Febre amarela: a doença e a vacina
Fundação Rockefeller
Imagem de abertura: Grupo de funcionários do Serviço de
Febre Amarela organizado pela Fundação Rockefeller. Rio de
Janeiro, maio de 1934.
Foto: Voltaire de Alva Rockefeller Archive Center
A Fundação Rockefeller foi criada em maio de 1913, em Nova York, por um poderoso grupo econômico dos Estados Unidos, constituído a partir da Standard Oil, em aliança com a Igreja batista. Começou a desenvolver ações em educação e saúde no Sul dos Estados Unidos. Por intermédio da International Health Commission, criada em 1913 também, abriu frentes na América Latina, Europa, Ásia e
África.1
Muitos autores vêem esta filantropia multinacional como mera fachada a esconder os verdadeiros objetivos da instituição: trabalhar em proveito dos lucros das empresas extrativas e agro-pecuárias dos Estados Unidos e expandir sua supremacia política e ideológica no âmbito do imperialismo mundial. Estudos históricos mais recentes vêm suplantando este molde simplista, que superestimava as motivações econômicas imediatas como chave explicativa das práticas e objetivos da Rockefeller. Deixam assim de tratar as relações entre ela e as instituições brasileiras, e entre os especialistas norte-americanos e os 'nativos' como relação de mão única. A matriz economicista tinha como corolário a suposição de que os primeiros eram o pólo ativo da dominação e detinham total supremacia técnica, científica e organizacional; ao passo que os últimos não passavam de objeto passivo das maquiavélicas ações do imperialismo ianque e das iluminadas realizações de seus epidemiologistas e cientistas.
As primeiras ações sanitárias da Rockefeller visaram à erradicação da ancilostomose no Sul dos Estados Unidos. A doença foi escolhida por uma razão econômica — abatia o rendimento da força de trabalho — e também por ser um mal cujo agente era visível a olho nu, e passível de ser exterminado por meios aparentemente seguros. O dr. Victor Heiser, que ingressou na instituição em 1914, conta que, ao fim de vários anos de patrocínio à pesquisa e ao ensino, e desejando ações menos teóricas, o milionário John D. Rockefeller reuniu um seleto grupo de médicos e sanitaristas e lhes perguntou:
Há alguma doença que ataque grande número de pessoas, e
da qual possam os senhores dizer: "Eu a conheço, e posso
curá-la, não em cinqüenta, nem mesmo em oitenta por cento —
mas em cem por cento dos casos"? Além disso, há de ser uma
doença evitável por meio simples. Uma doença cuja causa
possa ser vista — não por meio de indecisas bactérias
microscópicas, mas uma coisa visível a olho nu. Se podem me
indicar uma doença assim, não precisarão fazer discursos,
declamando vagas generalidades sobre a saúde pública, mas
terão alguma coisa concreta, que as massas possam
compreender, e a respeito da qual seja possível convencê-las
por demonstrações em larga escala (Hesier, pp. 248-9).
A resposta teria sido dada por Charles W. Stiles e Bailey K. Ashford, que desenvolviam um programa de estudo e profilaxia da ancilostomose em Porto Rico. Em dezembro de 1898, oito meses após a declaração de guerra contra a Espanha, os Estados Unidos tomaram posse daquela colônia espanhola e a incorporaram a seu território em março de 1917. Estudando os motivos que tornavam anêmicos os habitantes de um distrito da ilha, o dr. Ashford, do Serviço Médico Naval, encontrou os ovos e depois os vermes do ancilóstomo. Levou espécimes para serem examinados pelo dr. Charles W. Stiles, que se dedicava, também, ao estudo desta doença amplamente disseminada entre os trabalhadores das plantações e fábricas de fiação de algodão no Sul dos Estados Unidos. Stiles identificou o verme como uma nova variedade de ancilóstomo, a que deu o nome de Necator americanus. Mais tarde, descobriu-se que esta variedade fora trazida da África com o tráfico de escravos. O estudo do verme passou, inclusive, a auxiliar o estudo das migrações humanas. Como Pata Choca, personagem do romance Cazuza, de Viriato Correia (1938), suas vítimas têm a estranha compulsão de comer terra, o que se atribui à busca instintiva do ferro, um dos remédios da anemia.
Rockefeller investiu um milhão de dólares no controle da doença no Sul dos Estados Unidos, delegando o empreendimento a uma comissão chefiada por Wickliffe Rose, professor de filosofia na Universidade de Tennessee. John H. Ferrel coordenou a campanha educativa na Carolina do Norte, visando a incentivar a construção de latrinas e o uso de calçados, paralelamente à disseminação de postos onde se faziam exames e se distribuía o vermífugo timol, gratuitamente. O programa teve tanto sucesso que aquela comissão se transformou na Comissão Sanitária Internacional.
Em fevereiro de 1916, Ashford, Ferrell e Richard M. Pearce, professor e pesquisador da Universidade da Pennsylvania, viajaram ao Brasil com o objetivo de estudar suas endemias, suas instituições científicas e médico-hospitalares e, principalmente, convencer o governo a executar a profilaxia da ancilostomíase com o auxílio da instituição norte-americana, que já desenvolvia esse programa nas Antilhas e Filipinas.
Segundo Lowy (1998-9, p. 649) os especialistas da Rockefeller logo perceberam que a eliminação do ancilóstomo era uma meta ilusória no Brasil, pois não seria possível aplicar em regiões subdesenvolvidas métodos que funcionavam nos Estados Unidos. Outros estudos mostram que a realidade econômica e social do Sul dos Estados Unidos não era muito diferente daquela vigente nas regiões que Lowy qualifica de subdesenvolvidas. É provável que a retirada dessa frente tenha a ver, em certa medida, com a densidade do campo médico brasileiro e a resistência dos sanitaristas 'nativos' que, por uma dinâmica própria, já estavam voltados para o combate a esta e outras endemias rurais.
O alvo prioritário da Fundação Rockfeller no Brasil passou, então, a ser a febre amarela. O programa de combate a essa doença começou a ser delineado em 14 de julho de 1914, num encontro do diretor geral da fundação, Wickliffe Rose, com o general William C. Gorgas, surgeon general do Exército norte-americano, já consagrado como o "conquistador da febre amarela em Havana e no Panamá". Rose fizera uma viagem ao Oriente para colher dados que fundamentassem o programa de ação da International Health Commission. Percebera que as autoridades médicas britânicas e asiáticas estavam muito preocupadas com a possibilidade de que a febre amarela invadisse o Extremo Oriente após a abertura do canal do Panamá, que seria inaugurado somente em 15 de agosto de 1914 (Manson, 1903, pp. 60-100). A Ásia tropical se mantivera livre da doença, mas reunia todas as condições para uma epidemia se fosse conectada às regiões infectadas do Caribe (Cueto, 1991, p. 2).
Na mencionada reunião, Gorgas convenceu Rose de que a erradicação da febre amarela poderia ser o primeiro empreendimento mundial bem-sucedido da Fundação Rockefeller. A doença poderia ser eliminada da face da Terra em pouco tempo e a um custo razoável. Rose consultou também Henry R. Carter e Joseph H. White, médicos do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos, antes de apresentar, em agosto de 1914, o plano intitulado "Yellow Fever: Feasibility of its Eradication". A teoria dos centros ou focos-chave, que era a base desse plano, iria nortear os trabalhos da Rockefeller contra a febre amarela, no Brasil e em outros países, até 1932, quando este paradigma, já em crise, entrou definitivamente em colapso, por razões que discutiremos adiante.
Segundo os defensores daquela teoria, era viável erradicar a doença, eliminando-se os locais onde procriava o Aedes aegypti, considerado o único vetor da febre amarela. O trabalho precisava ser feito apenas em alguns centros endêmicos, que constituíam
as sementeiras sem as quais não pode haver epidemias. Se
elas forem destruídas, a doença desaparecerá de todos os
outros lugares. Felizmente, essas sementeiras são em pequeno
número. Uma aglomeração humana só oferece condições
endêmicas se possuir quantidade anormalmente elevada de
negociantes ou turistas não imunes. Isso porque é necessário
um suprimento constante de material não imune para manter a
infecção do mosquito. O mosquito adquire a infecção
unicamente de pessoas infectadas, e vive o suficiente para
transportar tal infecção por apenas trinta a 180 dias. Em
grandes cidades, o suprimento necessário de materiais não
imunes mantém-se elevado pelo nascimento de grande número
de crianças e pela chegada de visitantes. Existem atualmente
apenas cinco ou seis focos endêmicos, e estes são os únicos
que necessitam de atenção.2
Nesses focos, a campanha visaria apenas às larvas dos Aedes aegypti, que só se reproduziam nas proximidades das habitações humanas. Os estrategistas da campanha julgavam ainda que não era necessário eliminar completamente o mosquito. Bastaria reduzir o índice de infestação a um patamar igual ou inferior a cinco — isto é, as larvas do Aedes aegypti seriam encontrados em, no máximo, 5% das casas visitadas. A febre amarela se extinguiria, então, espontaneamente, tanto na aglomeração urbana expurgada como nas áreas menos povoadas do interior. "Este último ponto era importante, porque os especialistas da Rockefeller acreditavam que não era possível realizar trabalhos sanitários no interior devido à pobreza, à ignorância e ao estado lastimoso de seus habitantes" (Lowy, 1998-9, p. 653).
A eclosão da Primeira Guerra Mundial obrigou Rockefeller a adiar a execução do plano proposto por Rose. Decorreram dois anos até que uma comissão chefiada por William Gorgas iniciasse a identificação mais precisa dos focos-chave no continente. Em 14 de junho de 1916, Gorgas, Henry R. Carter, Juan Guiteras, W. D. Wrightson e os majores T. C. Lyster e E. R. Whitmore embarcaram em Nova York rumo ao Equador, visitando, em seguida, o Peru, a Colômbia e a Venezuela. Em outubro, a comissão fez outra viagem para estudar a situação das Antilhas, da costa oriental do Brasil e da costa ocidental da África. Gorgas e sua equipe refizeram, então, a viagem realizada uma década antes por Oswaldo Cruz, visitando os
principais portos situados entre o Rio de Janeiro e o Pará. 3
Lembramos que, em fevereiro de 1916, já havia estado no Brasil aquela outra comissão integrada por Pearce, Ashford e Ferrell, para convencer o governo brasileiro a combater a ancilostomíase.
O plano elaborado pela comissão de Gorgas abrangia quatro pontos: eliminar a febre amarela em Guayaquil, capital do Equador, considerada a principal sementeira da infecção na América do Sul, e um de seus mais antigos redutos; manter sob observação a costa oriental do Brasil e o litoral sul do mar do Caribe; estender a investigação ao México e à África ocidental, regiões consideradas suspeitas e, por último, desenvolver intensos trabalhos de controle
em qualquer centro chave que viesse a ser identificado.4
Em 23 de janeiro de 1917, o International Health Board da Fundação Rockefeller nomeou Gorgas diretor da campanha de erradicação da febre amarela, externando, na ocasião, a esperança de que coubesse a ele a glória de escrever o último capítulo na história daquela doença. A campanha teria começado imediatamente, se o ingresso dos Estados Unidos na guerra não houvesse obrigado Gorgas a se dedicar às suas obrigações como surgeon general do Exército, até aposentar-se, em 1918.
Naquele ano, a Rockefeller enviou a Guayaquil outra comissão, com a incumbência de investigar aspectos ainda obscuros da febre
amarela, concernentes, sobretudo, à etiologia e ao diagnóstico.5 Arthur I. Kendall, Mario G. Lebredo, Charles A. Elliot e Herman E. Redenbaugh permaneceram naquela cidade de julho a setembro de 1918. O bacteriologista Hideyo Noguchi ficou até o fim de outubro, anunciando, então, a possível descoberta do agente etiológico da febre amarela: no sangue de seis de 27 doentes que examinara, havia identificado um espiroqueta que produzia em porquinhos-da-
índia as lesões características da doença.6 Noguchi desenvolveu em seguida uma vacina e um soro que não chegaram a constituir medidas profiláticas e curativas prioritárias, mas que foram amplamente utilizados em diversos países sul-americanos, inclusive no Brasil, até a derrocada de sua teoria, em 1928, em circunstâncias que analisaremos adiante.
Quando finalmente começou a campanha em Guayaquil, em 25 de novembro de 1918, todos os aspectos biomédicos da febre amarela "pareciam estar cientificamente equacionados" (Cueto, 1991, pp. 2-3). Sob a direção de M. E. Connor, 125 homens repartidos em 25 esquadrões atacaram os locais de procriação do Aedes aegypti, impedindo o acesso do mosquito. Os reservatórios de água eram tampados e neles se depositavam peixes que se alimentavam de larvas; inspeções domiciliares rigorosas davam cabo das larvas existentes nas cisternas e outros recipientes. O resultado foi considerado "espetacular" (Sawyer, 1937, pp. 40-1). Nos últimos oito anos tinha havido 259 casos anuais, em média. Em 1918, esse número ascendera a 460. Em maio de 1919, seis meses após o inicio da campanha, foi registrado o último caso. Nos 17 anos
seguintes, não seria identificado nenhum outro no Equador. 7 Os princípios estabelecidos pela Yellow Fever Commission pareciam integralmente confirmados. Eliminando-se as condições para a procriação do vetor no foco principal, ele se extinguia e a febre amarela desaparecia espontaneamente das cidades e povoados circundantes.