Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 79 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

Análise molecular dos vírus associados aos eventos

Análise molecular dos vírus associados aos

eventos

A análise molecular desses vírus foi realizada no período de 5 a 28 de julho de 2000 nos laboratórios da Ora Vax. Além de produzir a vacina contra a febre amarela, a empresa biofarmacêutica desenvolve vacinas recombinantes baseadas no vírus 17D, tendo, assim, know-how para o seqüenciamento acelerado de genomas virais. Participaram da investigação os doutores Konstantin Pugachev, Farshad Guirakhoo e Thomas P. Monath, do quadro de cientistas da Ora Vax, e Ricardo Galler, que também desenvolve, na Fundação Oswaldo Cruz, vacina recombinante utilizando o vírus

17DD de BioManguinhos. 99

A investigação teve por objetivo verificar se ocorrera alguma alteração genética no vírus vacinal 17DD, no processo de produção da vacina ou durante a replicação do vírus nas pessoas vacinadas. Foram examinados os vírus isolados das vítimas, dos lotes a que pertenciam as vacinas inoculadas nelas e ainda do lote semente secundário utilizado na produção desses lotes vacinais.

Os cientistas chamaram a atenção para uma limitação inerente à análise genômica que fariam. Por não ser preparada com vírus clonados, portanto geneticamente iguais, a vacina é constituída por população heterogênea de vírus, como qualquer outra vacina viral, predominando uma subpopulação sobre várias outras, minoritárias. A análise molecular é realizada sobre um conjunto de vírus isolados em determinada amostra, e resulta numa seqüência 'consenso', isto é, suficientemente ampla para se inferir que diz respeito à ampla maioria dos vírus e moléculas analisados. O que significa dizer que a análise é, em certa medida, insensível às subpopulações minoritárias que apresentam seqüência diferente da consensual em uma ou mais posições do genoma. Somente quando sua concentração é superior a 10% ou 20%, tais subpopulações são detectadas no seqüenciamento.

Feita esta ressalva, Galler, Pugachev, Guirakhoo e Monath (2000, pp. 8-9) concluíram que os eventos adversos fatais não se deveram à variação genética do vírus amarílico vacinal 17DD.

Nenhuma alteração consistente na seqüência do genoma do

vírus presente no lote semente secundário foi observada na

seqüência do genoma dos vírus isolados a partir dos pacientes

de Americana, Goiânia e Santos. Variações mínimas nos

nucleotídeos das posições 1003, 4523, 9988 e 10174 foram

observadas entre o vírus do lote semente secundário e os vírus

oriundos dos pacientes ... representavam diferenças na

quantidade relativa de cada nucleotídeo numa determinada

posição onde era detectada a heterogeneidade, e não resultou

em trocas de aminoácidos. Estas alterações não estão

relacionadas com os efeitos pós-vacinais adversos.

Na posição 1887/E305, uma mutação foi detectada no vírus de

Americana, resultando em troca de aminoácido e reversão ao

tipo selvagem virulento (Asibi). No entanto, a alteração

provavelmente ocorreu durante a passagem em laboratório

deste vírus. Não foi detectada no vírus não propagado em

laboratório, e constituía subpopulação minoritária. Além disso,

não foi observada no genoma dos vírus oriundos dos casos de

Goiânia e Santos. Não é considerada relevante para os eventos

de efeitos adversos ...100 Os eventos adversos observados

devem estar relacionados com fatores individuais de fundo

genético que regulam a susceptibilidade celular ao vírus

amarílico vacinal. Esta susceptibilidade exacerbada poderia

permitir o desenvolvimento de quadro clínico compatível com

febre amarela silvestre quando da infecção pelo vírus vacinal,

muito embora pareça ser um evento extremamente raro.