Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 34 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

Levando as vacinas a campo...

Um africano de 28 anos de nome Asibi, sobrevivente da forma

 

benigna de febre amarela forneceu a amostra sangüínea a partir

da qual proveio material viral usado para pesquisas em campo

e em laboratório, além de ter dado início à cepa Asibi de vírus

utilizada na produção da vacina.

Strode, 1951, p. 19

Segundo Lowy (2000, p. 5), Theiler apresentou aquela mutação do vírus Asibi numa reunião no Laboratório de Febre Amarela de Nova York, em 2 de novembro de 1936. Propôs que passassem logo à vacinação no homem com o 17D, sem soro imune. "Os participantes puseram-se de acordo com que a nova vacina fosse testada no

Brasil". 53

 

Levando as vacinas a campo...

Em outubro de 1935, Wray Lloyd viajou ao Brasil para iniciar os estudos de campo com a vacina que combinava o vírus 17E — aquele modificado por cultura em embrião de camundongo — e vários tipos de soro imune. Até abril de 1936, ela foi aplicada em 44 pessoas, usando-se soro imune humano. As provas de proteção a que foram submetidos 37 desses indivíduos mostraram que 35 apresentavam imunidade. Uma variante da vacina, combinando soro hiperimune de cabra e vírus 17E, foi testada em 16 pessoas. As provas de proteção pós-vacinais revelaram que as "cobaias" tinham sido imunizadas, mas apresentaram reações ao soro que chegavam a urticária generalizada. Houve outro resultado considerado adverso: em 15 indivíduos vacinados, o vírus permaneceu circulando no sangue até o 13º dia, o que possibilitava a infecção dos Aedes aegypti que picassem esses indivíduos. Soper (1937, pp. 383-4) atribuía o "esquecimento" tão tardio do vírus à eliminação dos anticorpos do soro heterólogo (aquele proveniente de espécie não humana) antes da produção da imunidade.

Um problema delicado, de difícil resolução, era o cálculo da quantidade de anticorpos que devia conter o soro hiperimune de animal. A dose ideal de anticorpos a inocular era aquela que impedisse a livre circulação do vírus no sangue sem prejudicar sua multiplicação, na medida suficiente para suscitar a reação imunitária no organismo humano. Os pesquisadores da Rockefeller tinham dados sobre a quantidade de soro humano padrão que era necessária para se obter esse resultado, mas tais dados não se aplicavam aos soros de cabra e macaco. Um fator complicava a dosagem dos soros heterólogos: aparentemente, o organismo humano os eliminava mais rapidamente do que os homólogos. Para compensar isso, optou-se por duplicar a quantidade de anticorpos considerados necessários ao se usarem soros animais em vez de humanos. As experiências de campo feitas no Brasil mostraram, porém, que essa dosagem era insuficiente quando se empregava o soro de cabra, e excessiva com o do rhesus.

A despeito desses resultados incertos, em Londrina, Paraná, entre 25 de fevereiro e 2 de março de 1936, foram vacinadas com vírus 17E e soro de cabra 215 colonos de origem européia que trabalhavam na floresta, e pessoal que prestava serviços hospitalares. Ao comparecer à Academia de Medicina, no ano seguinte, Soper explicou que havia febre amarela silvestre na região, a situação era "grave". Segundo Lowy (2000, p. 4), os diretores das firmas estrangeiras estabelecidas nas localidades afetadas pela epidemia apelaram diretamente à Rockefeller, e seus técnicos decidiram realizar uma "vacinação imperfeita" com soro hiperimune de origem animal, "estando conscientes dos riscos de tal

vacinação".54

Os resultados não foram animadores: observações feitas em 207 vacinados mostraram que 176 tiveram reações séricas e 44 apresentaram reações ao vírus: 13 adoeceram a ponto de ficar acamados por um ou mais dias e 3 contraíram uma febre amarela benigna. De 184 pessoas examinadas um mês após a vacinação, 24, ou 13% apresentaram imunidade nula (Soper, 1937, p. 384).

Naquele mesmo período, 18 pessoas serviram como cobaias para uma vacina feita com o vírus 17E e soro imune de macaco. Os resultados foram melhores do que os obtidos com o soro de cabra. As reações séricas limitaram-se a leve urticária local em metade do contingente humano. Não se encontrou o vírus no sangue examinado diariamente nas duas semanas seguintes, e todos os vacinados foram imunizados, de acordo com as provas de proteção realizadas trinta dias após a vacinação (Soper e Smith, 1938, pp.111-34; Theiler e Smith, 1936, pp. 2354-7).

À vista desses resultados, iniciou-se a produção de grande quantidade de soro hiperimune de macaco no laboratório de febre amarela da Bahia, para se fazerem testes de campo mais abrangentes no Brasil. De janeiro de 1936 a junho de 1937, 795 pessoas receberam a vacina feita com esse soro e o vírus 17E. Dois terços deste contingente (576 pessoas) foram vacinados em centros de estudo criados nos estados de Goiás, Paraná e Mato Grosso: em Anápolis (122 vacinados); Jacarezinho (223 vacinados) e Campo Grande (231 vacinados), respectivamente. Outras 219 pessoas foram vacinadas no laboratório do Rio de Janeiro e em várias localidades do Maranhão, São Paulo e Paraná.

A vacina não produziu reação de importância atribuível ao soro ou ao vírus. Mas as provas de proteção pós-vacinais deram percentagem de resultados negativos maior do que a obtida com os soros humano e de cabra. Em Campo Grande, setenta pessoas não apresentaram imunidade trinta dias após a vacinação. Soper (1937, pp. 384-5) atribuiu o insucesso à dosagem excessiva de anticorpos. "O soro de rhesus parece que é eliminado muito mais vagarosamente do que o de cabra, e a dupla dose de anticorpos administrada foi talvez capaz de impedir, em muitos casos, a ação imunizante do vírus".

Em 1934, dois anos após a descoberta da febre amarela silvestre, quando a IX Conferência Sanitária Pan-Americana recomendou a vacinação das populações expostas a ela, a vacina tinha ainda possibilidades limitadas, porque o vírus neurotrópico então utilizado requeria quantidade considerável de soro imune. A obtenção de soros hiperimunes de animais e de novas cepas de vírus permitiu vacinar contingentes humanos maiores a partir de 1935. Contudo, as reações sorológicas e outros problemas impediram o uso da vacina na escala requerida pelas epidemias de febre amarela silvestre detectadas no Brasil e em outros países sul-americanos.

As experiências de vacinação feitas até meados de 1937 então mostravam que: a) o soro humano dava melhores resultados, mas era impossível obtê-lo no volume necessário para vacinações em larga escala; b) o soro hiperimune de cabra propiciava alta percentagem de imunidade entre os vacinados, mas provocava reações muito intensas e não impedia a demorada circulação do vírus no sangue periférico, nem o aparecimento de sintomas atribuíveis ao vírus; c) o soro hiperimune de macaco produzia muito menos reações séricas e impedia a circulação do vírus, mas somente 65% das pessoas vacinadas ficaram imunizadas (ibidem, p. 285).

Em Nova York, em 30 de novembro de 1936, começaram os estudos preliminares em humanos com a vacina feita a partir do vírus 17D — isto é, com material proveniente da 227ª cultura do vírus desde a última passagem por um hospedeiro animal (Theiler e Smith, jun.1937, pp. 787-800). As reações observadas em alguns membros da Divisão Sanitária Internacional da Fundação Rockefeller foram tão insignificantes, e os resultados tão favoráveis que resolveram iniciar imediatamente as vacinações na América do Sul (Bica, 1988, p. 162; Soper, 1939a, p. 13). Como veremos, soro humano normal (ou seja, sem anticorpos contra a febre amarela) continuou a ser empregado na preparação da vacina, mas a adição de soro imune humano ou animal se tornou desnecessária, devido ao caráter benigno da nova cepa viral para o homem.

Em fevereiro de 1937, Hugh H. Smith iniciou as pesquisas de campo no Brasil com a cepa 17D, sem interromper, ainda, o uso do 17E com soros heterólogos. Entre as primeiras duzentas pessoas vacinadas no Rio de Janeiro, 20% referiram sintomas atribuíveis ao vírus: leve cefaléia e dor nas costas, seis a sete dias após a inoculação, com pequena reação febril em alguns casos. As provas de proteção pós-vacinais em 45 pessoas, cuja suscetibilidade fora comprovada antes da vacinação, revelaram que 42 (93%) apresentavam completa imunidade. O sangue de 29 vacinados foi inoculado em camundongos, do quarto ao décimo dias após a vacinação, verificando-se que havia pequena quantidade de vírus em circulação no sangue de 13 pessoas, por um ou mais dias (Soper, 1937, pp. 386-7).

Em março de 1937, foi inaugurado, no campus do Instituto Oswaldo Cruz, o Laboratório do Serviço Especial de Profilaxia da Febre Amarela. Em junho, começou a vacinação em larga escala em municípios de Minas Gerais recém-infectados pela febre amarela silvestre. Foram vacinados principalmente trabalhadores rurais das plantações de café, primeiro em Varginha, no sul do estado, depois em Lavras, Três Corações e Três Pontas — ao todo, até o fim do ano, 38.077 pessoas, entre homens, mulheres e crianças de mais

de dois anos, com resultados considerados muito bons. 55 Nessa campanha, foram aperfeiçoadas técnicas e rotinas de vacinação em grande escala, adotando-se em seguida um sistema de registro e controle tão minucioso quanto o já codificado para o combate ao Aedes aegypti e o serviço de viscerotomia.

Dr. Hugh H. Smith aplicando vacina de febre amarela em Minas

 

Gerais, 1937.

Coc/Fiocruz

A história do desenvolvimento das vacinas, testadas sucessivamente desde 1929 até a aplicação daquela considerada adequada à imunização de grandes contingentes populacionais, foi relatada por Soper em conferência na Academia Nacional de Medicina do Rio de Janeiro, em 4 de novembro de 1937. Até aquela data, mais de 18.000 pessoas tinham sido imunizadas com o "vírus camarada" no sul de Minas Gerais, vinte vezes mais gente do que nos seis anos anteriores.