Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 82 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

Vacina em cultura de tecido, um novo capítulo

O teste é cego e randomizado, de maneira que os técnicos não sabem se estão aplicando o placebo ou uma das três vacinas que se quer comparar — a original, do lote semente primário ainda em uso; aquela preparada a partir do novo lote semente, e a vacina derivada do lote 204, a cepa 17D que a Organização Mundial de Saúde distribuiu nos anos oitenta como cepa padrão, livre da leucose aviária. Ela participa do teste, porque até hoje não tinha sido feito um estudo controlado comparando-a com a 17DD, que é a linhagem de onde provêm as sementes utilizadas no Brasil desde os anos 1930 (Maria da Luz Fernandes Leal, entrevista, 21.03.2001).

 

Vacina em cultura de tecido, um novo capítulo

No começo da década de 1990, alguns técnicos de Bio-Manguinhos tentaram retomar o projeto da vacina em cultura de tecido, in vitro, mas não conseguiram recuperar os dados reunidos por Oscar de Souza Lopes, que os levara consigo para São Paulo pouco antes de falecer, em 1988. Mais tarde, nova tentativa, mais bem-sucedida, foi feita por Marcos da Silva Freire, Ana Yoshida Yamamura e George Mann, contratado como consultor de Bio-Manguinhos de novembro de 1992 a meados de 1999. Uma das primeiras questões que abordaram foi o consumo excessivo de inóculo, o impasse a que chegara Souza Lopes. Experimentaram diversos meios para tornar economicamente viável o vírus amarílico vacinal em cultura de tecidos. Mann tinha duas hipóteses para explicar o problema: partículas virais defeituosas (defective interfering particles) estariam interferindo na replicação viral, ou ela seria prejudicada por um interferon.

A equipe investigou a primeira hipótese e a descartou. A do interferon foi confirmada. Quando as células de fibroblastos de embrião de galinha são sensibilizadas pelo antígeno — o vírus vacinal —, enviam uma mensagem química específica a outras células, criando-se resistência ao antígeno, inviabilizando-se sua replicação. Isso foi detectado por meio de outros vírus muito sensíveis ao interferon. Quando inoculados na célula do embrião depois do vírus amarílico, replicavam mais rápido, acusando a presença daquela proteína indutora de resistência ao primeiro vírus. Começaram, então, a buscar meios de neutralizá-la. A actiomicina D mostrou-se capaz de desativar parcialmente a resistência, mas era uma droga considerada cancerígena e, apesar de ser usada em quantidades pequeníssimas, picogramas, prejudicaria o licenciamento da nova vacina.

Comparação entre os aspectos dos concentrados virais — o

componente fundamental da vacina: à esquerda, aquele

produzido em cultura de tecidos e, à direita, o resultante de

cultura em ovos embrionados. O aspecto do primeiro é límpido, o que demonstra maior pureza do que o produzido em ovo, cuja

opacidade é resultado da presença de proteínas animais.

Coleção Marcos Freire/ Bio-Manguinhos/Fiocruz

Verificaram, depois, que certos antiinflamatórios, como a tiomicina e o inoprofem, também inibiam a produção do interferon, mas os resultados obtidos não foram totalmente compatíveis com a reprodução industrial do vírus. Nesse meio tempo, deslindaram outro aspecto do problema: o rendimento variava de acordo com a densidade celular. Conseguiram, então, desenvolver um processo de rendimento comparável àquele que se obtinha com a inoculação em ovos embrionados, com uma vantagem: o concentrado viral era mais puro, com quantidade muito pequena de proteínas de embrião de galinha. A vacina produzida em ovos tem a cor de suco de goiaba; o resultante da cultura de tecido é quase translúcido. Além disso, a nova tecnologia aumentaria a capacidade de produção, que hoje é de cerca de cinqüenta milhões de doses, chegando a setenta ou oitenta com rodízio intensivo de turnos, dia e noite. Segundo Marcos Freire, autor do depoimento em que nos baseamos (22.03.2001), cultivando-se o vírus em tecido, in vitro, seria possível produzir até duzentos milhões de doses por ano, o suficiente para suprir a demanda brasileira em dois ou três meses.

Em 1997, o projeto estava suficientemente maduro para se passar à produção de uma vacina experimental a ser testada em macacos. Tiveram de decidir, primeiro, que amostra de vírus usariam. George Mann, Marcos Freire, Ricardo Galler, João Quental, na época diretor de Bio-Manguinhos, e Akira Homma, que ocupava uma vice-presidência da Fiocruz, fizeram uma escolha diferente da de Souza Lopes: ao invés de usar a amostra 204 do Asibi, que a OMS distribuíra, optaram pelo 17 DD, a subamostra "brasileira", que a literatura científica relacionava ao menor número de efeitos neurológicos adversos. As subcepas do 17D usadas pelo Instituto Mérieux e o Connaught Laboratories tinham provocado muito mais acidentes envolvendo o encéfalo e as meninges do que a linhagem viral desenvolvida no Brasil.

Com o lote semente 102/84, produziram quatro lotes experimentais, no laboratório da vacina contra o sarampo, durante as férias coletivas de seu pessoal. Providenciaram freezer e todas as condições sanitárias para que não houvesse mistura de uma produção com a outra. O rendimento esteve próximo ao da vacina em ovos. O produto satisfez aos controles de qualidade realizados. O concentrado viral de um lote que não chegou a ser liofilizado foi inoculado em macacos, utilizando-se como controle a própria semente. O vírus proveniente da cultura em tecido apresentou escore clínico um pouco acima do obtido com o lote 102/84.

Mais recentemente, surgiu outro problema. Quando começou a certificação da vacina em ovos embrionados, Marcos Freire desenvolvia a nova apresentação com apenas cinco doses, exigida pela OMS. Fê-la com e sem albumina humana. Os auditores internacionais rejeitaram o produto que utilizava a albumina, não obstante a substância figurasse, e figure ainda, na formulação de

muitas das vacinas produzidas no Brasil e em outros países. 102 Na década de 1980, com a disseminação da AIDS, Bio-Manguinhos chegou a cogitar em excluí-la de seus produtos, mas a tecnologia do sarampo importada do Japão incluía a albumina humana, e ela permaneceu nas outras vacinas. Hoje, a pressão internacional para que seja substituída se deve ao temor da contaminação não apenas pelos vírus da AIDS e da hepatite B, mas também pelo príon, provável agente da encefalopatia espongiforme bovina, a doença da vaca louca, sabendo-se já de um caso de doador de plasma usado na fabricação de vacinas que faleceu em conseqüência dela.