Febre amarela: a doença e a vacina
Manguinhos em seu novo arcabouço institucional
Dentre os terapêuticos destinados à medicina humana, destacava-se o tártaro emético, que passou a ser amplamente utilizado no tratamento da leishmaniose graças aos estudos de Gaspar Viana, que ingressou no instituto em 1909, para assumir as pesquisas em
anatomia patológica realizadas até então por Rocha Lima.21
Se excluirmos itens fornecidos episodicamente pelo IOC, entre 1907 e 1918, verificamos que sua pauta industrial evoluiu de 11 para 26 produtos, entre soros, vacinas e outras substâncias biológicas usadas em diagnósticos ou como insumos laboratoriais.
Escreveu Ezequiel Dias em 1918:
Se fosse preciso calcular em moeda corrente toda a produção
de Manguinhos um ano após a morte de Oswaldo Cruz, ver-se-
ia que, só em soros e vacinas, essa importância atingiria
3.932:031$701. Isso não quer dizer que essa quantia tenha
entrado para o patrimônio do instituto, porquanto a maior parte
destes produtos teve saída gratuita para os hospitais de
isolamento, os serviços sanitários, enfim, os diferentes misteres
da Saúde Pública.
Além das vantagens econômicas para o Estado, Ezequiel ressaltava a vitória "moral" que significara a completa supressão da importação de imunobiológicos.
Manguinhos em seu novo arcabouço
institucional
Em 1908, Carlos Chagas e Belisário Pena viajaram para o norte de Minas Gerais, onde a malária impedia o prolongamento dos trilhos da Estrada de Ferro Central do Brasil. Lá as investigações de Chagas tomaram rumo imprevisto: sua atenção foi despertada para um inseto hematófago que proliferava nas paredes de pau-a-pique das casas, saindo à noite para sugar o sangue de seus moradores e de animais domésticos. Atacava de preferência o rosto humano, razão pela qual o chamavam de "barbeiro". Em março de 1909, Chagas completou a descoberta de uma nova doença tropical, ao encontrar no sangue de uma criança doente o protozoário cujas formas viera rastreando no organismo do transmissor e em outros hospedeiros vertebrados.
Com o apoio dos pesquisadores de Manguinhos, desenvolveu um trabalho completo sobre a doença produzida pelo Tripanosoma cruzi, que ficaria internacionalmente conhecida como doença de Chagas. Estudaram os hábitos do barbeiro e das populações que atacava, a biologia do tripanossoma e seu ciclo nos organismos infectados, os sinais clínicos e as lesões orgânicas que singularizavam a doença até então confundida com a malária ou a ancilostomíase. Ela foi a peça de resistência na Exposição Internacional de Higiene realizada em Dresden, em junho de 1911. No ano seguinte, Chagas obteve o prêmio Schaudinn, conferido pelo Instituto Naval de Medicina de Hamburgo, por uma comissão
que reunia a nata da microbiologia e da medicina tropical.22
A descoberta consolidou a protozoologia como uma das mais importantes áreas de pesquisa do Instituto Oswaldo Cruz. Deveu-se ao talento de Chagas e, também, a certas qualidades daquele coletivo, que havia acumulado quantidade expressiva de trabalhos relacionados à profilaxia da malária, à evolução de parasitos em seus hospedeiros, à sistemática e biologia de insetos transmissores de doenças humanas e animais. Ao dilatar suas atividades, Manguinhos preparara pesquisadores versáteis, com cultura científica, bem adestrados tanto nas técnicas bacteriológicas como naquele modelo experimental que Patrick Manson inaugurara ao estudar a filariose e o impaludismo.
Entre 1909 e 1910, muitos dos pesquisadores de Manguinhos fizeram viagens de estudo à Europa e aos Estados Unidos. Em julho de 1908, dois professores da Escola de Medicina Tropical de Hamburgo fizeram o caminho inverso. Stanislas von Prowazek, sucessor de Schaudinn, e G. Giemsa, inventor do método de coloração mais utilizado no estudo de hematozoários, foram contratados para dar cursos e publicar os resultados de suas pesquisas, em primeira mão, nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, recém-inauguradas. Prowazeck estudou com Aragão a etiologia da varíola. Fizeram uma descoberta que se revelaria falsa depois, mas que causou um bocado de sensação na época (Aragão e Prowazek, 1908, 1909). Teriam conseguido observar o germe da doença, ainda invisível para os microbiologistas, que admitiam, então, duas hipóteses: a de ser ele um protozoário ou um "vírus filtrável".
Em maio de 1909, o Instituto Oswaldo Cruz recebeu Max Hartmann, do Instituto de Moléstias Infecciosas de Berlim. Participou da sistematização dos aspectos parasitários e anatomopatológicos da doença de Chagas. Giemsa esteve de novo em Manguinhos em 1912, estudando com Cardoso Fontes e Godoy os parasitos de
peixes e plâncton recolhidos na baía de Guanabara.23 Naquele ano, veio Hermann Duerck, docente de anatomia patológica da Universidade de Iena.
Novos pesquisadores brasileiros ingressaram no instituto, no mesmo período. As principais aquisições foram Gaspar Vianna, que faleceu prematuramente em junho de 1914, com 32 anos de idade, e Adolfo Lutz, que deixou o Instituto Bacteriológico de São Paulo em 1908. Lutz daria grande impulso à zoologia, botânica e micologia médicas, e publicaria trabalhos fundamentais sobre o Schistosoma mansoni.
Os ventos sopravam a favor daqueles médicos que haviam optado pelo laboratório em detrimento da clínica, socialmente mais valorizada. Contudo, não foi nada tranqüilo o término dos anos aventurosos em que a pequena e aguerrida equipe de Oswaldo Cruz pôs todo o seu entusiasmo na tarefa de erguer Manguinhos de seu precário casulo original. As exigências de uma instituição mais madura e competitiva e as próprias estratégias individuais de reconhecimento profissional corroeram rapidamente os ideais que haviam compartilhado. O conflito estalou em 1910, quando foi feito o concurso para preencher a vaga desocupada por Rocha Lima, braço direito de Oswaldo Cruz.
Já existiam relações de hierarquia no instituto, mas eram contrabalançadas pelo caráter informal e voluntário das funções desempenhadas, pela divisão de trabalho igualitária, a ausência de especializações e a solidariedade em face das agruras materiais. Com as novas regras aprovadas em 1908 e a inauguração das modernas instalações, por volta de 1910, a hierarquia veio a ter caráter formal, passou a se expressar em desníveis salariais, na estratificação de atribuições, poderes e competências, no uso de laboratórios desigualmente equipados e na rotinização de uma série de hábitos que fariam surgir das entranhas da comunidade primitiva um novo microcosmo, onde se combinavam, de maneira sui generis, o rigor e formalismo prussianos com a cordialidade e as relações de dependência típicas de uma sociedade agrária recém-saída da escravidão (Benchimol, 1989, pp. 19-31).
Primeira geração de cientistas de Manguinhos, em frente à
Casa de Chá. Da esquerda para a direita, em pé, Arthur Neiva
(1º), Gaspar Vianna (3º), Gomes deFaria (4º) e Alcides
Godoy.Sentados, Carlos Chagas (2º), Oswaldo Cruz (4º),
Adolpho Lutz (5º), Figueiredo deVasconcelos (6º) e Parreiras
Horta. Rio de Janeiro, RJ, entre 1908 e 1913.
Coc/Fiocruz
A energia cinética daquele corpo em transformação elevou-se com os dois feitos quase simultâneos a que nos referimos. Em 22 de abril de 1909, Oswaldo Cruz comunicou a descoberta da nova doença tropical; em 9 de julho, a suposta descoberta do micróbio da varíola. Logo em seguida, Rocha Lima, seu lugar-tenente, viajou para a Alemanha, para assumir o posto de assistente-chefe no Instituto de Patologia de Iena, a convite de Hermann Düerck. Oito meses depois, ingressaria no famoso Tropeninstitut, o Instituto de Medicina Tropical de Hamburgo (Lacaz, 1966, p. 51).
Antes de sua partida, já se discutia quem iria sucedê-lo. Chagas era o mais talentoso para Oswaldo Cruz, e Aragão, para Rocha Lima. Por força do prestígio deste, e da dualidade de lideranças que prevalecera até então, o novo chefe de serviço já era visto como provável sucessor de Oswaldo Cruz. Para Rocha Lima, devia ser o pesquisador mais polivalente, o mais dedicado às múltiplas atividades do instituto. Oswaldo Cruz propôs um concurso, hierarquizando as competências pela qualidade e quantidade de trabalhos publicados, o que Rocha Lima considerou "imoral e
prejudicial".24 A delegação ao próprio corpo técnico da responsabilidade de selecionar o novo chefe de serviço valorizava a autonomia do instituto, que, por longo tempo, conseguiu se manter fora do alcance do clientelismo do Estado, sob uma dinastia endógena de dirigentes vitalícios, ou quase. Os três primeiros colocados — Carlos Chagas, Cardoso Fontes e Henrique Aragão — foram, nesta mesma ordem, os três diretores do instituto após a
morte de Oswaldo Cruz.25
Em novembro de 1909, este deixou a Diretoria Geral de Saúde Pública numa conjuntura política tumultuada pela morte do presidente Afonso Pena, a interinidade do vice-presidente Nilo Peçanha e a campanha presidencial polarizada entre o "civilista" Rui Barbosa e o marechal Hermes da Fonseca. Embora fosse um ídolo nacional, Oswaldo Cruz não conseguira realizar nenhuma das metas propostas para seu segundo mandato na DGSP. A campanha contra a tuberculose esvaíra-se por falta de recursos e apoio político; a regulamentação da lei da vacina obrigatória continuava a ser protelada, apesar da epidemia de 1908, a mais grave das que já tinham ocorrido no Rio de Janeiro. As oligarquias estaduais, respaldadas na Constituição federalista, bloqueavam qualquer ação sanitária do governo central, não obstante a febre amarela grassasse em muitas cidades do Norte e Nordeste, pondo em risco
o que fora feito na capital.26
À margem, então, dos aparelhos estatais de saúde, os cientistas-sanitaristas de Manguinhos executariam suas ações mais ousadas no interior do Brasil, financiadas por contratos privados, inclusive com órgãos do governo (Albuquerque et al., 1991), como a Superintedência de Defesa da Borracha, criada em 1912 para modernizar a extração e beneficiamento do produto, inclusive com medidas que reduzissem a mortalidade absurdamente elevada; e a Inspetoria de Obras contra as Secas, criada em 1909 para implementar ambicioso programa de reconstituição de florestas, perfuração de poços e construção de açudes na região árida do Nordeste.
A débâcle da borracha amazônica foi irreversível, e a velha República dos coronéis não quis enfrentar a secular tragédia das secas nordestinas. Nesse sentido, as comissões médicosanitárias foram improfícuas. Mas proporcionaram aos laboratórios do Instituto Oswaldo Cruz um conjunto valiosíssimo de observações e materiais concernentes às patologias brasileiras. Esses insumos alimentariam estudos aplicados à medicina e saúde pública, e criariam, também, condições para a autonomização de dinâmicas de pesquisa básica no âmbito da zoologia e botânica médicas.
Os relatórios escritos pelos cientistas, ricos em observações sociológicas e antropológicas, e a extraordinária documentação fotográfica que produziram constituem o primeiro inventário moderno sobre as condições de saúde e vida das populações rurais do Brasil. Tiveram grande repercussão junto aos intelectuais e às elites das cidades litorâneas, municiando os debates acerca da questão nacional, que começava a ser redimensionada nos termos da visão dualista, de longa persistência no pensamento social brasileiro. A exaltação ufanista da "civilização" do Brasil, insuflada após a remodelação urbana do Rio de Janeiro, começou a desmoronar com as corrosivas revelações sobre aquele "outro" Brasil, miserável e doente.
Quando Oswaldo Cruz faleceu, em 11 de fevereiro de 1917, Manguinhos era uma instituição consolidada. Era também o centro de gravidade de uma combativa geração de sanitaristas, que iria protagonizar vigoroso movimento pela modernização dos serviços sanitários, sob a liderança de Carlos Chagas, sucessor de Oswaldo Cruz na direção do instituto, de 1918 até sua morte, em 1934, e Belisário Pena, que se destacaria como um incansável publicista (Lima e Britto, 1996; Lima, 1999; Britto, 1995).