Febre amarela: a doença e a vacina
Origem dos dados sobre a produção da vacina contra febre amarela
vacinação. Aventada a hipótese de que o máximo título de
anticorpos não era atingido dentro desse prazo, resolveu-se
fazer a experiência de campo em que as amostras eram
colhidas antes da vacinação, trinta e noventa dias após a
vacinação. De fato, a porcentagem de positivos noventa dias
após a vacinação é muito superior à de trinta dias. Entretanto,
seria de desejar obter títulos mais altos nos soros pós-
vacinação. Tentativas visando essa finalidade serão feitas nos
próximos anos ("Resumo das atividades do laboratório" em
1949).
As adversidades enfrentadas pelo vírus vivo até o momento de ser inoculado, e o risco constante de perda de potência da vacina eram, em certa medida, neutralizados pela elevada titulação dos lotes recém-fabricados; também, pelo esforço de se obter a máxima dessecação da vacina, e de se concentrá-la de maneira que duzentas ou, no mínimo, cem pessoas pudessem ser vacinadas com o conteúdo de uma única ampola.
Lotes de vacina com a mais alta titulação e a menor percentagem de umidade residual eram escolhidos quando se tinha de alcançar lugares de difícil acesso, como, por exemplo, igarapés da Amazônia, só acessíveis por canoa. Nessas condições, a vacina podia permanecer sem refrigeração por até 15 dias, sendo diluída a 1:50. Para as remessas a países estrangeiros, selecionavam-se, também, lotes com alto título, fixando-se a validade por um período de seis meses, desde que a vacina fosse mantida à temperatura de 5ºC ou menos (Penna, 1956, p.88).
Origem dos dados sobre a produção da vacina
contra febre amarela
As tabelas e gráficos exibidos nos capítulos três e quatro, e muitas afirmações feitas no texto baseiam-se em dados contidos em 14 fichários pertencentes ao acervo do Laboratório de Vacina Contra a Febre Amarela (LAFA), localizado no Pavilhão Henrique de Beaurepaire Rohan Aragão, um dos prédios do complexo Bio-Manguinhos/Fiocruz.
Os fichários contêm principalmente relatórios mensais e anuais de atividades do laboratório, com dados sobre a manufatura da vacina em 1943-45, quando o laboratório pertencia ainda à Fundação Rockefeller; 1946-49, quando esteve subordinado ao Serviço Nacional de Febre Amarela; e 1950-82, quando passou a Instituto Oswaldo Cruz, depois Fundação Instituto Oswaldo Cruz e, por fim, Fundação Oswaldo Cruz.
Os relatórios mensais e anuais (para 1943, só há relatório anual) apresentam informações quantitativas sobre os lotes produzidos e respectivas diluições para envase, demanda e estoque de vacina; doses utilizadas no próprio laboratório em testes bacteriológicos, de potência, proteção etc. Encontram-se, também, informações qualitativas sobre fatos técnicos ou administrativos relacionados à preparação da vacina, como melhorias tecnológicas, planejamento para o exercício seguinte, licenças e férias de funcionários, exportação de vacinas, convênios com órgãos nacionais e internacionais de saúde etc.
Depois da transferência do laboratório para o Instituto Oswaldo Cruz (1950), observa-se acentuado declínio da riqueza em informações desses relatórios, especialmente no tocante ao aprimoramento tecnológico da vacina. O fato de serem produzidos para figurar no relatório anual da Divisão de Vírus do IOC, ao qual o LAFA ficou subordinado, explica, apenas em parte, esse empobrecimento. Os volumes referentes às décadas de 1960 e 1970 contêm, assim, alguns relatórios anuais de outros laboratórios da Divisão de Vírus: Cultura de Tecidos e Enterovírus (1967 e 1968); Histopatologia (1969); Vírus e Tumores (1967); Vacina Antigripe (1968-69) e Vacina Antivariólica (1968-69/ 1970).
No momento em que iniciamos a consulta ao acervo do LAFA, ele se encontrava depositado, sem nenhuma ordenação, numa sala que entrou em obras. Para viabilizar a recuperação dos dados referidos no presente trabalho, criamos uma ordenação sumária e provisória: Vol. I [1943-1953] — Produção Antiamarílica
Vol. II [1954-1967] — Produção Antiamarílica
Vol. III [1968-1969] — Produção Antiamarílica
Vol. IV [ 1970-1973] — Produção Antiamarílica
Vol. V [1974-1976] —Produção Antiamarílica
Vol. VI [1977-1982] — Produção Antiamarílica
Vol. VII [Déc. 80-90] — Produção Antiamarílica
Vol. VIII [Déc. 60] — Seção de Vírus
Vol. IX [Déc. 60] — Seção de Vírus
Vol. X [1965-1968] — Correspondência
Vol. XI [1970] — Produção Antiamarílica e Antivariólica
LAFA 04 [1943-1964]— Produção Antiamarílica
LAFA 05 [1943-1964] — Seção de Vírus
LAFA 06 [1968-1969] — Seção da Produção
As informações quantitativas contidas nesses volumes são estruturadas segundo três padrões diferentes, que refletem, por um lado, as condutas político-administrativas específicas a cada período; por outro, mudanças na manufatura da vacina devidas a inovações tecnológicas ou à adequação às determinações da Organização Mundial de Saúde.
Registro de preparado de vírus 4201-4400, dolote 110-A ao 187-
A, 17/08/1978 a 08/10/1982.
LAFA/Bio-Manguinhos/Fiocruz
Os dados quantitativos apresentados nos relatórios mensais e anuais do período 1943-82 baseiam-se numa série documental intitulada "Registro de preparado de vírus", perfazendo 46 volumes que abarcam o período de 1936 a 1982. Eles guardam as 'certidões de nascimento' dos lotes semente e vacina criados no laboratório. As páginas numeradas destes registros trazem, no cabeçalho, o número do lote, o lote do qual se originou, a data de preparação, os nomes dos técnicos e/ou médicos responsáveis pelo serviço, a quantidade correspondente de ampolas e de centímetros cúbicos de vacina. As colunas da página descrevem o percurso do lote até sua extinção, indicando as sucessivas saídas de partes dele, sob a forma de ampolas e de volume em centímetros cúbicos. Uma coluna traz observações sobre o destino de cada saída (dosagem, quebra, prova bacteriológica, vacinação etc.).
As tabelas e gráficos apresentados neste capítulo e no capítulo quatro foram preparados a partir dos dados contidos nos relatórios mensais e anuais que se encontram em 14 fichários. O primeiro padrão de estruturação dos dados vigorou no período 1944 a 1970. Cada relatório mensal relaciona lotes que acabam de ser produzidos e lotes produzidos anteriormente, considerados parte do estoque existente no começo do mês. Cada linha do documento consigna a saída de doses para uso interno e externo, provenientes de lotes novos ou antigos, indicando a diluição máxima recomendada para a vacinação e, por último, o resíduo de cada lote, que configurará, no relatório do mês seguinte, o estoque disponível.
Um relatório mensal, de duas ou três páginas, compreende, em geral, três partes: o cabeçalho define a temporalidade do documento; em seguida, o chefe do laboratório ou um seus auxiliares narra os fatos extraodinários ou rotineiros ocorridos durante o mês; e por fim, descreve, num quadro numérico, o movimento mensal do laboratório, discriminando o estoque, as doses de vacina existentes do começo do mês; a saída de doses para "vacinação" ou "outros usos"; a entrada, que são as doses produzidas naquele mês, "em valores aproximados" e, por último, o existente, que é a soma de "estoque' e "entrada" menos a "saída", distinguindose, porém, "estoque real" e certa quantidade de doses (de lotes semente secundários) que serão usadas para preparar outros lotes de vacina. Este valor é demarcado no "existente", mas não é subtraído dele. O existente no final de um mês é o estoque no começo do mês seguinte.
Relatório mensal de atividades, janeiro de 1950.
LAFA/Bio-Manguinhos/Fiocruz
As doses que "saem" destinam-se à "vacinação" e a "outros usos". Os relatórios anuais definem, na parte textual, qual proporção de doses foi enviada a órgãos públicos brasileiros — principalmente o Ministério da Saúde — e os relatórios mensais, quantas foram exportadas para outros países.
Os "outros usos" da categoria saída compreendem, nos relatórios mensais, diversas subcategorias. Em laboratório de vacina consignam-se doses inoculadas em pessoas que vêm se vacinar no próprio LAFA. Controle designa doses usadas em testes bacteriológicos, de qualidade, titulação, termoestabilidade etc. Outros itens designam saídas similares: prova (prova bacteriológica); verificação (de água residual ou da qualidade da dessecação) e estudos (doses reservadas para investigações no próprio LAFA ou em outros laboratórios). As maiores saídas para "outros usos" que não as vacinações se devem a contaminação (doses correspondentes em geral a lotes inteiros contaminados por microrganismos); descarte (por quebra de tubos e/ou ampolas ou por título baixo decorrente de falha de produção); e título, que designa queda do título durante a prolongada armazenagem da vacina, em virtude de variações térmicas, panes nos sistemas elétricos de refrigeração e outros fatores, o que em geral acarretava a necessidade de diminuir a diluição da vacina e, conseqüentemente, o número de doses derivadas do lote comprometido. Sob "diversos" enumeravam-se retiradas para consumos eventuais (cientistas e clínicos, outras instituições etc.).
No período de 1971 a 1977, isto é, a partir da criação da Fundação Instituto Oswaldo Cruz até a gestão de Vinícius da Fonseca, os dados são estruturados segundo novo padrão, no qual se observa maior preocupação com o controle dos lotes no início, meio e fim de cada mês.
No segmento Início do Mês são apresentados os itens disponíveis— doses existentes no estoque do mês anterior — e controle, que indica as que dependem de provas de inocuidade e atividade. Quando liberadas, estas doses integram o item "disponível" no Final do Mês ou no Início do Mês seguinte.
No segundo segmento, Movimento do Mês, são registradas as entradas —doses preparadas durante o mês, que dependem de testes de controle para liberação — e saídas, que reúnem as doses destinadas a vacinação ou descartadas por insuficiência de título, contaminação ou reprovação em outros testes.
No último segmento, Final do Mês, constam os itens disponível (doses aprovadas pelo controle) e controle (doses ainda não aprovadas). No mês de dezembro, este item apresenta o total de doses em estoque no ano que ali se encerra.
A partir dos fatos narrados nos relatórios mensais de atividades e dos dados referidos no item saídas, no Movimento do Mês, obtém-se o número de doses mensais destinadas a vacinação, geralmente maior do que a quantidade anual de doses entregues ao Ministério da Saúde e outros órgãos públicos, ou exportadas para outros países. Estes últimos valores encontram-se nos relatórios anuais de atividades ou ainda no "Resumo anual de atividades" do Laboratório de Vacina Antiamarílica, da Divisão de Virologia da Fundação Instituto Oswaldo Cruz, documentos de cunho oficial mais sintéticos, atentos sobretudo a compromissos decorrentes de convênios envolvendo a fundação, o Ministério da Saúde e agências internacionais como a OPAS.
No terceiro padrão de estruturação dos dados, correspondente ao período de 1978 a 1982, aparecem não apenas os valores da produção mensal e dos controles dos lotes manufaturados, mas também aqueles relativos a etapas intermediárias do processo de produção: ovos recebidos e inoculados, número de embriões coletados e volume de polpa obtido, em mililitros. A mudança reflete a adoção de novos insumos (ovos SPF, por exemplo) e novas técnicas; a adequação às normas cada vez mais rigorosas da Organização Mundial de Saúde e às novas rotinas administrativas que regem o Laboratório de Produção de Vacina contra a Febre Amarela da Coordenadoria de Produção de Vacinas Virais da recém-criada Superintendência de Bio-Manguinhos.
Relatório mensal de atividades, janeiro de 1946.
LAFA/Bio-Manguinhos/Fiocruz
As tabelas apresentadas nos relatórios mensais do período contêm os itens lote (número de lotes preparados, quantificando-se a apresentação da vacina em 200 e 50 doses por ampola); entrada (doses produzidas), saldo anterior (estoque do mês anterior), saída (doses destinadas a testes e a vacinação), saldo atual (doses em estoque no final do mês) e disponível (estoque real, obtido pela subtração das doses sob controle do "saldo atual").
Relatório mensal de atividades outubro de 1973.
LAFA/Bio-Manguinhos/Fiocruz
O sistema de informações do período inclui o "Relatório de controles realizados", preparado pelo Laboratório de Controle de Vacinas de Bio-Manguinhos, que assume a execução das provas bacteriológicas e dos testes de esterilidade. Os relatórios mensais não especificam mais a quantidade de doses destinadas a vacinação. Esta informação encontra-se apenas nos relatórios anuais de atividades.
No período de 1983 a 1999, as modificações técnicas e arquitetônicas realizadas no laboratório, que analisaremos no capítulo quatro, tornam mais automatizado e segmentado o processo de produção da vacina e também o de produção de informações. As atividades de envase e liofilização, rotulagem e embalagem, estocagem e distribuição, que eram executadas nos mesmos pavilhões onde se dava a preparação da vacina, são transferidas para outros prédios e ficam a cargo de outras equipes. Isso se traduz em desagregação dos dados, que passam a figurar em protocolos específicos. No tempo de vigência dos três primeiros padrões, os relatórios eram confeccionados por médicos que tinham total controle sobre as diversas etapas da produção, sobre os trabalhos laboratoriais conexos e as experimentações que redundavam em constantes aperfeiçoamentos tecnológicos. A partir de 1983, os documentos fornecem resumos parciais das atividades desenvolvidas em diferentes setores e, apesar das facilidades proporcionadas pela informatização, observa-se a ausência de um sistema eficiente de agregação destas informações.
Os dados relativos ao período 1983-99 provieram do documento intitulado "Série histórica de Bio-Manguinhos" (mimeo, s.d., 4 fl.). Referem-se às quantidades de doses "produzidas" pelo Laboratório de Vacina Contra a Febre Amarela e "entregues" ao Ministério da Saúde, para atender aos programas nacionais de imunização.
As tabelas que produzimos a partir destas fontes reduzem as várias categorias utilizadas pelos sucessivos padrões descritos acima à estrutura básica que é seu denominador comum: entradas (vacinas produzidas a cada mês); saídas (para vacinação e outros usos) e estoque, que é a diferença entre estes dois movimentos.
Comportamento da razão entre as principais variáveis no
processo de preparação de vacina (febre amarela) - 1944 a 1955
Fonte: Relatórios mensais de atividades - LAFA/Bio-
Manguinhos/Fiocruz
Comportamento da razão entre as principais variáveis no
processo de preparação de vacina (febre amarela) - 1956 a 1970
Fonte: Relatórios mensais de atividades - LAFA/Bio-
Manguinhos/Fiocruz
Vacina anti-amarílica, estoque e fluxo de entrada e saída de
doses - jan/1944 a dez/1955
Fonte: Relatórios mensais de atividades - LAFA/Bio-
Manguinhos/Fiocruz
Vacina anti-amarílica, entradas, saídas e estoques - janeiro/1944
a dezembro/1955
Fonte: Relatórios mensais de atividades - LAFA/Bio-
Manguinhos/Fiocruz
Vacina anti-amarílica, estoque e fluxo de entrada e saída -
jan/1956 a dez/67
Fonte: Relatórios mensais de atividades - LAFA/Bio-
Manguinhos/Fiocruz
Vacinas anti-amarílicas, entradas, saídas e estoques -
janeiro/1956 a dezembro/1967
Fonte: Relatórios mensais de atividades - LAFA/Bio-
Manguinhos/Fiocruz
Vacina anti-amarílica, estoque, fluxo de entrada e saída de
doses - jan/1968 a dez/1977
Fonte: Relatórios mensais de atividades - LAFA/Bio-
Manguinhos/Fiocruz
Vacinas anti-amarílicas, entradas, saídas e estoques -
janeiro/1968 a dezembro/1977
Fonte: Relatórios mensais de atividades - LAFA/Bio-
Manguinhos/Fiocruz
Vacina anti-amarílica, estoque e fluxo de entrada e saída de
doses - jan/78 a dez/82
Fonte: Relatórios mensais de atividades - LAFA/Bio-
Manguinhos/Fiocruz
Vacina anti-amarília, entradas, saídas e estoques - janeiro/1978
a dezembro/1982
Fonte: Relatórios mensais de atividades - LAFA/Bio-
Manguinhos/Fiocruz
Vacina anti-amarílica, estoque e fluxo de entrada e saída de
doses - 1985 a 1999
Fonte: Série Histórica - Bio-Manguinhos/Fiocruz
Produção da Vacina anti-amarílica, em doses - 1944 a 2000
Fonte: Relatórios mensais de atividades - LAFA/Série Histórica -
Bio-Manguinhos/Fiocruz
Produção da Vacina anti-amarílica, em doses - 1944 a 2000
Fonte: Relatórios mensais de atividades - LAFA/Série Histórica -
Bio-Manguinhos/Fiocruz