Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 35 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

Críticas às vacinações em Manguinhos

Vacinação na Fazenda Pedra Negra, em Três Pontas, MG, 15 de

agosto de 1937.

Coc/Fiocruz

 

Críticas às vacinações em Manguinhos

À instituição que supostamente representava a comunidade médica do país, Soper comunicou este fato consumado, e a decisão de vacinar muitos milhares mais de brasileiros, não obstante considerasse a vacina ainda "em fase de observação e

experiência". 56 Pouco antes de concluir sua exposição, aludiu a críticas a certas características da vacina, que haviam determinado o adiamento da imunização do pessoal da aviação em Miami e Brownsville, nos Estados Unidos. Tal duplicidade de critérios suscitou protestos, especialmente de parte do renomado entomologista Ângelo Moreira da Costa Lima, do Instituto Oswaldo Cruz, que acusou Rockefeller de estar fazendo do povo brasileiro "cobaia de grave comprovação experimental". Ele era um dos autores da hipótese que havia provocado o adiamento das vacinações nos Estados Unidos. Argumentava que o vírus circulante no sangue das pessoas vacinadas poderia ser sugado pelo Aedes aegypti, recuperando suas antigas propriedades viscerotrópicas, ao passar sucessivamente do mosquito para outros hospedeiros humanos. Em artigo publicado na Revista Médico-Cirúrgica do

Brasil 57 , em março de 1938, Costa Lima aventaria também a possibilidade de que o vírus "camarada" pudesse infectar os transmissores ainda mal conhecidos da febre amarela silvestre, readquirindo suas propriedades patogênicas mediante passagens sucessivas pelos animais que habitavam a mata. Segundo o entomologista de Manguinhos, enquanto não tivesse respostas seguras para essas questões, a Rockefeller deveria tratar a população brasileira com o mesmo escrúpulo que dispensava aos norte-americanos.

Na conferência de novembro de 1937, Soper argumentou que aquele era um risco subjacente a qualquer vacinação com vírus vivo. Disse também que o Laboratório de Febre Amarela do Rio de Janeiro já tinha iniciado estudos para verificar se o Aedes aegypti podia se infectar picando indivíduos vacinados, e se transmitiria o vírus vacínico a séries de Macacus rhesus. Confessava, porém, que não levava muito a sério aquela possibilidade, considerando a dificuldade de transmissão da febre amarela pelo Aedes aegypti, quando nos animais em experiência circulavam apenas pequenas quantidades de vírus, como acontecia com os vacinados. Além disso, tão provável quanto a hipótese de Costa Lima, era a de que, "pelo menos durante muitas passagens, o vírus mantivesse no mosquito suas qualidades culturais de vírus próprio para vacina, e assim se comportasse como o vírus 17D, quando é ele inoculado diretamente da cultura" (Soper, 1937, p. 388).

Em trabalho publicado em janeiro de 1939, Loring Whitman (jan. 1939, pp. 19-26) demonstrou que, em condições especiais, conseguia-se transmitir por meio do Aedes aegypti o vírus neurotrópico usado anteriormente na preparação da vacina, mas que isso não acontecia com o 17D. Na X Conferência Sanitária Pan-Americana (1938), Soper declarou que tinham fracassado as tentativas de infectar o mosquito, fazendo-o picar pessoas e macacos inoculados com o vírus "camarada",