Febre amarela: a doença e a vacina
O controle de qualidade
talvez tenha sido aumentar a sensibilização para as vacinas
(uma cultura de imunização) e maior comunicação entre o
pessoal dos serviços de saúde e as comunidades, diminuindo a
desconfiança e construindo pontes de comunicação. Mas o
PAI/Pólio também foi útil pelo seu efeito demonstrativo, que
incentiva outros programas a adotar suas estratégias ... junto
aos meios de comunicação, sistemas de informações, vigilância
epidemiológica, avaliação, etc." (Taylor, 1995, p. 18).
O controle de qualidade
A dinamização dos programas massivos de imunização aumentou muito o consumo de vacinas e exigiu o aperfeiçoamento dos mecanismos destinados a garantir sua qualidade. A vulnerabilidade dessa vertente dos programas revelou-se em maio de 1981, quando tiveram de ser adiados os dias nacionais de vacinação previstos para julho e agosto, por se ter constatado a contaminação da vacina importada pela CEME da Iugoslávia. Análises realizadas na Fiocruz identificaram a proliferação do fungo penicillium SP que, apesar de não ser nocivo ao homem, confirmava a existência de falhas na preparação da vacina. Técnicos da Fiocruz e do Butantã estiveram no Laboratório Torlak, em Belgrado, e constataram defeitos na máquina de envasamento que poderiam explicar a contaminação do produto (Informativo Fiocruz, ano IV, nº 52, jun. 1982).
Inspeção e revisão de diluentes para vacinas, quando se
verifica se há partículas ou corpos estranhos no interior dos
frascos. Realizadas automaticamente, detectam e rejeitam
frascos com problemas. Até a aquisição da máquina de revisão,
esta atividade era realizada manualmente, com a inspeção por
controle visual peça a peça. Inicialmente instalada na Central
de Envase e Liofilização, no Pavilhão Rockefeller, a máquina funciona hoje na Planta Industrial, no Centro de Processamento
Final/CPFI. Rio de Janeiro, 1994.
Foto: Jorge Carvalho
Ccs/Fiocruz
Checagem de frascos utilizados na produção de diluentes da
vacina de febre amarela em cinqüenta doses, operação
realizada no andar térreo do Pavilhão Rockefeller.
Rio de Janeiro, RJ, 1994.
Foto: Jorge Carvalho
Ccs/Fiocruz As autoridades brasileiras optaram por rejeitar os 26 milhões de doses já estocadas no Brasil e cancelar o recebimento de mais 54 milhões de doses encomendadas ao laboratório iugoslavo, providenciando novas aquisições em outros laboratórios (O Estado de S. Paulo, 29.05.1981). Além da Iugoslávia, apenas a Bélgica e União Soviética tinham condições de fornecer o volume de vacinas necessário à realização da campanha brasileira. O episódio levou os dirigentes do Ministério da Saúde e dos órgãos implicados no programa a se mobilizarem para criar um sistema nacional mais eficiente de controle da qualidade dos imunobiológicos utilizados pelo governo. Em 30 de maio de 1981, o Secretário Nacional de Ações Básicas de Saúde, João Baptista Risi Júnior, declarou a O Estado de S. Paulo que o ministério ia definir quais eram os laboratórios aptos a realizar esse tipo de análise. Até lá, qualquer vacina importada pelo Brasil teria de passar pelo crivo do Centro Nacional de Referência para Enteroviroses, chefiado por Hermann Schatzmayr na Fundação Oswaldo Cruz.
Oficialmente, cabia à Vigilância Sanitária fazer o controle e registro de drogas, alimentos, vacinas e outros produtos que pudessem causar danos à saúde, através do Laboratório Central de Controle
de Drogas, Medicamentos e Alimentos (LCCDMA).42 Localizado no Centro da cidade d o Rio de Janeiro, não tinha a menor condição para executar os exames e testes que eram requeridos. Foi então incorporado à Fiocruz, em 1978, e seus parcos recursos humanos e materiais foram alojados, provisoriamente, em Bio-Manguinhos, até que ficassem prontas as novas instalações do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde, que iam ser levantadas no campus da instituição.
Os recursos de 390 milhões de cruzeiros fornecidos a Vinícius da Fonseca pela Caixa Econômica Federal destinavam-se, também, à construção do Centro Hospitalar de Manguinhos e à modernização de outras unidades.O episódio da contaminação da vacina antipólio, em 1981, certamente contribuiu para que fossem aceleradas as obras do INCQS, que foi inaugurado em 4 de setembro de 1981, com a presença do presidente da República, João Batista de Figueiredo. O INCQS começou a funcionar com oitenta funcionários,
dos quais 33 com nível superior.43 Era o maior laboratório no gênero da América Latina e passou, em 1983, a centralizar o controle de qualidade das vacinas destinadas ao Programa Nacional de Imunizações.
Concomitantemente, um grupo de trabalho coordenado pelos secretários nacionais de Ações Básicas de Saúde e de Vigilância Sanitária, e composto por representantes de diversas instituições, inclusive OPAS, visitava os laboratórios produtores de vacinas para conhecer sua capacidade instalada e seus produtos. Foram estabelecidos os fluxos de controle de qualidade para cada uma das vacinas nacionais ou importadas, a começar pelas vacinas contra a poliomielite e a raiva, depois sarampo e DPT. Foram identificados, também, os laboratórios internacionais onde poderiam ser treinados os técnicos que iam cuidar dessa atividade (Bermudez, 1992, pp. 88-9).