Febre amarela: a doença e a vacina
A vacina contra a febre amarela vinte anos atrás...
Quadro de indicadores de Bio-Manguinhos
Produção de vacinas, total do Brasil e de Bio-Manguinhos -
1986 a 1995
Fonte: Programa de auto-suficiência em imunológicos - MS.
A vacina contra a febre amarela vinte anos
atrás...
Em 1975, quando Vinicius da Fonseca assumiu a presidência da Fiocruz, o Laboratório de Febre Amarela (LAFA) produzia cerca de dez milhões de doses de vacina por ano, o equivalente a 80% da produção mundial. Os 20% restantes eram cobertos por outros 11 fabricantes reconhecidos pela Organização Mundial de Saúde. A Fiocruz supria principalmente as necessidades do país — combate aos surtos de febre amarela silvestre e vacinação rotineira de viajantes — e exportava para países da América do Sul, com regularidade, e para países africanos, europeus e até mesmo asiáticos, com bastante freqüência.
Os materiais e equipamentos do LAFA eram ainda obtidos, em larga medida, graças àquele acordo de cooperação firmado em maio de 1950 com a Organização Pan-Americana da Saúde, como forma indireta de pagamento às vacinas fornecidas aos países membros. Uma emenda ao convênio, em vigor desde julho de 1971, elevara a contribuição da OPAS de dez mil para 15 mil dólares anuais. Quando Vinicius da Fonseca assumiu a direção da Fiocruz, o convênio, que estava em vias de expirar, foi prorrogado por mais um ano, em 6.11.1975, subindo a contribuição da OPAS para quarenta mil dólares. Fonseca julgou mais vantajosa a venda direta das vacinas a todos os clientes, já que a Fiocruz readquirira o direito de recolher a seus cofres os recursos arrecadados com a comercialização de seus produtos. (Em 1980, o preço tinha ido além de 0,05 dólares por dose no Brasil e para cerca de 0,12 dólares na Colômbia.)
A OPAS absorvia habitualmente um milhão de doses por ano para o "Programa Continental da Febre Amarela". Em 1976, o Laboratório de Febre Amarela forneceu quatro milhões de doses ao Ministério da Saúde; dois milhões e quinhentas mil a três milhões de doses constituíam o estoque permanente para situações de emergência.Em 1980, foram produzidos dez milhões de doses, dos quais sete milhões para suprir a demanda interna e pouco mais de um milhão para exportação. O laboratório mantinha, então, um
estoque de cerca de seis milhões de doses.54
Acondicionamento final da vacina contra a febre amarela, em
caixa contendo ampolas para duzentas doses, e caixa de
isolamento térmico com capacidade para armazenar duzentas
unidades, visando ao transporte do produto para os locais de
vacinação.
Rio de Janeiro, 1980-1981.
Ccs/Fiocruz
A produção corrente do outro laboratório sul-americano, o de Bogotá, era de dois milhões de doses. Dos 54,7 milhões de doses produzidas pela Fiocruz entre 1970 e 1979, oito milhões foram entregues a países vizinhos por intermédio da OPAS. Igual destino tiveram 12,5 milhões de doses de um total de 20,8 milhões produzidas na Colômbia, no mesmo período.
Diferentemente de outras vacinas — como sarampo e pólio, que, no Brasil, eram aplicadas pelas Secretarias de Saúde dos estados, sob a orientação de um órgão do ministério, a Secretaria de Ações Básicas de Saúde — a vacina contra febre amarela ficava a cargo exclusivamente de pessoal da SUCAM treinado para lidar com as dificuldades técnicas de sua aplicação. Fonseca da Cunha (14ª entrevista, 21.10.88) explicava, que ela apresentava
certos requintes, maneira de diluir, tempo de permanência na
geladeira e na seringa. É uma disciplina implantada desde o
tempo da Fundação Rockefeller. Ficavam com o relógio,
colocavam o material para esterilizar, seringas, agulhas etc., e
quando a panela entrava em ebulição, marcavam: ninguém
desligava o fogareiro antes que fossem decorridos os dez
minutos de fervura. Diluída a vacina, ia para o banho de gelo e
não podia ficar na seringa mais do que cinco minutos.
Marcavam no relógio. De vinte doses, aplicou somente dez,
joga fora. Não tinha conversa! Então, isso foi se transmitindo,
assim, de pai para filho, e hoje continua sendo usada a mesma
disciplina de trabalho.
A vacina contra a febre amarela era, sem dúvida, a linha de produção mais bem-sucedida de Manguinhos ao se iniciar a sua reestruturação em 1975, já que a antivariólica, a única que tivera importância comparável, deixara de ser produzida três anos antes. Contudo, as transformações que ocorriam no campo da biotecnologia e a modernização dos imunobiológicos na própria Fiocruz, não poderiam deixar de acentuar a impressão de 'obsolescência' de um processo que viera mantendo inalteradas suas características artesanais há mais de quarenta anos.
Com relação a esta vacina, porém, não se podia fazer tábula rasa da tradição, e inaugurar processo e produto novos, como para outros imunizantes, em primeiro lugar porque não havia ainda tecnologia mais avançada no 'mercado' — a modernização, neste caso, continuaria a ser um processo basicamente endógeno. Em segundo lugar, os compromissos já assumidos com os consumidores da vacina e o fato de estar crescendo a demanda interna e internacional obrigaram Vinicius da Fonseca a adotar postura mais cautelosa para não desestabilizar um serviço de tão grande relevância sanitária. Por outro lado, ele já se mostrava perigosamente inelástico, isto é, próximo ao limite das possibilidades de atender ao crescimento do consumo interno e externo determinado por mudanças relativamente recentes no quadro epidemiológico da febre amarela.
Estoques estimados de vacina contra a febre amarela (17D) em
julho de 1978 (em doses, valores aproximados)
Instituto Pasteur de Dacar — Senegal 2.500.000 Laboratório de Vacina Contra a Febre 2.000.000 Amarela da Fiocruz — Rio de Janeiro,
Brasil
Unité d'Ecologie Virale, Institut Pasteur — 1.400.000 Paris, França
Laboratorio de Producción de Vacuna de 500.000 Fiebre Amarilla do Instituto Nacional de
Salud — Bogotá, Colômbia
Connaught Laboratories Inc. — Swiftwater, 224.000 Pennsylvania, Estados Unidos
Departamento de Saúde do National 220.000 Institute for Virology — Transvaal, África do Sul
Commonwealth Serum Laboratories — 80.000 Victoria, Austrália
Koninklijk Instituut voor de Tropen — 70.000 Amsterdã, Holanda
Instituto Central de Pesquisas — Kasauli, 60.000 Índia
Laboratório de Febre Amarela do Instituto 20.000 Robert Koch — Berlim, República Federal da Alemanha
Biological Products, Wellcome Research -Laboratories — Beckenham, Londres
Federal Vaccine Production Laboratory — -Yaba, Nigéria
TOTAL 7.074.000
Fonte: OPAS/OMS, abril de 1980, p. 34.
Febre amarela - vacinas utilizadas no Brasil e exportadas
anualmente, segundo país de destino - 1947 a 1955
Febre amarela - destino das vacinas exportadas em % - 1944 a
1955
Fonte: Relatórios mensais de atividades LAFA 1944-1982.
LAFA/Bio-Manguinhos/Fiocruz
Febre amarela - vacinas utilizadas no Brasil e exportadas
anualmente, segundo país de destino - 1956 a 1967
Febre amarela - destino das vacinas exportadas em % - 1956 a
1967
Fonte: Relatórios mensais de atividades LAFA 1944-1982.
LAFA/Bio-Manguinhos/Fiocruz
Febre amarela - vacinas utilizadas no Brasil e exportadas
anualmente, segundo país de destino - 1969 a 1982
Febre amarela - destino das vacinas exportadas em % - 1969 a
1982
Fonte: Relatórios mensais de atividades LAFA 1944-1982.
LAFA/Bio-Manguinhos/Fiocruz Febre amarela no Brasil