Febre amarela: a doença e a vacina
O acordo com a Nigéria
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O acordo com a Nigéria
A colaboração entre as instituições canadense e brasileira teve mais um resultado importante. Ambas participaram da modernização do laboratório produtor de vacina antiamarílica da Nigéria, no auge de uma crise epidêmica de grandes proporções.
A febre amarela no continente africano tem características diferentes da doença nas Américas. A partir de 1925, quando se iniciaram as investigações sorológicas mais sistemáticas naquele continente, por iniciativa da Fundação Rockefeller e dos institutos de pesquisa da Inglaterra, França e Alemanha, a zona onde a febre amarela é endêmica começou a ser delimitada com mais precisão. Na ampla faixa que se estende da costa ocidental à oriental, e da borda do Saara a Angola, entre 15º de latitude norte e 10º de latitude sul, a doença ocorre sob a forma de casos esporádicos silvestres, nas florestas, ou de surtos de dimensões variáveis nas zonas rurais e, mais raramente, urbanas das planícies com vegetação característica de savana.
Além do Aedes aegypti, pelos menos 16 espécies de mosquito se mostraram capazes de transmitir o vírus amarílico, variando as populações de vetores de região para região. O ciclo de manutenção enzóotico na zona de florestas tropicais depende de transmissão de macaco a macaco, durante todo o ano, pelo Aedes africanus principalmente As infecções humanas ocorrem aí com um padrão endêmico, já que a densidade vetorial não alcança níveis suficientes para causar epidemias ou difusão inter-humana do vírus. Nas savanas úmidas, durante a estação das chuvas, ocorrem epidemias intermitentes com macacos ou humanos servindo de hospedeiros intermediários ao vírus da febre amarela (Monath, 1991, pp. 31-5; Meegan, 1988, p. 219; Nasidi, 1988, pp. 41-2).
Vacinações em massa começaram a ser praticadas na África ocidental francófona a partir dos anos 1940, com o vírus neurotrópico francês, em geral aplicado junto com a antivariólica, por escarificação. Chegaram a ser imunizados 25 milhões de pessoas, num ciclo quadrienal, o que fez desaparecer as epidemias na região. Aquela mesma vacina foi usada, emergencialmente, no Panamá, Honduras e Costa Rica, em 1951. Nesses países, e na Nigéria, onde houve surtos em 1951-52, ocorreram diversos casos de encefalite pós-vacinal, que confirmaram as suspeitas de que não era uma vacina segura. Depois dos acidentes, o Bureau Sanitário Pan-Americano recomendou que nas Américas fossem aplicadas somente as vacinas feitas com subamostras do vírus 17D.
país anos casos mortes Gâmbia 1978-79 8.400 1.600 Etiópia 1960-62 100.000 30.000 Senegal 1965 20.000 6.000 Burkina Fasso 1983 25.000 14.000 Nigéria 1969 10.000 4.000 Nigéria 1986-87 50.000 12.000
Fonte: Pasta Convênio Fiocruz/Nigéria. LAFA/Bio-
Manguinhos/Fiocruz
Os países africanos de língua inglesa sempre relutaram em usar o vírus neurotrópico francês, e como nunca se conseguiu transformar uma subcepa do 17D em vacina passível de ser usada por escarificação, não se implementou nesses países uma política eficiente de imunizações. A cobertura vacinal nos países francófonos era elevada até o início dos anos 1960, quando as vacinações foram interrompidas. Desde então, as epidemias vêm se sucedendo, com maior intensidade nos países anglófonos da África ocidental.
Em abril de 1982, quatro aldeias no centro da Costa do Marfim, de onde não havia relatos da doença desde 1943, foram vitimadas por um surto com transmissão por Aedes aegypti. No ano seguinte, uma epidemia mais grave, disseminada pelo vetor selvático, Aedes furcifer, atingiu Burkina Fasso e Gana. Nestas regiões, foram usados pela primeira vez os modernos instrumentos de diagnóstico — o teste ELISA (enzime-linked immunosorbent assay), para determinar a presença, no soro, de complexos antígeno-anticorpo IgM, assim como uma técnica que permitia isolar o vírus de amostras em que a infeção era mascarada por complexos imunes.
O aprimoramento do diagnóstico foi viabilizado por trabalho pioneiro de Jack J. Schlesinger e Michael W. Brandiss, na Universidade de Rochester. Ao mapearem epítopos ou, em outras palavras, regiões específicas da proteína viral da febre amarela associadas à virulência, puderam desenvolver os anticorpos monoclonais. Os imunoensaios em que estes anticorpos clonados reagem, de forma facilmente legível, com o antígeno extraído de doentes, possibilitaram diagnósticos muito mais rápidos dos que os obtidos anteriormente com os testes de proteção em camundongos e os
exames de fragmentos de fígados extraídos por viscerotomia.83
A mais grave das epidemias africanas das últimas décadas começou em setembro de 1986, na parte oriental da Nigéria. A equipe de investigadores enviada pela Organização Mundial de Saúde, da qual faziam parte, entre outros, Thomas Monath, Jose Esparza e Abdulsalami Nasidi, de Lagos, verificou, nas aldeias rodeadas de sepulturas recém-escavadas, que de um total de duzentos mil indivíduos, aproximadamente dez mil manifestaram, clinicamente, a doença, e mais de cinco mil morreram. O transmissor foi o Aedes africanus, já apontado como o mais prevalente na região pelos grupos de pesquisa que estudaram intensamente a ecologia dos vetores africanos da febre amarela nos anos 1970. O grupo de Monath verificou uma situação até então desconhecida: a espécie responsável pela manutenção enzoótica da doença na zona de florestas também assumia o papel de vetor epidêmico no mosaico floresta — savana, onde foi responsável por intensa transmissão do vírus entre humanos (Monath, 1991, p. 35).
Meses depois, a febre amarela irrompeu na parte ocidental da Nigéria, a quinhentos quilômetros de distância, principalmente em Ogbomosho, uma cidade de seiscentos mil habitantes. Monath e os demais integrantes da força-tarefa enviada à região constaram que apenas 20% da população foi infectada; 3% desenvolveram a doença, falecendo mais de 50% dos hospitalizados e 20% dos não hospitalizados. A campanha de vacinação em massa foi dificultada por problemas logísticos e pela resistência da população, atingindo menos de 10% dela.
A transmissão pelo Aedes aegypti naquela epidemia urbana constituía uma prova de que não eram infundados os temores de urbanização da febre amarela silvestre. O grupo encabeçado por Monath verificou que, historicamente, as epidemias urbanas ocorridas na América tinham tido índices de transmissão e morbidade muito superiores àqueles observados na Nigéria, não obstante houvesse aí grande população do vetor. O dr. Walter Tabachnick e colaboradores, da Universidade de Yale, já tinham assinalado a baixa suscetibilidade ao vírus amarílico de linhagens do Aedes aegypti da África ocidental. Monath, Barry Miller e Tabachnick confirmaram que era um vetor menos eficiente do que
as subpopulações de 84 Aedes aegypti das Américas. Se densidade elevada de um vetor relativamente incompetente para a transmissão da febre amarela podia ocasionar uma epidemia, tornava-se mais frágil a hipótese usualmente adotada para explicar a ausência da doença na Ásia. Estudos recentes de Aitken e Tabachnick tinham mostrado, inclusive, que as populações asiáticas do Aedes aegypti eram vetores melhores do que as da África ocidental.
Vacinas contra a febre amarela importadas pela Nigéria — ano
1988
Fonte: Pasta Convênio Fiocruz/Nigéria. LAFA/Bio-
Manguinhos/Fiocruz
Vacinas contra a febre amarela fornecidas pela Fiocruz à
Nigéria — década de 1970
Fonte: Pasta Convênio Fiocruz/Nigéria. LAFA/Bio-
Manguinhos/Fiocruz
Vacinas fornecidas pela Fiocruz à Nigéria — década de 1980
Fonte: Pasta Convênio Fiocruz/Nigéria. LAFA/Bio-
Manguinhos/Fiocruz
A resistência da população à vacina é outro aspecto diferencial da história da febre amarela na África e nas Américas. Apesar disso, a vacina é a única arma contra as epidemias das modalidades urbana, rural e silvestre da doença.
A Nigéria possuía um laboratório produtor. O Federal Vaccine Production Laboratory, criado originalmente em 1925 pela Fundação Rockefeller para o estudo da febre amarela naquela parte da África, começara a produzir a vacina antivariólica em 1930, a anti-rábica em 1948 e a antiamarílica em 1952. No auge da crise dos anos 1980, por influência dos organismos internacionais de saúde, o governo nigeriano decidiu incluir a vacinação contra a febre amarela em seu Programa Ampliado de Imunizações (PAI), o que iria requerer a produção de cinco a seis milhões de doses por ano, para atender, inclusive, às necessidades de países vizinhos.