Febre amarela: a doença e a vacina
Manguinhos
Imagem de abertura: Sangria de um animal para a produção de
soro numa baia do Pavilhâo da Cavalariça, em Manguinhos.
Coc/Fiocruz
Ano de mangas, ano de febre amarela, costumavam dizer os cariocas, no século passado, expressando em linguagem coloquial a relação que os médicos estabeleciam entre o calor, a umidade e as epidemias de febre amarela.
Desde 1849-50, excetuando-se os anos decorridos entre 1862 e 1869, elas "davam" com a mesma regularidade das mangas e outros frutos sazonais, sempre na "estação calmosa", aquela longa temporada de calor, umidade e chuvas que começava lá por novembro, às vezes antes, e só terminava em março ou abril. As analogias com o mundo vegetal não terminavam aí: como outras plantas, a febre amarela ambientava-se à perfeição nas baixadas litorâneas, especialmente nas cidades portuárias, onde as matérias em putrefação, de origem vegetal e animal, constituíam humo ideal para ela.
Embora haja evidências de sua presença no Brasil e em outros países do continente desde o século XVIII, foi somente a partir de meados do século XIX que a febre amarela se tornou a grande questão sanitária nacional.
Os relatos de médicos que testemunharam a epidemia ocorrida então fixam o começo da história na chegada de um navio negreiro, o Navarre, procedente de Nova Orleans, tendo feito escalas em Havana e Salvador antes de atracar no porto do Rio de Janeiro, em 3 de dezembro de 1849. Em 13 de dezembro, o D. Afonso trouxe a notícia da epidemia que grassava na capital baiana. Dias depois, o consignatário do Navarre vendeu-o, amedrontado com a enfermidade que grassava a bordo. Os tripulantes se dispersaram, eclodindo a yellow jack justamente numa das hospedarias em que se alojaram, a do compatriota Frank, na rua da Misericórida. Adoeceram quase todos os seus inquilinos e os moradores de estalagens próximas. Em fevereiro de 1850, quando a Academia Imperial de Medicina finalmente reconheceu que a febre amarela estava na cidade, ela já se havia disseminado, como uma mancha de óleo, pela rua da Misericórdia, as praias dos Mineiros e do Peixe, Prainha e Saúde, depois o resto da cidade.
Apesar de o governo ter proibido a publicação dos obituários, ocorriam os óbitos em tal quantidade, os rituais fúnebres da Igreja lhes dando tamanha dramaticidade que era impossível deter a onda de pânico que se apoderou da população, contribuindo, segundo alguns, para torná-la mais vulnerável à doença. Segundo estimativas do dr. José Pereira Rego (1872, p. 159), ela atingiu 90.658 dos 266 mil habitantes da cidade, causando 4.160 mortes. Isso sem contar os casos não registrados por terem ocorrido em casas particulares, naquela época muito mais impermeáveis ao poder público. Segundo Chalhoub (1999, p. 61), houve quem falasse em até 15 mil vítimas fatais.
De acordo com o dr. Roberto Lallement, a febre amarela, a princípio, caminhava devagar, mas com passo certo, quase de uma casa para outra, de uma travessa para outra, ... atacando uma pessoa após outra. De repente, a sua marcha torna-se mais rápida. Sem cerimônia ... prostra tudo sobre o leito dos sofrimentos .... Quando os marinheiros estavam carregando os seus navios, quando os negociantes iam à praça do Comércio, quando os oficiais seguiam seu trabalho e os pretos puxavam suas carroças e levavam o café pelas ruas, neste instante mesmo, de repente, aparecia uma horripilação mais ou menos forte, um frio e a febre se manifestava. A doença, para ferir, não fazia discriminação social, exercendo assim o socialismo mais genuíno, enquanto que sua companheira formidável, a morte, é muito mais eclética, muito mais caprichosa (apud Franco, 1969, p. 39).
A índia, que simboliza a cidade do Rio de Janeiro, entrega ao
imigrante recém chegado o fruto proibido — “miasmas” —
fornecido pela serpente (febre amarela). Os demais frutos da
árvore representam outros gentes morbígenos: o canal do
Mangue, a sujeira da cidade, a Faculdade de Medicina, a
Câmara Municipal etc. Em torno desenrola-se o drama da
família imigrante, desde a partida da Europa até a morte dos
adultos e a orfandade dos filhos. Revista Ilustrada, 18.03.1876,
ano 1, nº 12, pp. 4-5.
Segundo o médico alemão, ela poupava os escravos, fazia algumas vítimas na "raça mista" e dizimava as pessoas de origem européia, especialmente as recém-chegadas.
Administrativamente, as questões relativas à saúde pública não se diferenciavam de outros aspectos da vida urbana a cargo da Igreja, da Câmara Municipal e da Intendência de Polícia. Foi em meio àquela crise sanitária, a mais grave que a cidade já conhecera, que se tornou a esfera de competência de um poder autônomo. Em 5 de fevereiro, o Ministério do Império formou uma Comissão Central de Saúde Pública, composta de oito membros da Academia Imperial de Medicina, um professor da Faculdade de Medicina e o presidente da Câmara Municipal, médico também. Através das "Providências para prevenir e atalhar o progresso da febre amarela" (14.02) e, em seguida, do "Regulamento Sanitário", (04.03) a Comissão estabeleceu rígidas medidas de controle dos indivíduos, armando, pela primeira vez, um dispositivo de esquadrinhamento e disciplina do espaço urbano.
Em setembro de 1850, quando a epidemia foi extinta, a Assembléia Geral, reconhecendo a necessidade da defesa sanitária permanente do Império, criou uma Comissão de Engenheiros, que durou só até 1859, e uma Junta de Higiene Pública, encarregada de propor e executar as medidas necessárias à preservação da saúde pública na Corte e nas províncias. Regulamentada em setembro de 1851, passou a chamar-se Junta Central de Higiene Pública. Com pouco pessoal, extensas funções, falta de unidade e recursos, não resolveu os problemas sob sua alçada e atuou pouco nas provinciais. Em 1886, transformou-se em Inspetoria Geral de Higiene, dela se separando, como órgão autônomo, a Inspetoria Geral de Saúde dos Portos.
O raio de ação desse órgão restringia-se exclusivamente às cidades litorâneas, com absoluta predominância da "cabeça" urbana do país, o Rio de Janeiro. Os higienistas pertencentes a seus quadros ou que se pronunciavam em outros fóruns situavam as causas múltiplas da febre amarela, de um lado, nas predisposições orgânicas dos indivíduos, de outro, no meio ambiente — tanto a "natureza" característica daquelas latitudes "tórridas", tradicionalmente encaradas como hostis à aclimatação do europeu, como o ambiente artificialmente criado pelo homem naqueles cadinhos em ebulição que eram as cidades oitocentistas. O corpo dos doentes era perscrutado pelo ferramental da clínica e das novas disciplinas experimentais que abriam os cadáveres para explorar as lesões nos tecidos e órgãos.
Movendo-se, ainda, de acordo com as pedras angulares do paradigma neo-hipocrático, a higiene inventariava exaustivamente os componentes insalubres do ambiente natural e humano, com a ajuda das novas ciências físico-químicas e sociais. As constituições epidêmicas dos lugares onde a febre amarela vicejava — aquelas, por exemplo, que o presidente da Junta Central de Higiene Pública refazia todos os anos, com o intuito de prever e prevenir a próxima epidemia — eram como construções barrocas que ascendiam do movimento das populações ao dos astros, interligando uma enorme quantidade de dados obtidos com o auxílio da astronomia, geografia, geologia, química, história, economia e estatística (a Junta foi dotada, em 1851, de um Serviço de Estatística Demográfica, o primeiro, ao que parece, da América do Sul).
As relações entre medicina e sociedade e os problemas de higiene pública começaram a ser debatidos no Rio de Janeiro, na primeira metade do século XIX, em diversos periódicos especializados, em sua maioria transitórios, ou em instituições que aparelhavam o recém-fundado Império brasileiro, especialmente a Sociedade de Medicina e Cirurgia, inaugurada em 1829, e transformada em Academia Imperial de Medicina três anos após a criação da faculdade, em 1832. A febre amarela era uma das questões debatidas pelos médicos brasileiros ou há pouco tempo emigrados que constituíam a elite profissional do período. Como mostrou Ferreira, a ausência no Brasil daquela doença que estava no cerne da grande controvérsia entre contagionistas e anticontagionistas, nos Estados Unidos, na América Central e na Europa, fortalecia a argumentação usada pelos 'nativos' para refutar a crença disseminada entre europeus de que os trópicos eram irremediavelmente malsãos, degenerativos, impermeáveis à civilização.
Pois a febre amarela aportou na capital do Império justamente no momento em que começavam a despontar nela os primeiros sinais dessa civilização e, no plano simbólico, a doença catalisou reações que, como mostrou Chalhoub (1999, p. 76), expuseram "as entranhas de uma sociedade ainda profundamente comprometida com a escravidão". Os higienistas que tomaram as rédeas da situação, adotando providências que consideravam de cunho científico, tiveram de conquistar espaço aos defensores da explicação religiosa, que encaravam o vômito negro como uma manifestação da justiça divina. Muitos dos que abraçaram o ponto de vista dos "filósofos materialistas" atribuíram a epidemia de 1850 ao tráfico africano, explicando dessa forma a importação da doença e sua relativa benignidade para com os negros. A diplomacia britânica chegou a comemorar a morte por febre amarela, em maio de 1850, de Bernardo Pereira de Vasconcelos, um dos principais adversários da pressão britânica contra o tráfico (ibidem, pp. 60-96).