição era João Batista Luzardo, médico gaúcho que havia organizado a campanha contra a peste bubônica em Uruguaiana no final da década de 1910, participara da revolução de 1923 e mantivera depois contatos com Prestes (FGV, 1984, p. 47).

Discretamente, Connor pressionava Fraga para que transferisse à Rockefeller o controle das operações no Rio de Janeiro, preparando-se já para esta contingência que julgava inevitável. O plano começou a fazer água quando a imprensa passou a direcionar suas críticas à própria Rockefeller (Stevens, 1994 p. 29). Os debates no Congresso e a ira dos nacionalistas exacerbam-se em julho de 1928, quando a Argentina e outros países decidiram restringir as relações comerciais com o Brasil até que a epidemia estivesse sob controle. Apesar de manter sob pressão crescente o diretor do Departamento Nacional de Saúde Pública, a oposição não admitia a intervenção da Rockefeller na capital. As circunstâncias não deixavam a Clementino Fraga outra saída senão tentar repetir o

feito de Oswaldo Cruz, no plano das ações e da retórica.14 Ao negociar novo contrato com a agência norte-americana, propôs a redução de sua autoridade: os sanitaristas brasileiros teriam autoridade igual à dos norte-americanos no programa contra a febre amarela e as fumigações feitas no Rio de Janeiro seriam levadas a outros estados. Segundo Connor, "a psicologia do funcionário brasileiro mediano no DNSP é tal que ele se sente superior a todo mundo no que concerne à febre amarela". Em sua opinião, Fraga acreditava cada vez menos nas fumigações, mas se rendia "ao

clamor dos cultores dos métodos de Oswaldo Cruz". 15

Reportagem publicada em plena crise epidêmica pela qual

passava a cidade do Rio de Janeiro. Com forte teor pedagógico,

sugere formas de prevenção contra a reprodução do mosquito

e aponta para a importância do papel reservado aos meios de

comunicação da época — principalmente o rádio — no combate

à febre amarela.

Revista da Semana, 22.O6.1929

 

Concentração de mata-mosquitos arregimentados por

Clementino Fraga, então diretor de Saúde Pública, no campo de

São Cristóvão, em homenagem ao patrono Oswaldo Cruz. Rio

de Janeiro, 5 de agosto de 1930.

Academia Nacional de Medicina

Propaganda do Flit, mais um dispositivo no combate ao

mosquito Aedes aegypti, o transmissor da febre amarela nas

cidades. Publicada durante a grande epidemia que assolou a

cidade do Rio de Janeiro.

Revista da Semana 15.09.1928

Pelo novo acordo assinado em setembro de 1928, a Rockefeller admitia as fumigações como queria o DNSP, mas Fraga abdicava do inseticida sulfuroso usado por Oswaldo Cruz, optando por uma mistura de querosene, tetraclorido de carbono e píretro, a ser aplicada por meio de bombas de pulverização da DuPont. Um dos principais produtores dos petroquímicos utilizados nesta mistura era a Standard Oil, a mantenedora da Fundação Rockefeller, que fabricava também o Flit, um inseticida amplamente divulgado nos jornais e revistas da época, que haveria de se tornar um produto

muito popular no Brasil. 16

O regresso da febre amarela ao Rio de Janeiro, em 1928-29 foi encarado como um dos sinais da incompetência das oligarquias para gerir os destinos da nação. No começo do século, Oswaldo Cruz contara com condições políticas e jurídicas favoráveis à implementação de um modelo profilático draconiano. Não obstante procurasse persuadir os clínicos e a população do acerto de suas idéias, as campanhas contra a febre amarela, varíola e bubônica foram executadas à força, com os instrumentos de coação que o regime lhe proporcionara. Os conflitos suscitados pelo saneamento da capital federal foram estigmatizados como manifestações de atraso colonial e incultura científica. Na epidemia de 1928-29, Clementino Fraga chegou a mobilizar dez mil homens, reativando parte daqueles dispositivos de origem militar que formavam o travejamento das campanhas sanitárias, mas sem dispor mais das condições políticas e ideológicas que tinham favorecido seu uso. As notícias publicadas na imprensa mostram que, pela primeira vez, as grandes empresas, as associações de classe e outros componentes da sociedade civil colaboraram ativamente no esforço de mobilizar a população contra os alvos que a saúde pública desejava atingir.

A Cruzada de Cooperação na Extinção da Febre Amarela, organizada pelo diretor do DNSP, contou com a colaboração de número substancial de representantes da imprensa, da indústria e da alta sociedade. Entre seus líderes figuravam Oscar Weinshenk, Jeronymo Mesquita e Roberto Shalders (ibidem, p. 36). Publicações como a Revista da Semana e o semanário Fon-Fon davam ampla cobertura ao combate à febre amarela. Para envolver a população iletrada, a Fox Filmes e a Light co-produziram um filme demonstrando as medidas antilarvárias que os moradores deviam adotar. Exibido ao ar livre nos bairros e subúrbios do Rio de Janeiro, teria sido assistido por cerca de cinqüenta mil pessoas, na

estimativa dos organizadores da cruzada. 17

A capital da República tinha se modificado. Oswaldo Cruz combatera a febre amarela, principalmente no Centro de uma cidade que abrigava, então, cerca de oitocentos mil habitantes. Em 1928-29, o Rio de Janeiro, remaquilado pelos sucessores de Pereira Passos, possuía mais de um milhão e meio de habitantes, grande parte dos quais nos subúrbios, que constituíram o teatro dos principais entreveros com a febre amarela. Entre as duas conjunturas, as relações entre urbano e rural, centro e periferia sofreram disjunções fundamentais que afetavam toda a problemática da saúde pública no país.

Reportagem documentando a atuação do Serviço de Expurgo

em vários estabelecimentos residenciais, comerciais e

industriais da cidade do Rio de Janeiro. A gravidade da

epidemia de febre amarela de 1928-1929 fez mobilizar

população e autoridades da cidade do Rio de Janeiro em torno

do combate à doença, como se vê na foto superior direita, na

visita do presidente da República, Washington Luiz (o segundo da direita para a esquerda), e o dr. Clementino Fraga, diretor do

Departamento Nacional de Saúde Pública (o quarto da direita

para a esquerda), ao quartel da Polícia Militar, instituição

mobilizada para auxiliar os trabalhos de expurgo.

Revista O Cruzeiro em 23.03.1929

Os anos 1928 a 1932 demarcam um período de transformações cruciais na história da febre amarela, determinadas por uma complexa conjunção de fatores de natureza social e política, técnica, científica e epidemiológica.

A crise sanitária no Rio de Janeiro pôs a pique o 'paradigma' que norteara a campanha contra a febre amarela, determinando profunda reorientação de suas táticas e estratégia. Também reforçou a crise política da República Velha, e o desfecho desta, a Revolução de 1930, alteraria substancialmente as bases institucionais em que se desenvolveria a campanha. Concomitantemente, a infecção do macaco rhesus na África Ocidental, em 1928, derrubava os modelos animais e as teorias etiológicas vigentes, deflagrando um surto de pesquisas originais e o desenvolvimento de novas técnicas aplicáveis ao trabalho de laboratório e aos trabalhos de campo. O novo horizonte de pesquisas, as vacinas, as novas ferramentas para o diagnóstico, tornar-se-iam parte do novo modelo de combate à febre amarela, sobretudo após o reconhecimento de que existia uma forma silvestre da doença. Ela derrubaria definitivamente as crenças sustentadas não apenas pelos quadros da Rockefeller como pelos herdeiros de Oswaldo Cruz.

Um número crescente de elementos serão incorporados ao imbróglio de que tratamos. O que havia começado com uns poucos centros-chave litorâneos, um único vetor, uma correlação límpida de litigantes, passa a incorporar numerosas cidades interioranas, mais vetores, novos cenários ecológicos, um número ainda indeterminado de potenciais hospedeiros. Tudo isso reforçaria a necessidade de crescente centralização e o adensamento da rede que teria de capturar e manter sob controle tantos elementos imprevistos ou ainda imprevisíveis...