Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 19 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

Notas

Produtos biológicos e quimioterápicos fornecidos na gestão de

Carlos Chagas (tubos, doses, centímetros cúbicos, gramas e

ampolas)

 

Fonte Benchimol (1990), p. 88

 

Notas

1 As ruas eram ocupadas por uma multidão de "escravos de ganho" que alugavam cotidianamente o uso de sua capacidade de trabalho. Com a féria que entregavam todos os dias a seus donos, sustentavam senhores ricos ou apenas remediados, todos ociosos. À escravaria doméstica cabia a execução dos múltiplos serviços ligados à economia natural que transcorria no interior das moradias senhoriais, inclusive o abastecimento de água e a retirada de esgotos, atividades que logo se tornariam rentáveis serviços "públicos" a cargo de empresas estrangeiras.

2 Melhoramentos da cidade. Primeiro relatório da Comissão de Melhoramentos da Cidade do Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 1875. Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 80-5-11. O segundo relatório foi concluído em 29.02.1876.

3 As trajetórias de Freire, João Batista de Lacerda e outros bacteriologistas atuantes no último quarto do século XIX são analisadas, em detalhe, em Benchimol (1999). Versões mais resumidas encontram-se em Benchimol, 1996, 53-86; 1995, 67-98). Sobre a reforma do ensino médico, ver Edler, (1996, pp. 284-99; 1992) e Santos Filho (1991).

4 O médico espanhol Jaime Ferrán desenvolveria vacina igualmente controvertida contra o cólera em 1883-85 (Bornside, 1991). Sobre Pasteur, ver Debré (1995); Salomon-Bayet (1986); Dagognet (1967), Delaunay (s.d.).

5 A comunicação intitulava-se "Pathologie expérimentale - Le microbe de la fièvre jaune. Inoculation préventive. Note de MM. D. Freire et Rebourgeon, présenté para M. Bouley". Comptes Rendus des Séances de l'Academie des Sciences, t. XCIX, séance du Lundi 10.11.1884, nº 19, p. 806. A tentativa feita por Pasteur, em 1881, para identificar o micróbio da febre amarela foi malsucedida, como mostra Vallery-Radot (1951). Igualmente frustrados foram os esforços feitos por d. Pedro II para convencê-lo a vir ao Brasil para decifrar a etiologia e prevenção da doença. Parte da correspondência entre Pasteur e d. Pedro II acha-se em Vallery-Radot (1930, pp. 397-411). As cartas aí reproduzidas e outras encontram-se no Museu Imperial, Setor de Documentação e Referência, Arquivo da Casa Imperial (Petrópolis). Sobre as relações de d. Pedro II e Pasteur, ver também Franco (1969, pp. 55-6); sobre a história da vacina antivariólica no Brasil, Fernandes (1999).

6 As comunicações apresentadas em Paris foram: "Thérapeutique. Résultats obtenus par l'inoculation préventive du virus atténué de la fièvre jaune, à Rio de Janeiro. (En collaboration avec mm. Gibier et C. Rebourgeon)", Comptes Rendus des Séances de l'Academie des Sciences, avr. 1887, t. 104, pp. 1.020-2; e "Médecine expérimentale. Du microbe de la fièvre jaune et de son atténuation". Deuxième note de mm. Domingos Freire, Paul Gibier, Claude Rebourgeon", Comptes Rendus Hebdomadaires des Séances de l'Academie des Sciences, 21.03.1887, t. 104, pp. 858-60; "Conférence sur la fièvre jaune, prononcée devant la Société de Thérapeutique Dosimétrique de Paris", Repertoire Universel de Médicine Dosimétrique. Paris, mai. 1887. A comunicação lida em 7 de setembro, na 15ª seção do Congresso de Wasdhington (Public and International Hygiene), intitulava-se "Vaccination avec la culture atténuée du microbe de la fièvre jaune". Foi resumida em Medical News (17.09.1887, v. 51, pp. 330-4), no Jornal do Commercio, O Paiz e Gazeta de Noticias (22-23.08.1899) e Brazil-Medico (no 33, 01.09.1899, p. 319). Freire escreveu mais de uma centena de trabalhos sobre química, medicina e saúde pública, sob forma de relatórios, compêndios, livros, monografias e comunicações.

7 United States Marine Hospital Service. Report on the Etiology and Prevention of Yellow Fever by George M. Sternberg, Lieut. Colonel and Surgeon , U. S. Army. Published by order of the Secretary of the Treasury, in accordance with the act of Congress aproved March 3,1887.Washington: Government Printing Office, 1890.

8 Lacerda relata parte de sua trajetória na instituição nos Fastos do Museu Nacional (1905). A melhor fonte biobibliográfica ainda é a coletânea publicada pelo Museu Nacional em 1951. Omite, porém, os trabalhos sobre febre amarela e bacteriologia, que são analisados em Benchimol (1999).

9 Nascido no Rio de Janeiro, em 1855, de pais suíços, Lutz diplomou-se em medicina em Berna, em 1879, depois freqüentou importantes laboratórios na França, Alemanha e Inglaterra onde conheceu Lister e Pasteur. De 1882 a 1886 exerceu a clínica no interior de São Paulo, sem deixar de publicar em revistas alemãs artigos sobre parasitos do homem e de animais e sobre a ancilostomíase, a hepatite amebiana e a lepra. Trabalhou com o dermatologista Paul Gerson Unna, em Hamburgo e, por indicação deste, dirigiu o leprosário da ilha Molucai, no Havaí, de novembro de 1889 a julho de 1892. Lá se casou com a enfermeira inglesa Amy Fowler, e iniciou os estudos sobre moluscos que mais tarde seriam de grande proveito para as suas pesquisas sobre a esquistossomose mansônica. De início, foi subdiretor do instituto bacteriológico fundado em São Paulo, em julho de 1892, mas em março de 1893 assumiu a direção abandonada por Felix le Dantec, que regressou à França com os materiais que recolhera para estudar a febre amarela. Ver a esse respeito Corrêa (1992, pp. 143-56), Silva (1992, pp. 157-204) e Lacaz (1966, v. 2, p. 6).

10 Em 1880, na Argélia, Charles Louis Alphonse Laveran descobriu nos glóbulos sangüíneos de doentes o hematozoário que causava a malária (Plasmodium). A demonstração de uma etiologia dessa natureza era dificultada pela complexidade dos ciclos de vida dos animais deste sub-reino, a ausência de um sistema de classificação preciso e a dificuldade de se obterem meios artificiais para seu cultivo. Nos anos seguintes, Camillo Golgi e outros investigadores elucidaram o ciclo de reprodução vegetativa das células; sua multiplicação no sangue por esporulação e a relação disso com o aparecimento da febre; a presença de três variedades do parasito no organismo humano, responsáveis pelas febres quartã, terçã e irregular ou perniciosa. O trabalho que Freire publicou em 1892 intitulava-se Sur l'origine bactérienne de fièvre bilieuse des pays chauds (1892). O primeiro trabalho de Fajardo sobre malária, em frontal desacordo com Freire, chamava-se "O micróbio da malária" (1892-1893). A controvérsia está documentada em Benchimol (1999, pp. 299-344). Sobre as pesquisas e controvérsias internacionais relacionadas à malária ver Busvine (1993, pp. 18-27) e Harrison (1978).

11 Foram sondados também o engenheiro sanitário inglês Edmund Alexander Parkes; Émille Duclaux, sucessor de Pasteur; Rubner, diretor do Instituto de Higiene de Berlim e Friedrich Löffler, descobridor do bacilo da difteria. Segundo a boden theorie (teoria do solo) de Pettenkofer, para que ocorresse uma epidemia, além do germe, eram necessárias determinadas condições relativas ao lugar, ao tempo e aos indivíduos. Elas explicavam tanto os acometimentos como as imunidades, ie., o fato de certos períodos e lugares permanecerem refratários à doença. As variáveis sazonais e locais agiam sobre o germe, que amadurecia e se transformava em matéria infectante. O cadinho da transformação, análoga à que convertia a semente em planta, era o solo. Para os partidários de Pettenkofer no Rio de Janeiro, a equação correta da insalubridade urbana era "pântano abafado" + matéria orgânica em putrefação + oscilações do lençol d'água subterrâneo = epidemias. Sobre esse assunto ver Benchimol (1999, pp. 249-98) e Hume (1925, 390-53).

12 A conferência foi publicada em O Paiz (10.06.1897) e condensada em O Brazil-Médico (22.06.1897, pp. 209-20). Sanarelli submeteu duas comunicações aos Annales de L'Institut Pasteur (1897). Foram publicadas também Annaes da Academia de Medicina do Rio de Janeiro (1897). As experiências com o soro foram relatadas em conferência na Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, em 08.03.1898. Seguindo os seus passos, Wolf Havelburg apresentou seus resultados ao Instituto Pasteur e em conferência no Rio de Janeiro. Os resultados de outros concorrentes, como Chapot Prévost, Johannes Paulser e João Batista de Lacerda, e as controvérsias suscitadas por estes trabalhos acham-se em Benchimol (1999, pp. 345-382). Neste ambiente competitivo, o alinhamento mais conspícuo opunha Sanarelli e Freire, que também proferiu concorrida conferência na Faculdade de Medicina para contestar o italiano.

13 Em maio de 1897, às vésperas da conferência de Sanarelli, o deputado Serzedelo Corrêa propôs à Câmara o 'Prêmio Pasteur', a ser concedido a quem apresentasse parecer unânime da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, do Instituto Koch de Berlim e do Instituto Pasteur de Paris (Congresso Nacional, Annaes da Camara dos Deputados, 1897, vol. 1, pp. 354-7). Em junho, o deputado Alcindo Guanabara apresentou projeto alternativo: o governo nomearia uma comissão com profissionais de reconhecida competência para estudar a vacina de Freire (ibidem, pp. 400-1).

14 A transmissão da filária pelo Culex, do hematozoário da febre do Texas por carrapatos e do protozoário da nagana, outra doença de bovinos e eqüinos, pela mosca tsé-tsé fora divulgada no Brasil antes da descoberta de Ross e Grassi, em 1897. Em 1898, podia-se ler nos jornais que os insetos disseminavam os micróbios do carbúnculo, da oftalmia do Egito, do botão de Biskara, do piã (bouba) e do mormo. Yersin teria verificado que moscas mortas carregavam o bacilo da peste e podiam, portanto, infectar as águas de beber. E Joly confirmara que depositavam os bacilos da tuberculose nos alimentos e bebidas, carregando-os consigo mesmo depois de mortas e dessecadas, idéia já sustentada por Utinguassú e Araújo Goes, na Academia de Medicina, em outubro de 1885. Sanarelli (1897) formulou a hipótese de que existiria um mofo com poder "específico" de estimular o desenvolvimento das colônias do bacilo icteróide nas regiões onde a febre amarela era endêmica. Lacerda (1900) apresentou então o aspergillus icteroide: seus esporos seriam as "muletas" com que o bacilo deixava as atmosferas confinadas para proliferar à distância. Acrescentou, em seguida, as moscas, por haver encontrado suas dejeções misturadas às colônias de bolor e bacilos.

15 Myers faleceu em Belém, em 29.01.1901, vítima da doença que fora estudar. Outro investigador de Liverpool encerrou a carreira ali. Harold Howard Shearme Wolferstan Thomas morreu em Manaus, em 08.05.1931, depois de passar vinte anos no "The Yellow Fever Research Laboratory". Antes disso, estudara tripanossomíases na África, verificando, em 1904, o valor terapêutico do atoxyl, primeira substância capaz de inibir a ação dessa espécie de protozoários em animais. Em abril de 1905, junto com Anton Breinl, iniciou a 15º expedição ultramarina da Escola de Liverpool. Ao chegarem à Amazônia contraíram a febre amarela. Breinl regressou à Inglaterra; Thomas permaneceu (Miller, 1998, pp. 34-40; Smith, 1993; Benchimol, 1999, pp. 402-3).

16 Apesar de haver demonstrado que o soro filtrado de um doente podia contaminar um voluntário saudável, só a transmissão em série provaria que o agente era um vírus ultramicroscópico. A transmissão isolada não excluía a toxina secretada por uma bactéria (Löwy, 1990, 1991). A etiologia viral, como veremos, só foi estabelecida em 1927, por Stockes, Bauer e Hudson.

17 Os cientistas do Instituto Pasteur produziram quatro relatórios que foram publicados nos Annales de L'Institut Pasteur (1903, 1906). Foram publicados em O Brazil-Medico (1903) e na Revista Medica de S. Paulo (1904, 1906,). Escreveram também sobre a espirilose das galinhas (1903) e febre amarela e malária em Vera Cruz (1906).

18 Um detalhe ilustra o desejo de Oswaldo Cruz de distanciar-se da "tradição" bacteriológica local. Na entrevista que precedeu a admissão de Ezequiel Dias (1918, p. 12) no Instituto, a pergunta foi: "O Senhor conhece alguma coisa de bacteriologia?" Ao contrário do que imaginava o assustado acadêmico, seu "não" lhe abriu as portas do emprego. Mais tarde, escutou de Oswaldo Cruz a explicação: "porque se você soubesse alguma coisa da matéria, devia ser muito pouco, só servindo para lhe dar presunção, e, portanto, dificultar o seu aprendizado. E eu prefiro certos ignorantes."

19 A decisão de regressar ao Brasil incógnito forneceu a chave para compor a imagem ideal do "sábio". Freire era exibido e vaidoso, este, retraído, avesso a manifestações públicas. Oswaldo Cruz visitou o Instituto Pasteur e o Instituto de Pesquisas Médicas fundado por Rockefeller em Nova York. Entrevistou-se com Theodore Roosevelt, dando-lhe garantias de que a esquadra norte-americana, em manobras de guerra, poderia desembarcar seus tripulantes no Rio de Janeiro, sem temer a febre amarela. Participou da Convenção Sanitária realizada no México, em dezembro de 1907, na qual os governos da América Central subscreveram, como queria a Casa Branca, o compromisso de criarem legislações e serviços para erradicar a febre amarela de seus territórios.

20 Carta patente n. 5566, Diário Oficial de 06.12. 1908. O termo de cessão foi registrado em 24.03.1909, no livro 5, fll. 132, do registro geral de privilégios, da Diretoria Geral de Indústria do Ministério da Viação e Obras Públicas. A esse respeito ver Albino A. Taveira, "Resumo histórico da vacina contra o carbúnculo sintomático (peste da Manquiera)", documento datilografado, 1944. Arquivo da Casa de Oswaldo Cruz.

21 Segundo Fonseca Filho (1974, p.69), nas leishmanioses viscerais, antes da introdução dos antimoniais por Gaspar Viana, a taxa de mortalidade era de 70%, às vezes 98%. Com a nova medicação, baixou para 20%.

22 Encontram-se as referências sobre a descoberta de Chagas e sua trajetória pessoal e científica na biblioteca virtual residente em

http://www.prossiga.br/chagas/. O Prêmio Schaudinn foi conferido por um júri composto por Blanchard, Laveran, Metchnikoff, Roux, Celli, Golgi e Grassi, Koch, Ehrlich, Von Hertwig e Boetschli; Patrick Manson, Nutall, Ray Lankaster, Ronald Ross, Kitasato, Ishikawa, A. Von Heider, Paultauf, Shewiakoff, Wladimoroff, G. Novy e E. B. Wilson. Portugal era representado pelo alemão Kopke, organizador da Escola de Medicina Tropical de Lisboa, e o Brasil, por Oswaldo Cruz.

23 O conjunto arquitetônico original de Manguinhos incluía um aquário, com piscinas para cultura de animais de água doce e salgada, esta em comunicação direta com o mar. Foi demolido em 1945, por ocasião da abertura da avenida Brasil, que interrompeu sua ligação com o mar (Benchimol, 1990, pp. 126-8; Fonseca Filho, 1974, p. 114).

24 Carta de Rocha Lima a Neiva, Moses e Farias (ca. 1910). Arquivo Arthur Neiva. Correspondências. Fundação Getúlio Vargas/ CPDOC. Sobre o concurso e seus desdobramentos, ver Benchimol e Teixeira (1993, pp. 35 e ss); Chagas Filho (1993, pp. 94-96).

25 O livro em que estão encadernados os documentos relativos ao concurso é um peça documental interessantíssima (Carlos Chagas -Documentos. Arquivo Carlos Chagas. COC) Revelam a complexa engenharia subjacente aos critérios de avaliação que acabaram por predominar na seleção do novo chefe de serviço.

26 A chefia da DGSP passou para outro pesquisador de Manguinhos, Figueiredo de Vasconcelos, que se demitiu pouco tempo depois em protesto contra a política de saúde de Hermes da Fonseca, eleito presidente em março de 1910.

27 Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Dicionário histórico, geográfico e etnográfico do Brasil, publicado por ocasião da Exposição Comemorativa do Centenário da Independência, em 1922. Baseamo-nos em texto datilografado de autoria de J. P. Fontenelle que, presume-se, serviu de rascunho para o seu artigo nessa obra (pp. 50-60). Embora o Ancylostoma duodenale, helminto nematóide que parasita a mucosa do intestino delgado do homem, tenha sido descrito em 1838 por Dubini, o termo ancilostomose ganhou notoriedade em 1880, quando foi identificada como a doença que acometera grande parte dos operários que construíam o Túnel de São Gotardo.

28 Foram instalados na Gávea, Pilares (Inhaúma), Madureira, Penha, Bangu, Campo Grande, Guaratiba e Santa Cruz. Criaram-se depois os postos de Anchieta e Marechal Hermes. Fontenelle, op. cit.

29 Relatório da Diretoria do Serviço Sanitário ao Secretário do Interior, 13/02/1917, p. 3. Apesar do "de pleno acordo" aposto pelo secretário do Interior, parece que a proposta de Neiva não foi levada à prática. Uma comissão paritária foi a solução conciliatória.

30 "Programa apresentado por Arthur Neiva ao conselheiro Rodrigues Alves para Reforma de Higiene no Brasil, por ocasião do convite que daquele estadista recebeu para diretor da saúde pública, e por ele aprovado integralmente - 23.11.18." Neiva reporta-se a observações registradas nas páginas 126-130 do relatório de viagem que publicara com Belisário Penna: "Viagem científica pelo norte da Bahia, sudoeste de Pernambuco, sul do Piauí e do norte a sul de Goiás", Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, tomo VIII, fasc. III, 1916. Refere-se, também, à polêmica que travavam médicos da Bahia sobre a existência ou não do mal do interior do estado.

31 O Serviço de Medicamentos Oficiais foi criado pelo dec. n. 13.000, de 01.05.1918, e regulamentado em 6.7, pelo dec. n. 13.055. Sofreu modificações em 28.8, no dec. n. 13.159, ganhando novo regulamento com o dec. 14.0646, de 26.10.1921. O Serviço de Análise de Soros e Vacinas consta como atribuição de Manguinhos no dec. n. 14.354, de 16.09.1920 que reformou o DNSP. A incorporação do Instituto Vacinogênico Municipal figura no dec. n. 3.987, de 2.1.1920, e seu regulamento, no dec. n. 14.629, de 17.01.1921. Quanto aos novos regulamentos do Instituto, são eles o dec. n. 13.527, de 26.03.1919, e dec. n. 17.512, de 05.11.1926.

32 Em 1907, durante os debates parlamentares que resultaram na criação do IOC, essa atribuição foi proposta pela Academia Nacional de Medicina e incluída no substitutivo da Comissão de Saúde da Câmara. No entanto, fortes reações determinaram sua supressão. Em 8.7. 1907, O Paiz, por exemplo, argumentou: "tomar para Manguinhos o direito de ir buscar nos laboratórios a vacina ou soro que queira, examiná-los e só permitir o seu fornecimento ao público depois da licença daquele instituto, que vende soro, e venderá vacina, se quiser, é estabelecer um princípio de monopólio odioso, que não se coaduna com as normas republicanas e com a liberdade de comércio".

33 Nos debates parlamentares de 1907, a fabricação da antivariólica em Manguinhos foi questão polêmica, tendo sido incluída e depois suprimida do projeto de lei que criou o IOC. Os jornais endossaram o argumento de Pedro Afonso: seria tecnicamente condenável a coexistência, num mesmo local, da produção da antivariólica e de outras vacinas. Defendendo os direitos de propriedade, Pedro Afonso argumentava que na França "apesar de seus modelares institutos de bacteriologia (...) a vacina antivariólica está a cargo do estabelecimento particular de Chambon e Menard" (Jornal do Commercio, 27.06.1907). Ainda estavam frescas as lembranças da Revolta da Vacina. Pedro Afonso recorreu a uma espécie de chantagem: "Com dificuldade se convenceu o público da vantagem desta forma de imunização. Os que querem vacinar-se confiam plenamente na linfa que o Instituto Vacinogênico prepara (...) Por uma questão de predomínio absurdo, de vaidade pessoal ou, quem sabe?, de antipatia ao barão de Pedro Afonso, ter-se-á vibrado um golpe terrível na propaganda da vacinação" (Tribuna, 21 e 27.06.1907). Em 1912 o ministro da Justiça consultou Oswaldo Cruz sobre a incorporação da antivariólica a Manguinhos, mas ele recusou (Minutas de Ofício). Ver, no Arquivo da COC: Albino A. Taveira, "Resumo histórico da transferência do Instituto Vacínico Municipal para o Instituto Oswaldo Cruz", RJ., dat., s/d.

34 Godoy, que já desfrutava de 8% sobre a renda da manqueira, foi, junto com Astrogildo Machado, o primeiro a se beneficiar dessa resolução, obtendo 12,5% sobre o produto líquido da venda da nova vacina contra o carbúnculo hemático.

35 Relatório de 1920 (datilografado). Arquivo da Casa de Oswaldo Cruz.

36 Decreto nº 16.782-A, de 13.01.1925.

37 O Curso de Higiene e Saúde Pública, de extensão, durava doze meses, e se compunha das cadeiras de epidemiologia e profilaxia geral; higiene alimentar; saneamento urbano e rural; higiene pré-natal, infantil e escolar; higiene industrial e profissional e administração sanitária. Com relação ao Curso de Aplicação, em Manguinhos, a partir de 1926 os alunos puderam inscrever-se no curso completo, com direito a diploma e à admissão no curso especial de Higiene e Saúde Pública, ou em apenas uma de suas partes, obtendo certificado de freqüência. Essencialmente prático, durava dez meses. Os pesquisadores designados para ministrarem suas disciplinas passaram a receber pró-labore pago com a renda de Manguinhos.

38 A partir de 1930, assumiu uma rotina de exames microscópicos, culturas e inoculações, atendendo, só naquele ano, 6.841 casos clínicos, no próprio instituto ou na Faculdade de Medicina, no Laboratório de Clínica Dermatológica e Sifilográfica.

39 H. Noguchi, "A method for the cultivation of pathogenic Treponema pallidum", J. Exper. Med., 1911, 14: 99-108. Também, "The direct cultivation of Treponema pallidum pathogenic for the monkey", J. Exper. Med., 1912, 15: 90-100. A monografia que escreveu foi publicada mais tarde como capítulo ("The Spirochaetes") do livro de Jordan e Flak, Newer Knowledge in Bacteriology (Univ. of Chicago Press, 1928, pp. 432-496). Segundo Clark, tornou-se um clássico, era muito bem ilustrado com desenhos do próprio Noguchi.

40 H. Noguchi, "Additional studies on the presence of Spirochaeta pallida in general paralysis and tabes dorsalis". Journal of Cutaneous Diseases, 1913, 31: 543-49.

41 Segundo Eckstein (1931, p. 278), o governo ofereceu-lhe um laboratório e um bom salário para que ficasse.

42 Hideyo Noguchi, "Cultivation, morphology, virulence and biological properties of Leptospira icteroides. J. Exper. Med., 1919, 30: 13-29.

43 "É a Pfeiffer que devemos a descoberta das bacteriolisinas. Ao estudar com Issaeff o que acontecia com os vibriões coléricos injetados na cavidade peritonial de animais em estado de imunidade anticolérica, viu que se transformavam em grânulos. Constatou em seguida que o mesmo fenômeno se produzia na cavidade peritonial de um animal normal, quando se injetava ao mesmo tempo que os vibriões certa quantidade de soro anticolérico. As diversas fases dessa transformação, à qual se deu o nome de fenômeno de Pfeiffer, podem ser seguidas facilmente sob o microscópio. ... Pfeiffer encontrou as mesmas substâncias capazes de dissolver os vibriões no sangue de indivíduos que tinham sofrido um ataque de cólera. Em contrapartida, um soro normal não apresenta nunca uma ação análoga, mesmo quando empregado com concentrações muito elevadas." (Kolle e Hetsch, 1918, vol. 1, p. 133).

44 Hideyo Noguchi, "Mosquitoes in relation to yellow fever". J. Exper. Med., 1919, 30: 401-410.

45 Sobre a epidemia no México e o uso da vacina de Noguchi ver Armando Solorzano, "The Rockefeller Foundation in Revolutionary Mexico. Yellow Fever in Yucatan and Veracruz". In Cueto (org.), 1994, pp. 52-71.

46 Técnica em que o objeto recebe feixes luminosos fortemente inclinados em relação ao eixo óptico do microscópio, aparecendo, ao observador, brilhante em um campo escuro.

47 Aristides Agramonte: "Some observations on yellow fever prophylaxis". In Proceedings of the International Conference on Health Problems in Tropical America, 1924, Boston: United Fruit Co., 1924.

48 M. Theiler e A. W. Sellards, "The relationship of L. Icterohaemorrhagiae and L. Icteroides", The American Journal of Tropical Medicine 6 (1926): 383-402. Apud Plesset, p. 242

49 Filho de um grande cientista sul-africano, o veterinário Arnold Theiler, Max Theiler nasceu em Pretória, em 1899, e faleceu em Connecticut, em 1972. Fez estudos de aperfeiçoamento em Londres e ingressou na Harvard Medical School, transferindo-se para o Instituto da Rockefeller em 1930. Lá permaneceu por 34 anos realizando pesquisas fundamentais sobre a febre amarela, sobre a doença de Weil e o dengue. Estudou também a poliomielite, identificando uma doença similar em camundongos, chamada doença de Theiler (Dubb, 1999, pp. 20-1).

50 Entre 1916 e 1919, a renda arrecada dobrou (de 362:204$290 para 610:176$697). De 1919 a 1920, aumentou em 151:822$063, e em apenas 3:368$190 entre este ano e 1921. Por sua vez, as despesas com pagamento de pessoal e material, custeadas pela renda própria, aumentaram continuamente: em 1920 totalizavam 649:547$838, mais 131:476$029 correspondentes à percentagem dos descobridores de produtos patenteados; no ano seguinte, 750:464$000, mais a percentagem de 128:087$727. Houve, assim, déficits de 113:435$888, em 1921, e de 117:611$400 em 1923, quando a despesa foi de 662:064$000, mais 77:979$535 aos descobridores e ainda 2:082$000 de selos sanitários. Neste último ano, a renda líquida caiu 158:656$912 em relação a 1922, devido à retração dos mercados consumidores, sobretudo Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, onde as lutas políticas e a forte crise industrial restringiram a procura das vacinas de uso veterinário. Entre 1924 e 1925, as despesas correntes aumentaram em 221:989$755, absorvendo toda a renda do instituto. No ano seguinte, elevaram-se para 774:439$000, mais 127:217$700 pagos aos descobridores e também como gratificação a funcionários. Em 1928, a maior arrecadação do instituto ainda foi insatisfatória. No ano seguinte, despencou com a inadimplência generalizada que marccou o início da crise econômica mundial.

51 Exposição feita pelos funcionários técnicos do Instituto Oswaldo Cruz ao Exmo Sr. Ministro do Interior e Justiça e aos homens públicos do pais. Rio de Janeiro: Empreza Graphica Editora Paulo Pongetti & C., 1925, 7 pp.

52 Caiu de 2.460:168$00 para 1.872:812$000. Instituto Oswaldo Cruz. Relatório de Atividades 1931, p.4. Fundo IOC, Seção Serviço de Administração, Série Administração Geral, Caixa 26, Maço 6.

53 Fundo IOC, Seção Serviço de Administração, Série Administração Geral, Caixa 26, Maço 5.

54 As vendas a particulares foram abolidas de vez pela diretoria do instituto em 1949, visto que não compensava manter uma estrutura para esta finalidade diante dos poucos recursos que gerava.

55 Ofício no 068/84, de 14.02.1944 (Fundo Presidência, Caixa 181, Maço 7). No dia 06.07.1944, o Diário da Noite trazia a manchete "Descoberta em Manguinhos a cura da gripe". No dia seguinte, o Diário Carioca previa a difusão da vacina pelo mundo inteiro.

56 As experiências com a bouba — também chamada Framboesia tropica — foram feitas por Marques da Cunha e Nery Guimarães, que visitaram as zonas endêmicas do estado do Rio, trazendo vários doentes para o Hospital Evandro Chagas. Os resultados publicados nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, em março de 1944, foram os primeiros no mundo sobre o tratamento da doença pela penicilina. Em 1945, Guimarães assumiu a chefia de um Posto de Estudos sobre a Bouba em Rio Bonito, depois em Araruama. Mais de mil boubáticos foram tratados pelo sistema de albergagem. O trabalho de vigilância perdurou até 1955, obtendo-se total controle da enfermidade na região de Maricá, Saquarema, Rio Bonito, Araruama, São Pedro da Aldeia e Silva Jardim.

57 O decreto-lei n.º 8686, de 16.01.1946, determinou a anexação do IOC à Universidade do Brasil. A revogação da medida ocorreu em 16.03, por meio do decreto-lei n.º 9077, que também estabeleceu o vínculo direto entre o instituto e o Ministério da Educação e Saúde.

58 Os cientistas que assinam o memorial foram Lauro Travassos, chefe da Divisão de Zoologia Médica; Souza Araújo, chefe da Divisão de Microbiologia e Imunologia; Otávio de Oliveira, chefe da Divisão de Higiene; Arêa Leão, chefe da Seção de Micologia; Genésio Pacheco, chefe da Seção de Bacteriologia; Teixeira de Freitas, chefe da Seção de Helmintologia; Gilberto Vilela, chefe da Seção de Química; Osvaldo Peckolt, chefe da Seção de Ensaios Biológicos e Controle; Laerte de Andrade, chefe da Seção de Bioclimatologia; Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, chefe da Seção de Nutrição; e Fernando Ubatuba, chefe da Seção de Endocrinologia. E mais: Oscar Dutra e Silva, Henrique Penna, José Fonseca da Cunha, Amadeu Cury, Gobert Costa, Arlete Ubatuba, Rubem do Nascimento, Pimenta de Melo, Adolfo da Rocha Furtado, Mazao Goto, Alcindo Pinto Figueiredo, Eitel Duarte, Laura Tavares de Queiroga, Antônio Augusto Xavier, José Joaquim Rodrigues Bastos, Metelo Neto, Maria Izabel de Melo, Humberto Teixeira Cardoso, Rocha Lagoa, Rita Cardoso, Madureira Pará, Miguel Osório de Almeida, Augusto Perissê, Moacir de Andrade, Yderzio Luiz Viana, Haity Moussatchil, Mary Wadell, Hugo Laemert, Oswaldo Cruz Filho, Murilo Cardoso Fontes, Augusto José Lisboa de Nina Ferreira e Maria de Lourdes Santos. Oswaldo Cruz Filho e Cardoso Fontes retiraram posteriormente os seus nomes. (ver Diário do Congresso Nacional, 25.06.52; O Radical, 03.12.52; Correio da Manhã, 22.02.52 e 31.05.53).

59 As contratações figuravam em oito portarias (nºs. 46 a 53), publicadas no Diário Oficial de 15.04.1952, às pp. 6.048-50. Para dar cabo da epidemia, Manguinhos estava importando vacinas da Colômbia, cujo laboratório fora recentemente reorganizado com a ajuda de um técnico do Instituto, Henrique Penna. Além disso, Olímpio conseguiu CR$ 100 mil do SNFA para a fabricação da vacina.

60 Segundo o Correio da Manhã (31.05.1953), Aragão contratara apenas 13 técnicos pela verba de serviços e encargos. As novas atividades relacionadas por Fonseca Filho eram: Serviço Geral de Aparelhos, Oficina de Mecânica de Precisão, Serviço de Microfilmagem, Laboratório de Microquímica, Laboratório de Eletrônica e Eletromicroscopia, Laboratório de Entomologia Geral e Laboratório de Endocrinologia. Quanto aos cursos, foram listados: Química Orgânica; Bioquímica; Anatomia Patológica; Entomologia Geral; Hematologia; Eletrônica e Eletromicroscopia; Fotomicrografia e Fotografia Científica; Hidrobiologia; Matemática aplicada à Química e à Biologia; e um curso sobre Tecnologia Alemã, entre outros. As unidades supostamente criadas foram: "Prosseguimento de estudos relativos a grandes endemias", "Desenvolvimento de estudos das moléstias produzidas por vírus"; "Investigações científicas referentes à lepra"; "Pesquisas sobre nutrição, higiene do trabalho e outros encargos"; "Pesquisas puras e aplicadas relacionadas com as plantas medicinais brasileiras"; "Pesquisas sobre penicilina e outros antibióticos" e "Estudos e pesquisas sobre a febre amarela e preparo da vacina antiamarílica". Posteriormente, consultado pelo senador Domingos Velasco, Olympio da Fonseca negou a existência destas seções, mas o periódico O Radical (14.03.1953) reproduziu portaria assinada por ele determinando a contratação de funcionários para a seção "Prosseguimento de estudos relativos a grandes endemias".

61 Fato relatado por Fonseca da Cunha, em entrevista à Casa de Oswaldo Cruz (8ª entrevista, 03.03.88). Tomou conhecimento do comentário de Vargas por intermédio da dr.ª Laura Queiroga, que era amiga de Balbino.

62 Em circular enviada aos técnicos do IOC, Paulino de Mello Fontes, chefe da Seção de Administração do instituto, informa que a comissão estava aberta às sugestões dos pesquisadores. Ela já teria adotado alguns "princípios básicos": "a concessão [ao instituto] de ampla autonomia técnica, científica, didática, administrativa e financeira" e a "proposta ao governo para que não [fossem] restringidas ou limitadas as atribuições e atividades [do] instituto..." Ofício-circular enviado pelo sr. Paulino de Mello Fontes aos técnicos do IOC, em 15.01.1953. Ofício-circular. No 83. Pasta: Correspondência recebida e enviada - IOC/1950-1953 - III.

63 Fonseca da Cunha (8ª entrevista, 03.03.1988). Em depoimento à Casa de Oswaldo Cruz (3ª entrevista, 1986), Francisco Laranja explicou que a vontade de Vargas era o retorno de Aragão ao cargo de diretor. Como este se negou a aceitar a incumbência, foi-lhe solicitada a lista com os três nomes. Após consulta de Miguel Couto a pesquisadores, o nome de Laranja teria surgido como o menos problemático, por sua não vinculação ao instituto.