Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 27 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

O desaparecimento da febre amarela urbana

Mapa do sul do Espírito Santo mostrando o progresso das

epidemias de febre amarela nos anos de 1938 e 1940.

Foto: Sílvio Cunha

Coc/Fiocruz

 

O desaparecimento da febre amarela urbana

Em 1934, na época da IX Conferência Sanitária Pan-Americana, a febre amarela rural endêmica, transmitida pelo Aedes aegypti, era um problema ainda importante. No tempo decorrido até a conferência seguinte (1938), a viscerotomia não revelou nenhum caso novo na região. A partir de 1933, não houve no continente americano nenhuma epidemia urbana de febre amarela originada por outra e devida ao Aedes aegypti. Os surtos urbanos aconteceram em regiões de comprovada endemicidade silvestre, devendo-se à transferência do vírus da mata para a cidade. "Não fora a fonte permanente do vírus amarílico na mata, e provavelmente ter-se-ia realizado aquele velho e nobre sonho da completa extinção da doença no continente americano", afirmava Soper (1939, p. 7) na X Conferência Sanitária Pan-Americana.

Apesar das grandes extensões percorridas pela febre amarela silvestre na América do Sul, permaneciam limitados os casos ou

surtos da forma urbana dela derivada. 31 Soper atribuía tal defasagem à eficácia da campanha contra o Aedes aegypti, mantida em bases mais econômicas, e de forma contínua, em diversas partes do continente (Soper, 1939a, pp. 7-8).

Nos últimos anos, tinham se expandido consideravelmente os serviços antilarvários na América do Sul. No Brasil, o Serviço de Febre Amarela atuava em todos os estados; serviços cooperativos similares começaram a atuar na Bolívia, a partir de junho de 1932; e no Paraguai, de maio de 1937 em diante (ibidem, pp. 10-1). Os serviços sanitários do Peru, Paraguai, Colômbia, Cuba e Venezuela enviaram técnicos ao Brasil para estudar os métodos de combate ao Aedes aegypti, que Soper modificara depois de assumir a direção da campanha em 1930, obtendo resultados que depois qualificaria de "surpreendentes".

A meta original do Serviço de Febre Amarela — reduzir o índice domiciliário de Aedes aegypti a 5%, ou menos, para neutralizar a transmissão da doença — mudou em 1933, quando se verificou que era possível eliminar completamente o mosquito nas áreas trabalhadas. A meta passou, então, a ser índice larvário zero, isto é, a erradicação do Aedes aegypti no Brasil e, logo, em toda a América Latina. Em 1938, no X Congresso Pan-Americano, parecia já ter sido eliminado nas cidades brasileiras mais importantes, inclusive as portuárias, com "grandes economias no serviço". A 'petrolização' de todos os recipientes em que houvesse larvas de mosquito, considerada mais barata e eficaz, e tornada compulsória pelo decreto 21.434, de 23.5.1932, suplantou outros métodos, inclusive o uso de peixes larvófagos, que foi drasticamente reduzido.

Soper parece ter cedido à crítica dos médicos e à compreensível aversão das populações urbanas àquela forma de poluição das águas potáveis, considerada inclusive por muitos clínicos como

potencial transmissora de outras doenças.32 Os trabalhos antilarvários continuavam a ser informados por inquéritos imunológicos feitos com o auxílio do teste de proteção em camundongos e pela prática generalizada da viscerotomia. A experiência adquirida no combate ao Anopheles gambiae redundou numa inovação para a campanha contra o Aedes aegypti. Turmas de captura de adultos iam, agora, aos sítios que o serviço antilarvário declarava 'limpos' e, com o auxílio de tubos especiais, capturava e identificava mosquitos na forma alada. Turmas de focos ocultos, especializadas em descobrir lugares incomuns de reprodução do mosquito, eliminavam os Aedes aegypti remanescentes nas casas, suprimindo, assim, criadouros que pudessem pôr a perder o trabalho antilarvário.