Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 71 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

Febre amarela no Brasil

Como vimos no capítulo dois, em 1958, o Brasil e outros países americanos foram oficialmente declarados livres do Aedes aegypti. Decorreu uma década de total despreocupação com o perigo representado pela febre amarela urbana. As últimas epidemias tinham ocorrido, no Brasil, em Sena Madureira, Acre, em 1942, e em Trinidad e Tobago, em 1954. A vigilância afrouxou, e o eficiente sistema estruturado pela Fundação Rockefeller e mantido pelo Serviço Nacional de Febre Amarela foi, aos poucos, se desfazendo, sobretudo depois que passou à jurisdição do Departamento Nacional de Endemias Rurais. Em 1967, o Aedes aegypti ressurgiu no Pará. No ano seguinte, foi reencontrado também em São Luís do Maranhão e em dois ou três municípios próximos.

A muito custo, conseguiram-se os recursos para reorganizar um serviço similar ao que havia sido o SNFA, incumbindo-se um antigo funcionário deste, o dr. Pedro Freire Fausto, das operações destinadas a eliminar, primeiro, a reinfestação do Maranhão e, em 1972, a do Pará (Calheiros, 1988, pp. 189-96). De acordo com o sanitarista Nelson Moraes, "foi uma tarefa gigantesca, apesar de serem cidades pequenas. O mosquito era resistente ao DDT, e tivemos que usar inseticidas fosforados, caros e difíceis de se lidar. Nessa época, procedemos à vacinação em massa das populações da região" (Jornal do Brasil, set. 1977).

Em 1976, houve novo sobressalto, quando se localizou o Aedes aegypti na Bahia. O país continuava desaparelhado para enfrentar o problema, e o mosquito foi reconquistando seu território primitivo: chegou às cidades do Rio de Janeiro e Natal em 1977, apareceu em Santos em fevereiro de 1980, estaria presente em 226 municípios seis anos depois, ao irromper nas manchetes dos jornais como protagonista de um 'novo' tipo de epidemia urbana, o dengue.

Segundo as autoridades, a reinfestação se teria dado por via de navios procedentes da África, do Caribe e do país que, paradoxalmente, fora sempre o mais refratário à erradicação do Aedes aegypti: os Estados Unidos, que não aderiram ao programa continental implementado, primeiro, na América do Sul, depois na América Central e no México. Seus representantes argumentavam que não tinham com que se preocupar: caso a febre amarela ressurgisse no país, com a vacina e o DDT seria rapidamente suprimida. A pressão dos países engajados no programa levou o United States Public Health Service (USPHS) a organizar, em 1957, um projeto piloto em Pensacola, na Flórida. Inicialmente, foi montado de maneira similar àquele implementado nos outros países, mas em 1960 foi radicalmente alterado. Abandonaram-se as inspeções intradomiciliares, a captura de mosquitos adultos, e a ação ficou restrita à aspersão de inseticidas nas áreas externas às habitações humanas. O projeto piloto de Pensacola serviu de base para o programa nacional elaborado em 1962-3, no governo Kennedy, por pressão dos Estados americanos — do México especialmente — e por ser conveniente à política externa do Departamento de Estado.

De acordo com Soper (1977, p. 351), que nunca se conformou com a atitude de seu país, em 1963, a área total infestada com Aedes aegypti 2 nas Américas era de 11.121.179 km, dos quais 7,1% estavam em território norte-americano; 99% dessa área foram ou estavam sendo limpos; 68% já tinham sido considerados negativos pelos respectivos governos, mas aguardavam a certificação da OPAS; 11,6% ainda estavam sendo trabalhados. Apenas 1% da área total infestada não sofrera nenhuma intervenção. Pois bem, os Estados Unidos eram o responsável por 88,6% da área infestada não trabalhada nas Américas.

Com muitas contradições entre as agências governamentais responsáveis por sua condução, o programa norte-americano de erradicação do Aedes aegypti começou a ser implementado naquele ano, mas limitando-se à aplicação de inseticidas nas áreas externas às habitações humanas, sem nenhum cuidado com a busca e destruição de focos dentro e sequer fora delas. Em 1967, o goveno dos Estados Unidos solicitou ao Bureau Sanitário Pan-Americano que nomeasse uma comissão para avaliar os resultados do programa. Foram indicados Paulo C. A. Antunes, que desempenhara importante papel na erradicação do Anopheles gambiae e do Aedes aegypti no Brasil, e os doutores Octávio P. Severo e Solón Veríssimo, igualmente experientes. A comissão esteve nos Estados Unidos em abril e maio de 1968. Depois de conversar com autoridades e agências envolvidas no programa e de visitar seu quartel-general, o CDC de Atlanta, e diversas cidades trabalhadas, apresentaram um relatório com muitas críticas e a conclusão de que não havia nenhuma evidência palpável de que a

erradicação tivesse sido alcançada naquele país.55 Ainda assim, o programa foi encerrado em 1969.

Guardas da Superintendência de Campanhas/SUCAM, do

Ministério da Saúde, pulverizam pneus, um dos maiores vilões no combate ao Aedes aegypti nas cidades. Rio de Janeiro, RJ,

cerca de 1982.

Coc/Fiocruz

Nas cidades brasileiras reinfestadas por populações de Aedes aegypti, algumas das quais originárias de lá, as equipes da Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (SUCAM) inspecionavam latas e todo tipo de recipiente propício à procriação do mosquito. Sobressaíam os pneus, os testemunhos mais ubíquos das políticas desenvolvimentistas que haviam transformado os automóveis nos bens de consumo mais cobiçados do país, e os veículos automotores em meios hegemônicos de transporte, favorecendo a disseminação de ninhos ideais para a procriação do

mosquito.56

Em março de 1980, ele estava presente nos estados do Rio, Bahia e Rio Grande do Sul, detectando-se mais 11 focos nos meses seguintes. Em junho de 1981, Belém do Pará e Santana, no Amapá, entraram na lista. Os focos resistiam às desinfeções realizadas pela SUCAM, e o mosquito continuou a se alastrar: depois do Rio Grande do Norte e de Sergipe, foi a vez de Brasília (DF), "o que começou a preocupar o próprio presidente da República, João Figueiredo" (O Estado de S. Paulo, 01.07.81). Em abril de 1982, quando foi encontrado em Niterói, Pedro Luiz Tauil, diretor do Departamento de Erradicação e Controle de Epidemias do Ministério da Saúde, declarou que os focos existentes seriam controlados num prazo de seis meses a três anos. Em 13 bairros cariocas, o índice de infestação chegara a 2,6 casas por 100, bem próximo já do índice considerado alarmante pela OMS, que era de 4 casas por

100.57

Nesse ínterim, houve um recrudescimento dos surtos de febre amarela silvestre, que começaram a se aproximar das áreas reconquistadas pelo vetor da febre amarela urbana.

Em 1972, houve um surto grave em Goiás, muito perto de Brasília. Surgiram em seguida casos em Minas Gerais e Mato Grosso, e em abril de 1974 a febre amarela silvestre alcançou a fronteira com o Paraguai, onde não era detectada desde 1937 (Soper, 1977, p. 189). Em 1979, foi recriada uma rede de quinhentos postos de viscerotomia, que enviaram 175 amostras de fígado aos três laboratórios habilitados a fazer diagnósticos, os Institutos Evandro Chagas, Oswaldo Cruz e Adolfo Lutz. Foram identificados 12 casos positivos. O número de pessoas vacinadas dobrou em 1978-9, atingindo 3,5 milhões de indivíduos, e se adotou um ciclo qüinqüenal de vacinações em todas as regiões expostas à febre amarela silvestre, supondo-se que assim se alcançaria cobertura de 80% da população vulnerável (PAHO/OMS, 1980, p.13).

Em fevereiro de 1980, houve novo surto em Goiás, com 11 casos que resultaram em cinco mortes. O superintendente da SUCAM, José Fiúza Lima, considerou-os "previsíveis", explicando que a febre amarela silvestre era uma doença "cíclica", com surtos a cada sete ou oito anos. O número de casos estava acima da média — as mortes chegariam a 21 até o final de 1980 — já que nos últimos seis anos tinham sido registrados cerca de nove casos anuais. O ministro Waldyr Arcoverde (1979-85) determinou a vacinação de 80% das pessoas sujeitas à doença na região, a começar pelos municípios próximos ao Distrito Federal (O Estado de S. Paulo, 07.03.80; Diário da Manhã , Goiânia, 31.10.81; O Globo, 14-16-28.02.80).

Em março de 1980, a SUCAM intensificou as imunizações em Rondônia (O Globo, 09.03.80) e conseguiu controlar um surto na cidade de Montes Altos, às margens do Tocantins (MA). Segundo o coordenador da SUCAM, era o preço que se pagava pelas agressões perpetradas contra a natureza pelo recém-implantado Proalcool (O Globo, 03.05.80).

Fígado humano infectado pelo vírus da febre amarela. As

células brilhantes correspondem aos hepatócitos infectados.

Detecção do antígeno viral em cortes incluídos em parafina

pela técnica de imunofluorescência. Ampliação de 400x.

Foto: Ortrud Monika Barth Schatzmayr

Acervo Departamento de Virologia/IOC/ Fiocruz

Durante aquele ano, o Ministério da Saúde registrou 27 casos de febre amarela silvestre, sendo 24 fatais, e a SUCAM aplicou 4,1 milhões de doses de vacina. O aumento dos casos levou o ministério a lançar uma campanha de vacinação contra a febre amarela silvestre, de 16 a 28 de fevereiro de 1981. Foram aplicados 12 milhões de doses até abril, prevendo-se a vacinação de seis milhões de pessoas até o final do ano. O principal objetivo da campanha era atingir a população que se deslocava para a região amazônica e o Centro-Oeste, atraída pelos grandes projetos de colonização, mineração e obras públicas.

As emissoras de rádio e televisão receberam filmes e gravações a respeito da febre amarela silvestre, exortando as pessoas a se vacinarem pelo menos dez dias antes de se dirigirem às zonas

perigosas.58 A gravidade do risco foi realçada pela notícia de que o ator Jason Robards havia contraído a doença, sendo forçado a abandonar as filmagens de Fitzcarraldo, que Werner Herzog rodava na selva amazônica, na fronteira do Peru com o Brasil (Veja , 22.04.81).

A campanha publicitária contra a febre amarela gerou protestos de parte das entidades comerciais do Acre, Amazonas, Pará e outros estados afetados. Alegando que afugentava turistas e negociantes, seus representantes enviaram telegramas a Golbery do Couto e Silva, da Casa Civil da Presidência da República, e a Waldir Arcoverde, ministro da Saúde, pedindo que o enfoque fosse modificado (O Globo, 21.03.81).

O risco crescente de infecção levou os ministérios militares a intensificarem a vacinação de seu efetivo, e o Estado Maior das Forças Armadas imunizou inclusive o pessoal lotado em Brasília (O Estado de S. Paulo, 25.06.81). Em 1981, Goiás recebeu, mensalmente, duzentas mil doses para a vacinação de rotina, em Goiânia, e para o sistema de rodízio nos municípios interioranos onde agora, de dois em dois anos, se vacinavam os recém-nascidos e os recém-chegados (Diário da Manhã, Goiânia, 31.10.81).

No começo de 1982, Arcoverde visitou Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde um surto de febre amarela silvestre já provocara sete mortes, semeando o pânico entre os habitantes da

capital e do interior. 59 As vacinações foram intensificadas naquele estado e também no Maranhão, onde ocorreram quatro casos (dois fatais) em Barra do Corda e Grajaú. Na Amazônia maranhense, passaram a ser feitas anualmente, devido à intensificação do fluxo imigratório para a região (Diário Popular, 18.06.82). O ministro da Saúde anunciou, então, que 3,8 milhões de pessoas iam ser imunizadas na Amazônia e no Centro-Oeste, até o fim de 1982 (Folha Metropolitana, Guarulhos, 13.03.82).

Os surtos de febre amarela silvestre que vinham proliferando no interior do Brasil e os focos de Aedes aegypti, que se espalhavam pela costa, colidiram em Roraima. A faísca resultante não foi a temida febre amarela urbana, mas o primeiro surto de dengue no país. Em 11 de junho, na véspera da campanha nacional de vacinação contra a poliomielite, o ministro da Saúde viajou para Boa Vista, a fim de acompanhar de perto os trabalhos da SUCAM (Jornal Boa Vista, 12.06.82). Com 215.950 habitantes, 60% dos quais concentrados na capital, Roraima faz fronteira com a Guiana e a Venezuela, o que tornava a situação particularmente delicada para as relações do Brasil com os países vizinhos. O superintendente da SUCAM, José Luiz Fiuza, atribuiu os 6.700 casos de dengue, ocorridos até então, e o aumento do número de casos de febre amarela silvestre e malária à imigração desordenada para o estado (Folha de S. Paulo, 21.06.82).

 

Coleção Ricardo Galler/IOC/Fiocruz

Doses aplicadas contra febre amarela - 1991 a 2001*

 

Sua mais importante atividade econômica era a criação extensiva de bovinos. A dificuldade de acesso ao mercado consumidor levara à construção da estrada Boa Vista — Manaus (BR-174), o que dera início a desmatamento das florestas, das quais se extraía castanha-do-pará e gomas não elásticas. O incremento da extração de ouro iria provocar sérios conflitos entre garimpeiros e índios ianomâmis, no final daquela década. A elevada pluviosidade em Roraima, além de favorecer a procriação do Aedes aegypti, tornava intransitáveis as estradas que ligavam Boa Vista a Manaus e à Venezuela, dificultando o deslocamento das equipes da SUCAM para as áreas mais afetadas pela febre amarela silvestre e a malária (Correio Braziliense, 20.06.82). Na capital, queimavam-se diariamente "centenas desses pneus encontrados em todos os pontos da região", mas eles reapareciam, proporcionando ao mosquito ambiente ideal para procriar. Em julho de 1982, Boa Vista apresentava número assustador de focos, principalmente no Centro da cidade, onde 18% das casas visitadas tinham o mosquito na forma alada ou em larvas. Estranhamente, as equipes da SUCAM

encontraram 80% das casas fechadas.60

O ministro Arcoverde declarou aos jornais que o problema da febre amarela estava ligado à expansão das fronteiras econômicas, sem que houvesse o cuidado, de parte dos empreendimentos que impeliam tais fronteiras, de vacinar os homens que recrutavam

antes de mandá-los para as matas.61 A SUCAM acabara de propor à Companhia Vale do Rio Doce a celebração de um convênio com o objetivo de prevenir não apenas a febre amarela, mas também a malária e a leishmaniose, que atingiam fortemente a região onde a empresa executava o Projeto Carajás, nos estados de Goiás, Maranhão e Pará (O Liberal, Belém, 30.06.82).

Segundo relatório do Ministério da Saúde, divulgado em fins de 1982, tinham sido detectados 24 casos de febre amarela naquele ano. Nos últimos 21 anos, o total se elevava a 271 casos, com índice de óbitos superior a 75%. O documento reafirmava a necessidade de reerradicar-se o Aedes aegypti, mas admitia que o ministério não tinha recursos para sustentar um ataque permanente ao mosquito, como recomendara o Programa de Febre Amarela no Brasil (O Globo, 31.12.82).

Esse programa havia sido elaborado por uma comissão técnica convocada pelo ministro da Saúde em fevereiro de 1980. Os especialistas, reunidos sob a coordenação do dr. Mozart de Abreu e Lima, consideraram muito grave a situação. O dengue não se tinha manifestado ainda, por isso o que mais temiam era a reurbanização da febre amarela. Um estudo de custo-benefício sobre a prevenção das doenças transmitidas pelo Aedes aegypti nas Américas, realizado em 1972 pela firma Arthur D. Little Inc., a pedido da OPAS, concluíra que a vacinação generalizada era menos vantajosa e mais

cara do que a erradicação do vetor.62 A comissão deliberou que esta devia voltar a ser uma meta prioritária do governo, devendo "merecer a atenção e apoio econômico suficientes para ser alcançada com a urgência que a perigosa situação impõe ao

país".63