Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 9 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

Oswaldo Cruz

militar.17

 

Desenho da fêmea do mosquito Aedes aegypti.

Desenho Coc/Fiocruz

 

Oswaldo Cruz

Em 1903, o paulista Francisco de Paula Rodrigues Alves, grande fazendeiro de café, tornou-se o quarto presidente da República brasileira (1903-1906). Como presidente de São Paulo (1900-02), apoiara as medidas adotadas por Ribas e Lutz em prol da teoria de Finlay. Rodrigues Alves assumiu a presidência do Brasil numa conjuntura econômica favorável, o que lhe permitiu converter o saneamento da capital federal em ponto básico de seu programa de governo. O engenheiro Francisco Pereira Passos foi nomeado prefeito do Rio de Janeiro com poderes excepcionais, inclusive o Legislativo municipal suspenso para que pusesse em marcha a reforma urbana inspirada na que Haussmann executara quatro décadas antes em Paris (Benchimol, 1992). O saneamento ficou a cargo de Oswaldo Cruz, que assumiu a direção da Saúde Pública com o compromisso de derrotar a febre amarela, a varíola e a peste bubônica.

Centro do Rio de Janeiro em 1910. Detalhe de uma mapa de

Carlos Aenishänslin representando as inovações urbanas

materializadas na época de Pereira Passos e Oswaldo Cruz:

avenida Central, já rebatizada para avenida Rio Branco, praça

Mauá e o novo cais margeado pela avenida Rodrigues Alves,

avenida Beira-Mar na outra extremidade do trapézio etc. O

mapa destaca muitos dos palácios edificados nas novas

avenidas.

Ferrez, 1982, p. 14.

Francisco Pereira Passos, prefeito do Rio de Janeiro de

dezembro de 1902 a 1906.

Reprodução/Coc/ Fiocruz

Aspecto da avenida Central, atual Rio Branco, recém-

inaugurada.

Rio de Janeiro, RJ, década de 1910.

Reprodução/Coc/Fiocruz

Trecho das demolições para a abertura da avenida Central,

entre as ruas General Câmara e Santa Luzia. Rio de Janeiro, RJ,

cerca de 1904.

Reprodução/Coc/Fiocruz

Vista da rua Primeiro de Março tomada do morro do Castelo,

antes da reforma urbana de 1903-6.

Reprodução/Coc/Fiocruz

Barracão de madeira componente da estalagem existente nos

fundos dos prédios nº 12 a 44 da rua do Senado, Rio de

Janeiro, 27 de março de 1903.

Foto: Augusto Malta

Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

Chamamos a atenção para um aspecto contraditório da relação entre esses personagens que habitualmente são encarados como faces da mesma moeda. Os componentes do plano de remodelação urbana começaram a ser projetados em meados dos anos 1870, senão antes, fundamentando-se na higiene dos miasmas, que tinha como característica a desmedida ambição: cada doença a vencer requeria batalhas num leque muito amplo de frentes, contra as forças da natureza, a topografia das cidades e os mais variados aspectos da vida econômica e social. Parafraseando Latour (1986, 1984), o pasteuriano Oswaldo Cruz, de posse do micróbio ou do hospedeiro específico a cada doença, pôde assinalar as batalhas prioritárias capazes de conduzir as hostes da higiene às vitórias que tanto almejavam.

Pereira Passos e os engenheiros do governo continuavam a usar o velho discurso da higiene para justificar as intervenções no espaço urbano, ao passo que Oswaldo Cruz elegia um número limitado de doenças, focalizava os vetores da febre amarela e peste bubônica e dava ênfase à vacina, que não fugia à imagem de um ponteiro direcionado para o flanco da varíola. Estas setas conferiram nitidez às ações de suas brigadas sanitárias no contexto caótico, tumultuário, do "embelezamento" do Rio de Janeiro. Ao combater a febre amarela em Belém do Pará, em 1909, não precisaria mexer no casco antigo da cidade.

No Rio de Janeiro, sua principal campanha começou com a criação do Serviço de Profilaxia da Febre Amarela, em abril de 1903. A cidade foi repartida em dez distritos. A seção encarregada dos mapas e das estatísticas epidemiológicas fornecia coordenadas às brigadas de mata-mosquitos, que percorriam as ruas neutralizando depósitos de água com larvas do Aedes aegypti. Outra seção expurgava com enxofre e píretro as casas, depois de cobri-las com imensos panos de algodão, para matar o mosquito em sua forma alada. Os doentes mais abastados eram isolados em suas próprias residências e os pobres iam para os hospitais públicos.

Serviço de Profilaxia da Febre Amarela, situado na rua do

Lavradio, em cujo pátio concentravam-se as turmas

encarregadas do expurgo e desinfecção das casas notificadas.

Rio de Janeiro, RJ, entre 1903 e 1906.

Coc/Fiocruz.

Turma do Serviço de Profilaxia de Febre Amarela preparando-se

para introduzir num prédio o gás Clayton, para matar o Aedes

aegypti em sua forma alada. Rio de Janeiro, RJ, entre 1903 e

1906.

Coc/Fiocruz

Preparação das casas para a destruição dos mosquitos por

vapores de enxofre, rotina do Serviço de Profilaxia de Febre

Amarela do Departamento Geral de Saúde Pública durante os

anos de 1903 a 1906, na cidade do Rio de Janeiro.

Torres, 1913.

Reproduções/Coc/Fiocruz

"Recebida a notificação de um caso de febre amarela pelo

Serviço de Profilaxia, partia imediatamente, como num serviço

de incêndio, um carro, que estava sempre pronto, levando uma

turma pertencente à Seção de Isolamento e Expurgo (...); examinado o doente pelo médico, e verificado que ele se

achava nos três ou quatro primeiros dias da moléstia, procedia-

se, ato contínuo à sua proteção contra a picada dos mosquitos

(...). Se o domicílio não se prestava a isso, o doente era transportado para o Hospital de S. Sebastião em carros

protegidos contra os mosquitos (...). Num e noutro caso, a casa

do doente e as casas vizinhas, dentro de um raio de cem

metros, eram tratadas pelos vapores de enxofre; em toda a

zona eram destruídas as larvas de mosquitos que se

encontrassem (...). Os humildes mata-mosquitos trabalhavam

pelo sistema de "arrastão"; iam de casa em casa, mal recebidos

muitas vezes, examinando cuidadosamente todos os depósitos

com água (...), limpando valas e terrenos baldios, subindo nos telhados para inspecionar as calhas, espalhando-se por todas

as ruas e praças dos dez distritos sanitários em que a cidade

fora dividida" (Franco, 1969, pp. 87-8). As seqüências que se

vêem nesta página documentam o expurgo no interior de uma

casa e o nascimento de um Aedes aegypti localizado em um

depósito de água.

Filme Febre Amarela/Cinemateca Brasileira As pessoas vitimadas pela peste e outras doenças contagiosas eram conduzidas, com seus pertences, para um dos desinfectórios da cidade e, em seguida, isoladas. O esforço de desratizar o Rio de Janeiro redundou em milhares de intimações a proprietários de imóveis para que removessem entulhos, suprimissem porões e impermeabilizassem o solo. A compra de ratos pela Saúde Pública gerou ativa indústria de captura e até criação da exótica mercadoria.

Grupo reunido no Hospital São Sebastião em 25 de maio de 1905, por ocasião da visita do diretor-geral da Saúde Pública à

Missão Pasteur, ali baseada. Na primeira fila (sentados), da

esquerda para a direita: drs. Figueiredo de Vasconcelos, Rocha

Lima, Émile Roux, Oswaldo Cruz, Paul Louis Simond, Francisco

Fajardo e Alberto Cunha. Na segunda fila (de pé), dr. Zeferino

Meirelles, engenheiro Luiz de Morais Junior (construtor de

Manguinhos), drs. Ferrari, Aben-Athar, Julio Monteiro, L. de Aquino, Carlos Seidl e os internos Oberlander, O. Ayres e T. Vianna. Na terceira fila, o interno Mario Piragibe, o escrivão

Raul Mendonça, o ajudante Eduardo Aguiar e os farmacêuticos

Martins e Imbús.

Coc/Fiocruz

Vista geral do Desinfectório de Botafogo, inaugurado em 1905

por Oswaldo Cruz, na rua General Severiano. Hoje abriga o

Hospital Rocha Maia.

Torres, 1913.

Pavilhões do Hospital São Sebastião, no Caju, para onde eram

removidas as vítimas das doenças infecciosas, sobretudo os

pobres que não tinham condições de serem isolados em suas

residências. Segundo o paradigma de arquitetura hospitalar da

época, cada pavilhão era destinado ao isolamento de uma

doença, valorizando-se o uso de materiais perecíveis, como a

madeira, e até mesmo o papel machê, que pudessem ser

destruídos em caso de contaminação. Rio de Janeiro, RJ, 1913.

Torres, 1913.

O combate à varíola dependia da vacina. Seu uso já fora declarado obrigatório no século XIX por leis jamais cumpridas. Em junho de 1904, Oswaldo Cruz apresentou ao Congresso projeto de lei reinstaurando a obrigatoriedade da vacinação e revacinação em todo o país, com cláusulas rigorosas que incluíam multas aos refratários e a exigência de atestado para matrículas em escolas, acesso a empregos públicos, casamentos, viagens etc.

Recrudesceu, então, a oposição ao governo, tendo como alvos tanto o "general mata-mosquitos" como o "bota-abaixo". Os debates exaltados no Congresso eram acompanhados por intensa agitação nas ruas, promovida pelo Apostolado Positivista, por oficiais descontentes do Exército, monarquistas e líderes operários, que acabaram se aglutinando na Liga contra a Vacina Obrigatória. A lei foi aprovada em 31 de outubro. Quando os jornais publicaram, em 9 de novembro, o esboço do decreto que ia regulamentar o "Código de Torturas", a Revolta da Vacina paralisou a cidade por mais de uma semana (Sevcenko, 1984; Chalhoub, 1996; Carvalho, 1987).

Cenas da Revolta da Vacina ocorrida no Rio de Janeiro em

novembro de 1904. Em junho,o governo enviou ao Congresso

projeto de lei reinstaurando a obrigatoriedade da vacinação

erevacinação contra a varíola em todo o território da República,

com cláusulas rigorosas. Recrudesceu, então, a oposição ao “general mata-mosquitos”(Oswaldo Cruz) e ao“bota-abaixo”

(Pereira Passos).Os debates no Congresso, fartamente

documentados pela imprensa, foram acompanhados de intensa

agitação extraparlamentar promovida pelo Apostolado

Positivista, oficiais descontentes do Exército,monarquistas e

líderes operários, que se aglutinaram na Liga contra a Vacina

Obrigatória. O motim popular eclodiu em 10 de novembro,

quando vazou na imprensa o texto que regulamentaria a lei. Cinco dias depois, foi deflagrada a insurreição militar,com o

objetivo de depor o presidente Rodrigues Alves. Em 16 de

novembro, o Congresso votou o estado de sítio no Distrito

Federal. À tribuna subiram parlamentares governistas e

oposicionistas para invectivar, com igual menosprezo, os

rebeldes pobres que eram amontoados em navios-prisão e

despachados para o Acre, nos confins da floresta amazônica.

Revista da Semana,

Rio de Janeiro, 27.11.04.