Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 11 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

Auto-suficiência em imunobiológicos?

Vista geral do Biotério para Pequenos Animais, vendo-se ao

centro o Pombal e a seu lado, a chaminé do forno de

incineração de lixo construído pela prefeitura na fazenda de

Manguinhos, demolido pouco tempo depois. Publicada em

Institut für Experimentelle Pathologie in Rio de Janeiro (Berlim,

Druck von G. Bernstein, 1907).

Coc/Fiocruz

 

Auto-suficiência em imunobiológicos?

Fundado com o objetivo de produzir soro e vacina contra a peste bubônica, o Instituto Oswaldo Cruz começou a fornecer, em 1904, a tuberculina para o diagnóstico de bovinos, muito usada pela Prefeitura para a fiscalização das vacas leiteiras e dos bois abatidos para o consumo de carne. Em 1906, iniciou a produção dos soros antidiftérico e antitetânico, da vacina anticarbunculosa — a clássica vacina desenvolvida por Pasteur, em 1879 — e da maleína, outra criação pasteuriana, para diagnóstico do mormo. Em 1907, além da tuberculina para fins terapêuticos humanos e do soro antiestreptocócico, começou a preparar dois produtos veterinários de grande importância: a vacina contra a espirilose das galinhas, desenvolvida por Henrique Aragão, e a vacina contra o carbúnculo sintomático, ou peste da manqueira, desenvolvida a pedido dos pecuaristas de Minas Gerais. Uma vacina contra aquela doença que dizimava de 40% a 80% dos bezerros nas regiões pastoris da América do Sul já era produzida por João Batista de Lacerda, no Museu Nacional, mas Oswaldo Cruz descartou-a como pouco confiável bacteriologicamente, e delegou primeiro a Ezequiel Dias e Rocha Lima, depois a Alcides Godoy a incumbência de refazê-la.

 

Em baixo à esquerda, o Pavilhão da Cavalariça. De planta

retangular, com capacidade para vinte animais, destinava-se às

inoculações de material virulento em cavalos e outras

operações visando a obter soros, como, por exemplo, o

antidiftérico, que se vê na ilustração publicada no folheto

propagandístico Instituto de Manguinhos (Paris, J. David, s.d.).

Um dos pavilhões construídos em 1904-5, a Cavalariça foi

provida de sistemas automatizados muito engenhosos tanto do

ponto de vista da assepsia e funcionalidade como do

aproveitamento ecológico dos refugos gerados pelos animais.

Das fezes, por exemplo, extraía-se o gás usado na iluminação

das baias e estrume para os campos.

Coc/Fiocruz

O soro anti-pestoso era preparado exclusivamente no Pavilhão

da Peste, edificado também em 1904-5. Aí permaneciam

isolados os trabalhos relacionados ao bacilo Pasteurelle pestis,

tanto a preparação do soro e da vacina, como as investigações

que lidavam com o material pestoso.

Coc/Fiocruz

Cavalariça

A originalidade do processo desenvolvido por Godoy residia na utilização de um meio de cultura especial para bactérias anaeróbicas, na qual a glicose tinha papel preponderante. Obteve assim uma cepa atenuada da bactéria Clastridium chauvei, o que possibilitou a obtenção de uma vacina com germe vivo. Logo que foram confirmadas suas propriedades imunizantes, em Juiz de Fora, para onde viajaram também Rocha Lima e Carlos Chagas, começou a ser fabricada em escala comercial.

Depois que foi aprovado o novo regulamento de Manguinhos, Oswaldo Cruz adotou em relação a essa vacina iniciativa similar à que Pasteur e Roux haviam tomado com a anti-rábica, em proveito do instituto parisiense, estabelecendo um precedente jurídico que seria objeto de muita polêmica. Godoy registrou a patente do imunizante, em 24 de novembro de 1908, e em seguida lavrou em cartório uma escritura cedendo seus direitos ao Instituto Oswaldo Cruz, na condição de que a exploração industrial do produto revertesse em favor de suas atividades científicas. Por entendimento verbal com Oswaldo Cruz, ficou estabelecido que Godoy teria direito a 5% da renda bruta da vacina até 1917 e 8% daí

por diante. 20

Graças a este artifício, o instituto pôde gerir recursos que seriam consideráveis, sem se submeter à burocracia do Ministério da Justiça ou às rígidas determinações que presidiam a aplicação das verbas votadas pelo Congresso. Por outro lado, criava 'jurisprudência' para um tipo de relação privatista entre a instituição e seus pesquisadores, que eram estimulados a inventar e patentear outros produtos biológicos.

A "verba da manqueira", contabilizada à parte, teve importância vital na sustentação do instituto, custeando os salários de muitos pesquisadores, parte das despesas com a construção dos novos prédios e vários outros itens. Tão importantes eram esses recursos que Oswaldo Cruz se empenhou a fundo em disseminar o uso da vacina nas zonas pastoris do Brasil. Em 1913, organizou a Seção de Propaganda da Vacina contra a Peste da Manqueira, a cargo de Eduardo Dale, que naquele ano percorreu todos os municípios do Rio Grande do Sul. Desencalhou os estoques acumulados nas inspetorias do Ministério da Agricultura. Divulgou pelos jornais interioranos o imunizante da doença, que era conhecida localmente como mal do ano ou ando ou ainda quarto inchado. Fez demonstrações de seu uso e nomeou "agentes da vacina "estancieiros da região.

Outros produtos biológicos de uso veterinário foram produzidos em Manguinhos. O próprio Godoy desenvolveu, com Astrogildo Machado, a vacina contra o carbúnculo verdadeiro, seguindo técnica diferente daquela criada por Pasteur, e a vacina contra a diarréia dos bezerros ou pneumoenterite. Já mencionamos a vacina contra a espirilose das galinhas, creditada a Henrique Aragão. Astrogildo Machado, sozinho, criou o protosan para uma doença de cavalos chamada "mal das cadeiras".