Febre amarela: a doença e a vacina
As vacinas dos Institutos Oswaldo Cruz e Butantã
Os primeiros rebentos surgiram já em 1928: as vacinas de E. Hindle (1929), na Inglaterra, as de Henrique Aragão (1928a, 1928b, 1929) e Lemos Monteiro (1929), preparadas no Instituto Oswaldo Cruz e no Butantã, respectivamente. Eram feitas a partir de tecidos de macacos — fígado e baço — contendo o vírus da febre amarela. Para atenuar sua virulência, aqueles cientistas utilizaram métodos químicos semelhantes aos que eram empregados há anos na preparação de outras vacinas.
No âmbito da virologia — disciplina que se desgarrava da crisálida pasteuriana para se tornar autônoma — desenvolviamse diversas técnicas bioquímicas novas que abriam via inteiramente diferente para a preparação da vacina e também para a verificação de sua potência e qualidade.
Se a posse ou privação de macacos rhesus representou um importante diferencial econômico para os laboratórios que pesquisavam febre amarela, o domínio daquelas técnicas e, não apenas isso, a capacidade de produzir inovações no campo da virologia "aplicada" tornaram-se condição sine qua non para se manterem como laboratório ou instituição de referência nessa área de pesquisa. Os cientistas do Instituto Oswaldo Cruz saíram em campo rápido, mas de posse de métodos e técnicas que logo se tornariam obsoletos.
As vacinas dos Institutos Oswaldo Cruz e
Butantã
Em 1903, Marchoux, Salimbeni e Simond (pp. 665-731), demonstraram que o soro de um amarelento, quando inoculado numa pessoa suscetível, era capaz de protegê-la da doença. Demonstraram, assim, que a imunidade resultante de um acometimento de febre amarela era devida à presença no soro de substâncias que asseguravam proteção passiva no homem. A partir de 1927, o soro de convalescentes começou a ser usado nas experiências de imunidade cruzada que mencionamos acima, e também como método de proteção "passageira" dos pesquisadores que trabalhavam com a doença. Muita gente estava morrendo em conseqüência de infecções acidentalmente contraídas durante os estudos de campo e laboratório. Entre 1928 e 1931, houve 32 infecções graves que custaram a vida a cinco cientistas que trabalhavam com febre amarela, a começar por Adrian Stokes e Hideyo Noguchi (Berry e Kitchen, 1931, pp. 365-434). Isso justificava as inoculações experimentais. Mas a impressão que se tem, quando se examina a documentação relativa a este período, é que nunca a medicina — tanto aquela praticada por brasileiros como por norteamericanos — foi tão afoita no uso de cobaias humanas, especialmente sul-americanas e africanas, na experimentação com vacinas.
Quando irrompeu a epidemia de febre amarela no Rio de Janeiro, em 1928, Aragão (1929, p. 17) aplicou em cerca de duzentas pessoas — residentes na cidade ou estrangeiros de passagem por ela — 1 a 2 cc de soro de convalescentes, registrando "só num ou noutro caso ... certa depressão passageira". É possível que esta forma de soroterapia tenha sido utilizada por médicos que atuavam nos hospitais públicos da cidade, visto que o arsenal terapêutico contra a doença era ainda — e segue sendo — praticamente nulo ou meramente sintomático. Aragão testou também a chamada "sorovacinação": inoculava uma dose de soro e outra de vírus. Diz que foram os resultados incertos do método e a dificuldade de obter soro em quantidade suficiente para imunizar em maior escala que o levaram a preparar uma vacina com "emulsões de órgãos de macacos infectados e esterilizados por alguns dos métodos já conhecidos" (ibidem, pp.17-8).
Dois pesquisadores da Escola de Medicina de Harvard, Theiler e Sellards, demonstraram, em 1928, em macacos mas não no homem, que a injeção de soro e vírus produzia uma imunidade ativa, fato que teria sido confirmado, em seguida, por outros pesquisadores (Theiler e Sellards, 1928, pp. 449460; Hudson; Philip e Davis, 1929, pp. 223-232). Os norteamericanos obtiveram resultados incertos, que foram atribuídos aos métodos ainda precários de calibragem da concentração e potência do vírus e dos anticorpos contidos no soro.
Os norte-americanos não faziam menção às experiências de Aragão, nem este citava Theiler e Sellards. Ambos se referiam às experiências feitas por Davis. Ele havia contraído a febre amarela em seu laboratório, na Bahia, em abril de 1929, e passara a usar o próprio soro em provas de proteção em macacos. Fez a primeira e única tentativa de imunizar humanos com a "soro-vacinação" em novembro de 1930, usando como cobaia o entomologista Raymond Shannon, que aparentemente ficou imunizado, sem apresentar
reação digna de nota.45
Ainda assim, o método foi considerado arriscado. O pessoal de laboratório continuou a ser protegido com soro imune, método falível, tendo sido registrados casos de febre amarela depois da inoculação supostamente protetora (Soper, 1937, p. 380).
Aragão iniciou a preparação de sua vacina 'química' com os resíduos orgânicos do primeiro rhesus que conseguiu infectar. Reduziu os órgãos a uma polpa, diluiu-a em água esterilizada, filtrou o caldo em gaze e esterilizou o produto com vapor de formol, segundo a técnica que usava, desde 1911, para preparar a vacina contra a espiroquetose das galinhas. Preocupado em estabelecer a precedência de seus esforços, afirma que já estava esta vacina em experiência no homem, quando recebeu a publicação em que Hindle descrevia as vacinas que havia desenvolvido, "uma simplesmente formolada , outra glicerinada e fenicada, usando em ambas uma parte de fígado para quatro da solução esterilizante, no primeiro caso formol a 1% e no segundo, uma solução a 60% de glicerina em água fenicada a 0,5%". Aragão preparou, então, a vacina glicerinada e fenicada de Hindle, e uma variante dela, "para comparação", formolada a 2% e fenicada a 0,5%, visando a obter "perfeita esterilidade em relação a bactérias e bolores, sem prejuízo da conservação do vírus". A receita de Hindle revelou-se, porém, por demais dolorosa em humanos, e Aragão passou a usar a segunda fórmula, que descrevia como "um líquido róseo amarelado, turvo, dando um pequeno depósito e não tendo cheiro desagradável" (Aragão, 1929, pp. 18-9).
As vacinas começaram a ser usadas entre as pessoas que trabalhavam com febre amarela no Instituto Oswaldo Cruz. Com o agravamento da epidemia no Rio de Janeiro, a de Aragão, provavelmente, passou a ser usada em larga escala, com o aval do Departamento Nacional de Saúde Pública. De janeiro a abril de 1929, foi aplicada em cerca de 25 mil pessoas, imigrantes estrangeiros, principalmente, mas em muitos brasileiros também. Aragão admitiu que os resultados não foram "inteiramente satisfatórios", e atribuiu isso à dosagem insuficiente e, em certos casos, a "uma extrema sensibilidade dos pacientes" ao vírus. Entre os vacinados residentes nos focos epidêmicos, cerca de 25 tinham contraído febre amarela, em alguns casos benigna, em outros,
grave e mortal. 46 Houve um caso de infecção seis meses depois da vacinação, o do dr. Paulo Lewis, do Laboratório da Bahia (Soper, 1937, p. 380).
A vacina de Manguinhos submergiu na ambiência de insegurança e controvérsias geradas pela eclosão epidêmica de uma doença cujo tratamento permanecia indeterminado, e pela condensação de outros fatores de instabilidade pertinentes à vida econômica, social e política do país. Em março de 1929, Clementino Fraga, diretor do DNSP, declarou que não se responsabilizava por nenhuma vacina, nem julgava possível imunizar uma população de quase dois milhões de habitantes. A indesejada publicidade obrigou Carlos Chagas, diretor de Manguinhos, a suspender o fornecimento à saúde pública e a particulares.
Mas Aragão não abandonou as experiências com seu profilático. Experimentou doses maiores em macacos, e chegou a testar no homem 4 cc, "em uma só injeção ou em duas, com dez dias de intervalo". Além disso, para aumentar o poder imunizante da vacina, a cada dois litros adicionou "50 cc. de sangue desfibrinado e formolado de rhesus infectados e colhido nos animais doentes em diferentes estágios da moléstia" (Aragão, 1929, pp. 19-20).
O Instituto Butantã também produziu vacina contra a febre amarela, mas neste caso não temos dados quanto ao uso que fez dela. Lemos Monteiro preparou alguns lotes seguindo a técnica preconizada por Aragão, e outros baseados em técnica de sua autoria. Ele usou clorofórmio, além de formol, como agente esterilizador do vírus, conforme Raymond Kelser (1927) fazia na preparação da vacina contra a peste bovina (rinderpest). Para obter o vírus, infectou dois rhesus com material extraído de um doente que contraíra a febre amarela no Rio de Janeiro e que falecera no Hospital de Isolamento de São Paulo, e infectou mais cinco rhesus com o vírus africano da raça Asibi. Este tinha percorrido longo caminho até chegar ao Butantã: de Lagos, Nigéria, seguira para o Instituto Rockefeller, em Nova York, que cedera o material a Aragão, o qual, por sua vez, enviara uma amostra ao colega paulista, sob a forma de "sangue e fígado secos, conservados no vácuo e em baixa temperatura". A amostra proviera do 198º rhesus inoculado por Aragão. O Butantã não dispunha de tamanho número de animais, o que representava séria limitação às experiências de Monteiro. Em artigo publicado em 1929, este explicou, passo a passo, sua receita (Monteiro, 1929, p. 148):
• Colher assepticamente os órgãos (somente fígado e baço) e
pesar;
• mergulhar em solução de fenol a 5% durante 15 minutos;
• lavar, pelo menos em duas vezes, em água fisiológica;
• cortar em pequenos pedaços e triturar com areia em um gral;
• adicionar cinco partes, em relação ao peso, de água
fisiológica; emulsionar bem;
• filtrar em funil com quatro dobras de gaze, verificando o
volume obtido;
• colocar num frasco com rolha esmerilhada e adicionar 1% de
clorofórmio;