Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 15 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

A última vacina bacteriana contra a febre amarela

A inauguração do Hospital Oswaldo Cruz, em 1912, foi importante para os trabalhos experimentais destes patologistas, que continuaram a se ocupar das necrópsias em todos os grandes hospitais da cidade, mantendo uma interface com os problemas de "medicina prática" de seus corpos clínicos e os de medicina experimental dos laboratórios de Manguinhos. O Hospital Oswaldo Cruz, dirigido por Evandro Chagas, além de cumprir a função de centro de estudos, desde cedo começou a prestar assistência à população de subúrbios próximos, sobretudo durante as epidemias de varíola, em 1925-26, e de febre amarela, em 1928-29.

A Seção de Protozoologia não constava do organograma definido em 1926, mas possuía dois chefes de serviço, Henrique Aragão e Aristides Marques da Cunha, o assistente Julio Muniz e um pequeno corpo de funcionários, que incluía desenhista, preparador, microscopista etc. As coleções desta seção totalizavam cerca de 1.200 preparações, "algumas com mais de dez anos e de valor documentário inestimável". Seus integrantes estudavam sistemática e biologia de protozoários. A problemática da etiologia da febre amarela, reavivada em 1918, levou-os a se dedicarem também às espiroquetas e em seguida aos vírus.

Em 1928, quando a doença reconquistou o Rio de Janeiro, e os norte-americanos provaram que seu agente era um vírus filtrável, a Cavalariça deixou de servir à preparação de soros e passou a abrigar a criação de camundongos e macacos inoculados por Henrique Aragão, que chegou a produzir uma vacina contra a febre amarela, usada em milhares de habitantes da cidade. Falaremos dela no próximo capítulo.

 

A última vacina bacteriana contra a febre amarela Trataremos aqui daquela que soçobrou dramaticamente nesta brusca virada da febre amarela, da etiologia bacteriana para a viral. Foi desenvolvida em 1918 por Hideyo Noguchi (1876-1928), um bacteriologista do Rockefeller Institute for Medical Research, em Nova York. De origem muito humilde, nasceu numa pequena aldeia japonesa e foi batizado com o nome de Seisaku Noguchi. As fotos que se vêem dele mostram um homem de baixa estatura, semblante simpático, olhos vivazes, sempre a esconder a mão esquerda, deformada em conseqüência de séria queimadura sofrida aos dois anos. Educou-se à custa de grandes sacrifícios da mãe e da irmã, e graças a certas qualidades que os biógrafos ressaltam: o poder de atrair a ajuda de amigos e estranhos, e a tenacidade, que faria dele um dos mais prolíficos bacteriologistas de sua geração. Num período da juventude em que se sentia especialmente deprimido com a dificuldade de concretizar seus sonhos, mudou de nome para Hideyo, 'grande homem do mundo'.

Em 1899, conheceu Simon Flexner, professor de patologia da Universidade da Pennsylvania, que estave em Tóquio, à frente de uma comissão médica que iria às Filipinas para investigar um surto de disenteria. Visitavam o Instituto Kitasato de Doenças Infecciosas, quando Noguchi, que trabalhava ali como auxiliar de pesquisa, disse a Flexner que gostaria de ir para a América, e este, casualmente, respondeu que isso seria muito bom. Noguchi tomou ao pé da letra o comentário e, com dinheiro emprestado dos amigos, embarcou para São Francisco e, no final daquele ano, bateu à porta de um atônito Flexner. Conseguiu uma colocação como auxiliar de pesquisa de Weir Mitchell, um estudioso do ofidismo, que buscava aplicar os avanços recentes nos conhecimentos sobre imunidade e antitoxinas à compreensão das complexas proteínas presentes nos venenos de cobra (Clark, 1959, pp. 2-3)

Quando o Rockefeller Institute for Medical Research, fundado em 1901, se transferiu para um prédio próprio, sob a direção de Flexner, em 1906, Noguchi foi contratado como pesquisador assistente. A partir de então, segundo Paul Franklin Clark, seu biógrafo e colega, trabalhou com furiosa intensidade em problemas relacionados à etiologia de diversas doenças, publicando um total de 212 trabalhos sobre assuntos tão diversificados quanto ofidismo, imunologia, tuberculose, esporulação de bactérias, sífilis e seu sorodiagnóstico, tracoma, poliomielite, raiva, tifo exantemático, febre de Oroya e verruga peruana, doença de Carrion, biologia e técnicas de cultivo de espiroquetas. (ibidem, pp. 6-7)

A febre amarela foi objeto de 34 trabalhos publicados entre 1918 e 1928. Noguchi chegou a ela por via da sífilis. O agente desta doença, que era um dos grandes problemas sanitários da época, foi descoberto em 1905, por Fritz Richard Schaudinn, jovem protozoologista de Hamburgo, com o auxílio de Hoffmann. A descoberta causou grande excitação nos institutos bacteriológicos do mundo inteiro, que se debruçaram não apenas sobre o Treponema pallidum, mas sobre outros membros da família das espiroquetáceas, microrganismos em forma de espiral que parasitam homens e animais, causando diversas doenças, entre elas a de Weil (de Adolf Weil, 1848-1916), hoje mais conhecida como leptospirose.

No ano seguinte à descoberta do agente da sífilis, Wassermann, Neisser e Bruck desenvolveram um método para o diagnóstico da doença, baseando-se na fixação do complemento, o que representou um passo fundamental para seu controle. Reações sorológicas para o diagnóstico de outras doenças seriam então derivadas da teoria humoral ou sangüínea da imunidade, que distinguia basicamente três componentes. O antígeno era a proteína estranha que, ao ser introduzida no organismo, gerava uma substância 'anti-ela', o anticorpo, específica para o microrganismo invasor. Nas reações de defesa atua também um sistema complexo e inespecífico de globulinas existente em qualquer soro sangüíneo, que os bacteriologistas da época denominaram "complemento", verificando que era termolábil: quando o soro era aquecido a 56ºC (inativado), o complemento desaparecia, ao passo que o anticorpo, termostável, continuava presente.

A fixação ou consumo do complemento foi descoberto em 1901 por Jules Vincent Bordet e Octave Gengou, quando juntaram duas misturas: uma formada por todos os elementos necessários à reação imunitária; outra composta por antígeno e anticorpo inativados (sem complemento). A reunião das duas misturas não acarretou a mudança de cor que se esperava, porque no primeiro complexo, o antigênico, o complemento havia sido fixado ou consumido. Se tivesse ficado livre, completaria a ação do anticorpo descomplementado da segunda mistura, promovendo a hemólise ou destruição dos glóbulos vermelhos, com liberação da hemoglobina e conseqüente envermelhecimento do líquido. Variando-se o antígeno empregado no primeiro sistema, obter-se-iam reações adequadas ao diagnóstico de diferentes doenças. Em 1913, por exemplo, Cesar e Guerreiro e Astrogildo Machado a utilizariam para o diagnóstico da doença de Chagas, no Instituto Oswaldo Cruz (Carneiro, 1963, pp. 38-9).

Bem antes disso, Noguchi varou noites estudando cada componente da reação, e conseguiu desenvolver um método alternativo ao de Wassermann para o diagnóstico da sífilis. Alguns hospitais o adotaram, mas logo surgiram outras modificações do método original. Noguchi ficou mais conhecido por causa do livro que escreveu sobre o sorodiagnóstico da sífilis, e pela habilidade com que cultivava espiroquetas. Espécies menos parasíticas tinham sido cultivadas in vitro, mas não em culturas puras. Noguchi as obteve usando fragmentos de tecido estéril, de preferência rim de coelho, em tubos com soro e uma camada de óleo de parafina para ajudar a criar ambiente propício à anaerobiose, isto é, à vida do microrganismo em ausência do oxigênio. Também conseguiu produzir lesões nos testículos de coelhos, que lhe proporcionavam suprimento constante de espiroquetas. Tornou-se assim um

especialista nessa classe de microrganismos, 39 sobretudo depois que resolveu antiga controvérsia sobre a etiologia da paralisia geral e do tabe (tabes dorsalis), demonstrando a presença do Treponema

pallidum 40 em tecidos do cérebro.

Em 1916, William Gorgas fez uma longa viagem pelo continente americano para identificar os centros onde seria travada a guerra de extermínio contra a febre amarela. O envolvimento dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial e sua nomeação para o cargo de surgeon general o obrigaram a se dedicar a problemas mais urgentes. Porém, em junho de 1918, ainda durante a guerra, quando irrompeu uma epidemia em Guayaquil, que considerava um dos principais focos da febre amarela no continente, Gorgas enviou outra comissão àquela cidade, chefiada por Arthur Kendall. Noguchi fez parte dela, cabendo-lhe retomar as pesquisas sobre o agente etiológico da doença, tarefa que abraçou com entusiasmo por julgar que era a chance, finalmente, de trabalhar com algo que o tornaria muito famoso.

Gorgas, Flexner e outros investigadores consideravam provável que o agente da febre amarela fosse um microrganismo semelhante ao da doença de Weil, também conhecida como icterícia hemorrágica, que começara a ser estudada há pouco tempo. Em 1917, dois bacteriologistas japoneses, Inada e Ido, demonstraram que era uma espiroqueta a responsável pelo mal que acometia plantadores de arroz, mineiros e trabalhadores que lidavam com esgotos. A doença grassara também, intensamente, nas trincheiras européias, e as investigações feitas com o sangue de soldados franceses, alemães e italianos revelaram espiroquetas idênticas àquelas descritas no Japão. Nos países americanos ainda não se tinha experiência clínica com a doença. Noguchi verificou a presença das mesmas espiroquetas nos ratos americanos, e propôs um novo gênero para elas: Leptospira (Eckstein, 1931, pp. 269, 236-7; Plesset, 1980, pp. 178-9).

Eckstein (pp. 265-8) descreve em detalhes sua viagem à capital equatoriana: a escala em Balboa, na zona do Canal, o tumultuado embarque no Ucayali, com 15 caixas repletas de porquinhos-da-índia. e a chegada, em 15 de julho de 1918, junto com a cantora Maria Barrientos, que se recusou a desembarcar com os sessenta músicos de sua companhia, ao saber que a febre amarela grassava na cidade. A multidão no porto, indignada com a cantora, vaiou também os 'gringos' que vinham dar publicidade à pestilência de Guayaquil, então com cerca de oitenta mil habitantes, já classificada como uma das cidades mais insalubres do mundo pela comissão da Harvard School of Tropical Medicine, que lá estivera em 1913. Havia uma lei no Equador proibindo a imigração japonesa, e o biógrafo surpreende-se com a hostilidade de Noguchi em relação aos numerosos compatriotas que viviam no país. Para neutralizar o preconceito, discursou em espanhol, idioma que começara a aprender antes da viagem.

No dia seguinte à sua chegada, iniciou a investigação no Hospital de Febre Amarela, que ficava a dois passos do Hospital da Peste, outra doença que castigava Guayaquil, e que determinara, inclusive, a proibição de se trazerem para ela os porquinhos-da-índia abundantes no país, e não foram poucos os que riram de Noguchi por haver se dado ao trabalho de trazer tantos de tão longe. Em 24 de julho, nove dias apenas após a sua chegada, ele levou Kendall até o microscópio e mostrou-lhe o microrganismo que julgava ser o causador da febre amarela, uma espiroqueta como tinham previsto, muito provavelmente a mesma da icterícia hemorrágica.

Nos dias seguintes, adquiriu centenas de cobaias. Crianças traziam-lhe os mais variados animais, e Noguchi criou o hábito de ir aos mercados para examinar os que eram postos à venda. Fez experiências com pássaros, com ratos selvagens, até com burros. Tentou infectar com o germe que isolou o Stegomyia fasciata (Aedes aegypti), o transmissor indiscutível da febre amarela. E, diariamente, ia ao hospital para examinar os doentes.

No começo de setembro, a comissão norte-americana regressou aos Estados Unidos, mas ele permaneceu, redobrando os esforços para encontrar o microrganismo no sangue e nos tecidos das vítimas da febre amarela. Só deixou Guayaquil no final de outubro,

transformado em verdadeiro herói. 41 Conseguiu inocular batalhões recém-chegados do planalto andino com a vacina feita a partir da espiroqueta, sem saber ainda se iria funcionar. Ao partir para Nova York, fez o possível para impedir a publicação de qualquer relatório que contivesse informações sobre a descoberta antes de ele próprio a divulgar.

Em dezembro de 1918, estudava ainda a relação do suposto agente da febre amarela com organismos morfologicamente similares. Preocupava-o a semelhança com o da doença de Weil. Finalmente, decidiu que Leptospira icterohaemorrhagiae e Leptospira icteroide eram duas espécies distintas de espiroquetas.

Em nota publicada em janeiro de 1919, no Journal of the American Medical Association, relatou a indução da febre amarela em porquinhos-da-índia inoculados com sangue extraído de casos humanos. Obtivera seis resultados positivos num total de 17 doentes sangrados, depois de haver isolado o leptospira em culturas puras obtidas por "métodos especiais". Até o final daquele ano, publicaria 11 artigos sobre a etiologia da febre amarela no Journal of Experimental Medicine.

No primeiro, descreveu os pacientes, sustentando que a febre amarela em Guayaquil correspondia às descrições de outras partes do mundo. No segundo e terceiro, descreveu a doença induzida com a inoculação de sangue dos pacientes e de cultura da espiroqueta em porquinhos-da-índia, o único animal que se revelara suscetível tanto à febre amarela como à icterícia hemorrágica. No quinto artigo, referiu-se às experiências com o soro de convalescentes, mostrando que destruía as espiroquetas ou

aquietava seus movimentos. O sexto foi o mais importante. 42 Os soros de 15 dos 18 doentes sangrados, já convalescentes, deram resultado positivo em porquinhos-da-índia, usando-se a técnica de

Pfeiffer.43

Animais de controle, inoculados com soro de soldados não imunes ou de casos de malária, e em seguida com as espiroquetas, deram reações de Pfeiffer negativas, vindo a morrer todos os animais com

sinais típicos da febre amarela. No artigo seguinte,44 Noguchi descreveu transferências bemsucedidas da doença causada pelo leptospira por meio de picadas de estegomiias. Muitos fracassos foram relatados aí também. O décimo artigo apresentou um estudo comparativo das reações imunológicas ao L. icteroides e ao L. icterohemorrhagiae. Os resultados eram inconsistentes, contentando-se Noguchi em explicar que havia grande variação na suscetibilidade dos porquinhos-da-índia aos dois microrganismos e também na virulência destes (Eckstein, 1931, pp. 286-7; Clark, 1959, p. 18).

Àquela altura, seu laboratório já produzia quantidades substanciais de soro curativo em cavalos e vacina com leptospiras mortos. No verão de 1919, enquanto era publicada a série de artigos sobre a etiologia da febre amarela, a Fundação Rockefeller enviou outra expedição à América Central, sob o comando de Gorgas e com a participação do dr. Pareja, diretor do Hospital de Febre Amarela de Guayaquil, que passara uma temporada em Nova York aprendendo a usar os imunizantes de Noguchi. Levaram consigo soro e vacina suficientes para imunizar quinhentas pessoas (Plesset, 1980, pp. 191-4). Entre 1918 e 1920, 64 mil centímetros cúbicos de vacina e 6.450 centímetros cúbicos de soro, suficientes para 16.150 doses individuais, foram embarcadas para o Peru, El Salvador, Panamá, Guatemala, Honduras, Nicarágua e México (Cueto, 1993, p. 2).

Ainda em 1919, irrompeu uma epidemia no México, e Noguchi viajou para lá, a convite do governo mexicano, juntando-se em Mérida a outro pesquisador do instituto de pesquisas da Rockefeller, dr. I. J. Kliger. Encontraram apenas três casos no hospital de isolamento da cidade, e de apenas um obtiveram culturas capazes de produzir icterícia nas cobaias e revelar leptospiras nas autópsias. Soro preparado no Equador protegeu animais contra a doença

adquirida no México.45 Em fevereiro de 1920, Noguchi regressou a Nova York, mas em abril encontrava-se já em Havana, a caminho do Peru onde havia outro surto de febre amarela e onde obteria novas evidências em favor de sua teoria e de seus imunizantes.

Noguchi rapidamente conquistou adesões de personagens de peso na comunidade científica internacional. No relatório anual apresentado ao conselho de diretores científicos do Rockefeller Institute for Medical Research, em 1920, Flexner assegurou que a relação entre Leptospira icteroides e a febre amarela fora assentada em bases sólidas após as viagens ao México e ao Peru (Plesset, 1980, p. 204).

Houve, porém, desde o início, algumas vozes dissonantes, principalmente a de Mario Lebredo, especialista cubano em febre amarela que participou também da comissão enviada a Guayaquil. Na reunião da Society for Tropical Medicine, realizada em junho de 1919, em Atlantic City, afirmou que Noguchi não provara que havia trabalhado com casos de febre amarela, e questionou o uso de porquinhos-da-índia como modelo experimental para o estudo da doença. Segundo Lebredo, o quadro clínico apresentado por Noguchi reproduzia, quase que palavra a palavra, a descrição de Inada e colaboradores sobre a doença de Weil. Temendo que a vacina pudesse vir a ser usada como medida preventiva principal, antes de seu valor ser adequadamente estabelecido, enfatizou a importância do controle da febre amarela pela erradicação de seu transmissor, o Aedes aegypti. Lebredo também esteve no México e lá tampouco encontrou o Leptospira icteroides (ibidem, pp. 190-1).

Drs. GoroKuno, Perrin, Henrique de Figueiredo Vasconcelos e

Hideyo Noguchi em 19 de dezembro de 1920 durante visita ao

Centro Japonês. Coc/Fiocruz

Hideyo Noguchi com Carlos Chagas. Eckstein, 1931, p. 276. Entre 1924 e 1927, Noguchi realizou alguns dos melhores trabalhos de sua carreira. Estudou leishmânias, protozoários flagelados de plantas e insetos, a estrutura e mobilidade das espiroquetas, demonstrou a identidade da febre de Oroya e da verruga peruana, indicando inclusive o inseto transmissor do organismo que causava as diferentes formas da doença. Segundo Plesset (p. 233), nesse período de grande fertilidade, os céticos em relação à teoria da febre amarela começaram a aceitar com mais reservas os outros trabalhos que publicava, ao passo que os adeptos subiam de tom na defesa de suas idéias.

O Serviço Colonial Britânico preparava-se para iniciar a profilaxia da febre amarela em seus protetorados na África ocidental, a Costa do Ouro e a Nigéria. Adrian Stokes viajou para lá como membro de uma comissão encarregada de planejar os trabalhos, mas não conseguiu estabelecer a identidade do soro de africanos que convalesciam de febre amarela com o obtido por Noguchi na América do Sul.

Em 1921, aconteceu um fato grave. O International Health Board da Fundação Rockefeller enviou o dr. Howard Cross, recém-formado em medicina na Johns Hopkins, para fazer um estágio no laboratório do bacteriologista japonês, antes de seguir para Vera Cruz, onde veio a falecer em conseqüência da febre amarela, não obstante houvesse sido imunizado com a vacina de Noguchi. (ibidem, pp. 223-4).

Sentindo o chão tremer sob seus pés, este resolveu viajar para o Brasil, onde a oposição cubana vinha tendo grande repercussão, especialmente o artigo publicado por Guiteras com base nos trabalhos experimentais negativos de Lebredo. Em 1923, o governo brasileiro formalizou o acordo de cooperação com a Rockefeller visando à erradicação da doença no Norte e Nordeste do país. Em novembro, Noguchi e um assistente, o dr. Henry R. Muller, embarcaram rumo a Salvador com um carregamento de microscópios, vidraria, incubadores, porquinhos-da-índia, coelhos, Maccacus rhesus, babuínos, camundongos e ratos, tudo em caixas à prova de mosquitos.

Assim que foram anunciados os resultados da investigação de Noguchi em Guayaquil, Carlos Chagas mobilizou os pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz, enviando vários deles à capital baiana, onde a febre amarela era endêmica. Segundo Olympio da Fonseca, esperava-se que confirmassem a descoberta do sábio japonês, mas, apesar das facilidades proporcionadas pelos profs. Clementino Fraga, Gonçalo Muniz e Octavio Torres, na Faculdade de Medicina da Bahia, e pelos médicos do Hospital de Isolamento em Monte-Serrate, os bacteriologistas do Rio não conseguiam observar nada que confirmasse o que Noguchi havia descrito. No centro de operações do IOC, na Faculdade de Medicina, estiveram, em três levas sucessivas, os drs. Aristides Marques da Cunha, José Gomes de Faria, Carlos Bastos de Magarino Torres, Carlos Burle de Figueiredo e o próprio Olympio da Fonseca. Bacteriologistas de São Paulo não obtiveram melhores resultados.

Era tal, porém, o prestígio do grande pesquisador japonês ...

que, se pode dizer, ninguém acreditava, pelo menos até ir

pessoalmente à Bahia ..., que o insucesso das pesquisas

pudesse ser devido à inexistência do leptospira nos casos de

febre amarela examinados. Todos pensavam, e muitos

francamente o diziam, que fosse ele devido à inexperiência dos

pesquisadores de Manguinhos, e à sua falta de preparo num

campo de trabalho inteiramente novo, como era o dos

leptospiras (Fonseca Filho, 1974, pp. 33-6).

Uma exceção era Adolfo Lutz. Embora estivesse voltado para outros objetos de pesquisa, tinha grande experiência com a febre amarela e estudara já a biologia das Spirochetaceae. Afirmava Lutz que, se a febre amarela tivesse por agente um microrganismo daquela família, ele o teria visto.

Em Salvador, Noguchi só encontrou três casos de febre amarela. Foi preciso mandar buscar outros no interior da Bahia. O relato de Eckstein (1931, p. 329) sobre sua estada naquela cidade mostra, por um lado, a atração exercida pelo lugar. Noguchi aprendeu o idioma da terra e logo se pôs a versejar em português, dando a entender o biógrafo que alguns destes versos foram estimulados pelas sedutoras baianas que conheceu. Para Noguchi, o clima e o ambiente não favoreciam o pensar e escrever. "Não admira que produzam pouco aqui" — desabafou. O prédio da faculdade lhe pareceu imponente, mas era completamente inadequado aos trabalhos laboratoriais. Noguchi, que demorou a receber a parafernália despachada de Nova York, ficou desapontado por não

encontrar um microscópio com campo escuro, 46 já que suas espiroquetas não podiam ser vistas sem aquele recurso de iluminação, e era essencial que as pessoas as enxergassem, pois não formavam colônias visíveis nos meios de cultura (Clark, 1959, p. 33).

Em 19 de dezembro, ele fez uma demonstração pública para os médicos e bacteriologistas nativos. Pôs sobre a mesa o soro de nove indivíduos que tinham se apresentado como convalescentes de febre amarela. Exibiu, também, quatro cepas do Leptospira icteroides obtidas no Equador, México e Peru, e três microrganismos da doença de Weil, deixando que os próprios médicos baianos fizessem os testes. Segundo Eckstein, os resultados foram cristalinos. Os soros dos nove convalescentes de febre amarela deram Pfeiffers positivos com seu leptospira, e negativos com os da doença de Weil. "Todo mundo fica impressionado", e Noguchi envia a Flexner e Russel, em Nova York, um telegrama entusiástico no qual informava que havia conseguido mostrar aos brasileiros por que não conseguiam comprovar sua teoria, acrescentando que eram "experimentadores destreinados, e seria surpreendente se tivessem conseguido" (apud Eckstein, 1931, pp. 335, 283).

Em 24 de fevereiro, médicos e autoridades foram se despedir dele nas docas de Salvador. "No Instituto Oswaldo Cruz"— lêse ainda em Eckstein (p. 338) — "fez uso de boa quantidade de equipamentos caros que os drs. White e Scannell providenciaram. Agora que está deixando o instituto, com os médicos brasileiros à sua roda, um pergunta-lhe o que será feito com o equipamento. Noguchi abana a mão: 'fiquem com ele'".

Segundo Plesset (p. 259), sua capacidade de convencer se devia à indiscutível facilidade com que encontrava espiroquetas nas lâminas e culturas e também à experiência com o sofisticado microscópio de câmara escura. A próxima geração de bacteriologistas seria treinada para usá-lo rotineiramente, mas a de Noguchi o encarava ainda com espanto. Apesar disso, a maré montante das observações contrárias à sua teoria não cessou. Numa conferência sobre doenças tropicais na Jamaica, em 1924, Aristides Agramonte, o único sobrevivente da comissão liderada por Walter Reed, em 1900, atacou a teoria e a

vacina de Noguchi. 47 O golpe mais sério partiu da Escola de Medicina Tropical de Harvard. Depois que Noguchi voltou do Brasil, Max Theiler e Andrew Sellards fizeram minucioso estudo da relação sorológica entre o L. icteroides e L. icterohemorrhagiae, aplicando a reação de Pfeiffer à cepa denominada Palmeiras nº 3, da Bahia, e a uma cepa do microrganismo da leptospirose proveniente de ratos de Boston (Plesset, 1980, pp. 241-2). As respostas foram idênticas. Porquinhos-da-índia imunizados contra uma infecção ficavam

protegidos contra a outra. 48 Sellards esteve depois no Brasil e publicou outro trabalho crítico à teoria de Noguchi.

Em 1951, Max Theiler receberia o prêmio Nobel de fisiologia e medicina por ter desenvolvido uma vacina eficaz contra a febre

amarela,49 como veremos no próximo capítulo, mas, antes de isso acontecer, muitos ainda tombariam vítimas da doença, inclusive Noguchi.

O golpe final foi desferido pela West African Yellow Fever Commission, da Fundação Rockefeller, composta pelos drs. Adrian Stokes, Johannes H. Bauer e N. Paul Hudson. Em 1925, instalaram-se em Lagos, capital da Nigéria, com o propósito de isolar o Leptospira icteroides seguindo as técnicas usadas por Noguchi na América do Sul. De janeiro de 1926 a maio de 1927, estudaram bacteriologicamente 67 casos de febre amarela, e inocularam cerca de mil porquinhos-da-índia trazidos dos Estados Unidos e da Europa. Nenhum morreu com lesões típicas da doença. Foram igualmente infrutíferas as experiências feitas com coelhos, ratos, cães, gatos e cabras. Numerosas culturas feitas a partir do sangue dos indivíduos doentes ou de animais inoculados não revelaram a presença do microrganismo incriminado por Noguchi.