Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 57 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

A erradicação da varíola e a influência da antiamarílica

Tal problemática tornou-se a alavanca de sua recuperação, quando circunstâncias emergenciais vieram reforçar o reconhecimento da vulnerabilidade em que se achava o país, por haver perdido quase completamente a autonomia na área dos imunobiológicos.

 

A erradicação da varíola e a influência da

antiamarílica

Nos anos 1970, houve notáveis avanços tecnológicos na produção de vacinas, registrando-se disseminação jamais vista de seu uso. Datam deste período a criação, em 1974, do Programa Ampliado de Imunizações (PAI), por iniciativa da Organização Mundial de Saúde, e de programas nacionais de imunização, a começar pelo brasileiro, em 1973. A implementação, em 1977, do Fundo Rotatório da Organização Pan-Americana de Saúde revolucionou o mercado de vacinas. A campanha contra a varíola chegou ao fim, alcançando-se, pela primeira vez, a erradicação de uma doença no mundo inteiro. Aquilo que os norte-americanos tentaram fazer com a febre amarela, pelo extermínio do inseto que julgaram ser o único vetor da doença, foi conseguido na varíola, pela difusão de um produto biológico que anulou as condições de sobrevivência do vírus no hospedeiro humano.

A proposta de erradicação da varíola foi apresentada pela primeira vez em 1950, por Fred L. Soper, num encontro da Organização Mundial de Saúde. Um programa de vacinações massivas chegou a ser implementado e levou à extinção da doença na América Central e nas Caraíbas, em 1958. Mas a idéia de dar dimensão mundial à campanha esbarrou no ceticismo de diversos grupos que especulavam se outros vírus desconhecidos, e talvez ainda mais perigosos, não poderiam ocupar o nicho de onde se expulsaria o variólico. O fracasso da tentativa de erradicação da febre amarela contribuiu para desacreditar a idéia de que fosse possível vacinar e revacinar mais de 80% da população mundial.

A campanha bem-sucedida levada a efeito na Costa do Marfim, entre 1961 e 1963, fortaleceu os defensores da campanha mundial, que acabou sendo aprovada pela Organização Mundial de Saúde em 1965 (Darmon, 1986, pp. 410-1). Lançada, oficialmente, em 1967, terminou dez anos depois, em outubro de 1977, com a cura do último varioloso identificado, o somali Ali Maow Maali. Sessenta e quatro laboratórios, entre os quais Manguinhos, foram credenciados para fabricar os duzentos milhões de doses anuais necessárias para o trabalho planetário. Com ele, encerrou-se uma história quase milenar que remonta às práticas ancestrais de inoculação do pus variólico adotado pelas populações camponesas do Oriente, muito antes de se ter a noção da existência de micróbios.

A campanha, antes mesmo de ser oficializada, veio recebendo adesões de diversos governos. O do Brasil assinou convênio com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS/ OMS) em fins de 1965, tendo recebido veículos, equipamentos e materiais para ampliar a produção da vacina antivariólica e providenciar os meios de fazê-la chegar a todo o território nacional. Em 13 de agosto de 1966, o decreto nº 59.152 criou a Campanha de Erradicação da Varíola (CEV). Mas para que pudesse decolar, foi necessário fazer importantes ajustes técnicos em sua principal arma: a vacina.

O somali Ali Maow Maali, último portador de varíola com vírus

selvagem do mundo.

Coc/Fiocruz

Por volta de 1958, o dr. Alfredo Bica visitou o Instituto Oswaldo Cruz como representante da Organização Pan-Americana de Saúde. Estava em vigor, na época, um projeto chamado Ponto 4, de cooperação entre o governo dos Estados Unidos e os países da América Latina. Bica veio oferecer ajuda técnica e financeira para que o instituto participasse mais eficientemente da campanha que estava sendo gestada. O Brasil já participava do combate à varíola, mas de maneira simbólica, porque a vacina glicerinada que produzia era precária. Durava no máximo três meses, mesmo em geladeira.

Henrique de Azevedo Penna, que dirigia o Laboratório de Vacina Antiamarílica, indicou José Fonseca da Cunha, um de seus mais

próximos auxiliares, para modernizá-la.3 A técnica usada no Instituto Oswaldo Cruz ainda era basicamente aquela introduzida no Brasil pelo barão de Pedro Afonso, em fins do século XIX. A vacina era fabricada no prédio ainda hoje conhecido como Casa Amarela. Em fazendas do estado do Rio e do sul de Minas Gerais, adquiriam-se vitelos de até um ano e meio, pele branca, sem febre aftosa nem muito carrapato. Só se usavam machos, porque as fêmeas eram mais caras e não ofereciam tanta variação de cor. Manguinhos, que ainda conservava muitos traços da fazenda que havia sido, possuía diversos pastos. Recolhidos às baias existentes na Casa Amarela, três de cada vez, os animais eram lavados diariamente com mangueira d'água, escova e sabão grosso, fazendo-se, de manhã e à tarde, o controle de tuberculina. Quando estavam prontos, eram levados à sala de inoculação. Inoculavam-se seis bezerros por semana quando a demanda de vacinas era muito alta.

Cada animal era amarrado a uma mesa. Raspava-se o pêlo do flanco direito, até o membro genital, fazia-se a desinfecção, primeiro com água e sabão, depois com álcool. Aí se executava a operação que Fonseca da Cunha considerava "bárbara": com lixa zero, esfregava-se a perna do bezerro, que urrava de dor, até que ficasse em carne viva. Enxugava-se a área esfolada, para remover o sangue e, com pincel, aplicava-se o vírus que se encontrava num frasco, em suspensão em glicerina. O animal era envolvido num lençol esterilizado e levado para a chamada sala de incubação. Cinco dias depois, a região inoculada estava coberta por uma crosta dura parecida com papelão. Lavavamna e, com uma cureta, arrancavam fragmentos que eram depositados em frascos com glicerina. Essa polpa bruta era guardada num congelador que funcionava tão mal quanto o da febre amarela. Ficava ali seis meses, um ano, até mais. Como a glicerina tem ação bacteriostática, as bactérias não se multiplicavam e morriam. Ficava só o vírus, resistente à substância. O material então era descongelado e triturado. Adicionava-se o diluente, faziam-se as provas de esterilidade e potência (em coelhos), e a vacina era introduzida em tubos de vidro finíssimos, chamados capilares, com duas doses cada.

Produção de vacina antivariólica utilizando vitelos. Após

limpeza preliminar, o momento de inoculação, quando eram

amarrados a uma mesa e tinham parte do pêlo raspado com a

desinfecção da área da pele que seria trabalhada. Lixada até ficar em carne viva, enxugava-se o sangue e se aplicava o vírus

conservado em solução de glicerina. Mantinha-se o animal

enrolado em lençol esterilizado por cinco dias. A crosta que

surgia na área que recebera o inóculo era lavada, retirando-se

os fragmentos que eram depositados em frascos com glicerina. Essa polpa bruta, que podia ser mantida em refrigerador por até

um ano era descongelada, triturada, misturada ao diluente,

submetida a testes de esterilidade e potência e, por fim,

introduzida em capilares de vidro finíssimos, com duas doses

cada. Essa técnica precária, introduzida em fins do século XIX,

foi modernizada por volta de 1960, capacitando-se o país a

participar com mais eficiência da campanha mundial de

erradicação da doença.

Coc/Fiocruz Com essa vacina, tão frágil, não se erradicaria a varíola em lugar nenhum, assegura Fonseca da Cunha. Ela saía do Instituto Oswaldo Cruz imersa em gelo, ficava no porto debaixo de sol e calor, e no caminho sofria outros agravos, de modo que larga proporção de vírus chegava morta ou com potência insuficiente para imunizar indivíduos em lugares distantes do laboratório. Em 1958, Manguinhos entregou aproximadamente dez milhões de doses de vacina antivariólica glicerinada ao Ministério da Saúde. No final do ano, o ministro Mário Pinotti informou em seu relatório que puderam ser aplicados apenas dois milhões e meio de doses. "Vê-se, então, que era uma maneira um pouco filosófica de se fazer a erradicação. Esse foi o motivo da vinda do representante da OPAS ao Instituto" (Fonseca da Cunha, entrevista, 09.09.1988).

José Fonseca da Cunha, contratado pela Fundação Rockefeller

em 1940 para atuar no Serviço de Estudos e Pesquisas sobre

Febre Amarela, passa a desenvolver trabalhos na Seção de

Produção de Soros e Vacinas da Divisão de Virologia a partir de

1950, com a incorporação do laboratório de febre amarela ao

IOC. Em 1968 foi nomeado diretor-substituto do IOC e, no ano

seguinte, ocupou o cargo de chefe de gabinete do ministro da

Saúde, Francisco de Paula da Rocha Lagoa. Recebeu bolsas de

estudo da OMS e da OPAS para o aprimoramento tecnológico

da vacina antivariólica, e foi o responsável pela modernização

deste laboratório em Manguinhos. De 1978 a 1984 exerceu a

função de coordenador de Produção de Vacinas Virais e de

Apoio Tecnológico de Bio-Manguinhos. 1987

Vídeo Vacinas/Vídeo Saúde/Fiocruz.

A organização já mantinha, desde o começo dos anos 1950, um convênio com o ministério mediante o qual o Laboratório de Febre Amarela do IOC fornecia vacinas aos países americanos, obtendo em troca materiais, equipamentos e serviços, "não devendo essa contribuição exceder anualmente a importância de cinco mil

dólares". 4 Os dados mostram que o laboratório manteve o compromisso assumido. Dos 1.409.100 doses fornecidas em 1950, 495.000, ou seja, mais de um terço foram destinados a países latino-americanos, sobressaindo a Bolívia com 240.000 doses. Em 1951, o SNFA absorveu 84,5% dos 1.771.500 doses fornecidas pelo laboratório, que enviou 275.500 a diversos países sul-americanos e até mesmo à Turquia (2.000), Islândia (500) e Portugal (25.000). Em 1952, quando houve aquele salto extraordinário da produção a que nos referimos no capítulo dois, quase 94% dos 10.104.000 doses fornecidas foram utilizadas pelo Serviço Nacional de Febre Amarela. Esse patamar foi mantido em 1953, tendo sido fornecidos até 14 de dezembro 10.566.400 doses, grande parte das quais para consumo interno. Dos países latino-americanos, a Guatemala foi o que recebeu maior quantidade de vacinas (150.000 doses), seguida pelo

Peru (140.000) e, bem abaixo, Argentina (70.000).5

O Laboratório de Vacina Antiamarílica não recebia dinheiro, somente equipamentos e materiais que não se achavam no Brasil, com uma agilidade que seria inconcebível se dependesse da burocracia federal. Segundo Fonseca da Cunha, naquela época a indústria nacional não conseguia fabricar sequer os frascos de vacina, que eram importados dos Estados Unidos. O laboratório da antivariólica passou a desfrutar das mesmas vantagens que o da vacina antiamarílica.

A Campanha de Erradicação da Varíola só foi possível porque a

Repartição Sanitária Pan-Americana entrou na jogada. O

Instituto Oswaldo Cruz não teria condições jamais de bancá-la,

nem o ministério. Foram milhares de dólares em equipamentos,

treinamento de pessoal, seringas, agulhas, pistolas, animais

para a produção de vacinas. Foi uma coisa fantástica! Até hoje

tem coisas guardadas aqui. Eu tinha direito, vamos dizer, a dez

mil dólares. Então, com minhas necessidades já arroladas,

pegava os catálogos e 'quero dez agulhas, vinte seringas,

tantos pedaços de borracha...' e mandava para Washington. No

fim de três, quatro meses, vinham os caixotes com aquilo tudo,

sem nenhuma falha (Fonseca da Cunha, entrevista,

03.09.1987.

Quando Fonseca da Cunha assumiu a direção do Laboratório de Vacina Antivariólica, Henrique Penna, o grande artífice das inovações tecnológicas implementadas no da antiamarílica, já tinha iniciado experiências visando a produzir aquela outra vacina por meio de técnica similar. T. M Rivers já fazia vacina em ovos embrionados nos Estados Unidos. Produzia lesões bonitas no braço das pessoas, mas não conferia boa imunidade. Só depois se descobriu que o vírus não podia ser submetido a mais de cinco passagens em ovos embrionados. Por volta de 1955, Penna iniciou o cultivo do vírus variólico na membrana cório-alantóide de ovos embrionados, sem cometer o mesmo erro. Tentou usar o vírus cultivado em vitelo, mas não deu certo. Teve de pedir amostras de vírus vacínico dos Estados Unidos, através da Organização Pan-Americana de Saúde.

Desenho demonstrativo das diversas técnicas de inoculação

em embrião de galinha utilizadas para produção de diferentes

vacinas. As técnicas de inoculação na cavidade aniótica e no

saco vitelino foram respectivamente a primeira e a segunda

empregadas na vacina antiamarílica. A inoculação na

membrana cório-alantóide diz respeito à vacina antivariólica e a

técnica de inoculação na cavidade alantóica foi empregada no

desenvolvimento de várias vacinas, dentre elas, a de influenza.

Rio de Janeiro, RJ, 1956.

Desenho: Renée LAFA/Biomanguinhos/Fiocruz

A membrana cório-alantóide funciona como se fosse a placenta do embrião. Depois de introduzir nela o vírus, fechavam-se os furos feitos para a inoculação e se levavam os ovos para estufa. Ao fim de cinco dias, eram abertos para a coleta das membranas que apresentavam lesões — isto é, pústulas repletas de vírus — similares às que se obtinham na pele do vitelo. As membranas infectadas eram reunidas em grupos, trituradas, submetidas às provas bacteriológicas e de potência.

Por algum tempo, Penna trabalhou no Pavilhão da Peste (atual Pavilhão do Relógio). Entre as primeiras experiências e o início da produção decorreram cerca de três anos, porque tinha pesadas obrigações com relação à febre amarela. Não havia ainda nenhum laboratório fazendo aquilo de forma eficiente e em escala compatível com as necessidades de vacinação.

Graças ao apoio do dr. J. Austin Kerr, um dos diretores do Laboratório de Febre Amarela na época em que pertencera à Fundação Rockefeller, e que se achava agora à frente da OPAS, Fonseca da Cunha obteve uma bolsa da OMS para visitar os institutos estrangeiros que produziam vacina antivariólica. Em abril de 1959, iniciou o périplo pela Venezuela, Peru, Colômbia, Panamá e Estados Unidos. Lá visitou os laboratórios de Austin, Texas, que já fazia vacina em ovos embrionados, mas vacina glicerinada, sem liofilização; e Michigan, grande centro produtor de vacina em vitelos. Esteve em Toronto, onde também se produzia vacina em vitelos, não liofilizada. Na Inglaterra, passou duas semanas no Instituto Richter, um dos raros produtores de vacina liofilizada, mas em pele de carneiro. Certo dia, uma das técnicas do laboratório perguntou-lhe se queria ver a inoculação do vírus em ovos embrionados.

Ela me levou para uma sala e me mostrou uma caixa de

charuto, com um buraco, onde havia uma lâmpada de duzentas

velas. Cobriu-nos com seu sobretudo, e ficamos ali, como dois

retratistas, ela me mostrando a posição do embrião dentro do

ovo, a membrana cório-alantóide. Achei aquilo uma brincadeira.

Porque nós, na febre amarela, já tínhamos ovoscópio

semiautomático. Lembro-me bem de uma coisa: ela usava um

perfume chamado Bond Street, que estava em moda. Isso eu

nunca mais esqueci. Debaixo daquele sobretudo, quase não

enxerguei os embriões...

Depois da estada em Londres, Fonseca da Cunha visitou importante laboratório de controle em Copenhague, o Seruminstitut, e os institutos de Munique, Buenos Aires e Montevidéu. Em sua opinião, o laboratório de vacina em vitelo mais bem montado que conheceu foi o da Argentina. Ao regressar, fez drásticas mudanças no laboratório de Manguinhos, aproveitando as lições adquiridas na viagem.

As obras foram custeadas pela Campanha Nacional de Erradicação da Varíola, que depois passou a se chamar só Campanha de Erradicação da Varíola. Através do convênio com a OPAS/OMS, o laboratório recebeu em 1962 seu primeiro liofilizador, muito mais moderno do que aquele em uso na febre amarela.

Por exigência da Organização Mundial de Saúde, a preparação da vacina antivariólica passou a ser feita com vitelas, o que encareceu seu preço. O ambiente em que eram tratadas foi ajustado a padrões mais rigorosos de assepsia. Depois da preparação prévia nas baias, as três novilhas eram colocadas sobre as mesas, mas em posição diferente: os machos só podiam ser inoculados no flanco direito porque urinavam para frente; as fêmeas podiam ser inoculadas no flanco, no abdômen todo e na parte interna dos membros posteriores. Os operadores, vestindo, agora, roupas esterilizadas, raspavam o pêlo dos animais e os lavavam até vinte vezes. Depois de vaporizarem o pulmão com substância bactericida, faziam uma última lavagem com água destilada e esterilizada, e só então escarificavam a pele dos animais com agulhas semelhantes às de vitrola, confeccionadas pelo habilidoso mecânico Johann Schindler, o mesmo que fabricava ou adaptava os aparelhos projetados por Penna no laboratório de vacina antiamarílica. A pele era riscada de maneira que não sangrasse, para não prejudicar a replicação do vírus. Tampouco se cruzavam as estrias para que não houvesse desprendimento da crosta vacínica. Depois de semeado o vírus com glicerina, os animais eram protegidos por aventais esterilizados. Um homem ficava de plantão para não deixar que se deitassem sobre as pernas.

Na colheita da polpa vacínica, os operadores usavam luvas importadas dos Estados Unidos, que tinham uma superfície áspera nas palmas das mãos. A casca ia soltando e, no final de 14 ou 15 lavagens, a pele do animal estava recoberta de vesículas ao longo das estrias onde o vírus se fixara. O animal era anestesiado com barbitúrico e, quando dormia profundamente, introduzia-se uma cânula na sua jugular para que sangrasse até a morte. A área inoculada permanecia recoberta com compressas embebidas em substância bacteriostática, retirando-se a polpa só quando o animal estivesse morto e depois de nova lavagem com água destilada e esterilizada. Além de padronizar a cepa de vírus usada nos laboratórios filiados à campanha (cepa Lister), a Organização Mundial da Saúde exigia que a vacina contivesse, no máximo, mil bactérias por centímetro cúbico, número que foi reduzido para

quinhentas bactérias por centímetro cúbico 6.

Na mesma época em que era modernizada a fabricação da vacina em vitelos, a linha de produção alternativa, em ovos embrionados, começou a operar, a pleno vapor, sob a direção do dr. Antônio Sotero Cabral. Em fins de 1959, ele recebeu de Henrique Penna, então chefe da Divisão de Vírus, a incumbência de continuar o trabalho que havia iniciado. Durante o ano de 1960, enquanto se reformava o terceiro andar do Pavilhão Rockefeller, Cabral fazia os últimos ajustes técnicos para elevar o título da vacina acima do mínimo exigido pela OMS, reduzir a mortalidade de embriões e as contaminações atribuídas, como na febre amarela, a microrganismos alojados nas cascas dos ovos. Durante aquele ano, Cabral ainda permaneceu no Pavilhão do Relógio, juntamente com o dr. Hanna Doany, da OPAS, e sua assistente, dra. Laura Queiroga, que cultivavam os vírus por ele trazidos em escala ainda reduzida. "Uma chocadeira moderna, presenteada pela OPAS, foi de relevante ajuda" ("Relatório das atividades do laboratório da vacina antivariólica em embrião de pinto", 1960).

Em meados da década de 1960, já se inoculavam dois mil ovos por semana, o que dava produção equivalente à de dez vitelos. Segundo Fonseca da Cunha, que era o responsável pelos dois laboratórios, o Canadá, os Estados Unidos e até a Inglaterra estavam engatinhando nessa técnica, que Manguinhos implementara graças à experiência adquirida com a febre amarela.

Os dois processos coexistiram até o fim da campanha de erradicação da varíola. A vacina produzida em ovos era mais simples, limpa e barata do que aquela feita em vitelos, mas a imunidade conferida por esta parecia ser mais confiável. Os anos 1960 foram uma época difícil no Rio de Janeiro. Houve grandes enchentes. A cidade sofria constantes e prolongados cortes de energia elétrica, e o instituto, por incrível que pareça, não tinha gerador. A polpa de vacina produzida em vitelos resistia a essas agruras, ao passo que as membranas infectadas com vírus vacínico se perdiam.

A campanha estava se iniciando. Para avalizar a erradicação da varíola com vacina produzida localmente, a Organização Pan-Americana de Saúde exigiu um teste de campo, que foi feito no território do Amapá, em 1965. De Atlanta vieram três epidemiologistas e dois estatísticos. A eles se juntaram um médico da Fundação SESP, o secretário de Saúde do Pará e Fonseca da Cunha. O programa de vacinação que planejaram tinha em mira comparar o desempenho da vacina brasileira em vitelo, a vacina brasileira em ovo e a norte-americana em vitelo. A experiência mostrou que as duas vacinas brasileiras eram tão boas quanto a norte-americana.

O Instituto Oswaldo Cruz produziu cerca de duzentos milhões de doses em nove anos. "Foi um trabalho muito pesado, muito duro." Em 1962, na gestão de Joaquim Travassos da Rosa (fevereiro de 1961 a junho de 1964), a produção foi de nove milhões de doses . Em 1966, quintuplicou: passou para 42 milhões de doses. Em 1968, os laboratórios de vacina em vitelo e em ovos forneceram 25.261.000 de doses para a Campanha de Erradicação da Varíola, e 435.000 para outros países ("Relatório de atividades dos laboratórios de vacina antivariólica", 1968). Na administração de Rocha Lagoa (julho de 1964 a dezembro de 1969), a produção de vacinas no Instituto Oswaldo Cruz foi muito alta, porque se alcançou o pico da campanha. A antiamarílica também foi muito solicitada, porque a produção colombiana enfrentou uma série de problemas decorrentes da fusão do Instituto Finlay com o Instituto de Higiene Samper Martínez e o Parque de Vacunación, para formar o atual Instituto Nacional de Salud (Groot, 1999, p.271).

Produção de vacina antivariólica em vitelos e em ovo 1968-1969

1968 1969

Estoque de vacina, doses Estoque de doses em 01.01 vacina, em 01.01 Vitelo glicerinada 19 Vitelo glicerinada 5 164

000

Vitelo liofilizada 6 710 Vitelo liofilizada 7 944

400 100

Ovo liofilizada 7 951 Ovo liofilizada 11

000 266

200

14 19

680 215 400 464

Vacina produzida Vacina produzida durante o ano durante o ano Vitelo glicerinada 65 Vitelo glicerinada 81

000 608

Vitelo liofilizada 16 Vitelo liofilizada 17

051 428 900 550

Ovo liofilizada 16 Ovo liofilizada 19

196 866 200 200

32 37

313 376 100 358

Vacina fornecida Vacina fornecida durante o ano durante o ano Vitelo glicerinada 78 Vitelo glicerinada 75

836 951

Vitelo liofilizada 14 Vitelo liofilizada 23

818 378 200 550

Ovo liofilizada 12 Ovo liofilizada 28

881 639

000 200

27 28

778 639

036 200

Estoque de vacina, Estoque de em 31.12 vacina, em 31.12 Vitelo glicerinada 5 164 Vitelo glicerinada 22

300

Vitelo liofilizada 7 944 Vitelo liofilizada 3 036

100 700

Ovo liofilizada 11 Ovo liofilizada 7 903

266 300

200

19 10

215 962

464 300

Fornecimento de doses Fornecimento de doses vacina para o vacina para o exterior exterior Bolívia 100 Bolívia 200

000 000

Equador 250 Equador 200

000 000

Peru 50 Paraguai 100

000 000

Nicarágua 35 Honduras 80

000 000

435 Guatemala 50

000 000

Rep. Dominicana 50000

680

000

Fonte: Relatório anual de atividades dos laboratórios de vacina

antivariólica, 1968; Relatório de atividades dos laboratórios de

vacina antivariólica, jan.-nov. 1969; Relatório de atividades dos

laboratórios de vacina antivariólica, dez. 1969. LAFA/Bio-

Manguinlios/Fiocruz

A varíola foi extinta no Brasil em 1971, mas a produção de vacina em vitelo prosseguiu até 1972, quando foi interrompida. Com a erradicação da doença no mundo inteiro, os laboratórios que possuíam cepas do vírus foram obrigados a destruí-las. Somente dois ou três, controlados pela Organização Mundial da Saúde, possuem ainda amostras do vírus variólico virulento. Quando se encerrou a campanha em 1971, revacinações continuaram a ser feitas em algumas regiões, mas em ritmo mais lento. Mario Machado de Lemos, ex-secretário de Saúde do estado de São Paulo, foi empossado ministro da Saúde do governo Emílio Garrastazu Médici em junho de 1972, em substituição a Rocha Lagoa. Nos acordes finais da campanha, decidiu usar exclusivamente a vacina produzida pelo Butantã, em pêlo de carneiro, não obstante Manguinhos tivesse cerca de oito milhões de

doses estocadas, prontas para uso. 7

Certificado de erradicação da varíola garantindo o controle

absoluto da doença no mundo inteiro. Documento assinado em

Genebra, Suíça, em 9 de dezembro de 1979. Contém, entre

outras, a assinatura de Bichat de Almeida Rodrigues, membro

da comissão global de erradicação da varíola.

Coc/Fiocruz

Contando com o respaldo das organizações Pan-Americana e Mundial de Saúde, a campanha conseguiu formar vasta rede de apoio, envolvendo órgãos de comunicação, autoridades federais, estaduais e municipais, políticos de vários partidos, líderes religiosos e sindicais e outros formadores de opinião. A eliminação do último caso no continente, em 1971, robusteceu a confiança no potencial dos programas de imunização para combater outras doenças.

Já em 1968, um dos líderes da campanha, João Baptista Risi, externava a expectativa de que seus resultados pudessem "estimular tarefas semelhantes de imunização em massa, para eliminar outras enfermidades transmissíveis, já excluídas em vários países .... Bastante proveitoso seria para as crianças brasileiras, e certamente honroso para o nosso país, se ao completar a fase de ataque da campanha de erradicação da varíola já estivesse em curso um trabalho de imunização global, arquitetado nas linhas de um vigoroso programa nacional de imunização" (Risi, 1968, p. 51).

Naquele ano, enquanto os movimentos estudantis convulsionavam as capitais americanas, a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) promovia em Montevidéu um seminário sobre métodos de administração de programas de vacinação, do qual participaram representantes de 25 países do continente. Um dos objetivos do seminário era analisar as razões pelas quais se vinham alcançando resultados tão parcos nos programas implementados em muitos desses países. Na avaliação dos especialistas, havia conhecimento científico e recursos técnicos eficientes para a prevenção de uma série de doenças, mas elas continuavam a ocorrer devido, principalmente, à precariedade do planejamento e à ausência de uma sólida decisão política de parte dos governos, o que se traduzia em definição pouco precisa de metas, organização inadequada e acentuada descontinuidade das iniciativas. Entre os problemas assinalados figurava, também, o emprego de vacinas de má qualidade, fabricadas por processos obsoletos, precariamente

inativadas, conservadas e distribuídas (OPAS, 1969) 8

Mapa apresentando a incidência de varíola em países

endêmicos. 1959.

Coc/Fiocruz

Mapa apresentando áreas de erradicação da varíola entre os

anos de 1973 e 1979.

Coc/Fiocruz

Equipe de vacinação durante a erradicação da varíola, atuando

nas estradas. Para obter maior alcance de vacinação, as

equipes não se restringiram a atuar nos postos. Percorreram

casa a casa, as vias de transporte e outros pontos importantes.

Maranhão, 1969.

Coc/Fiocruz

Cartaz publicitário divulgando a recompensa de mil dólares

para a primeira pessoa que apresentasse um caso comprovado

de varíola resultante de transmissão humana e confirmado por

testes laboratoriais. A validade da proposta se estenderia até

que a erradicação global fosse confirmada.

Coc/Fiocruz

Instrumentos antigos de variolização e de vacinação contra a

varíola.

Coc/Fiocruz

Utilizando uma estratégia de mobilização popular, que depois

 

se tornaria muito comum em campanhas de vacinação, a

presença de pessoas ilustres nos eventos foi bem explorada na

época. Frei Damião participa da campanha, vendo-se na

imagem à direita um de seus dirigentes, dr. Alyrio Macedo, da

Fundação SESP, à porta do gabinete do presidente Costa e

Silva. Brasília, 1967.

Coc/Fiocruz

Concentração popular em São Luís, Maranhão, durante a

campanha de vacinação contra a varíola. A campanha

mobilizava grande número de pessoas nos eventos que

promovia nas datas de vacinação em cada cidade. Estendiam-

se até a noite, para atender um número maior de pessoas

retidas durante o horário de trabalho. Década de 1960.

Coc/Fiocruz