Febre amarela: a doença e a vacina
Acordo com o Japão: a vacina contra o sarampo
Em março de 1979, teve início o governo do general João Batista Figueiredo (1979-84), que iria se caracterizar pela combinação de crise econômica crônica, desagregação do regime autoritário e intensificação da abertura política iniciada por Geisel, em cujo governo vieram se adensando os sinais de esgotamento do ciclo de prosperidade que ficara conhecido como "milagre econômico". Em agosto, Delfim Netto substituiu Mario Henrique Simonsen na pasta do Planejamento, ainda prestigiado por ter sido o autor desse "milagre". Porém, a situação havia mudado nos planos interno e externo. As taxas de juros internacionais continuaram subindo, comprometendo a obtenção de novos empréstimos. A experiência de crescimento com controle da inflação durou pouco. A expansão da moeda foi limitada; cortaram-se os investimentos nas empresas estatais, as taxas de juros internos subiram, paralisando os investimentos privados. O retorno de Delfim Netto ao comando da política econômica combinado à elevação dos preços do petróleo e à política recessiva iria transformar os anos 1980 na chamada "década perdida". Foram lançados o III PND e o III Plano Básico de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PBDCT), mas os resultados não se compararam àqueles obtidos durante o governo Geisel. Segundo Boris Fausto (1999, p. 502),
pela primeira vez desde 1947, quando os indicadores do PIB
começaram a ser estabelecidos, o resultado em 1981 foi
negativo, assinalando queda de 3,1%. Nos três anos seguintes,
o PIB teve um declínio médio de 1,6%. Os setores mais
atingidos foram as indústrias de bens de consumo durável,
como por exemplo, os eletrodomésticos, e de bens de capital,
concentradas nas áreas mais urbanizadas do país. O
desemprego nestas áreas tornou-se um problema sério.
Calcula-se que o declínio da renda foi mais grave do que o
ocorrido nos anos seguintes à crise de 1929.
A pasta da Saúde foi chefiada nesse período por Waldir Mendes Arcoverde, ex-presidente do Instituto Nacional da Previdência Social (INPS), em seguida à curta gestão de Mário Augusto de Castro Lima. Médico sanitarista, com passagem pela Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul, Arcoverde anunciou em sua posse que pretendia interiorizar as ações básicas de saúde e ampliar as redes de saneamento básico e o programa nacional de imunizações.
Quando Figueiredo assumiu a presidência da República, Vinícius da Fonseca deixou a Fiocruz. Seu sucessor, Guilardo Martins Alves, vice-presidente de Recursos Humanos, procurou manter e ampliar o programa de reestruturação física e de repovoamento intelectual iniciado em 1975. A recuperação técnica e científica como também a maior organicidade administrativa traduziram-se, nessa gestão, em aumento expressivo do número de entidades nacionais e estrangeiras interessadas em programas conjuntos com a Fiocruz nas áreas de pesquisa, capacitação de recursos humanos e
desenvolvimento tecnológico. 34
Guilardo Alves, que já trabalhara na Organização dos Estados Americanos (OEA), conseguiu ampliar as alianças da Fiocruz entre as agências internacionais e elevou seu orçamento graças à rede de apoios no Congresso Nacional. O Brasil voltou a ser membro da Organização Mundial de Saúde, graças à doação de vinte mil dólares pagos pela Fiocruz (Informativo Fiocruz, ano IV, nº 46, dez. 1981).
Tudo começou em Genebra, numa Assembléia Geral da OMS,
em 1980. Fui convidado, mas quando começou a reunião, pedi
a palavra e o secretário me disse: 'Ah, doutor, não vai ser
possível falar, porque o Brasil hoje não é membro da OMS'. O
país interrompera sua contribuição; cortara as relações com a
OMS. Voltei com a missão de reintroduzi-lo, porque só assim
podíamos ter voz e voto e ajuda para pesquisa. Fui ao ministro
da Saúde, que era o Arcoverde e ... ele disse: 'nós não temos
esse recurso ... vá ao Itamaraty'. Resultado: fiz uns apertos aqui
no orçamento da fundação e consegui os vinte mil dólares. Na
assembléia seguinte, que era anual, já fui disposto a falar
grosso. (Guilardo Alves, entrevista, 29.03.2001).
Começou então a ser negociada a entrada do Brasil no programa Tropical Disease Research da OMS, através de pesquisas realizadas no IOC por Carlos Médicis Morel. Guilardo Alves implantou também o Departamento de Imunologia, orçado em quinhentos mil dólares, integralmente doados pela OMS. Para dirigi-lo, foi convidado Bernardo Castro Galvão, que fazia doutorado em Genebra.
A autonomia na produção da vacina contra o sarampo continuou a ser uma prioridade na administração de Guilardo Martins Alves. A intenção de Bio-Manguinhos era dominar a tecnologia de todo o ciclo de produção. A tentativa de fazê-lo com a ajuda de Mérieux fracassou em virtude, principalmente, de sua resistência em transferir toda a tecnologia. Interessavalhe a venda do concentrado viral para ser liofilizado e envasado em Bio-Manguinhos. A rede de alianças assumiria, então, outro desenho, envolvendo o Ministério das Minas e Energia, o interesse dos japoneses pelos recursos minerais brasileiros e, last but not least, a presença de um nissei, Akira Homma, à frente de Bio-Manguinhos e, em seguida, do Programa de Auto-Suficiência Nacional em Imunobiológicos, no Ministério da Saúde.
Em 1979, enquanto ainda transcorriam as negociações com os franceses, Homma começou a buscar novos parceiros. Escreveu para Shunjo Chiba, um virologista que havia conhecido durante o pós-doutorado em Houston, Texas, em 1969-71, e por intermédio dele chegou a Konosuke Fukai, do Instituto de Pesquisas Microbianas da Universidade de Osaka, o conhecido Biken. Outro professor dessa universidade, Akira Igarashai, especialista em virologia de insetos, estava chegando ao Brasil, e foi incumbido de fazer o reconhecimento do terreno, ver o que era a Fundação Oswaldo Cruz. Seu relatório foi favorável, e então Fukai concordou em vir à frente de uma equipe, para discutir a cooperação técnica
entre as duas instituições. 35 Os entendimentos foram facilitados pela existência de um acordo de cooperação entre Brasil e Japão, celebrado no governo Geisel pelo ministro das Minas e Energia, Shigeaki Ueki, envolvendo a exploração e exportação das imensas jazidas de ferro e outros minérios em Carajás, no norte do Pará. Embora o titular daquela pasta (Cesar Cals, no governo Figueiredo) não tenha estabelecido nenhum contato com a Fiocruz, o Itamaraty ajudou a obter concessões do governo japonês, que beneficiaram Bio-Manguinhos. O acordo com o Japão foi firmado em 1980 e se prolongou até 1984. O governo japonês investiu cerca de cinco milhões de dólares, forneceu os equipamentos e treinou aproximadamente trinta tecnologistas de Bio-Manguinhos. "Foi um convênio de cooperação de pai para filho", explica a dra. Maria da Luz Fernandes Leal, uma dentre estes tecnologistas, atual vice-diretora da unidade. "Eles não venderam a tecnologia. Nós a ganhamos junto com a cepa do vírus vacinal" (entrevista, 04.02.2001, fita 1, lado A). Akira Homma confirma: "Os brasileiros tiveram realmente acesso à tecnologia, etapa por etapa, tudo de ponta. Aliás, nós tivemos aqui equipamentos superiores aos que existiam lá. As instalações deles estavam operando há anos e as nossas eram novas em folha. Eles forneceram equipamentos modernos, linhas automáticas de lavagem, esterilização e envase, equipamento de liofilização de porte industrial" (entrevista, 05.03.2001, fita 1, lado A).
Em 1980, Brasil e Japão assinaram um acordo de cooperação
técnica para a transferência de tecnologia, visando à produção,
pelo Brasil, das vacinas contra o sarampo e a poliomielite.
Cientistas brasileiros estagiaram no Japão, enquanto a
Fundação Oswaldo Cruz recebia a visita de peritos japoneses,
que acompanharam todo o processo de desenvolvimento das
vacinas. Na imagem, grupo de peritos japoneses com membros
da equipe de Bio-Manguinhos em visita ao laboratório de
poliomielite, na seção onde se processavam a formulação e o
envasamento da vacina, no segundo andar do Pavilhão Rocha
Lima. Da esquerda para a direita: Terumasa Otsuka, Shinobu
Abe, Luis Antônio da Cunha, Margareth Rose Martins, Yutaka
Doi, Maria da Luz Fernandes Leal, Akira Homma, Ishikawa,
Hishasiki Okada. Rio de Janeiro, RJ, 1982.
Ccs/Fiocruz
Concluída a primeira fase do acordo, pretendeu-se renová-lo por mais cinco anos, mas isso não foi possível. Bio-Manguinhos conseguiu, internamente, os recursos para completar a instalação do laboratório de vacinas contra o sarampo, no segundo andar do
Pavilhão Rocha Lima.36 "Ainda que tenha sido adaptado, ficou muito bom, mas sempre falamos que era uma solução provisória. Tínhamos de partir para um laboratório definitivo. Esse aqui era só para demonstrar a viabilidade de uma atividade dessa natureza na Fundação Oswaldo Cruz. Mas o laboratório definitivo não saiu ainda" (idem).
O término do acordo com os japoneses parece ter sido determinado por injunções de política e comércio internacional que envolviam o Itamaraty. "Chegou um momento em que o Itamaraty suspendeu tudo. Tinha gente deles aqui, acompanhando isso, e disseram: 'Acabou!' E não tivemos mais vantagens, também, porque o governo japonês cataloga os países segundo seu desenvolvimento econômico, e o Brasil estava entre os países em desenvolvimento intermediário, pré-industrial" (idem).
A primeira etapa da produção da vacina contra o sarampo é a
incubação de ovos SPF (special pathogenic free). Uma
incubadora (na imagem, uma antiga máquina, ainda utilizada)
provê artificialmente a temperatura e umidade requeridas para a
incubação dos ovos, etapa que se estende por 11 dias, ao fim
dos quais os ovos são observados com auxílio de um aparelho
chamado ovoscópio. Os que apresentam boas condições para
a produção da vacina são limpos com solução de álcool a 70%,
assegurando a sua assepsia.
Foto: Wilson Alves de Paula
Bio-Manguinhos/Fiocruz
Abertura dos ovos SPF, utilizando maçarico a acetileno. A partir
daí, a produção da vacina ocorre numa área de proteção
biológica, onde os funcionários usam roupas dotadas de
sistema de filtragem de ar individual de maneira a impedir a contaminação do meio ambiente, de acordo com as orientações
estabelecidas pela Good Manufacturing Practice/GMP. Rio de
Janeiro, RJ, 2000.
Foto: Wilson Alves de Paula
Bio-Manguinhos/Fiocruz
A partir da retirada de embriões dos ovos, o processo de
fabricação álcool a 70%, assegurando a sua assepsia. da vacina
ocorre numa área provida de fluxo laminar, com esterilidade Foto: Wilson Alves de Paula controlada, de maneira a garantir a
não contaminação do produto. Após a retirada dos embriões,
realizam-se a lavagem e a dissecação, eliminando-se a cabeça e
os órgãos internos.
Foto: Wilson Alves de Paula
Bio-Manguinhos/Fiocruz
Posteriormente, trinta embriões são reunidos numa placa de
petri e submetidos a lavagem com solução de PBS. Em
seguida, os trinta embriões são triturados manualmente,
transformando-se numa pasta.
Foto: Wilson Alves de Paula
Bio-Manguinhos/ Fiocruz
Os embriões triturados formam um concentrado de células que
é depositado em garrafas cilíndricas mantidas a 37ºC por um
período de dois dias, ocorrendo a formação de uma
monocamada de células (mono-layer). Inocula-se então o vírus
de sarampo nessa cultura.
Foto: Wilson Alves de Paula
Bio-Manguinhos/Fiocruz
O vírus vacinal de sarampo é introduzido nas garrafas para
reproduzir-se nas células por cinco dias, quando ocorre uma
nova troca de meio, submetendo a cultura de tecidos a mais 48
horas de desenvolvimento viral. Depois que o vírus atacou as
células (efeito citopático/ citopatogênico), faz-se a coleta da
suspensão viral. Durante as três etapas, produção de células,
inoculação e troca de meio, as garrafas são mantidas em
movimento numa espécie de estante rotatória (roller). Ocorrido
o efeito citopático, as garrafas com células e vírus replicado
são congeladas a 45ºC e imediatamente descongeladas em
banho termoestático, para um rompimento da membrana
celular, permitindo a liberação do vírus no meio de cultura.
Foto: Wilson Alves de Paula
Bio-Manguinhos/Fiocruz
O produto final: vacina formulada ou bulk de sarampo.
Foto: Wilson Alves de Paula
Bio-Manguinhos/Fiocruz
Apesar disso, a nacionalização das vacinas contra a meningite e o sarampo foi notícia nos principais jornais do país e reforçou o prestígio da Fiocruz. A unificação das atividades de produção de imunobiológicos numa unidade com independência relativa foi uma inovação e contribuiu para diferenciá-las de outras vertentes institucionais — pesquisa e ensino, sobretudo — que se repovoavam e expandiam por vias próprias (Gadelha, Temporão e Giraffa, 1997, p. 28).
A partir de 1983, os principais produtos de Bio-Manguinhos seriam a vacina contra o sarampo, a antiamarílica e um terceiro imunizante que também foi contemplada pelo acordo com o Japão. A transferência de tecnologia da vacina contra a poliomielite envolveu o Japan Poliomielite Research Institute, em Tóquio. Essa organização semiprivada era o resultado da fusão de três ou quatro laboratórios produtores, que se juntaram para alcançar a escala de produção de vacina contra pólio, oral e inativada, requerida pelo governo japonês.
Um dos 'catalisadores' da transferência desta tecnologia foi Maria da Luz Fernandes Leal. Ao formar-se pela faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, trabalhou com marcadores genéticos para poliovírus no Departamento de Virologia daquela universidade. Logo após ingressar na Fiocruz, em 1981, esteve três meses no Japão estagiando em todas as áreas de produção e controle de qualidade da vacina oral atenuada contra a poliomielite. Ao regressar ao Brasil, a pedido do Ministério da Saúde, organizou o controle de qualidade das vacinas importadas, no Departamento de Virologia da Fiocruz, chefiado por Herman Schatzmayr. Esta rotina logo seria absorvida pelo Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS), de que falaremos adiante.
Bio-Manguinhos passou a produzir a vacina contra a poliomielite a partir do concentrado viral (bulk) importado. A internalização de todo o ciclo produtivo mostrou-se técnica e economicamente inviável na época. A cooperação com os japoneses foi importante para a implantação do controle de qualidade e para capacitar o pessoal que iria assumir a execução do processo a partir da etapa de formulação da vacina. Ainda que parcial, esse esforço de nacionalização contribuiu para o controle da doença no Brasil. Em 1986, apesar das campanhas nacionais de imunização contra a poliomielite e da alta cobertura vacinal alcançada, persistiam os casos de poliomielite de tipo 3 no Nordeste. Verificou-se que a vacina importada apresentava os tipos no limite da potência mínima recomendada internacionalmente, às vezes até um pouco abaixo dele. O Ministério da Saúde solicitou, então, a Bio-Manguinhos uma formulação especial para as imunizações no Nordeste. Fizeram-se experiências com uma vacina com potência normal, outra monovalente para o tipo 3 e a vacina com tipo 3 potencializado, que se revelou a mais eficiente. Os grandes laboratórios internacionais tinham pedido seis meses para fornecer a quantidade de vacinas potencializadas de que o Brasil necessitava. Bio-Manguinhos conseguiu colocá-la em campo em vinte dias. "Nenhum laboratório internacional iria parar sua linha de produção para fabricar o quantitativo de que o Brasil necessitava. Os produtores trabalham na faixa de cem milhões de doses, não iam interromper para uma
coisinha de nada!" 37 A formulação desenvolvida em Bio-Manguinhos foi adotada pela OPAS na América Latina e, recentemente, a OMS passou a recomendá-la a todos os países do mundo.
Expedição de vacinas contra o sarampo, atividade final de uma linha de montagem que tinha início na máquina de rotulagem e
embalagem dos frascos, acondicionamento num berço de
plástico, cobertura do berço com papel alumínio formando um
blister, que era então empacotado em grupos de cinco
unidades em cada caixa. Essa linha de montagem era realizada
no andar térreo do Pavilhão Rocha Lima, até ser transferida
para a Planta Industrial. Rio de Janeiro, RJ, 1994.
Foto: Jorge Carvalho Cruz
Ccs/Fiocruz
Vacina contra sarampo produzida pela Fiocruz.
Coc/Fiocruz
Reportagem sobre a Fundação Oswaldo Cruz e suas várias
frentes de atuação, com ênfase na produção de
imunobiológicos e no esforço para dotar o país de auto-suficiência com relação às vacinas contra o sarampo e a
poliomielite. Abril de 1983.
Foto: Gil Pinheiro "Manguinhos: onde o Brasil vence as bactérias",
Manchete, 02.04.83, p. 29-34.
A produção da vacina é feita a partir de concentrado viral importado da Divisão de Produtos Biológicos da SmithKline Beecham. A doença está erradicada no Brasil, mas o PNI ainda vacina para manter os níveis de imunidade adquiridos. Apesar de não atender integralmente à demanda nacional, a capacidade de formular e controlar a vacina tem se revelado essencial para o país. Os grandes laboratórios internacionais são os principais fornecedores da OMS, que intensificou o programa de erradicação do vírus selvagem da poliomielite e "simplesmente comprou toda a produção de vacina do mundo. Ano passado foi problemático conseguir vacina para tocar as campanhas deste ano" (Maria da Luz Fernandes Leal, entrevista, 04.02.2001, fita 1, lado A). No Brasil, só Bio-Manguinhos produz a vacina contra a poliomielite (tipo Sabin), atendendo a 50% da demanda nacional.
Máquina na qual foi pela primeira vez envasada a vacina contra
a poliomielite, situada, na época, no laboratório do segundo
andar do Pavilhão Rocha Lima. Rio de Janeiro, RJ, 1983.
Foto: Gil Pinheiro
"Manguinhos: onde o Brasil vence as bactérias", Manchete,
02.04.83, pp.29-34.
Exame de cultura de células e de seu desenvolvimento em
frascos, procedimento para o teste de potência da vacina
contra a poliomielite, realizado no quarto andar do Pavilhão
Rocha Lima. Década de 1980.
Ccs/Fiocruz