Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 25 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

O vale do Canaã e a descoberta da febre amarela silvestre

Localização de 1.349 postos de viscerotomia distribuídos pelo

Brasil no final do ano de 1949.

Smith in Strode, 1951, p. 594.

 

O vale do Canaã e a descoberta da febre amarela

silvestre

As viscerotomias e os testes de imunidade confirmaram a suspeita de que a febre amarela constituía problema muito mais extenso do que se imaginava. As massas humanas deslocadas pelas migrações internas estavam transportando o vírus para o litoral, e multiplicando a infecção de pessoas não imunes, o que fatalmente redundaria na recriação de um quadro epidêmico tão grave quanto o do século XIX. Além de demonstrarem que a febre amarela grassava endemicamente em quase todo o país, estas investigações demoliram outro axioma básico: o Aedes aegypti não era o único transmissor da doença.

A transmissão "exclusiva" pelo mosquito constituíra o divisor de águas entre a época de Domingos Freire, João Batista de Lacerda e outros caçadores de micróbios, e a de Oswaldo Cruz, que se converteu no mito da ciência brasileira em larga medida, graças ao 'experimento' bem-sucedido que conduziu na cidade do Rio de Janeiro para provar a validade da teoria de Finlay. As certezas inflexíveis que o grupo de Oswaldo Cruz sustentou no Congresso Médico de 1903, e que nortearam a campanha conduzida pela Rockefeller nas três décadas seguintes, desabaram no vale do Canaã, no interior do Espírito Santo.

Em dezembro de 1930, o diretor do Departamento de Saúde Pública do Espírito Santo, dr. Álvaro Mello, notificou casos suspeitos de febre amarela no município de Santa Teresa. O Serviço de Febre Amarela de Vitória não deu muita importância ao caso. Em janeiro de 1932, A. W. Walcott esteve no Espírito Santo para organizar a viscerotomia no estado, e foi a Santa Teresa para investigar a denúncia de Mello. Como não encontrou o Aedes aegypti, decidiu que não valia a pena instalar um posto ali.

Mapa do estado do Espírito Santo focalizando a região do município de Santa Teresa, local onde os primeiros casos

suspeitos de febre amarela foram notificados, ainda no final de

1930. Por ser uma região com comprovada ausência do

mosquito Aedes aegypti, as investigações aí não se

desenvolveram. Em 1932, foi confirmada uma epidemia na

região do vale do Canaã, fato que detonou uma séria

investigação que acabou por redefinir concepções que vinham

sustentando os estudos epidemiológicos da febre amarela,

substituindo-as por novos dados, como a existência da

modalidade silvestre da doença, a partir de então reconhecida

como a sua forma mais comum.

Collected Papers, V. III, p. 559

A característica mais notável da região, imortalizada por Graça Aranha no romance Canaã, são os vales íngremes e estreitos formados pelo Santa Maria e outros rios, ao descerem as encostas da serra para afluírem ao rio Doce, na parte central do estado. A rodovia que ligava Vitória a Colatina galgava Santa Teresa e atingia o alto do vale do Canaã, a mais de setecentos metros, de onde se descortinava um cenário que Soper qualificaria como "de conto de fadas", com encostas verdejantes e depressões íngremes, por onde corriam rios caudalosos, em cujas margens se erguiam esparsas habitações humanas (Soper et al. 1993, p. 560). Walcott fez aquele caminho, contemplou a bela paisagem, mas, como o Moisés do Velho Testamento, deu as costas ao vale do Canaã, imaginando que lá nunca brotaria a febre amarela.

Em 3 de março de 1932, um médico da Saúde Pública do Estado diagnosticou outro caso de febre amarela no vale. O exame do tecido hepático da vítima, feito pelos drs. Amadeu Fialho e N. C. Davis, confirmou o diagnóstico clínico. Logo morreram mais duas pessoas, e os testes de imunidade feitos em macacos rhesus, no laboratório da Bahia, removeram as últimas dúvidas quanto à existência de uma epidemia de "tifo negro", que era como os nativos chamavam a doença. Fred Soper, Henrique Penna, E. Cardoso, J. Serafim Jr., Martin Frobisher Jr. e J. Pinheiro deram início a minuciosas investigações no vale do Canaã. Para verificar a distribuição da imunidade, colheram mais de seiscentas amostras de sangue entre as pessoas residentes na área. O Aedes aegypti não foi encontrado e, assim, em horas diversas do dia e da noite, foi feita a captura de mosquitos dentro das casas, para se determinar quais as espécies mais comuns. Os magros resultados desta abordagem desviaram a atenção dos investigadores para outros insetos hematófagos — triatomas, percevejos, pulgas, carrapatos — e para mosquitos de hábitos não domiciliares. Os mais prováveis suspeitos foram os flebótomos, mas fracassaram as experiências feitas por Frobisher pela dificuldade de conservar vivos os espécimes capturados no vale e fazê-los tomar uma segunda refeição de sangue (Franco, 1969, p.124).

No trabalho publicado em 1933, Soper e colaboradores apresentaram a "explicação mais lógica" para a epidemia no vale do Canaã: de tempos em tempos, o vírus era introduzido aí a partir de áreas próximas com Aedes aegypti, onde a febre amarela grassava de forma endêmica mas silenciosa. No vale, o vírus era transmitido por um ou mais vetores muito disseminados, porém ineficientes, já que os casos nunca alcançavam densidade comparável à das epidemias urbanas. Das espécies de mosquitos incriminadas em laboratório como potenciais vetores, somente o Aedes (Ochleratatus) scapularis, Rondani, e o Aedes (Taeniorhynchus) fluviatilis, Lutz, existiam na área em número suficiente para merecer consideração. O primeiro foi encontrado com maior freqüência, e por isso era considerado a espécie mais perigosa (Soper et al., 1933, p. 585).

As observações feitas no vale do Canaã exigiam a revisão de concepções basilares sobre a epidemiologia da febre amarela. Ela não dependia só do Aedes aegpty, não era necessariamente uma doença urbana, nem sequer uma doença domiciliar. "Pode persistir numa comunidade rural por meses e desaparecer espontaneamente, devido a alguma falha do hospedeiro intermediário, deixando larga percentagem da população local não imune ... A possibilidade de endemicidade rural duradoura, mais ou menos independente de movimentos de população, não deve ser subestimada no futuro" — escreveram Soper e colaboradores.

Um dos aspectos que mais os surpreendeu foi "a baixa percentagem de testes de proteção positivos em combinação com ampla disseminação da doença. Não será mais séria, do ponto de vista da eliminação final da febre amarela numa área, uma epidemia deste tipo, que arde lentamente, do que a epidemia explosiva, que rapidamente desaparece por haver consumido seus hospedeiros humanos?". A descoberta que tinham feito causava "forte desapontamento entre os trabalhadores que, em face das repetidas demonstrações em laboratório da capacidade infectante de outras espécies, consolavam-se com as palavras de Carter: "Considerando o invariável desaparecimento da febre amarela quando esta espécie (Aedes aegypti) — e somente esta espécie — é suficientemente controlada, parece quase certo que nas Américas nenhum outro mosquito relacionado de perto com o homem é vetor" (ibidem, pp. 584-5).

A significação epidemiológica da febre amarela que Soper mais tarde denominaria de "silvestre", foi realçada pelo estudo feito, ainda em 1932, pelo dr. Gastão Cesar, do Serviço de Febre Amarela, no vale do Amazonas, onde obteve 35,6% de testes de proteção positivos nas amostras de sangue colhidas entre os indígenas da região, sem que encontrasse um foco sequer de Aedes aegypti (Franco, 1969, 124).

Lowy sustenta, com razão, que a derrocada do dogma da transmissão exclusiva pelo Aedes aegypti não teria ocorrido se não houvesse ferramentas que magnificassem a presença do vírus — análises histológicas do fígado de pessoas mortas e testes de proteção com o sangue dos vivos. É preciso acrescentar que essa mudança de ponto de vista também se deveu ao crescente ceticismo dos médicos brasileiros que se insurgiram contra o dogma sustentado pelos dirigentes da Fundação Rockefeller na década de 1920. O fermento da dúvida exacerbou-se com a publicação por Adolfo Lutz, em 1928, de observações que tinha feito em 1899, no interior do estado de São Paulo, sobre casos de febre amarela sem Stegomyia fasciata (nome que tinha, na época, o Aedes aegypti), "cabendo, provavelmente, o papel de transmissor a mosquitos do mato, mais ou menos parentes" (Lutz, 1928, p. 130).

O mapa epidemiológico que se foi desenhando entre 1930 e 1937 acabou por modificar os termos da equação imperante nas décadas anteriores: a febre amarela silvestre parecia ser a modalidade comum da doença, e a urbana, apenas uma manifestação anormal, que tenderia a se extinguir quando se exaurisse a massa de indivíduos não imunes ou quando se erradicasse o Aedes aegyti.

A erradicação da febre amarela foi concebida, desde o início, como um programa continental e, até mesmo, intercontinental. O mapa do terreno onde se daria a campanha modificou-se drasticamente depois de 1932. Seus principais elementos tinham sido cidades irradiantes conectadas por meio de navios, trens e, logo, pelo meio de transporte mais moderno, os aviões. A febre amarela silvestre parecia formar grandes manchas endêmicas, interligando regiões e países, e ondas que, de tempos em tempos, por mecanismos de transmissão ainda obscuros, varriam grandes extensões, avançando perigosamente das matas e florestas para as cidades do litoral.

 

Dr. Henrique de Azevedo Penna (o segundo a partir da

esquerda), ao lado de outros médicos e técnicos durante

trabalho de campo para a Fundação Rockefeller. Goiás, 1935.

Coleção Família Penna

Nos primeiros anos após a unificação dos serviços, sob o comando de Soper, pareceu que não haveria necessidade de levar as medidas de controle ao Amazonas, Acre, Goiás, Mato Grosso, ou ao Sul do país, mas à medida que a viscerotomia, os testes de proteção e outros componentes da maquinaria antiamarílica iam revelando os contornos da febre amarela silvestre, tornou-se necessário atuar em todas essas frentes — "exceto talvez o RGS", escrevia Soper, em fins de 1938. No ano seguinte, este estado brasileiro, o Rio Grande do Sul, e também Misiones, na Argentina, foram incluídos na lista das regiões expostas à doença (Soper, 1942, p. 2).

O Serviço de Febre Amarela passou a distinguir três cenários epidemiológicos diferentes. O mais tradicional era o da doença urbana transmitida pelo Aedes aegypti, restrito às cidades litorâneas.

O segundo, reconhecido no decurso dos anos 1920, à medida que se iam multiplicando as anomalias no paradigma vigente, era o da doença rural endêmica, principalmente no interior do Nordeste, transmitida pelo Aedes aegypti e ocasionando mortes sobretudo entre crianças. Esta febre amarela resistiu à campanha levada a efeito nas cidades selecionadas à luz da teoria dos focos-chave. Só em agosto de 1934, depois que a campanha foi estendida às pequenas cidades do interior, a viscerotomia deixou de revelar casos fatais no Nordeste (Soper, 1939b, p. 6).

Família de Augusto Elias de Oliveira, morto em decorrência de

febre amarela. Fazenda Brejão, Anápolis, GO, 31 de agosto de

1935.

Coc/Fiocruz

Um gato-do-mato é retirado do alçapão tosco e colocado na

gaiola de transporte, para em seguida ser encaminhado ao

laboratório para exames. Setembro de 1936.

Foto: R. M. Gilmore

Coc/Fiocruz

O terceiro cenário só se tornou visível depois de 1932. O vírus da doença se alastrava por áreas enormes de mata, tendo como hospedeiros os macacos e certamente outros vertebrados, e insetos ainda mal conhecidos. A febre amarela silvestre atacava e, às vezes, matava as pessoas que ingressavam na floresta, principalmente adultos, em regiões tão afastadas quanto Acre, ilha de Marajó e Rio Grande do Sul, formando vasto reservatório de vírus para a eventual reinfestação das aglomerações urbanas, via

Aedes aegypti 22 (ibidem, pp.6-7).

Os estudos de campo e laboratório logo revelaram que febre amarela urbana e silvestre eram clinicamente idênticas, causadas pelo mesmo vírus, produziam perfeita imunidade cruzada e lesões praticamente idênticas no homem e nos animais de experiência. Verificou-se que várias cepas de vírus selváticos podiam ser transmitidos pelo Aedes aegypti, e que algumas espécies de

mosquitos da mata transmitiam o vírus da febre amarela urbana. 23 Havia, porém, uma diferença essencial: esta última era transmitida no interior ou ao redor das moradias humanas, e "quase que certamente" (os textos da época trazem esse grão de dúvida) dependia apenas do ciclo homem — Aedes aegypti — homem. A febre amarela silvestre era adquirida, em geral, longe da casa, e dependia de ciclos de infecção em que nem o homem nem o Aedes aegypti eram elos essenciais (ibidem, p.7). Em 1938, na X Conferência Sanitária Pan-Americana, Soper registrou:

Teoricamente, pode-se admitir que a febre amarela sem Aedes

aegypti ocorra longe das matas, por isso que se podem

encontrar vetores eficientes, tais como o Aedes scapularis, em

lugares onde não há mata. Na prática, entretanto, não se têm

observado surtos em localidades completamente limpas de

mata e, em quase todos os casos observados, pode-se provar

que as vítimas estiveram em contato pessoal com ela. O fato de

não terem ocorrido longe das matas surtos de febre amarela

transmitidos por insetos outros que o Aedes aegypti faz pensar

que o contato dos outros vetores com o homem não é

suficientemente íntimo para manter o vírus mediante o simples

ciclo de infecção homem — vetor — homem, e que o hóspede

ou hóspedes animais, responsáveis pela existência da febre

amarela sem o Aedes aegypti sejam animais silvestres (ibidem,

pp. 7-8).

Gaiola para captura. Ilha de Marajó, PA.

Coc/Fiocruz

Aspecto das redondezas da casa onde morreu um homem,

vítima de febre amarela em área rural, cena recorrente no

arquivo fotográfico da fundação, a partir da verificação da

forma silvestre da doença. Na verdade, a cena é representativa

da condução dos estudos, que passam a valorizar a relação

entre a habitação e a floresta que a cerca com proximidade,

relação essa típica do processamento do ciclo silvestre da

doença. Itabuna, BA, 1 de outubro de 1943.

Foto: Dr. D. E. Davis Coc/Fiocruz

Desenho que ilustra a urbanização da forma silvestre da febre

amarela, apontando os vetores e agentes responsáveis pelo

ciclo da doença.

Taylor in Strode, 1951, p. 536

As incógnitas deste problema motivaram um vasto programa de investigação envolvendo virologistas, zoólogos e entomólogos, que se prolongou até, pelo menos, os anos 1950, com intensa troca de informações entre os pesquisadores que atuavam nos continentes americano e africano. Muitas dessas incógnitas continuam a desafiar os epidemiologistas que lidam com a febre amarela hoje. Mas tudo indica que houve solução de continuidade e conseqüente empobrecimento naquele programa multidisciplinar de pesquisas desde que zoólogos, entomologistas e anotomopatologistas deixaram de participar dele na mesma medida em que o faziam.

Isso se deveu, em parte, à diminuição da relevância científica e sanitária da febre amarela durante a transitória erradicação do Aedes aegypti no Brasil (1955-1968) e em outros países do continente, à voga do DDT como panacéia para a erradicação de

espécies transmissoras de doenças,24 e certamente, também, à crise das instituições de pesquisa biomédica brasileiras e à inconsistência das políticas de saúde implementadas nesse mesmo período.

Gráfico indicando a migração de pássaros no Sul do Brasil. Em

determinado momento dos estudos epidemiológicos, foi

levantada a teoria, hoje imputada ao dr. Austin Kerr, da

Fundação Rockefeller, com relação ao transporte do vírus da

febre amarela pelos pássaros, para se tentar compreender o

mistério que cercava os chamados "reservatórios de vírus". Compreender isso significava entender de que forma se dava a

distribuição da doença entre regiões distantes, e o que

ocasionava o aparecimento de surtos epidêmicos que

espocavam aqui e ali em curtos intervalos. Essa teoria suscitou

uma série de estudos que contavam com a captura e sangria

daqueles animais, estudos que deram origem a uma coleção de

aves preservada e tratada pela Fundação Rockefeller.

Paralelamente, foi feito um trabalho com captura de mosquitos presentes em correntes aéreas acima das árvores, ou seja, em

zonas muito altas nas florestas. Para dar conta dessa tarefa,

foram confeccionadas, pelo próprio pessoal do Serviço de Febre Amarela, pipas produzidas com filó que, acionadas,

faziam vôos para captura dos mosquitos. A pertinência da

teoria não foi comprovada. 1943.

Fotos: Sílvio Cunha

Coc/Fiocruz

 

Mosquiteiro colocado sobre árvore durante estudos e captura

de mosquitos na Fazenda da Boa Fé, Teresópolis, RJ, 12 de

março de 1943.

Foto: Dr. D. E. Davis Coc/Fiocruz

Desde 1928 sabia-se que outros mosquitos além do Aedes aegypti podiam transmitir o vírus da febre amarela urbana (Bauer, 1928, pp.261-82). Após a descoberta da febre amarela silvestre, iniciaram-se amplos estudos sobre os insetos hematófagos mais comuns nas localidades afetadas pela doença. A princípio, foram infrutíferas as experiências com insetos capturados nas matas e levados a picar animais em laboratório, ou inoculados neles depois de serem triturados e diluídos (Soper, 1939a, p.18; 1939b, p.10). No começo de 1938, o vírus foi isolado em macacos picados pelo Haemagogus capricorni e pelo Aedes leucocelaenus, e em camundongos nos quais se tinha inoculado um grupo de Sabethines (Shannon, Whitman e França, 1938, pp. 110-1). Diversos mosquitos foram artificialmente infectados, mas até então somente aquelas três espécies tinham sido encontradas com infecção natural (ibidem). A princípio, os entomologistas ficaram surpresos com a pobreza de mosquitos encontrados nos ambientes onde grassava a febre amarela silvestre. Na Colômbia se verificou que capturas feitas na floresta, a pequena altura do chão, revelavam a existência de poucos mosquitos, mas grande quantidade era encontrada na copa das árvores (Soper, 1942, p. 5). Novas metodologias de captura levariam à identificação de muitas outras espécies associadas à transmissão não apenas da febre amarela — neste caso, especialmente as do gênero Haemagogus — como de outras arboviroses (Consoli e Oliveira, 1994, pp.102-34).

Localidades no Brasil onde foram capturadas espécies do

mosquito Haemagogus, um dos vetores mais conhecidos da

febre amarela silvestre.

Whitman in Strode, 1951, p.270

Um tipo de alçapão para captura de mosquitos, utilizando um

cavalo como isca. Anápolis, GO, 1938.

Foto: Dr. Gastão César

Coc/Fiocruz

Captura de mosquitos hematófagos com isca humana na mata

da Fazenda Guinle. Teresópolis, RJ, 29 de novembro de 1942.

Coc/Fiocruz

Gráfico mostrando capturas semanais do mosquito

Haemagogus, o principal entre os vetores conhecidos da forma

silvestre da febre amarela, utilizando isca humana. Os índices

de captura estão relacionados às diversas estações de estudo

na região de Passos, MG, entre 1945 e 1946. Essa região foi

escolhida para as investigações entomológicas e zoológicas,

porque situava-se no caminho da epidemia de febre amarela

silvestre, que se propagou entre 1934 e 1940 pela bacia

amazônica nos estados de Mato Grosso e Goiás, em direção ao

Sul do país. Nova epidemia irrompeu na região em 1944,

inaugurando-se então o laboratório de campo à frente desta outra vaga de febre amarela silvestre, com o objetivo de iniciar

as investigações antes que o vírus chegasse à região. Lá

estiveram Henry W. Kumm, Ottis R. Causey, Hugo W. Laemmert

Jr., G. S. Hayes, entre outros.

Foto: Machado

Coc/Fiocruz

Gráfico demonstrando número de vezes em que macacos

cebus foram recapturados em Passos, MG, entre 1945 e 1946.

Foto: Machado

Coc/Fiocruz

Gráfico demonstrando a relação mensal entre as condições

meteorológicas e as capturas de Haemagogus e outros

mosquitos com isca humana. Passos, MG, julho de 1946.

Foto: C. G. Inman

Coc/Fiocruz

Gráfico indicando a quantidade de mosquitos de diferentes espécies capturados em florestas na região de Passos, MG,

 

julho de 1946.

Coc/Fiocruz

 

Gráfico mostrando a percentagem de mosquitos capturados

por mês em relação às chuvas. Passos, MG, julho de 1946.

Foto: C. G. Inman

Coc/Fiocruz

Gráfico mostrando o número de Haemagogus capturados no

 

chão e em árvores por hora de capturas. Passos, MG, julho de

1946.

Foto: C. G. Inman

Coc/Fiocruz

A coleta sistemática de amostras de fígado e os estudos sobre a distribuição da imunidade foram deslanchados em 1931, em diversos países sul-americanos, quando ainda não se sabia da existência da febre amarela silvestre. O reconhecimento de sua extensão e peculiaridades deveu-se, em larga medida, ao exame histopatológico das amostras de fígado — diagnosticandose casos fatais com segurança, desenhavam-se as áreas infectadas no momento em que eram infectantes — e das provas de proteção, que permitiam determinar a distribuição anterior da febre amarela a partir da imunidade adquirida por pessoas que haviam tido a infecção. Certificando só os casos fatais, a viscerotomia iluminava uma pequena parte apenas dos casos que realmente ocorriam. As investigações sobre a imunidade 'enxergavam' as pessoas que tinham sobrevivido à febre amarela ou que tinham hospedado o vírus sem apresentar sintomas.

Quando o Serviço de Viscerotomia chamava a atenção dos cartógrafos do laboratório central para determinada região, o surto era dimensionado através de cuidadosa investigação de campo, envolvendo estudos clínicos, inoculações em animais suscetíveis e provas de proteção repetidas (Soper, 1939a, p. 7). A relação era de mão dupla: fazia-se a viscerotomia nas regiões em que a investigação do poder protetor do soro indicasse a existência passada da doença.

Em 1939, usavam-se dois processos: os camundongos eram inoculados em campo com o soro do sangue suspeito e enviados imediatamente ao laboratório; ou se enviavam ao laboratório vênulas com o sangue dos casos suspeitos, em garrafas térmicas com gelo e sal, para que lá se fizesse a inoculação nos animais de

experiência. 25

Mapa de Ilhéus, BA, mostrando as fazendas onde foram

colhidos soros humanos para diagnóstico da presença do vírus

da febre amarela. Julho de 1946.

Foto: C. G. Inman

Coc/Fiocruz

Mapa de Passos, MG, mostrando percentagem de macacos cebus que apresentaram soros positivos até junho de 1946.

Foto: C. G. Inman

Coc/Fiocruz

Mapa localizando os resultados de testes com soro humano

nas regiões e relacionando-os à vegetação variada,

provavelmente etapa de trabalho para realização de diagnóstico

da presença do vírus circulante. Pesquisa realizada entre

novembro de 1943 e maio de 1944 pelo laboratório de estudos

epidemiológicos situado na cidade de Ilhéus, BA, e apresentada

pelo dr. Taylor.

Foto: Antenor Batalha

Coc/Fiocruz

Mapa indicando resultados de provas de proteção feitas em

macacos, apresentados pela relação entre o total de testes realizados e o percentual positivo. Pesquisa realizada pelo

laboratório de estudos epidemiológicos situado na cidade de

Ilhéus, BA, e apresentado pelo dr. Taylor. 1945

Foto: Antenor Batalha

Coc/Fiocruz

Aspectos de sítios, fazendas, estradas e vegetação da região que cerca a cidade de Ilhéus, BA, cenário de uma abrangente pesquisa sobre a febre amarela na década de 1940.

Essas pesquisas epidemiológicas visavam, entre outras coisas, a detectar se a região era ou não propícia ao aparecimento da doença; produzir um quadro de imunidade da região; investigar a participação de animais no seu ciclo silvestre, para se tentar chegar aos vetores e hospedeiros que participavam daquele ciclo etc. Em todos esses estudos, a relação doença/ambiente era muito valorizada. Levantamentos de vários tipos foram efetuados, produzindo amplo material proveniente das pesquisas — biológicos ou não. Essa série de imagens é um exemplo de como foram utilizados diversos dispositivos que auxiliassem a produção do conhecimento que então se buscava obter, dentre eles, a fotografia. Produzidas em série, processadas e coladas no verso de fichas catalográficas contendo informações básicas sobre seu conteúdo, as imagens cumpriam uma função basilar nos trabalhos da Fundação Rockefeller no Brasil: a descrição. Segundo depoimento do dr. José Fonseca da Cunha, médico que trabalhou em campo para a Rockefeller, no desenvolvimento de uma pesquisa epidemiológica, por vezes os médicos tinham que se deslocar de uma cidade a outra e nessas ocasiões era atribuição do funcionário ir descrevendo num caderno ou diário a paisagem que via: "Saí em direção a Divinópolis. Então, assentado ao lado do motorista com caderno, lápis na mão, indicava a quilometragem do carro e dizia:'do lado direito um capão do mato, na altura de grande extensão ou de pequena extensão, do lado esquerdo terreno plano próprio para cultura', mas dali a quinze minutos, ou vinte minutos, ou meia hora, dependia das mudanças que eu fosse observando, 'do lado esquerdo capão de mato bastante denso e com possibilidade de existência de mosquitos na região'. Mais adiante: 'quilômetro tal', assim até chegar ao final da viagem, era um trabalho muito cansativo. Era uma espécie de um retrato da região através da minha descrição".

A fundação contou com um eficiente aparato técnico-administrativo, que dotou a organização de uma eficiência ímpar no controle das informações provenientes das atividades médico-científicas em andamento. Nesse aparato destacamos a rotina institucional que determinou diversas formas de descrição das atividades, que poderiam apresentar-se de forma escrita — diários, relatórios, papers, surveys — ou visual — fotografias, mapas, gráficos, desenhos. Se partirmos em busca da compreensão dos motivos que regem o cumprimento de simples rotinas institucionais, talvez encontremos algumas chaves de compreensão das noções que sustentavam tais práticas. Assim, ao lado dos documentos de trabalho produzidos em série, a fotografia era um poderoso auxiliar na tarefa de descrição, na tentativa de se descortinar, num país de dimensões continentais, os cenários possíveis de manifestação da doença. Além disso, a possibilidade de se obter um inventário visual sobre o problema, aliado a toda a estrutura de descrição manuscrita, ampliava sobremaneira as possibilidades de conhecimento, mas sobretudo de controle tanto real dos estudos — maior pluralidade de observações – quanto simbólico das paisagens fotografadas — pela simples posse e descrição de suas imagens. Acima de tudo, porém, a imagem fotográfica serviu para registrar, como num texto subliminar, o funcionamento endógeno da instituição: os serviços, atividades, dispositivos mobilizados para as várias operações, etc., além de apresentar a relação instituição/população a partir de seu próprio ponto de vista. Evidentemente sem possuir uma consciência clara desses atos, na verdade a Fundação Rockefeller acabou por ajudar a construir uma memória visual sobre si mesma e sobre o problema com o qual se defrontou, com muita eficiência, seja na forma sistemática com que pacientemente produziu e processou todos os materiais e registros de sua atuação — incluindo não só fotos mas também as coleções e os escritos produzidos —, seja na própria valorização da função desses materiais nos trabalhos empreendidos.

Fotos: Dr. D. E. Davis

Coc/Fiocruz

Provas de proteção repetidas de tempos em tempos eram usadas para revelar a presença da febre amarela em regiões suspeitas. Em Mato Grosso, por exemplo, se tinham encontrado pessoas com prova de proteção negativa em 1934, mas positiva após os surtos de 1936 e 1937. Teria sido impossível afirmar que a febre amarela estivera na região sem estes testes, "porque não se observaram, então, casos no período inicial ... nem se apresentaram casos fatais que, pela viscerotomia, permitissem confirmar a natureza da doença". Soper julgava que a vacinação crescente dos habitantes das regiões infectadas acabaria por inviabilizar a sensibilidade deste método de rastreamento das epidemias de febre amarela silvestre. Outro método, mais dispendioso, consistia em manter animais suscetíveis presos em gaiolas, em certos pontos do território, para que servissem de sentinelas (ibidem, p. 19).

Nos trabalhos de campo para o estudo da febre amarela, não

raro os obstáculos de toda ordem se impunham, fato que

obrigava o staff a uma postura aberta aos improvisos, o que

gerou soluções bastante criativas, realizadas com habilidade,

como a escada construída para o acesso seguro às árvores. Na outra imagem, auxiliares do Serviço de Febre Amarela colocam

gaiolas nas árvores nas quais seriam depositados os "macacos

sentinela", geralmente da espécie rhesus, sabidamente

suscetíveis ao vírus, para serem picados por mosquitos

infectados nas florestas. Esses procedimentos tornavam

possível a realização dos exames de prova de proteção em

laboratório, usados para revelar a presença de febre amarela

em regiões suspeitas. Fazenda Colina, MG, 1945 e Anápolis,

GO,1938.

Foto: Machado

Foto: Dr. Gastão César

Coc/Fiocruz

A febre amarela silvestre humana, já vimos, era "secundária" a epizootias silvestres. Atingiam apenas alguns homens que freqüentavam a floresta povoada de animais infectados. Portanto, as vagas de febre amarela silvestre não podiam ser rastreadas com precisão pelos instrumentos que serviam tão bem para mapear as epidemias humanas. As provas de proteção passaram, então, a ser usadas para se determinar também a imunidade dos animais silvestres, dando, assim, uma idéia mais nítida do tempo da última passagem do vírus pela floresta, já que os animais viviam menos que os homens e se reproduziam mais rápido (Soper, 1942, p.2).

Diagrama utilizado em experiência de transmissão de

mosquitos infectados com o vírus da febre amarela para

sagüis, com a finalidade de estudar o ciclo "sagüi — aedes —

sagüi". 1945.

Coc/Fiocruz

Estas provas constituíam uma das principais ferramentas das investigações zoológicas que buscavam determinar os hospedeiros vertebrados do vírus, estudando-se a incidência de diferentes espécies nas regiões onde havia ou tinha havido casos em humanos. A epidemia que varreu o Sul e Sudeste do Brasil em 1938 foi sinalizada por relatos de elevada mortalidade entre macacos guaribas (gênero Alouata). Em laboratório, verificou-se que eram, de fato, muito suscetíveis à doença. Nas provas de proteção feitas, até 1938, em 1.212 macacos de várias espécies procedentes de 54 localidades do Brasil e Bolívia, 189 (15%) foram positivas, confirmando a suspeita de que estes animais eram os mais importantes hospedeiros vertebrados do vírus na selva.

 

Alina Perlowagora, médica de origem polonesa que trabalhava

com o dr. Thomas P. Hughes nas pesquisas sobre febre

amarela da Fundação Rockefeller, com um macaco guariba,

capturado em Paracatu, MG. 1946.

Foto: Dr. T. P. Hughes

Coc/Fiocruz

Uma fêmea de macaco cebus capturada para estudos

laboratoriais. A espécie cebus participava das provas de

proteção em alternativa ao macaco da espécie rhesus, que era

importado e, conseqüentemente, muito caro. Apucarana, PR.

1948.

Coc/Fiocruz

Embora fossem ainda incipientes os estudos zoológicos e entomológicos em 1942, Soper supunha que os mecanismos de transmissão e circulação do vírus na selva fossem similares aos da febre amarela urbana.

Se não fora a permanência do vírus através do inverno, e a

aparente disseminação da infecção durante o inverno nas áreas

epidêmicas do Brasil meridional, seríamos tentados a explicar a

epizootiologia de febre amarela pela hipótese simples do ciclo

mosquito — hospedeiro animal — mosquito. E isto talvez ainda

venha a ser provado como a verdadeira explicação, sendo um

mosquito resistente o hospedeiro do vírus de uma estação para

outra. Não há nenhuma prova de que sejam responsáveis

vetores hematófagos de longa vida, ou que a transmissão se

faça de uma a outra geração de vetor, ou que haja um longo

período infectante em algum vertebrado (ibidem, pp. 4-5).

Caminhão com meninos capturadores de mosquitos, durante

experiência sobre disseminação de mosquitos libertados.

Passos, MG, 1948.

Coc/Fiocruz

Segundo a epidemiologia clássica, somente cidades grandes, com intenso movimento de não imunes, se tornavam centros endêmicos da febre amarela transmitida por Aedes aegypti. Como, então, explicar a endemicidade silvestre a partir de um mecanismo que supunha curto período de circulação do vírus no hospedeiro vertebrado, seguido de imunidade permanente, e em hospedeiros invertebrados de vida curta, incapazes de transmitir o vírus de uma geração para outra? Para Soper, a chave da explicação residia no "fato de que os animais silvestres se reproduzem muito mais rapidamente do que o homem, e vivem períodos muito mais curtos do que ele, de maneira que uma população média de mil animais oferece muitas vezes mais indivíduos para infecção do que se encontra em uma população média de mil indivíduos humanos no mesmo período".

Os resultados dos estudos sobre a distribuição da imunidade à febre amarela foram resumidos em dois relatórios publicados em 1937, um referente à América do Sul e o outro, à América do Norte, América Central e Índias Ocidentais (Soper, jul. 1937, pp. 457-511; Sawyer, Bauer e Whitman, mar.1937, pp. 137-61).

Comprovou-se, então, que a febre amarela silvestre era, às vezes, a origem de epidemias urbanas, mas podia permanecer ativa por muitos anos numa região, sem atingir obrigatoriamente as cidades próximas à mata, mesmo quando o índice estegômico era elevado nelas. Em outras palavras, os dados fornecidos pelas viscerotomias feitas em diversos países sul-americanos indicavam que a febre amarela silvestre podia existir numa região sem influenciar obrigatoriamente os resultados das provas de proteção feitas com os habitantes dos núcleos urbanos da mesma região. Por outro lado, resultados negativos de provas de proteção feitas em crianças não significavam necessariamente que a doença estivera ausente durante o seu tempo de vida. "Nos lugares habitados, onde as casas ficam bastante retiradas da mata, a doença não se adquire, via de regra, a não ser no contato com a mata, e habitualmente são os indivíduos que ali penetram, geralmente adultos, aqueles que adquirem a infecção" (Soper, 1939a, p. 5).

Os inquéritos divulgados em 1937 demonstravam que a febre amarela silvestre vinha lavrando em vastas regiões da América do Sul há muitos anos, sem que ninguém tivesse conhecimento disso. Apesar de existirem zonas onde o vírus parecia existir de maneira permanente, observavam-se grandes flutuações na distribuição dos casos, de ano para ano.

Gráfico indicando resultados de pesquisas de imunidade

humana por grupos de localidades, percentual entre gêneros e

grupos etários. Pesquisa realizada entre 1932 e 1936 nos

estados de Mato Grosso, Goiás, Bahia, Espírito Santo e Minas

Gerais.