Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 86 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

Em busca de um tempo perdido: fontes visuais para a história da vacina contra a febre amarela

106 Estes trabalhos foram revisto por Monath, T. P. e Heinz, F. X., "Flaviviruses", in Fields, B. e Knipe, D. (eds.) Virology, 3. ed., Raven Press, 1995. Referência dada por Monath (1996, pp. 177, 182).

107 Rey, F. A.; Henz, F. X.; Mandl, C.; Kunz, C.; Harrison, S. C. "The envelope glycoprotein from the tick-borne encephalitis virus at 2 A resolution", Nature, 1995, 375, pp. 291-8. Citado por Monath (1996, pp. 177-8).

108 A aplicação da tecnologia de clonagem infecciosa poderá reduzir a neurovirulência da vacina 17D, seja reduzindo-se o potencial de seleção de populações virais heterogêneas no hospedeiro vacinado, seja identificando-se e alterando-se os determinantes específicos de neurovirulência. A vacina aperfeiçoada poderá ser utilizada para proteger crianças com menos de seis meses, o que não se admite com a vacina atual, devido ao risco de encefalite (Monath, 1996, pp. 178-9).

 

Em busca de um tempo perdido: fontes visuais

para a história da vacina contra a febre amarela

Aline Lopes de Lacerda

Pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz/ FIOCRUZ. Mestre em

Comunicação

Fontes históricas, instrumentos indispensáveis ao ofício do historiador, que é reconstruir processos ou histórias vividas. A reconstrução é apresentada por uma narrativa que foi elaborada a partir de inúmeros fragmentos coletados ao longo da pesquisa, dispersos no tempo e espaço, sem organicidade aparente. Vão sendo costurados segundo as linhas que emergem da subjetividade dos autores, durante a criativa ebulição de seus pensamentos. Planos, preconceitos, intuições e valores confirmam-se, modificam-se ou desabam à medida que os autores pensam e repensam os significativos prismáticos que aqueles fragmentos objetivamente possuem, como testemunhas e provas de um tempo vivido, e a significação que finalmente ganharão ao encerrar-se a escrita da "história".

Ela está pronta para ser lida e vista, e tanto mais fluente será a leitura e visão quanto mais hábil tiver sido o historiador/narrador em seu ofício de entender, interpretar e articular os testemunhos do passado e, sobretudo, na orquestração do todo que se quer comunicar. Nesse epílogo, vamos comentar algumas características que nos pareceram marcantes das fontes visuais sobre a história de que trata este livro, "garimpadas" em arquivos, bibliotecas, museus e instituições diversas.

Uma primeira constatação: a história da vacina da febre amarela conta com muitas imagens. Não apenas as que conseguimos aglutinar como resultado de pesquisas em instituições cujos acervos possuíam algumas conexões temáticas com o objeto da pesquisa, mas, sobretudo, as imagens provenientes do arquivo produzido e acumulado pelas instituições que estiveram à frente de todo o processo que culminou com o aparecimento de uma vacina eficaz contra a doença, a Fundação Rockefeller e o Serviço Nacional de Febre Amarela. Juntos, esses organismos produziram fotografias sobre praticamente todas as atividades relacionadas aos estudos e à profilaxia da febre amarela. Essas imagens foram sistematicamente colecionadas, isto é, reunidas num conjunto orgânico, fichadas e referenciadas desde sua origem. Não é comum encontrar arquivos que já se apresentam "organizados" ao chegar à instituição que será responsável por sua guarda. Geralmente, recebem conjuntos documentais aglutinados de maneira caótica ou encerrando ordenamentos possíveis de serem recuperados a partir de divisões temáticas que, via de regra, precisam ser refeitas durante a organização arquivística. No arquivo fotográfico do Serviço da Febre Amarela da Fundação Rockefeller, atualmente sob a guarda do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz, cada imagem está colada em uma ficha catalográfica que contém dados sobre o assunto, o local, a data em que a imagem foi produzida ou recebida no arquivo, a numeração atribuída originalmente, o nome do fotógrafo e/ou do encaminhador da imagem para arquivamento. A memória visual da vacina nos anos 1930 e 1940 pode ser reconstruída em grande parte por meio desse conjunto documental. É tão eloqüente a relação orgânica com as atividades desenvolvidas e com as instituições que as desenvolviam que podem servir ao estudo das próprias, sobretudo se refletirmos sobre as funções reservadas a esses registros visuais produzidos durante os trabalhos médico-científicos, e seu papel na produção do conhecimento que se buscava atingir.

A documentação está ligada simbioticamente à Fundação Rockefeller e quando esta se retira da área de saúde pública brasileira nos anos 1940, transferindo a responsabilidade pelos trabalhos sanitários ao Serviço Nacional de Febre Amarela, e pelo laboratório de produção da vacina ao Instituto Oswaldo Cruz, o arquivo pára de crescer, ocasionando acentuada descontinuidade na acumulação de arquivos de imagens. Não estamos afirmando que não foram produzidas mais imagens. Isso certamente ocorreu, mas não se repetiu a acumulação e preservação de conjunto tão coeso. O arquivo da Fundação Rockefeller resultante de sua atuação no Brasil conta com cerca de 15 mil imagens em sua maioria relativas ao combate e às pesquisas sobre febre amarela no período 1930 a fins dos anos 1940. A partir de 1950 percebemos outras configurações em termos de fontes visuais para a história da vacina. Serão esses diferentes cenários os motivos de nossos comentários.

A Fundação Rockefeller e os registros de atividades médico-científicas: tempo de acumulação

A Fundação Rockefeller já mantinha uma prática de colecionar imagens sobre o Brasil desde meados da década de 1910 e durante os anos 1920, quando enviou as primeiras comissões para levantar a situação médico-sanitária do país e firmou os primeiros convênios com estados e municípios para o combate a doenças endêmicas como ancilostomíase e malária. Prova disso são os abundantes registros que formam a coleção fotográfica sobre o Brasil em depósito nos arquivos daquela fundação, nos Estados Unidos. Contudo, a natureza daquelas imagens e, sobretudo, a forma de sua acumulação diferem do arquivo que viria a ser formado a partir da inserção mais efetiva da Rockefeller na política de saúde brasileira, após 1930. No início, as fotografias eram colhidas por integrantes das comissões em visita ao país e enviadas ao escritório central em Nova York, ou eram o resultado de doações de organismos governamentais brasileiros que tinham contato com a fundação ou que foram objeto de sua avaliação.

Do ponto de vista de seu conteúdo temático, esses registros dizem respeito às condições médico-sanitárias de diferentes regiões brasileiras, condições relacionadas à vida privada — as diversas formas pelas quais se fazia o abastecimento de água e a retirada de esgotos nas moradias, por exemplo — ou ao poder público, como as extensas reportagens fotográficas sobre instituições de saúde e assistência ou sobre os primórdios do serviço de combate ao mosquito da febre amarela.

Ao que tudo indica, os registros colecionados nos Estados Unidos também serviram aos chamados surveys, relatórios produzidos pelo staff da Rockefeller com o objetivo de apresentar um quadro detalhado de cada região em estudo, tendo em vista a intervenção futura da instituição ou já em decorrência dos acordos de cooperação técnica firmados na década de 1920. Os serviços implementados pela Rockefeller em estados e municípios brasileiros começavam com cuidadoso levantamento epidemiológico e econômico, com a finalidade de avaliar a gravidade dos problemas locais e a escolha dos métodos mais indicados às suas condições. Após essa etapa, tinha-se a campanha de controle propriamente dita, com a execução de tarefas como drenagem do solo (para o caso de áreas endêmicas de malária, por exemplo). A etapa de manutenção dos resultados adquiridos era de responsabilidade das autoridades locais. As pesquisas eram enviadas a essas autoridades e ao escritório central norte-americano, que as arquivava. Vários surveys podem ser hoje recuperados e freqüentemente vêm recheados de imagens fotográficas que documentam a região e, em menor medida, a população e seus costumes, todas relacionadas ao cenário médico-sanitário e às doenças endêmicas da região. Lado a lado com o texto escrito, eram freqüentemente referidas neste, quando a narrativa era interrompida para que o leitor comprovasse na imagem a veracidade da avaliação apresentada no documento.

As fotos eram também encaminhadas por meio de correspondências entre os médicos da Rockefeller, nas quais trocavam impressões sobre o país e suas condições na área da saúde pública e saneamento. Vale notar que as cartas, em paralelo aos relatórios e surveys, eram um meio comum de o staff "prestar contas" mais informalmente ao escritório central de suas atividades no Brasil.

Nessa primeira fase de acumulação da documentação sobre essas atividades, em que pese à dinâmica de encaminhamento dos registros pelas missões em campo ao controle central em Nova York, observa-se uma forma mais aleatória de acumulação, revelada por maior pulverização de temas, e embora apresentem um tipo de sistematização de guarda — fotos coladas em papel cartão com número de referência e nome do médico responsável por sua produção ou encaminhamento — essa característica não é extensiva a todo o conjunto.

A partir de 1930, por meio de acordos com o governo brasileiro e de decretos governamentais, a fundação passa a atuar como agência "associada" a uma instituição nacional, o Serviço de Febre Amarela, na qualidade de dirigente dos estudos, do combate e da prevenção dessa doença e, no final dos anos 30, também da campanha contra o Anopheles gambiae, vetor da malária no Nordeste do Brasil. Quando se estabelece de forma mais efetiva na área de saúde, com poderes executivos para realizar plenamente a lógica operacional do modelo campanhista, se inicia a formação do arquivo de imagens.

Nas duas décadas seguintes, os trabalhos se concentraram, por um lado, nas regiões propícias ao aparecimento da doença; por outro, no interior dos laboratórios — o primeiro ainda em Salvador e, depois de curtas passagens por instituições cariocas, como o hospital Gaffré e Guinle, no laboratório construído em 1937 no campus de Manguinhos para sediar os estudos sobre febre amarela e a vacina contra a doença. A diferenciação campo/laboratório produziu nítida clivagem na documentação iconográfica, mas é importante observar que, nos assuntos fotografados, esses universos se interpenetram, pois muitas pesquisas em campo guardam estreita relação com questões suscitadas pela produção da vacina em laboratório, como os testes de proteção, as sangrias, a vacinação e as investigações pós-vacinais. As imagens ambientadas no campo ou em laboratório retratam o grande empreendimento organizado pela Fundação Rockefeller, que incluía o diagnóstico da febre amarela, o mapeamento de sua distribuição no território brasileiro, a pesquisa e detecção de vetores e hospedeiros, o estudo dos ciclos e da lógica dos surtos epidêmicos e dos períodos de calmaria da febre amarela.

Um marco nesses estudos foi o reconhecimento da existência de sua modalidade silvestre no início dos anos 30. A relação entre as moradias rurais e as florestas que as circundavam passou a ser cuidadosamente observada e deu origem a numerosos registros fotográficos, que revelam o acompanhamento sistemático dos locais com incidência de febre amarela silvestre ou apenas com suspeita, inventariando-se a situação das matas, campos, água, densidade populacional, entre outros aspectos. Esses estudos deram origem a ampla documentação iconográfica sobre a ecologia de várias regiões, com tipos de fotos que se detêm nas paisagens amplas, sem figuras humanas, com ênfase nos aspectos de vegetação e acidentes geográficos. Imagens de habitações se conectavam a outros serviços, como o de viscerotomia, como se pudessem auxiliar o levantamento da história do paciente. Cada amostra de fígado enviada para exames dava origem a um relatório epidemiológico, que provavelmente trazia imagens sobre as condições de vida do indivíduo suspeito de ser portador da enfermidade. Na série de fotos colhidas no estado da Bahia, por exemplo, a imagem de uma habitação rural vem acompanhada da seguinte observação: "Palhoça onde residia a menor Cleonice, cuja amostra de fígado foi tida por algum tempo como suspeita para febre amarela". Ou então na foto tirada na cidade de Mecejana, Ceará: "Frente da casa de Pedro, vendo-se o seu mano Assis montado num jumento equipado para o carregamento de mandioca. Relatório epidemiológico de Pedro Celestino da Silva, 1937". A relação legenda e imagem, nesse arquivo, segue um padrão bem definido, tendo a primeira a função de amarrar o sentido do que quer mostrar o olhar do cientista-médico/fotógrafo. Outro padrão encontrado diz respeito às tomadas das imagens, que são quase sempre frontais, panorâmicas, com pouquíssimos closes, desprezando o detalhe, em acentuado contraste, como veremos, com o tipo de descrição fotográfica produzida no ambiente de laboratório.

Os estudos epidemiológicos compreendiam a captura e sangria de diversos vertebrados e insetos em florestas, para se fazerem exames que determinassem a presença do vírus naqueles possíveis hospedeiros ou transmissores da doença. Várias espécies de animais, especialmente macacos, eram capturadas por armadilhas confeccionadas pelos próprios funcionários da Rockefeller, e esse processo, da confecção à instalação das arapucas, bem como o momento da captura do animal eram documentados fotograficamente. A exploração visual dos procedimentos prosseguia durante os trabalhos realizados nos laboratórios improvisados no campo.

Em menor quantidade são as imagens de doentes e de familiares de doentes que chegaram a óbito. Revelam apenas seus rostos, com poses quase sempre estáticas em frente às casas. É interessante notar que, no arquivo de imagens que restou, a doença propriamente dita jamais é apresentada em suas manifestações agudas: as imagens de doentes são residuais, e dizem respeito principalmente a casos que evoluíram para a cura. Os óbitos são mencionados a partir das fotos de familiares de luto. A doença está presente em todo o arquivo, mas do ponto de vista das técnicas de combate, prevenção, imunização, numa pluralidade de ações que remetem à idéia de controle, sem a preocupação de documentar quer o padecimento dos indivíduos quer os aspectos clínicos de seu mal.

As imagens provenientes das atividades de laboratório, por sua vez, mostram todas as etapas da produção da vacina e a sucessão de técnicas e equipamentos que foram testados durante o período de consolidação da nova tecnologia. Os manuais localizados no laboratório de produção da vacina de febre amarela de Bio-Manguinhos apresentam grande número de imagens que retratam, passo a passo, as técnicas empregadas e, de forma bastante sistemática, as sucessivas revisões das técnicas em uso. Ao contrário dos registros obtidos no campo, a tomada de vista das imagens no laboratório assume posição perscrutadora, buscando diferentes ângulos e planos, dos mais específicos aos mais abrangentes, para dar uma visão documental e ostensivamente pedagógica.

Não são somente fotografias que fazem parte dos trabalhos científicos da época. É importante mencionar a presença de significativo conjunto de imagens como mapas, gráficos, tabelas e desenhos. Esse grupo de imagens, arquivado em suporte fotográfico, está presente em relatórios e manuais de procedimentos laboratoriais para a fabricação da vacina e figura, com grande constância, nos artigos científicos publicados pelos membros do staff na época, nos quais, ao lado de fotos, participava igualmente do texto científico ali publicado. A presença dessa pluralidade de representações visuais nos textos científicos possibilita pensar que os documentos, além de resultantes das práticas e pensamentos puramente institucionais/ organizacionais, podem também refletir as formas de comunicação do conhecimento científico utilizadas no período.

Assim, todo um aparato técnico-administrativo foi montado para dar conta das tarefas cotidianas de produção e processamento desses insumos iconográficos imprescindíveis às práticas editoriais e discursivas próprias ao campo científico. Para se ter idéia da relevância que tinham os "serviços auxiliares", como fotografia, cartografia, microfilmagem, desenho etc., basta olhar o projeto do pavilhão construído em Manguinhos. Dois pavimentos eram reservados às atividades administrativas, técnicas e científicas — a produção da vacina, o laboratório de viscerotomia, os biotérios, os laboratórios usados pelos zoólogos e epidemiologistas que estudavam a febre amarela — e todo o primeiro pavimento era destinado aos estúdios e equipamentos de fotografia e microfilmagem e aos serviços de cartografia e de desenho científico. Depoimentos de ex-servidores da Rockefeller, como o dr. Fonseca da Cunha, confirmam a importância que tinham esses serviços auxiliares e a "parte burocrática" que assegurava a circulação e arquivamento de relatórios, cartas, diários etc. Outro funcionário relaciona a cartografia à reputação de eficiência disciplinar e organizacional da Rockefeller. "O Serviço de Febre Amarela treinava quem fizesse cartografia. A seção de cartografia era a base da organização do serviço. Porque não é possível manter um serviço de foco em qualquer cidade, se não tiver planta atualizada daquela cidade. Por que planta atualizada? Para saber o roteiro dos guardas, onde podiam ser encontrados ... só podia haver disciplina e organização com essa seção de cartografia funcionando com toda a eficiência".

A lógica operacional responsável por essa reputação de eficiência foi desenhada para as ações mais abrangentes da campanha contra a febre amarela e, em seguida, a malária no Nordeste e para as pequenas rotinas cristalizadas no cotidiano. A esse respeito, temos numerosos documentos arquivados, mas as coleções científicas formadas com o mesmo zelo, como a histopatológica, do laboratório de viscerotomia, ou a de aves e insetos, resultantes das pesquisas epidemiológicas, não foram preservadas tão bem quanto as fontes iconográficas e textuais.

A importância da tarefa de descrição para as atividades da Fundação Rockefeller merece um breve comentário, já que parece ser ela uma das chaves para o entendimento do papel dos registros visuais na dinâmica dos trabalhos. Um aspecto marcante do cotidiano institucional eram os diversos registros de caráter compulsório que tinham de produzir os técnicos, pesquisadores e funcionários que atuavam nos laboratórios ou em campo. Assim, uma notável massa de reportagens, em forma de diários, relatórios, cartas etc., era constantemente elaborada e posta em circulação, internamente, propiciando a troca de informações e experiências entre pares ou entre diferentes níveis hierárquicos, cuidando os superiores de avaliar, depurar, condensar ou completar o que vinha sendo relatado pelo pessoal situado na base da pirâmide. Esse hábito peculiar à instituição norte-americana possibilitava o rígido controle dos conhecimentos gerados e das rotinas executadas. A obrigação de descrever estava implícita nas dezenas de formulários, relatórios e outros registros preenchidos no cumprimento de tarefas diárias, como no serviço de combate ao Aedes aegypti, onde tudo era anotado, desde o número de casas visitadas, os focos encontrados, até a apresentação, o vestuário e o estado dos equipamentos dos guardas encarregados do serviço. A atividade de descrição se fazia presente também em momentos menos objetivos do trabalho, quando a opinião de um médico sobre um ambiente ou paisagem em estudo tinha um valor utilitário para as pesquisas. Nas andanças pelos estados, as equipes eram obrigadas a registrar nos diários, no máximo a cada 15 dias, não só as atividades, como os ambientes por onde circulavam. Relatórios semanais também eram remetidos para o "controle perfeito" das atividades em andamento em todo o país. Segundo o dr. Fausto Magalhães da Silveira, "todo médico do serviço era obrigado a fazer diário. Nesse diário, contava sua vida no serviço durante a semana. Sábado, datilografava aquele negócio. Mandava para o escritório, para a chefia imediata. Esta, depois de ler e anotar, mandava os diários para a direção geral [no Rio de Janeiro]. Todos os médicos tinham de escrever diários, não só os que estavam em campo, mas também os chefes de regiões, de estados, todos tinham a mesma tarefa".

Segundo Fonseca da Cunha, essa forma de atuação "fez escola". Vários brasileiros que atingiram status de chefes na Fundação Rockefeller ocupariam cargos de chefia em serviços do governo brasileiro ou de outros países, e procurariam reproduzir as normas e a disciplina de trabalho que haviam adquirido dos norte-americanos. Se a "tradição" vingou nos novos ambientes institucionais é questão das mais interessantes para ser explorada em outro projeto de pesquisa.

Os registros visuais sobre a vacina na era pós-Rockefeller: tempo de dispersão

A pesquisa de imagens sobre o período mais recente da história da vacina contra a febre amarela teve de ser orientada para outras fontes e arquivos. Tentar entender a diferença de densidade da documentação sobre um mesmo tema em épocas distintas nos leva à discussão de alguns pontos que podem ter contribuído para o quadro atual.

A retirada da Fundação Rockefeller da saúde pública brasileira e a incorporação do laboratório de produção da vacina antiamarílica ao Instituto Oswaldo Cruz coincide com um período de estabilização dos procedimentos de fabricação da vacina. Em que pese às modificações posteriores, pode-se dizer que a base técnica continuou essencialmente a mesma durante muitos anos. A cristalização de uma rotina pode ter sido em parte responsável pela falta de interesse em manter como vinha sendo feita a produção de imagens. O mesmo se pode dizer dos trabalhos em campo, depois que se erradicou o Aedes aegypti no território nacional, supondo-se que a vacina daria conta da febre amarela silvestre. Há que se considerar, sobretudo, a mudança das instituições e, com elas, das lógicas que regiam as dinâmicas de produção e arquivamento de fontes textuais e iconográficas.

A documentação produzida em anos mais recentes encontrava-se numa sala no interior do laboratório e era constituída quase exclusivamente por documentos escritos e datilografados, fichas e publicações diversas. Registros visuais foram encontrados em reduzidíssima quantidade. Um funcionário guardara algumas fotografias avulsas com aspectos da produção da vacina na década de 1960 e um álbum dos anos de 1980, com registro de todo o processo. Houve, portanto, produção de imagens fotográficas no período posterior a 1950, mas não sabemos se, por vicissitudes diversas, as imagens se perderam ou se foram produzidas de forma assistemática e sem a mesma preocupação de manutenção do conjunto originário da fase Rockefeller. O laboratório de vacina da febre amarela de Bio-Manguinhos não possui arquivo fotográfico.

Um marco importante foi a reestruturação ocorrida na década de 1970, que deu origem à Fundação Oswaldo Cruz. Na gestão de Vinícius Fonseca, ao mesmo tempo que novas áreas de investigação científica eram criadas, departamentos eram extintos e grupos de pesquisa dispersos, e nesse contexto coleções científicas e conjuntos documentais acumulados durante anos foram irresponsavelmente descartados ou desmembrados, por se julgar que não possuíam mais utilidade ou relevância cognitiva. O destino desses materiais variou entre simples destruição e abandono em galpões ou garagens totalmente inadequados, como foi o caso da coleção de peças anatomopatológicas da febre amarela. Os registros das atividades médico-científicas da instituição voltaram a ser objeto de interesse nos anos de 1980, tomando-se algumas medidas para recuperar coleções e documentos quase mumificados pelo acúmulo de poeira, goteiras e umidade.

Hoje, praticamente todas as unidades da Fiocruz possuem setores responsáveis pela produção de imagens ou terceirizam essa atividade. A ausência de iniciativas de processamento e arquivamento das imagens produzidas nas diversas seções e departamentos torna muito mais pulverizado e rarefeito o cenário documental. Embora arquivos de imagens provenientes das atividades de pesquisa estejam sendo criados em departamentos como o de virologia e o de patologia do Instituto Oswaldo Cruz, para citar só alguns, não há ainda uma política institucional visando a tornar essas fontes acessíveis a um público mais amplo, com cruzamento das informações de cada universo documental. Quando isso se tornar realidade, talvez tenhamos aí um dos maiores acervos visuais sobre as ciências da vida e da saúde pública do Brasil, que poderá servir a outras histórias tão importantes quanto a da febre amarela e sua vacina.

1 Rockefeller Arquive Center, Photograph Collections, Fundo The Rockefeller Foundation, Box 305.

2 Coleção Fundação Rockefeller. Doc. 29.20.00/5. COC/Fiocruz. O exemplo diz respeito a um acordo para cooperação técnica e financeira do serviço contra a malária.

3 FR (SFA) 3-20. COC/Fiocruz.

4 FR (SFA) 4-58. COC/Fiocruz.

5 Cunha, José Fonseca da. José Fonseca da Cunha. Depoimento, 1988. Rio de Janeiro – Fiocruz/COC. p. 89.

6 Silveira, Fausto Magalhães da. Fausto Magalhães da Silveira. Depoimento, 1994-95. Rio de Janeiro – Fiocruz/COC. p. 5 (4ª entrevista).

7 Ibidem, p. 20.

8 Cunha, José Fonseca da. Idem, pp. 97 e 216.