Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 49 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

Envasamento da vacina

Em 1941-42, essa operação era realizada com todas as precauções de assepsia possíveis à época, no quarto à prova de poeiras. As vacinas com soro humano, filtradas ou não, eram "distribuídas" em volumes de 3 c.c., em ampolas com capacidade para 20 c.c., e a nova vacina sem soro, em volumes de 0,5 c.c. por tubo de 16 x 100 mm. Em 1956, as ampolas, feitas de Pyrex ou vidro similar, com 15 mm de diâmetro, tinham um longo gargalo que elevava o seu comprimento a 1,40 cm. Tubos e ampolas eram tampados com mechas de algodão bem frouxas, de maneira a não criar obstáculo à operação seguinte, a dessecagem da vacina, precursora da atual liofilização.

O equipamento para envasar resumia-se a uma bureta de vidro ligada ao frasco com vacina. Os tubos ou ampolas eram manipulados pelo operador, que flambava a boca de cada recipiente antes de enchê-lo, retirando e recolocando as mechas de algodão. Em 1942, empregava-se já uma pipeta automática, que podia ser ajustada para descarregar o volume desejado nos tubos ou ampolas. Sendo muito alta a velocidade para que fossem manuseados individualmente, eram arrumados em suportes com capacidade para 21 recipientes, cobertos com a tampa de uma placa de Petri até a hora do enchimento. Quando os tubos ou ampolas estavam cheios, eram tampados, um a um, com algodão estéril transferido de recipientes em duplicata colocados ali com essa finalidade. Parte do material era separada para as provas bacteriológicas, e para se verificar, por meio do chamado teste de potência, se a armazenagem dos embriões tinha afetado a concentração de vírus vivos.

Bureta para distribuição da vacina nas ampolas. A proteção de

vidro em forma de campânula, que se vê na extremidade da

bureta, tinha por função evitar a contaminação da ampola por

poeiras, no momento em que era preenchida. Rio de Janeiro,

RJ, 1941-1943.

Manual da Vacina/LAFA/ Bio-Manguinhos/Fiocruz

Máquina de pipetar automática para distribuição da vacina. O

processo agora automatizado permite o ajuste do volume

distribuído. Um protetor de vidro em forma de funil tinha a

função de evitar contaminações na ponta do tubo de

distribuição (a ponta de descarga) e nos outros tubos que

preenchia. Rio de Janeiro, RJ, 1941-1943.

Manual da Vacina/LAFA/Bio-Manguinhos/Fiocruz

Dispositivo mais moderno, adotado no pós-guerra, para envase

da vacina, no qual se gastavam vinte minutos para encher mil

tubos de 0,5 c.c. Rio de Janeiro, RJ, 1946.

Manual da Vacina/LAFA/ Bio-Manguinhos/Fiocruz

Em 1956, o processo se havia automatizado um pouco mais. O frasco que recebia o líquido resultante da centrifugação das polpas de embrião estava conectado a uma máquina de pipetar provida de um dispositivo de jato múltiplo que permitia encher, simultaneamente, oito ampolas. Estas ficavam em pé, em caixas de metal que comportavam oito fileiras com oito ampolas cada. Quando o operador pressionava um pedal, quantidade predeterminada de vacina era injetada nas ampolas de uma fileira, e assim sucessivamente, até serem preenchidas as 64 da caixa. O próximo operador acionava um dispositivo que introduzia as mechas de algodão estéril. Fora projetado de maneira a sobrepor-se à caixa que continha as ampolas cheias. Possuía, também, 64 tubos metálicos, na vertical, com diâmetro ligeiramente maior do que os gargalos das ampolas, e quando se dava o encaixe, a mecha de algodão era transferida dos tubos para as ampolas com o auxílio de um pente com oito pontas, que empurrava as mechas até a profundidade de 1 cm da borda das recipientes com vacina.

 

Visão geral da mesa de envase: as ampolas acondicionadas

num suporte especial são abastecidas por um aparelho de

múltiplo jato, conectado automaticamente à máquina de

envase. Rio de Janeiro, RJ, 1956.

Penna, 1956, p. 78

Enchimento de ampolas. O aparelho que as abastece possui janela de vidro, através da qual o operador vê o suporte que

tem de encaixar.

Rio de Janeiro, RJ, 1956.

Penna, 1956, p. 79

Procedimento para tampar os tubos de vacina com chumaços

de algodão. Estes são empurrados para dentro dos tubos,

uniformemente, por meio de um pente, depois de acoplar-se a

peça superior, que contém os algodões, na peça inferior, que

sustenta os tubos. A terceira foto mostra os tubos já vedados

com algodão, prontos para ingressarem na etapa da

dessecação. O dispositivo foi desenvolvido por um mecânico

habilidoso e inventivo de origem austríaca, o sr. Hans, que dava

corpo a muitas das inovações concebidas por Henrique Penna.

Durante a guerra, Hans foi expulso do Brasil, mas depois

trouxeram-no de volta, porque era um artesão insubstituível.

Rio de Janeiro, RJ, 1956.

Penna, 1956, p. 81

 

Penna, 1956, p. 81

Década de 1960.

Acervo LAFA/ Bio-Manguinhos/Fiocruz

Com a ajuda desses aparelhos, na sala à prova de poeiras, os dois operadores podiam encher e tampar mil ampolas em menos de 15 minutos (Penna, 1956, pp. 77, 80-1). A vacina envasada era então congelada por processo idêntico àquele utilizado com as garrafas que continham embrião triturado, e nesse estado ingressavam na etapa subseqüente, da dessecação.

Congelamento das vacinas em ampolas. A técnica denominada

shell-freezing consiste em manter as ampolas em movimento

rotativo, para que o congelamento se efetue por finas camadas

aderidas à parede interna dos frascos. Rio de Janeiro, RJ, 1956.

Penna, 1956, p. 82

Hoje, o envasamento da vacina contra a febre amarela é um processo inteiramente automatizado. A máquina que distribui a vacina a granel, depositando, em intervalos regulares, 0,55 ml, ou cinqüenta doses, em cada frasco de vidro, opera debaixo de um módulo de fluxo laminar, classe 100, filtra todas as partículas presentes no ar, tornando o ambiente muito mais asséptico do que a antiga "sala à prova de poeiras".

Os frascos são parcialmente fechados com tampas de borracha butílica lavadas, revestidas com silicone e esterilizadas, antes de serem transferidos para os liofilizadores industriais de alto vácuo, versão tecnologicamente superior aos antigos dessecadores que operavam numa escala muito menor, e à custa de trabalhosas manobras manuais que expunham a vacina a contaminações freqüentes e a uma secagem imperfeita.