Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 14 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

Produção, pesquisa e ensino em Manguinhos nos anos 1920

Em janeiro de 1920, foi criado o Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), no âmbito, ainda, do ministério mais político do governo, o da Justiça e Negócios Interiores. Com a nomeação de Chagas para o cargo de diretor, que exerceu até 1926, foi restabelecida a ligação umbilical de uma saúde pública mais autônoma e bem aparelhada com o Instituto Oswaldo Cruz, que conservou sua autonomia financeira e o mesmo status administrativo no organograma do ministério. Este foi, por sinal, um dos aspectos da reforma que suscitou os mais acalorados debates na Câmara.

Como veremos no próximo capítulo, a política de Chagas e de seu sucessor, Clementino Fraga, com relação à febre amarela, foi de conceder à Fundação Rockefeller todas as facilidades que pleiteou para levar a cabo o ambicioso programa de sua erradicação.

 

Produção, pesquisa e ensino em Manguinhos

nos anos 1920

O Serviço de Medicamentos Oficiais, criado junto com o de

Profilaxia Rural, em 1º de maio de 1918, 31 acarretou o fortalecimento de uma nova vertente industrial em Manguinhos, voltada para os quimioterápicos. Com contabilidade e pessoal independentes, ficou a cargo da seção de Química Aplicada, instituída em 1919. O objetivo principal daquele serviço, implantado também no Butantã, era a preparação e distribuição da quinina, a partir de sais importados, para a profilaxia da malária. Se houvesse suficiente dotação orçamentária, seriam fabricados outros medicamentos, como o óleo chenopódio, o timol, o beta naftol, o tártaro emético e a emetina. Os comprimidos de quinina preparados no instituto passaram a ser fornecidos gratuitamente aos postos de profilaxia rural, e a preços subsidiados aos estados, às Forças Armadas, empresas públicas, distribuidores particulares — que tinham sua margem de lucro prefixada — e empresas ferroviárias, industriais ou agrícolas, que deviam fornecer a quinina gratuitamente a seus trabalhadores.

Além da quinina e do tártaro emético, a seção de Química Aplicada desenvolveu, em 1921, o sorosol para tratamento da sífilis. Em 1924, já instalada em novo prédio conhecido até hoje como "Quinino", começou a produzir os sais sódicos, em cápsulas gelatinosas, e os ésteres de chalmoogra para tratamento da hanseníase. A análise de óleos vegetais de espécies botânicas brasileiras resultou em novos preparados, como o óleo de charpotcochis, empregado por Souza Araújo no tratamento da hanseníase, também.

Os "técnicos" da seção (assim eram chamados os médicos do instituto, neste caso recrutados para trabalhar como químicos), José Carneiro Felipe, Gilberto Vilela, Nicanor Botafogo Gonçalvez e seus auxiliares, produziam também alguns antígenos — a trivacina antitífica, por exemplo — e o soro hemolítico. Em 1926, Gonçalvez foi enviado à Alemanha, por dois anos, para se aperfeiçoar em química vegetal, e em 1928 Chagas contratou um especialista alemão, o dr. Fritz Unger, para reforçar o estudo dos alcalóides e outros componentes vegetais aproveitáveis na terapêutica e na indústria.

A seção de Química Aplicada tinha a seu cargo outro serviço conferido a Manguinhos pela lei que regulamentou o Departamento Nacional de Saúde Pública, em 15 de setembro de 1920: a análise da qualidade e dosagem dos imunobiológicos importados ou fabricados por laboratórios nacionais, alguns fundados, como

veremos, por cientistas do próprio instituto.32 A rotina estafante daquela seção incluía ainda exames clínicos, bromatológicos e toxicológicos. Entre 1920 e 1929, analisou 198 preparados farmacêuticos.

Às vésperas da criação do DNSP, Chagas negociou com o barão de Pedro Afonso e o prefeito Carlos Sampaio a incorporação a Manguinhos da vacina antivariólica, que era fabricada no instituto de

propriedade do barão, num sobrado na rua do Catete nº 197.33 Em setembro de 1920, ele recebeu 118 contos de indenização. O Vacinogênico continuou a funcionar no Catete até 1922, quando se transferiu para novo pavilhão construído no Instituto Oswaldo Cruz, permanecendo sob a direção de Paulo Afonso Franco, filho de Pedro Afonso.

A relação dos produtos comercializados pelo Instituto Oswaldo Cruz em 1925 (Quadro III) totalizava 36 itens, inclusive os solutos de tártaro emético e de metileamina, este para tratamento da difteria aviária. A antivariólica não constava da relação, porque se destinava exclusivamente à Saúde Pública. O soro antimeningocócico começou a ser preparado em 1920, quando houve um surto de meningite no Distrito Federal. A relação incluía a "vacina anticarbunculosa Manguinhos", contra o carbúnculo hemático, patenteado em 1918 por Alcides Godoy e Astrogildo Machado.

As "descobertas" do instituto, não necessariamente patenteadas, incluíam o gynhornon, fornecido a partir de 1929, e a bacteriofagina, novo remédio para tratamento das disenterias, criado em 1923 por J. da Costa Cruz, a quem Chagas atribuía "descoberta de grande vulto em questões de doutrina referentes ao bacteriófago".

Dr. Cassio Miranda e equipe no laboratório produtor da vacina

antivariólica em 7 de agosto de 1954.

Coc/Fiocruz

Barão de Pedro Afonso, primeiro diretor do Instituto

Soroterápico de Manguinhos e proprietário do Instituto

Vacinogênico.

Coc/Fiocruz

Médico colhe linfa de bezerro com cowpox para inoculá-la, com

a lanceta, no braço de indivíduos que contraíam uma varíola

benigna, ficando imunizados contra a smallpox, o agente da

infecção variólica clássica no homem, conforme demonstrara

Edward Jenner (1749-1823), ao alterar a prática já milenar da variolização. A varíola induzida pela linfa do bezerro continuava

a ser replicada, de braço em braço, formando longas cadeias

humanas de transmissão pela qual circulavam agentes de

outras doenças infecciosas. A vacina jenneriana chegou ao

Brasil por iniciativa do marquês de Barbacena, que mandou a

Lisboa escravos e um facultativo para transmiti-la, de braço a

braço, até a Bahia, de onde foi levada ao Rio de Janeiro, ainda

em 1804. A vacina animal, cultivada em vitelos, em laboratório,

e inoculada diretamente no homem, sem usá-lo como veículo

de replicação do vírus, chegou ao Brasil, primeiro, em 1884, por obra de Claude Rebourgeon, e definitivamente em 1887, quando

Pedro Afonso Franco, barão de Pedro Affonso, diretor da Santa

Casa da Misericórdia, iniciou as inoculações em vitelos de

amostra da vacina importada do Instituto Chambon. Este

instituto iniciara a produção da vacina animal em Paris, em

1864. O Instituto Vacinogênico fundado por Pedro Afonso, na

rua do Catete, foi transferido em 1922 para o Instituto Oswaldo

Cruz.

Reprodução/Coc/Fiocruz

Chagas alterou as regras concernentes aos recursos arrecadados pelo instituto. O regulamento de 1919 estabeleceu que pesquisas, análises e outros trabalhos realizados a pedido de particulares fossem pagos de acordo com uma tabela organizada pelo diretor, cabendo ao instituto 50%, e o restante aos funcionários que os executassem. Estes foram beneficiados por outro artigo, que legitimava o expediente incomum adotado por Oswaldo Cruz, em 1908: os produtos biológicos e quimioterápicos que representassem descobertas de funcionários, "e dos quais tiverem sido obtidas patentes de invenção, poderão ser fabricados e vendidos pelo

instituto, mediante acordo com os respectivos descobridores". 34

Tais medidas foram duramente atacadas pelos adversários de Chagas, e houve fortes pressões para que o governo assumisse o controle das rendas de Manguinhos. Contestando as críticas que partiam, inclusive, de pesquisadores do instituto, Chagas argumentou que a descoberta de produtos merecia ser recompensada, pois era o resultado da capacidade profissional.

Alegam os contraditores dessa prática que os tais

descobrimentos são realizados com material do Estado, e que

os descobridores são pagos para realizar descobertas. À

primeira objeção ... cabe a resposta de que não é o microscópio

nem o tubo de cultura que fazem as descobertas ... E quanto à

outra alegação, eu devo afirmar que entre as atribuições dos

funcionários deste instituto não figura a obrigação de fazer

descobertas. Seja como for, o certo é que devemos a tais

normas ... uma grande parte do desenvolvimento científico do

instituto.35

Cientistas de Manguinhos em 1928. Da esquerda para a direita, sentados: Antônio Cardoso Fontes, Olympio da Fonseca Filho, Leocádio Chaves, Alcides Godoy, Adolpho Lutz, dois visitantes

argentinos — Eduardo Del Ponte e Alfredo Zuccarini — Carlos

Chagas, Miguel Osório de Almeida, Henrique de Beaurepaire

Rohan Aragão, Astrogildo Machado e Aristides Marques da

Cunha. Em pé: Waldomiro de Andrade, Gilberto Villela, João Carlos Nogueira Penido, Evandro Chagas, Heráclides Cézar de Souza Araújo, Thales Martins, Julio Muniz, José da Costa-Cruz,

José Carneiro Felipe, Oswino Alvares Pena, Antônio Augusto

Xavier, Carlos Burle de Figueiredo, Carlos Bastos de Magarinos Torres, Antônio Eugênio de Arêa Leão, Angelo Moreira da Costa

Lima, Walter Oswaldo Cruz, José Guilherme Lacorte, Eudoro

Villela, José de Castro Teixeira e Archanjo Penna de Azevedo.

Fonseca Filho, 1974, pp. 120-121.

De fato, na década de 1920 houve considerável expansão das atividades de pesquisa, ensino e produção, em parte motivada pelas novas demandas do Departamento Nacional de Saúde Pública e de órgãos governamentais ligados à agricultura e veterinária.

A reforma do ensino médico realizada em 1925, com base no plano elaborado pelo dr. Juvenil da Rocha Vaz, catedrático de clínica propedêutica, vinculou o IOC à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, aproximando seu currículo dos problemas clínicos relacionados às endemias rurais, convertendo o sanitarismo numa carreira atraente para os profissionais da saúde. Inaugurou-se na faculdade a cadeira de Doenças Tropicais, da qual o próprio Chagas se tornou titular. O curso de Higiene e Saúde Pública, ministrado por pesquisadores de Manguinhos, garantia aos aprovados a nomeação para cargos nos serviços sanitários federais, independentemente de concurso. Nele só podiam se matricular os que apresentassem o diploma do curso de Aplicação do Instituto Oswaldo Cruz, cujo programa foi ampliado pelo regulamento de 1926. Fracionou-se então em três partes: bacteriologia e imunidade; micologia, protozoologia, helmintologia, entomologia e zoologia médica; e, por

último, anatomia patológica. 37

Na década de 1920, os trabalhos científicos do Instituto Oswaldo Cruz estiveram direcionados, principalmente, para as endemias brasileiras e, em menor medida, para as doenças veterinárias. A doença de Chagas, apesar dos ataques desferidos na Academia Nacional de Medicina, continuou a ser estudada por Chagas e Eurico Villela, sobretudo a forma cardíaca e as lesões que a doença provocava no fígado. Genésio Pacheco estabeleceu novo processo para o diagnóstico da disenteria bacilar. Lutz inaugurou os estudos sobre a esquistossomose, verificando sua grande disseminação no Norte e, em menor escala, no Sul do país.

Magarino Torres chamou a atenção, em 1927, para o toxoplasma, mostrando que o parasito era o agente etiológico de uma nova doença humana, a toxoplasmose. A hanseníase e as helmintoses eram outros temas importantes de pesquisa. Em 1927-28, José Gomes de Faria e Oswaldo Cruz Filho completaram, na Argentina, os estudos sobre a piroplasmose ou "tristeza dos bovídeos", e Aragão publicou trabalho importante sobre o mixoma dos coelhos, sugerindo que fosse utilizado para combater uma praga destes animais que dizimava as lavouras australianas, experiência executada mais tarde, com êxito.

Os regulamentos de 1919 e 1926 pela primeira vez demarcaram "seções" abrangendo áreas já consolidadas ou novas, destacando-se entre estas a físico-química e a fisiologia, que Chagas considerava vitais para a renovação do instituto. Foi um primeiro esforço no sentido de estabelecer divisão de trabalho mais clara entre as rotinas de produção e pesquisa, mas as seções teriam caráter mais formal do que real, pois, no cotidiano, os pesquisadores continuariam a repartir seu tempo entre pesquisa, ensino e produção, e subsistiria a duplicidade entre as atribuições oficiais de cada seção e a prática efetiva de seus integrantes. O regulamento de 1919 criou a seção de Química Aplicada, e o de 1926, as de Bacteriologia e Imunidade; Zoologia Médica; Micologia e Fitopatologia; Anatomia Patológica e Hospitais.

As mais ligadas à produção eram a de Química e a de Bacteriologia e Imunidade. Chefiada por Antônio Cardoso Fontes que, há muitos anos, estudava a biologia e a suposta filtrabilidade do bacilo de Kock, esta última abrigava a coleção de culturas e bactérias e o preparo de soros e vacinas, inclusive a antivariólica. Assumiu, também, a responsabilidade pela análise dos produtos biológicos postos à venda no mercado, assim como pelos exames bacteriológicos requeridos pela saúde pública. A Seção de Zoologia Médica, dona de ricas coleções, confundia-se com o laboratório de Adolfo Lutz. Em 1925-26, ele estudava os tabanídeos e nematóceros, que considerava tão importantes quanto os mosquitos como transmissores de doenças humanas. Nos relatórios anuais do IOC, figuravam como "seções" independentes a Entomologia, chefiada por Ângelo Moreira da Costa Lima, e a Helmintologia, a cargo de Gomes de Faria e Lauro Travassos. A Seção de Micologia foi instalada em 1922 por Olympio da Fonseca Filho e pelos assistentes Antônio Eugênio de Arêa Leão e Alberto Simões Levy. Segundo Chagas, era única em seu gênero no país, e possuía uma coleção de culturas de cogumelos com mais de mil espécies

diferentes, "uma das mais ricas e preciosas do mundo".38

Visita de Albert Einstein ao Instituto Oswaldo Cruz em 9 de

maio de 1925. Presentes, da esquerda para a direita, Burle de

Figueiredo (1º), Antônio Eugênio Arêa Leão (2º), Adolpho Lutz

(5º), Alcides Godoy (6º), Carlos Chagas (7º), Astrogildo

Machado (8º), Albert Einstein (9º), José da Costa Cruz (10º),

Carneiro Felipe (12º) e Leocádio Chaves (13º).

Coc/Fiocruz

A Fisiologia chegou tarde ao Instituto Oswaldo Cruz, não obstante fosse cultivada no Museu Nacional desde o século anterior. A seção foi implantada quando Chagas contratou em 1927 seu chefe de serviço, o dr. Miguel Ozório de Almeida. Quanto à Anatomia Patológica, embora fosse uma das áreas pioneiras de Manguinhos, Chagas a considerava deficiente. Para aprimorá-la trouxe, em 1918, o dr. Bowman C. Crowell, do Hospital de Bellevue de Nova York, ligado também à Fundação Rockefeller, que permaneceu no instituto por cinco anos. "Tinha grande experiência de nosologia tropical adquirida em longa permanência nas Filipinas. ... Uma das primeiras e trágicas tarefas que coube a Crowell desempenhar foi a de necropsiar algumas das primeiras vítimas da pandemia de gripe" (Fonseca Filho, 1974, p. 73). Da seção faziam parte também Carlos Burle de Figueiredo, Carlos Bastos de Magarinos Torres, Oswino Penna e Eurico Villela.