Febre amarela: a doença e a vacina
América Latina
mesmo nos casos em que se comprovara a circulação do vírus
no sangue dos indivíduos. Repetidas experiências não têm
conseguido fazer o vírus recuperar as antigas propriedades nos
mosquitos, nem por picada, nem pela inoculação de emulsões
deles em animais suscetíveis. Ainda mais, o desenvolvimento
de larvas de Aedes aegypti em soro contendo grandes
quantidades de vírus 17D deu como resultado a obtenção de
adultos infectados, comprovando-se a infecção pela inoculação
em animais e experimentação. Pois bem, mesmo assim as
fêmeas adultas foram incapazes de transmitir o vírus pela
picada. A vacinação de milhares de pessoas em Asunción,
Paraguai e em Santos Dumont ... não foi seguida de casos de
febre amarela, apesar de que em ambos os lugares existia o
Aedes aegypti em quantidades consideráveis. Não é exagero
dizer-se que, em 18 meses de emprego do vírus 17D na
América do Sul, não se patenteou qualquer contra-indicação
(Soper, fev. 1939, pp. 16-7).
A questão parece ter tido pouca repercussão na imprensa brasileira médica e leiga. O Brasil-Medico (14 maio1938, n. 20, p. 485) limitou-se a transcrever trechos da conferência de Soper e do artigo de Costa Lima: "sem querer metermo-nos na discussão". Delegou a Barros Barreto, chefe do Departamento Nacional de Saúde, o "dever" de não deixar sem resposta o artigo do entomologista de Manguinhos. Nossas pesquisas indicam que não houve essa resposta, e a "grave argüição" levantada por Costa Lima não teve a força necessária para impedir o crescimento exponencial das vacinações. Elas alcançavam 5.092 pessoas em 21 de setembro de 1937, mais de 10.000 em 19 de outubro, 39.000 ao encerrar-se aquele ano, vacinando-se mais 49.000 pessoas durante uma única
semana de janeiro de 1938.58 A essa altura, a vacina já havia ultrapassado as fronteiras do Brasil.
América Latina A Oficina Sanitária Pan-Americana já havia determinado a imunização do pessoal das linhas aéreas que atravessavam zonas infectadas pela febre amarela. Parte desse pessoal fora vacinada no Brasil, Panamá e Peru.
O 17D começou a ser usado na Colômbia em junho de 1937 (Landazuri, departamento de Santander). Em 2 de janeiro de 1939, a vacina começou a ser produzida num laboratório da Seção de Estudos Especiais do Ministério do Trabalho, Higiene e Prevenção Social. Os primeiros lotes foram preparados por Hugh Smith, que se transferira para aquele país para adestrar um grupo de médicos na técnica de preparação da vacina e nas investigações sorológicas de campo. Durante o ano de 1939, foram preparadas 353.620 doses, boa parte das quais já em novo prédio inaugurado nos terrenos do Instituto Nacional de Higiene, em 22 de fevereiro (construiu-se também um laboratório de campo em Villavicencio, capital do departamento de Meta). Na época da X Conferência Sanitária Pan-Americana (1938), as vacinações na Colômbia ultrapassavam dez mil pessoas (Groot, 1999, p. 269; Soper, 1939a, pp. 13-4).
Em dezembro de 1937, em Asunción, Paraguai, o vírus 17D foi usado pela primeira vez para combater um surto de febre amarela urbana numa cidade infestada pelo Aedes aegypti.
A vasta epidemia de febre amarela silvestre detectada nas zonas mais ricas do Sul e Sudeste do Brasil, no começo de 1938, levou à ampliação do programa de imunizações. O governo brasileiro contribuiu com dois mil contos (cerca de cem mil dólares americanos), para que fossem vacinados pelo menos um milhão de pessoas durante aquele ano. Já se tinham imunizado mais de seiscentas mil até 15 de agosto, nos estados de Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e no Distrito Federal, aplicando-se a vacina "a todos os que a solicitam, inclusive crianças de poucos meses e mulheres em qualquer fase da gravidez" (Soper, 1939a, p. 17). A quase totalidade das vacinações era feita em povoados rurais das zonas com febre amarela silvestre. Só se usou a vacina para proteger populações urbanas contra a febre amarela transmitida por Aedes aegypti em Santos Dumont, Minas Gerais e, de forma menos sistemática, no Rio de Janeiro, quando a doença bateu às suas portas.