Febre amarela: a doença e a vacina
O Laboratório de Vacina contra a Febre Amarela nos anos 1990
Em 23 de março de 2001, depois de controlado o surto de Minas Gerais, foi descoberto um caso de febre amarela importado daquele estado em Maceió, capital de Alagoas — uma jovem universitária, que contraíra o vírus durante viagem ao município de Pará de Minas. Em face do risco de que a febre amarela se alastrasse em Alagoas, por intermédio do Aedes aegypti, abundante na região, as autoridades sanitárias locais e os representantes do Ministério da Saúde estiveram a pique de iniciar a vacinação em massa na capital alagoana. A operação foi abortada, porque o caso evoluiu rapidamente para a cura, sem que houvesse indícios de transmissão autóctone da doença.
Este episódio ilustra o que certamente ocorrerá, caso o perigo ressurja em outra grande cidade da zona que, até o momento, permanece indene, pois, na prática, a vacina é a única arma que o país tem contra a febre amarela.
O Laboratório de Vacina contra a Febre Amarela
nos anos 1990
A vacina contra a febre amarela é um dos mais bemsucedidos empreendimentos na área dos imunobiológicos no Brasil, em larga medida devido à capacidade revelada até hoje de enfrentar conseqüentemente problemas tão graves como os que surgiram nos últimos dois anos. Diminuiu o número de produtores desta vacina, feita com outras subamostras do vírus 17D que têm causado problemas similares ao do vírus usado no Brasil (o último parece ter sido a morte de um indivíduo vacinado na Austrália). Em maio de 2001, havia apenas três produtores pré-qualificados pela Organização Mundial de Saúde: Aventis Pasteur, na França, Instituto Pasteur de Dacar e Medeva Group Development, no Reino
Unido (www.who.int). Bio-Manguinhos, que ainda é o maior produtor mundial, e que já é qualificado pela OMS para vacinações nacionais, inclusive as que levam ao certificado internacional de vacina, foi convidado a qualificar-se também para vendê-la a organismos internacionais como UNICEF, Fundo Rotatório etc. Segundo a dra. Maria da Luz Fernandes Leal, "estão chovendo pedidos de todos os lados, da África especialmente, que tem problema seríssimo: 241 mortes já, e 771 casos sendo investigados" (entrevista, 21.3.2001, fita 01, lado A).
A certificação possibilitará a Bio-Manguinhos vender a vacina a organismos internacionais como a OPAS/OMS e o Unicef. O processo começou em agosto de 1999, com a vinda de uma comissão formada por três especialistas da OMS e dois da OPAS, que foram acompanhados por representantes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária e do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz). Após uma semana de minuciosa inspeção dos laboratórios em que a vacina é produzida, envasada, liofilizada, rotulada, estocada e controlada, para ver se atendiam às especificações das boas práticas de fabricação, a comissão concluiu que "Bio-Manguinhos pode potencialmente ser considerado como fornecedor de vacina contra a febre amarela para as agências da Nações Unidas". Para qualificar-se, precisaria atender a uma lista de recomendações que diziam respeito, principalmente, a aspectos estruturais de funcionamento dos
laboratórios.101 A certificação é um passo muito importante para Bio-Manguinhos, e pode ter efeito cumulativo, já que a linha de produção da antiamarílica é comum , em alguns pontos, com a de outras vacinas.
Com a intensificação das vacinações no Brasil, no final dos anos 1990 (em 1998, Bio-Manguinhos forneceu 92 milhões de doses), os lotes semente secundários começaram a se esgotar antes do tempo previsto. Sua reposição requer testes trabalhosos, inclusive os de neurovirulência, que precisam ser feitos em vinte macacos rhesus, animais muito difíceis de se conseguir nos dias atuais. Bio-Manguinhos decidiu aproveitar a oportunidade para livrar-se do vírus da leucose aviária, que está presente no lote primário, preparado na época em que se utilizavam ovos comuns de galinha. Os lotes vacina preparados em ovos specific pathogenic free acham-se livres do vírus, porque sua replicação é mais lenta do que o da febre amarela. Um desses lotes foi convertido em candidato a lote semente secundário e submetido aos testes requeridos pela Organização Mundial de Saúde. Os de neurovirulência, executados pelo patologista Renato Marchevsky, foram confirmados, nos Estados Unidos, pela dra. Lebembok, especialista no assunto e consultora da OMS.
A decisão de usar um lote vacina como lote semente secundário, em vez de extraí-lo do antigo lote primário, implicou o remanejamento das passagens cristalizadas na época em que se adotou o sistema de lotes semente. Como explicamos no capítulo três, desde 1944 os lotes primário e secundário correspondiam à 41ª e 42ª passagens em embrião de galinha da subcepa EP baixa pass; e, conseqüentemente, às 284ª e 285ª subculturas da cepa 17D original. Todos os lotes de vacina produzidos em Bio-Manguinhos correspondiam, por sua vez, à 43ª passagem em embrião de galinha, e à subcultura nº 286 do vírus 17D original. Ao se transformar um lote vacina em semente, os lotes vacina derivados dela passarão a corresponder à 44ª passagem do vírus atenuado.
O novo lote mãe e dois filhos foram enviados à SPAFAS, grande fornecedor de matrizes SPF nos Estados Unidos, e a Charles Riber, que confirmaram a ausência do vírus da leucose aviária. Ricardo Galler seqüenciou os vírus contidos nesses lotes, e os comparou aos dos lotes semente que vinham sendo usados, constatando que eram geneticamente idênticos.
O técnico de laboratório Carlos Frota com o chefe do LAFA, Ricardo de Carvalho, o técnico Álvaro Velloso e o biólogo João
Souza de Oliveira.
Junho de 2001
Foto: Renato da Gama-Rosa
O próximo passo teriam de ser os testes para verificar a imunidade e as reações induzidas pela nova geração de vacinas em humanos, comparando-se os resultados com aqueles obtidos com as que estão em uso. O estudo clínico, em andamento, é coordenado pelo dr. Luiz Antônio Bastos Camacho, da Escola Nacional de Saúde Pública. O protocolo por ele elaborado foi submetido aos comitês de ética da Fiocruz e do Exército, que autorizaram os testes em quartéis do Rio de Janeiro.
No momento em que finalizamos a redação deste livro, a equipe formada por 24 técnicos de Bio-Manguinhos vacinou já boa parte dos mil voluntários recrutados entre todas as patentes durante reuniões de "sensibilização", em que se explica a importância do teste e seus riscos aos potenciais candidatos. A escolha dos quartéis baseou-se na maior facilidade de atender a certas exigências de um protocolo de pesquisa dessa natureza. É preciso não apenas reunir aquele número de pessoas em pouco tempo, como reencontrá-las para a repetição dos exames clínicos e sorológicos de quatro a seis dias e, de novo, trinta dias após a vacinação. Fazem-se novas dosagens de anticorpos e a prova de função hepática, que tem levado, inclusive, à identificação de vários portadores de hepatite crônica, encaminhados ao Instituto de Biologia do Exército.