Febre amarela: a doença e a vacina
Os sinais da decadência
A política de ciência e tecnologia na área de saúde teria de fortalecer os estudos sobre a ecologia e epidemiologia dessas doenças, o controle de seus vetores e reservatórios, cuidando, também, da produção de vacinas e quimioterápicos para enfrentá-las. De acordo com Santos (idem, pp. 115-6), o plano do Ministério da Saúde atribuía à Fiocruz a responsabilidade por todos os projetos de pesquisa básica em microbiologia, zoologia e bioquímica, e por 22 dos 27 projetos de pesquisa aplicada ao desenvolvimento de vacinas, às doenças de áreas de penetração e, ainda, às micoses, doenças degenerativas e materno-infantis. Do total de recursos previstos, aproximadamente 80% proviriam do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico gerido pela Finep.
A versão final do II PBDCT, publicada em 1976, incorporou a proposta de Almeida Machado, com algumas modificações (Ministério da Saúde/Secretaria Geral, 1976). A estreita ligação de
Vinícius da Fonseca 22 com Reis Velloso facilitaria a afluência de recursos para a modernização da Fiocruz, reforçando não apenas sua inclusão na política nacional de ciência e tecnologia como a "autonomia de atos e decisões" do presidente da instituição frente ao Ministério da Saúde.
A posse ocorreu em Brasília, em 21 de agosto de 1975, e a solenidade de transmissão do cargo, em Manguinhos, no dia 26 de agosto, durante reunião do Conselho de Administração. Vinícius da
Fonseca anunciou as linhas gerais do novo estatuto da Fiocruz 23 na presença dos diretores de suas unidades, e do próprio ministro da Saúde, que, dias antes, na cerimônia de Brasília, qualificara a instituição de "cadáver insepulto".
Os sinais da decadência A nomeação de um economista para chefiá-la rompeu a tradição de se delegar seu comando a médicos-cientistas, de preferência oriundos da própria instituição. Vinícius da Fonseca ascendia apenas ao segundo escalão do governo, mas em sua posse houve nada menos que quatro ministros, os presidentes do CNPq, da Finep, do BNDES e outras autoridades. A V Conferência Nacional de Saúde, inaugurada dias depois, pela primeira vez contou com a presença de um presidente da República e serviu para propagar o novo papel que o governo reservava a Manguinhos. Fonseca fez questão de que houvesse pompa nas cerimônias de posse: "para poder me impor, porque a instituição havia caído a um ponto tal que, sem isso, não tinha como." A da Fiocruz foi "um comício, uma coisa enorme .... muita gente sem entender o que era aquilo." De fato, para o pessoal de Manguinhos, que já vivera longo tempo sob o tacão de Rocha Lagoa, aquele era apenas mais um interventor do regime militar.
A falta de apoio era total. ... nem era indiferença, era, digamos
assim, hesitação, reticência e preconceito. ... havia um grupo
muito grande ligado aos cassados. ... o "Massacre de
Manguinhos" foi uma coisa extremamente paroquial ... Não
estou querendo dizer que os cientistas que foram cassados
fossem inexpressivos. Quero dizer é que não houve
repercussão, porque Manguinhos já tinha perdido sua função
social. Eu quis legitimar Manguinhos de novo. Isso foi o que eu
quis, e o ministro também" (Vinícius da Fonseca, entrevista, fita
7).
Antes de assumir o cargo, Fonseca visitou a instituição em companhia do diretor do IOC, Dr. Genard Nóbrega, um conterrâneo da Paraíba. "Vi o horror que era aquilo! É indescritível como pôde ter chegado àquele ponto". Uma das primeiras coisas que Genard lhe mostrou foi o local onde se fazia o tráfico de drogas, uma casinha onde residira antigo funcionário já falecido. O terreno de cerca de 750 mil metros quadrados não era cercado. Ficava exposto à passagem dos transeuntes e às incursões de moradores da região, sobretudo da favela que se desenvolvera ao redor de um conjunto popular construído nas imediações, durante o governo de Getúlio Vargas. Muita gente, inclusive, já se instalara em terrenos da antiga fazenda de Manguinhos. Padarias de Bonsucesso retiravam lenha de lá. As ligações internas eram precárias: para ir do castelo mourisco à Escola Nacional de Saúde Pública, era preciso contornar a instituição. O capim colonião se alastrara, e em épocas de seca havia constantes incêndios. Transitar pelo campus se tornara arriscado: 34 roubos e assaltos foram registrados entre janeiro e setembro de 1975. "Quartos de motel" foram improvisados numa garagem abandonada, e quem os descobriu foi o próprio ministro da Saúde, que possuía um gabinete no prédio do ministério situado na outra margem da avenida Brasil (hoje conhecido como 'Expansão'). "Ele chegou lá uma noite e me disse que foi um rebuliço, corre-corre... O hotel estava sendo utilizado, com luz vermelha e tudo".
A Casa de Chá, o antigo biotério e outros prédios estavam em estado ruinoso. O Pavilhão Mourisco era ocupado por Genard da Nóbrega, diretor do IOC; pela biblioteca, preservada a duras penas por Maria Bustamante e um ou outro pesquisador. As demais salas estavam vazias, o que dava ao prédio — ao símbolo de Manguinhos — um aspecto de total desolação.
Interior do laboratório da Unidade Sanitária Germano Sinval na
época do inventário realizado na gestão de Vinícius Fonseca
dos problemas de infra-estrutura decorrentes da crise pela qual
passara o Instituto Oswaldo Cruz, entre as décadas de 1950 e
1970.
COC/Fiocruz
Visita a Manguinhos do ministro da Saúde, Paulo de Almeida
Machado, que, junto com o presidente da instituição, Vinícius
Fonseca, percorre as instalações do campus, verificando o
estado precário em que se encontrava a recém-criada Fiocruz.
Rio de Janeiro, RJ, 17, 18 e 19 de janeiro de 1977.
COC/Fiocruz
Na Casa Amarela, que sediara a fabricação da vacina antivariólica, havia "três a quatro metros por dentro da terra só de material velho de vacina... Meu filho um dia foi lá e se cortou". (Vinícius se havia instalado com a família num prédio próximo chamado Residência Oficial). "Foi um negócio horrível! O menino ficou parecendo um monstro. Ficou vacinado pelo resto da vida — me disse o dr. Potsch. 'Esse daí não vai mais morrer de doença infecciosa'".
Segundo Fonseca, trabalhar em Manguinhos era algo "desprezível", porque se ganhava muito pouco. "Todos os pesquisadores, quando cheguei lá, trabalhavam quatro horas por dia. Não havia tempo integral, porque não dava. A não ser para os que tinham recursos do CNPq, mas não eram muitos, porque o CNPq também desprezava a instituição. Ela tinha chegado a esse nível tremendo de decadência, de prostração".
A princípio, naquela instituição feita de instituições descozidas, com a cellula mater reduzida a tamanho abandono, a figura do presidente, apesar da pompa que cercara sua investidura, era inteiramente sem sentido. Nos primeiros meses, sem ter sequer um gabinete, limitava-se a perambular pelo campus, muitas vezes sem ser reconhecido. "Descobri que podia arranjar umas duas ou três salas no Pavilhão Rockefeller. Tomei emprestado um ramal de telefone, não sei de quem, e comecei a estudar o que era Manguinhos".