Febre amarela: a doença e a vacina
A etiologia viral e o desenvolvimento de novas vacinas contra a febre amarela
arcabouço legal do Serviço de Febre Amarela.42
A etiologia viral e o desenvolvimento de novas
vacinas contra a febre amarela
Um marco fundamental na história da febre amarela foi assentado na África Ocidental francesa, mais especificamente, em Lagos, em 1927, quando três médicos da Fundação Rockefeller — Adrian Stockes, Johannes H. Bauer e N. Paul Hudson — conseguiram infectar um macaco nativo da Índia, o rhesus (Macaca mulata), estabelecendo, assim, um modelo animal que iria propiciar um boom de estudos experimentais sobre a doença (Stokes, Bauer e Hudson, 1928). Para sermos mais precisos, devemos dizer que naquele momento se confirmou que o rhesus era sensível ao "vírus africano" da febre amarela, o que abria, de imediato, duas linhas de investigação que foram avidamente perseguidas por diversos laboratórios: verificar a sensibilidade de outros macacos ao vírus e verificar a identidade dos então chamados "vírus africano" e "vírus americano" (Soper, 1937, p. 380).
Os próprios médicos da Comissão Rockefeller verificaram que as inoculações de material virulento no Macacus sinicus davam resultados menos seguros. Em diversos outros macacos africanos, inclusive o chimpanzé, e em sagüis brasileiros, falharam completamente. Os pseudocebus brasileiros inoculados por Henrique Aragão, no Instituto Oswaldo Cruz, apresentaram febre, mas não morreram. Tampouco morreram os cebus testados no laboratório da Bahia por Nelson C. Davis, não obstante transmitissem a doença ao rhesus, "demonstrando assim a permanência do vírus perfeitamente ativo no organismo de um animal pouco sensível a ele" (Aragão, jul.1929, p. 849). Davis e José Teixeira, do IOC, fizeram experiências igualmente inconclusivas com o macaco-de-cheiro do Amazonas (Saimiri siusreus). As experiências feitas no Instituto Oswaldo Cruz, no Laboratório de Febre Amarela da Rockefeller, na Bahia, e no Instituto Butantã, em São Paulo, confirmaram a sensibilidade do rhesus e do cynomolgus (Macaca fascicularis) ao vírus brasileiro. Experiências similares feitas em porquinhos-daíndia, gatos, coelhos, ratos, camundongos, carneiros, cavalos, preguiças e gambás fracassaram completamente (Aragão, 1929, p. 6) — o que não deixava aos cientistas interessados na febre amarela outro caminho senão o de adotar o modelo experimental estabelecido pelos norte-americanos. É preciso ter em mente que isso introduzia mais um diferencial de ordem econômica entre os laboratórios que competiam por resultados nessa área de pesquisa, já que tinham de importar grandes quantidades de rhesus, dispendioso animal de origem indiana, se quisessem manter-se no páreo.
Grade para estender pele de tatu capturado nos estudos
epidemiológicos efetuados pelo Serviço de Febre Amarela e a
Fundação Rockefeller. Anápolis, GO, agosto de 1936.
Foto: R. M. Gilmore
Coc/Fiocruz
As fontes que documentam o surto de experimentação científica desencadeado em 1927 revelam um processo caracterizado por intensa competição entre os laboratórios norte-americanos, europeus e brasileiros. Os pesquisadores desses laboratórios intercambiavam materiais e resultados, até certo ponto colaboravam uns com os outros, mas os trabalhos publicados no período revelam clara preocupação em demarcar prioridades, à medida que se iam sucedendo rapidamente os novos achados.
As inoculações em rhesus se faziam às centenas. Por via subcutânea, venosa ou intraperitoneal, injetava-se sangue e outras matérias orgânicas de doentes de febre amarela. Os macacos eram submetidos a picadas de mosquitos previamente infectados, ou inoculados com emulsões desses mosquitos. Por outro lado, testava-se em que medida os mosquitos eram infectáveis com sangue e outros líquidos extraídos de macacos doentes.
Sendo o vírus um agente etiológico não visível ainda pelos microscópios disponíveis na época, não se podia distinguir o brasileiro e africano por suas características morfológicas. Só era possível conhecer as propriedades de ambos indiretamente, pelo modo como reagiam às condições do ambiente e aos meios de cultura artificialmente alterados no laboratório, e pela ação nos organismos parasitados, animais e humanos, captada através da observação das alterações do sangue e de outros líquidos orgânicos, das lesões nos órgãos e dos sinais clínicos que iam se sucedendo no curso da infecção.
Como vimos, nos cadáveres de amarelentos — humanos ou animais — o vírus se dava a "ver" principalmente pelas lesões "típicas" no fígado. Comprovado o curso fatal da febre amarela com base no quadro clássico estabelecido por Councilman e Rocha Lima, e naquele recém-descrito por Magarino Torres, inferia-se a presença do vírus.
Localidades no Brasil onde foram capturadas espécies de
macacos imunes à febre amarela.
Bugher in Strode, 1951, p. 311
Drs. Gastão César e Hugo Laemmert sangrando um macaco no
coração com uso de vênula no Laboratório do Serviço de Febre
Amarela, Rio de Janeiro, agosto de 1935.
Coc/Fiocruz
Norte-americanos e ingleses na África; Hindle na Inglaterra; Aragão, Costa Cruz e outros cientistas em Manguinhos; Lemos Monteiro no Butantã verificaram diversas propriedades do vírus. Era pouco resistente ao calor e aos agentes químicos, e conservava sua virulência por mais tempo em baixas temperaturas. Utilizando muitas vezes preparados orgânicos que viajavam longas distâncias — da África ao Brasil, e de focos sul-americanos ou africanos aos laboratórios dos Estados Unidos, Inglaterra e França —, os cientistas investigavam meios de cultura mais adequados para obter a rápida multiplicação do vírus e a conservação de sua capacidade infectante pelo maior tempo possível.
Seguindo os passos dos norte-americanos e ingleses na África, Aragão, Marques da Cunha, Julio Muniz, Lemos Monteiro e Davis, no Brasil, estudavam as variações de virulência do sangue e emulsão de fígado contendo vírus brasileiro e africano (vírus Asibi fornecido por Soper), à medida que passavam de rhesus em rhesus. Embora o vírus africano parecesse às vezes matar mais rápido, a doença induzida por ambos evoluía da mesma maneira, e as lesões anatomopatológicas eram idênticas. Aragão e Davis verificaram que os rhesus que não sucumbiam ao vírus brasileiro se tornavam
resistentes ao africano, e vice-versa. 43
Três décadas antes, em Cuba e no Brasil, se tinha demonstrado que a febre amarela era uma doença produzida por um microrganismo ainda indeterminado que circulava no sangue humano durante três dias, tempo durante o qual era sugado pelo Aedes aegypti, considerado o único transmissor. Aventara-se a hipótese de que fosse um "vírus filtrável", e agora se sabia que esse vírus infectava certos macacos, mas "sobre a sua verdadeira natureza nenhum progresso foi feito" (ibidem, pp.9-10).
O fato de se ter comprovado a infecção de um vertebrado que vivia num ambiente tão diferente daquele habitado pelo homem reabriu postulados básicos da transmissão da febre amarela. Antes mesmo da descoberta da febre amarela silvestre, em 1932, já se sabia que outros insetos, além do Aedes aegypti, eram capazes de transmitir o vírus (Bauer, 1928). E mais, as pesquisas em curso mostravam que havia outras formas de transmissão além da picada. Em Manguinhos, nos anos 1928-30, o entomologista Costa Lima fez diversas observações importantes a esse respeito, que punham em dúvida postulados solidamente estabelecidos.
Reunião de trabalho com o staff do laboratório de febre amarela
em Manguinhos: presentes 1- F. P. Hogan; 2- Fred L. Soper; 3-
Loring Whitman;; 4- Henrique Penna; 5- Madureira Pará; 6-
Nelson Cerqueira; 7- Simon Kossobudisky; 8- Hugo Lemmertz;
9- Raymond Shannon; 10- Austin Kerr.
Rio de Janeiro, provavelmente final da década de 1930.
Coc/Fiocruz
Nada se sabia sobre a evolução do vírus no Aedes aegypti, além do fato de que o conservava por toda a vida depois de infectado. A quantidade de vírus em cada exemplar devia ser grande, pois se obtinha a infecção do rhesus com apenas três mosquitos infectados e emulsionados, mesmo em altas diluições (Aragão, 1929, pp.10-1). Experiências feitas no Brasil, no começo do século, pela missão médica do Instituto Pasteur haviam demonstrado que o Culex fatigans, o Anopheles, o Tenyorhynchus e outros mosquitos não transmitiam a febre amarela. Bauer e Hudson (1928), porém, mostraram que era possível infectar o Aedes luteocephalus, o Aedes apicoannulatus e o Erepmopodites chrysogaster. A busca de possíveis hospedeiros alados da febre amarela foi intensificada após a descoberta da febre amarela silvestre.
Costa Lima verificou que o vírus existia na hemolinfa dos mosquitos infectados, e que se podia infectar Aedes aegpiti machos, fazendo-os sugar sangue de rhesus infectado, misturado com mel. O valor desse achado residia na possibilidade de se usarem os machos no trabalho científico, evitando-se, desta forma, o risco das picadas das fêmeas. Suas experiências mostraram que machos infectados infectavam fêmeas indenes. A possibilidade da transmissão da febre amarela de mosquito a mosquito, sem a necessidade da passagem do vírus pelo homem, talvez ajudasse a explicar os casos de febre amarela de "ligação epidemiológica obscura" (ibidem, p.12) que vinham se multiplicando às vésperas do reconhecimento da febre amarela silvestre.
Bauer e Hudson (1928), na África, tinham verificado que o vírus era capaz de infectar o rhesus quando se punha o sangue contaminado sobre a sua pele. Costa Lima descobriu que não apenas as picadas, mas também as fezes do Aedes aegypti eram infectantes. Depositando-as, simplesmente, sobre a pele de um rhesus podiam causar uma febre amarela mortal (ibidem, p. 7). As duas observações estabeleciam surpreendente analogia entre o modo de infecção da febre amarela e o da doença de Chagas, e tinham implicações epidemiológicas seriísimas, já que indicavam outro circuito de propagação da doença, sem falar na possível
"superinfecção" de indivíduos já picados pelo inseto.44
A infecção do rhesus (Macaca mulata) na África ocidental, em 1927, abriu as portas também para uma nova safra de vacinas contra a febre amarela, da qual resultaria a que está em uso hoje.