Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 39 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

O Laboratório de Vacina Antiamarílica nos anos 1950

vacina contra a febre amarela.72 O fato é que o erro resultou na hospitalização de aproximadamente 51 mil militares com hepatite induzida pela vacina. Investigações sorológicas feitas posteriormente com veteranos mostraram que cerca de 330 mil pessoas tinham sido infectadas (Seeff, Beebe, Hoofnagle et al., 1987, pp. 965-70; Norman, Beebe, Hoofnagle, Seeff, 1993; pp. 790-7). Foi a maior epidemia de hepatites jamais registrada nos anais da saúde pública.

 

O Laboratório de Vacina Antiamarílica nos anos

1950

Como vimos, em dezembro de 1939, a Fundação Rockefeller deixou de renovar o acordo que mantinha com o governo brasileiro, o qual, em janeiro de 1940, criou o Serviço Nacional de Febre Amarela, sob responsabilidade exclusiva de seus sanitaristas. Contudo, até 1946, permaneceu sob controle da Rockefeller o laboratório existente em Manguinhos, com o nome de Serviço de Estudos e Pesquisas sobre Febre Amarela (SEPFA). Compreendia a Seção de Vacina, desde 1939 chefiada por Henrique Penna, e outras seções: histopatologia, entomologia, cartografia etc. Estas participaram ativamente das investigações sobre os problemas que tornaram tão instável a vacina no período 1939-42. O laboratório abrigava, também, um serviço de vacinações, sob a responsabilidade de Penna. Inicialmente, eram feitas no próprio Pavilhão Rockefeller, na sala da secretaria; depois foram transferidas para um escritório na rua México, no Centro da cidade, sendo desativadas em fevereiro de 1943, quando o Serviço Nacional de Febre Amarela criou um posto de vacinação no seu edifício central, na avenida Pedro II, no bairro de São Cristivão (Penna, "Diário", 1942, pp.38, 49 e 59; 1943, p.5).

O destino a ser dado ao laboratório depois que a Rockefeller abriu mão dele foi o pivô de uma crise nas relações entre o Instituto Oswaldo Cruz e o Ministério da Saúde. "A partir de 1º de janeiro [de 1946], a Seção de Vacina passou a fazer parte do Serviço Nacional de Febre Amarela, sob o nome de Laboratório de Vacina

Antiamarílica" — escreveu Penna em seu "Diário".73 Alguns autores sustentam que essa medida contrariava acordo firmado entre a Rockefeller, o Ministério e o IOC, segundo o qual o edifício, seus técnicos e as dotações orçamentárias do laboratório seriam repassados a Manguinhos, tão logo a Fundação encerrasse suas atividades no Brasil. No decreto-lei que criara o SNFA (nº 1.975, de 23.01.1940), constava apenas, no artigo quinto, que a fabricação da vacina e as pesquisas científicas relativas à febre amarela seriam realizadas no Instituto Oswaldo Cruz, estipulando-se, em parágrafo único, que o governo federal confiaria a execução destes serviços à Fundação Rockefeller "pelo tempo que for julgado conveniente". O Regimento do SNFA, aprovado em 4 de fevereiro de 1942 (decreto nº 8.675), incluía entre seus "serviços centralizados", os de Vacinação e Viscerotomia, sem fazer qualquer alusão à fabricação da vacina ou às pesquisas sobre febre amarela (Franco, 1969, pp. 191-3).

Em novembro de 1947, o presidente da República, general Eurico Gaspar Dutra, e o ministro da Educação e Saúde, dr. Clemente Mariani Bittencourt, visitaram o laboratório, cujo diretor, Henrique Penna, continuava a prestar contas ao SNFA. Em 1949, às vésperas de Mariani Bittencourt deixar o ministério, para candidatar-se ao Senado pela Bahia, Henrique Beaurepaire Rohan de Aragão tomou a decisão inédita de demitir-se da direção do Instituto Oswaldo Cruz, por não concordar com a entrega dos laboratórios que funcionavam no Pavilhão Rockefeller ao Serviço Nacional de Febre Amarela. Aragão preparava o V Congresso Mundial de Microbiologia, que iria reunir-se no Rio de Janeiro, sob sua presidência, de 17 a 24 de agosto de 1950, em homenagem, justamente, ao cinqüentenário do

Instituto Oswaldo Cruz.74 Segundo Tito Arcoverde Cavalcanti (s.d., pp. 2-3), que seria diretor do Instituo de setembro de 1960 a fevereiro de 1961, sua atitude foi apoiada pela totalidade dos cientistas de Manguinhos, mas só depois de consumados os fatos, pois "Aragão sempre dirigiu o instituto por processos nitidamente individualistas e sigilosos". A pedido do ministro Clemente Mariani, ele apontou cinco nomes como possíveis sucessores: João de Barros Barreto, Cássio Miranda, Miguel Ozório de Almeida, Heráclites de Souza Araújo e Olympio Oliveira Ribeiro da Fonseca Filho. O governo escolheu este último e, ao mesmo tempo, revogou a decisão concernente ao Laboratório de Vacina Antiamarílica, que, em janeiro de 1950, tornou-se a 2ª Seção da Divisão de Vírus do Instituto Oswaldo Cruz.

Como vimos no capítulo um, o laboratório foi envolvido na guerra fratricida que dilacerou o Instituto Oswaldo Cruz durante a gestão de Olympio da Fonseca Filho. Apesar disso, em 1952 alcançou seu patamar mais elevado de produção: quase 11 milhões de doses de vacina, quatro vezes mais do que as quantidades mais elevadas obtidas até então. "Não se conseguiu esse resultado sem sacrifício de material e da parte do pessoal, ambos deficientes para tal produção" – anotou Penna. "Algumas adaptações foram conseguidas por meio de verba especial do Serviço Nacional de Febre Amarela. ... Os novos elementos incorporados no princípio do ano, na sua maioria não se adaptaram, e foram transferidos. Em vista destas e outras dificuldades, ficou resolvido, ao encerrar-se o ano, reduzir a produção de vacina a cerca de oitocentas mil doses

por mês."75

Aquela quantidade extraordinária de vacinas foi produzida para deter nova 'onda' de febre amarela silvestre que chegou perto, outra vez, dos principais centros urbanos do Sudeste. Depois da grande vaga de 1934-38, ela se manteve silenciosa até 1944, quando começou a migrar do vale amazônico em direção ao Sul do continente: transpôs Coronel Ponce e se bifurcou, avançando, de um lado, para o sul do Mato Grosso e Goiás, até a fronteira de Minas Gerais e São Paulo, de outro, por Paraguai, Argentina até alcançar, em 1948, o estado do Rio de Grande do Sul. Em 1950, casos de febre amarela silvestre foram confirmados no sul de Goiás, e nos dois anos seguintes, o vírus foi detectado em Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. A área invadida em Goiás recebera quantidade considerável de imigrantes nordestinos, por caminhos terrestres que escaparam à vigilância do Serviço de Febre Amarela. Em 1953, ocorreram surtos graves em São Paulo e no Paraná. No período 1957-59, ao mesmo tempo em que era anunciada a erradicação do Aedes aegypti no Brasil e em outros países do continente, ocorriam surtos nos vale dos rios Paraguai e Paraná, em Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais. Os serviços de saúde registraram o deslocamento da febre amarela silvestre do vale do Amazonas para o do rio Paraná em 1964: naquele ano, houve surtos no Mato Grosso e em Goiás; em 1965, em Minas Gerais, e, no ano seguinte, nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, tendo sido notificados sessenta casos nas províncias argentinas de Misiones e Corrientes (Soper, 1977, pp. 1887-9).

Durante parte deste período, o Laboratório Antiamarílico, além de fornecer vacinas ao Serviço de Febre Amarela, manteve em atividade as pesquisas e exames relacionados à doença.

O relatório das atividades desenvolvidas em 1950 registrava a publicação de três trabalhos de Hugo W. Laemmert e Henry W. Kumm sobre a distribuição geográfica da imunidade à febre amarela entre os primatas do Brasil; a suscetibilidade dos macacos gritadores (gênero Alouatta) e as concentrações de vírus da febre amarela capazes de infectar certas espécies de Aedes. O diretor do laboratório, Henrique Penna, apresentou dois trabalhos no V Congresso Internacional de Microbiologia, e publicou um terceiro nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, todos relacionados a

pesquisas histopatológicas. 76

Em 1950, antecipando a chegada da febre amarela ao norte do estado de São Paulo e ao oeste de Minas, o entomologista Hugo W. Laemmert propôs a criação de um laboratório de campo que foi, de fato, montado em agosto de 1951, na cidade de Passos. A doença grassou naquela parte de Minas, durante o verão de 1951-52, e Laemmert pôde realizar os estudos projetados: isolar os vírus de certas espécies de mosquitos silvestres, inocular estes vírus em camundongos para ver se produziam encefalite; capturar mamíferos, especialmente o cebus, para sangrá-los e realizar provas de neutralização em animais susceptíveis. Os resultados parciais dos estudos feitos em Passos foram apresentados em 1953 em relatório de outro posto do Instituto Oswaldo Cruz, em Juiz de

Fora.77

Em janeiro e fevereiro 1952, a dra. Mary B. Waddell realizou também investigações entomológicas em Mirandópolis, São Paulo; e em Três Lagoas e Dourados, no Mato Grosso. A excursão a essas cidades foi motivada pela notícia de que estavam infestadas de mosquitos, e a dra. Waddell buscava evidências de que o Aedes scapularis era um vetor eficiente da febre amarela. "Constatamos logo que chegamos a Três Lagoas que se tratava de um surto típico de febre amarela silvestre, todos os casos tendo sido infectados em zona de mata e nenhum deles na cidade .... Em Mirandópolis, o quadro epidemiológico é de maior interesse pois é uma zona amplamente cultivada, dotada de extensas fazendas cafeeiras, com apenas ilhotas de matas que são verdadeiros refúgios de

mosquitos".78

A técnicos da Seção de Entomologia do Laboratório de Febre Amarela, ao qual Laemmert e Waddel estavam ligados, além de fazerem capturas de mosquitos nas zonas urbanas e silvestres por onde circulava o vírus amarílico, cuidavam da revisão da coleção herdada do Serviço de Estudos e Pesquisas sobre a Febre Amarela, e mantinham no próprio laboratório uma criação de Aedes aegypti Linnaeus e outras espécies suspeitas de transmitir a doença. O relatório de 1951 aludia à "mortandade excessiva" de mosquitos mantidos em gaiolas, atribuindo o fato ao "polimento do assoalho da sala ... com uma cera que contém DDT .... Experiências em curso visam estabelecer uma raça de Aedes aegypti resistente ao

inseticida." 79

Outra seção muito ativa era aquela comandada por Madureira Pará. Em 1950, o Laboratório de Histopatologia examinou nada menos que 612.587 espécimes de viscerotomia, dos quais 11.678 eram amostras de fígado provenientes dos postos de viscerotomia do SNFA, 338 da Bolívia e 51 do Peru. Até de Stanleyville, Congo Belga, vieram amostras para confirmação de diagnóstico de febre amarela. O trabalho do laboratório não se restringia a esta doença, tendo sido firmados laudos relativos a malária, esquistossomose, leishmaniose, histoplasmose, moléstia de Lutz, drepanocitose, atrofia hepática e outras doenças que provocavam lesões no fígado. O movimento do laboratório caiu à metade em 1951, porque a viscerotomia se tornou mais "seletiva" para a febre amarela, por determinação do SNFA, que desativou os postos localizados em áreas extensas consideradas livres da doença (Nordeste, estado do Rio de Janeiro, grande parte de Minas), incrementando, por outro lado, a atuação do serviço na Amazônia, sudeste da Bahia, Triângulo Mineiro, estados do Mato Grosso, Goiás, São Paulo e todo

o Sul do Brasil. 80

O Laboratório de Sorologia, por sua vez, criava e consumia milhares de camundongos nas provas de neutralização com soros humanos e animais, e nas provas de potência da vacina.

Em 1953, Henrique Penna, o diretor do Laboratório de Vacina Antiamarílica, foi designado superintendente do Serviço de Estudos, Pesquisas e Preparação da Vacina contra a Febre Amarela, cargo que subsistiu apenas até novembro de 1955, quando ele se tornou chefe da Seção de Vírus. Em janeiro de 1956, assumiu a chefia da Divisão de Microbiologia e Imunobiologia, e passou a ministrar a disciplina Vírus Filtráveis, no Curso de Bacteriologia, Parasitologia e

Imunologia do Instituto Oswaldo Cruz. 81 A partir de meados dos anos 1950, os relatórios do Laboratório de Vacina Antiamarílica deixaram de mencionar as atividades de pesquisa no Pavilhão Rockefeller. Supomos que tenham sido extintas — como foi o caso

da criação de mosquitos82— ou absorvidas por outras seções e departamentos do IOC. Os relatórios de .Penna passaram a se concentrar exclusivamente nas informações e nos problemas concernentes à vacina contra a febre amarela. O principal problema no final dos anos 1950 era a inadequação do espaço físico.

No começo de 1944, quando o laboratório pertencia ainda à Fundação Rockefeller, tiveram início os estudos sobre o vírus da influenza, em conjunto com o Instituto Oswaldo Cruz. No Pavilhão Rockefeller, em salas contíguas às de preparação da vacina contra a febre amarela, começaram a ser cultivados vírus patogênicos de diferentes espécies. Na realidade, desde o final dos anos 1930, a Fundação Rockefeller vinha investindo no fortalecimento desta área de pesquisa que julgava muito precária em Manguinhos. José de Castro Teixeira foi, na opinião de Herman Schatzmayr, o primeiro virologista profissional daquela geração, treinado nos Estados Unidos com bolsa concedida pela fundação norte-americana, que forneceu, também, boa parte dos equipamentos instalados no laboratório edificado por Henrique Aragão em 1939, o atual Pavilhão Cardoso Fontes. No começo de 1944, porém, Teixeira morreu precocemente de um câncer de fígado fulminante.

Naquele momento, as atividades da Divisão de Vírus estavam direcionadas para o preparo da vacina contra a gripe, com verbas do governo e "a eficiente cooperação ... da Fundação Rockefeller, por intermédio do diretor e técnicos do Laboratório de Febre Amarela". É o que se lê no relatório do diretor do Instituto Oswaldo Cruz, Henrique Aragão (pp. XXI), que menciona, ainda, o apoio da Cooperativa Nacional de Avicultura, já que a preparação da nova vacina envolvia a inoculação do vírus em ovos, segundo técnica parecida com aquela usada na febre amarela. Em fins de 1944, tinham sido preparadas já sessenta mil doses de vacina contra a gripe, que iam ser testadas, com a autorização da Prefeitura do Distrito Federal, em escolas, asilos e batalhões sediados na cidade. Com a morte de Teixeira, o dr. Cássio Miranda assumiu a chefia da Divisão de Vírus, e o dr. José Guilherme Lacôrte, a da seção

responsável pela fabricação da vacina contra a gripe.83

O incremento dos estudos com outros vírus no Pavilhão Rockefeller tornou necessário o remanejamento de diversas salas utilizadas na preparação da vacina contra a febre amarela, de maneira a isolá-la de tão perigosas contaminações. "Seguindo esse plano de isolamento, foram interrompidas todas as pesquisas que vinham sendo feitas sobre atenuação de amostras virulentas por passagem

de ovos". 84 Em novembro de 1953, o dr. Madureira Pará apresentou ao diretor do IOC alternativas para o alojamento do Laboratório de Histopatologia, entre elas o levantamento de um quarto pavimento

no Pavilhão Rockefeller. 85 Logo se começou a falar na construção de novo prédio para a vacina antiamarílica. Sucessivos ofícios de Henrique Penna a Cássio Miranda, tratando do programa de trabalho do laboratório até o final do governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), condicionavam a duplicação da capacidade produtiva, e o desenvolvimento de pesquisas para aumentar a eficiência e diminuir o custo da vacina ao término da construção do pavilhão destinado exclusivamente a ela. Em ofício enviado em 21 de maio de 1959 a Amílcar Viana Martins, diretor do IOC, Penna pedia que fossem aceleradas as obras: a contaminação bacteriana dos ovos utilizados da fabricação da vacina tinha reduzido as reservas de quatro milhões para cerca de um milhão de doses! Penna acreditava que as novas instalações e, especialmente, os recursos mais modernos de refrigeração permitiriam reduzir aqueles

índices absurdamente elevados de contaminação.86

Em janeiro de 1960, a vacina antiamarílica mudou-se finalmente para o Pavilhão Henrique Aragão, onde se encontra até hoje.

No próximo capítulo, conduziremos o leitor para dentro desses laboratórios, para que veja, por assim dizer, com os próprios olhos, como era feita aquela vacina que imunizou tanta gente no Brasil, na América, África; até à Finlândia ela chegava... Os que estão acostumados às imagens a cores das indústrias contemporâneas de produtos biológicos e farmacêuticos, aos aços refulgentes dos equipamentos, à indumentária futurista dos técnicos e à movimentação febril das linhas de produção, vão se surpreender com a feição artesanal do processo que constituía um dos pilares da complexa história da febre amarela no Brasil e no mundo.