Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 85 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

Notas

1 O decreto-lei nº 77.481, de 23.04.1973, estabeleceu a nova organização da Fiocruz. As atividades e a organização das unidades foram objeto de regulamentações específicas. Segundo Santos (1999, p. 140), a norma regulamentar n.º 2, de 04.05.1976, criou apenas nominalmente diversas unidades, inclusive o Centro Biomédico de Manguinhos e o Centro de Apoio Técnico Biológico de Manguinhos, mas não definiu a sua organização. Isso seria feito através das normas regulamentares: n.º 13, de 27.08.1976, referente ao Instituto Oswaldo Cruz; n.º 16, de 28.09.1976, referente ao Instituto Fernandes Figueiras; n.º 19, de 28.09.1976, referente à Escola Nacional de Saúde Pública etc. As atividades das duas unidades de produção foram estabelecidas pela norma regulamentar n.º 24, de 25.10.1976, para o Laboratório de Tecnologia em Produtos Biológicos de Manguinhos — Biomanguinhos, unidade encarregada de exercer as atividades concernentes a produtos biológicos; e pela norma regulamentar n.º 25, de 25.10.1976, para o Laboratório de Tecnologia em Quimioterápicos de Manguinhos — Far-Manguinhos. Posteriormente, Biomanguinhos passou a ser chamado de Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos.

2 No chamado "Massacre de Manguinhos" foram cassados, por interferência direta do ministro Rocha Lagoa, ex-diretor do Instituto Oswaldo Cruz (196469), os cientistas Augusto Cid de Mello Perissé; Haity Moussatché; Hugo Souza Lopes; Moacyr Vaz de Andrad e; Sebastião José de Oliveira; Fernando Braja Ubatuba; Tito Cavalcanti, Herman Lent, Domingos Arthur Machado Filho; e Masao Goto. Ver a esse respeito Lent (1978) e Hamilton (1989, pp. 7-17).

3 Penna chefiava a Divisão de Microbiologia e Imunologia do Instituto Oswaldo Cruz desde 1956 e, com a aposentadoria de Cassio Miranda, assumiu em 1959 a direção da Divisão de Vírus, à qual estavam subordinados os laboratórios de febre amarela e de varíola. De 1955 a 1959, Vinícius da Fonseca dirigira o Hospital Evandro Chagas. Assumiria depois a chefia da Seção de Produção, e Estácio Monteiro, a da Seção de Vírus da Divisão de Vírus.

4 BRASIL. Ministério da Educação e Saúde. Repartição Sanitária Pan-Americana. Convênio entre o Ministério da Educação e Saúde do Brasil e a Repartição Sanitária Pan-Americana, para cooperação no problema continental da febre amarela. [s.l., s.n. 1950]. Pasta: Correspondência anos 50 AV.3.

5 Documento anexo ao ofício do dr. H. Penna ao dr. Cássio Miranda, em 14 de dezembro de 1953. S.F.A. Of. nº 171. Pasta: Correspondência recebida e enviada - IOC/1950-53 – III.

6 O controle era feito em Copenhague, depois em Toronto. De tempos em tempos, o laboratório recebia a visita de consultores.

Seu desempenho era tão bom que a OPAS fez na Fiocruz um simpósio sobre varíola e vacina antivariólica. "Para mim foi muito honroso", confessa Fonseca da Cunha.

7 A vacina antivariólica do Butantã começara a ser feita havia pouco tempo, sob a direção de um técnico que estagiara no laboratório do IOC, que ofereceu estágios a técnicos de vários estados, até de outros países.

8 A atmosfera de crescente valorização das vacinas como instrumentos eficazes de promoção da saúde se fez sentir nas diretrizes do Plano Decenal de Saúde das Américas, aprovado na III Reunião de Ministros de Saúde do continente, realizada no Chile, em 1972 (OPAS, 1969).

9 A Central de Medicamentos (CEME) foi criada em 1971, com o objetivo de centralizar a distribuição de medicamentos utilizados pelo Ministério da Saúde. Também tinha como propósito dar suporte à produção em laboratórios públicos de medicamentos e vacinas importantes para a política de saúde, mas não atraentes para a indústria privada.

10 O Plano Nacional de Controle da Poliomielite, criado em 1971, executava no Espírito Santo um projeto piloto que incluía estudo da resposta sorológica à vacina e desenvolvimento de metodologia para campanhas estaduais realizadas num só dia (Ministério da Saúde, 1993, p. 2).

11 O Programa Nacional de Imunizações, seguindo recomendação da OMS, pretendia substituir o BCG oral, há longo tempo em uso no país, pelo BCG intradérmico, considerado mais confiável e de maior poder imunizante.

12 A Coordenação Nacional do PNI, nomeada pelo ministro da Saúde, era composta por representantes do ministério, da Central de Medicamentos (CEME), da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e da Fundação Serviços de Saúde Pública (FSESP), que detinha a presidência e a responsabilidade pela operação do programa em âmbito nacional. As coordenações estaduais seriam formadas por representantes das áreas de saúde, assistência social, extensão rural e também educação.

13 A vacina Sabin, produzida a partir de vírus atenuado, foi adotada pela facilidade de sua administração. Ela também é conhecida pela sigla VOP (vacina oral contra poliomielite). Atualmente, países como os Estados Unidos estão dando preferência à vacina Salk, injetável e produzida a partir de vírus inativado, considerada menos propensa a provocar reações adversas.

14 Os percentuais por vacina são os seguintes: sarampo de 23% em 1978 para mais de 85% em 1995; DPT de 12% a 80%; BCG de 31% a 82%; e a de pólio de 24% a 90% (OPAS, 1992, p. 528). Cabe notar que a poliomielite já foi erradicada nas Américas, e que se espera para breve a erradicação do sarampo em diversos países do continente.

15 Memorando nº 286/Bsb, de 08.11.1973 (Arquivo do MS). O projeto previa o acréscimo de cinqüenta centavos no valor da aposta mínima. A renda seria destinada ao Pronan (40%) e a outras atividades de assistência preventiva e curativa (60%). Quanto à mortalidade infantil, "em 1973 morriam no município de São Paulo 94,0 por mil, na Suécia tínhamos 9,9; México: 51,9; Uruguai: 48,6; União Soviética: 26,4 e EUA: 17,6". Os índices das outras capitais brasileiras também eram altos: "Porto Alegre: 54,8; Belo Horizonte: 124,8 e Recife: 229,9" (Costa, "Saúde e trabalho", 1983, p. 33). Em 1970-71, o índice de mortalidade por sarampo no Brasil era estimado em 11,5 por 100 mil habitantes. Nos países avançados, não ia além de 0,1 a 0,5 por 100 mil habitantes. Dados de morbidade subestimados revelavam que a média anual fora de 61.366 casos entre 1976 e 1979, subindo para 79.300 em 1980 (ibidem, p. 32).

16 Separ nº 02/SM-Bad. 07.01.1975. Carta de Paulo de Almeida Machado ao ministro chefe da Seplan, João Paulo dos Reis Velloso. Fundação Oswaldo Cruz. Casa de Oswaldo Cruz/ Departamento de Arquivo e Documentação/ Arquivo Institucional/ Fundo Presidência. Caixa 10, maço 2.

17 Estabelecido pela lei nº 6.151 e aprovado pelo Congresso no segundo semestre de 1974, o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) dava ênfase à diminuição da dependência do país em relação às fontes externas de energia e priorizava o desenvolvimento das indústrias de base. Esses investimentos seriam financiados pelo capital estatal, evitando-se a presença do capital estrangeiro nas áreas de infra-estrutura, mas atraindo-o para os demais setores.

18 "Meningite: o balanço de 74 — apenas os números oficiais", O Globo, p. 7, 30.12.1974. Segundo a Secretaria de Saúde, em 1971 tinham ocorrido no Rio de Janeiro 607 casos de meningite (todas as formas), numa média de 50,58 casos mensais. No ano seguinte, o total foi de 552, com uma média de 46 casos mensais. Em 1973, a média se manteve em 47,3 casos, com um total de 568 doentes. "Meningite no Rio ameaça outra vez", Jornal do Brasil, 12.10 1975.

19 Conforme observou Mérieux (1988, p. 161): "O contágio é diabólico, a doença mata de modo terrível. Assim, em São Paulo, um jornalista queixou-se de dor de cabeça, dor de dentes. Recolheu-se ao leito e pouco depois estava morto. Durante toda a sua vida de especialista, Lapeyssonnie nunca vira nada parecido. Os hospitais transbordavam, a doença toma formas horríveis: hemorragias fulminantes, ou ainda necroses; alguns doentes perdem os dedos, o pênis! Desde as pestes medievais, nunca se vira espetáculo igual".

20 Em outro trecho da entrevista, Fonseca retifica: "Não, eu não sei se ganharam muito dinheiro, porque afinal a vacina não foi tão cara assim: oitenta milhões de doses a um franco a dose; como o dólar estava a cinco francos, divide oitenta por cinco, dá quarenta milhões de dólares Aliás, menos, vinte milhões de dólares" [se fizermos o cálculo, são 16 milhões]. (Vinícius da Fonseca, entrevista, 04.10.1995, fita 10). Por causa da repercussão que teve o volume do negócio, o neto de Mérieux foi seqüestrado. Teria sido "o primeiro seqüestro da França. Pagou, parece, quatro milhões de dólares" (Vinícius da Fonseca, entrevista, 03.10.1995, fita 8).

21 Em janeiro de 1975, os jornais estimavam que cerca de 80% da população do estado do Rio de Janeiro fora vacinada contra a doença. O número de casos de meningite recuou entre fevereiro e julho, mas depois voltou a crescer, chegando a 116 no mês de setembro. Em outros estados a doença voltou a fazer vítimas também. Até abril de 1975, São Paulo registrou 599 mortes; Minas Gerais, 154; Bahia, 87, e Pernambuco, 17. Ver "Meningite em seis estados matou 897 pessoas em 1975", Jornal do Brasil, 13.04.1975.

22 Nascido na Paraíba em 1923, formado em Ciências Sociais e Jurídicas, Vínícius da Fonseca desenvolveu atividades de pesquisa populacional e censitária, foi assessor do governo do estado da Paraíba e desde 1970, assessor especial do ministro Reis Velloso. Foi designado presidente da Fundação Oswaldo Cruz através por decreto de 22.07.1975 (Santos, 1999).

23 Segundo o próprio Vinicius da Fonseca (entrevista, 03.10.1995, fita 7): "Só em abril de 76 ... tive condições de apresentar ao ministro um projeto de decreto com o novo estatuto". O projeto, de cunho centralizador, foi aprovado pela Casa Civil da Presidência da República em agosto de 1975, devolvido à Seplan e promulgado pelo decreto decreto n.º 77481.

24 No Ofício nº 518/78 — PR/Fiocruz, de 28.11.1978, ao ministro Almeida Machado, Vinícius da Fonseca informava que a proposta já constara de despacho de Geisel referente à aquisição de vacinas para o controle da epidemia de meningite em 1974. Ver a esse respeito Santos (1999, pp. 120-1).

25 Documento: "L'Institut Pasteur et l'industrie". Lettre de L'Association pour le Développement de L'Institut Pasteur, nº 20, jun. 1986, pp. 1-32, apud Santos (1999, p. 166-7). Dificuldades dessas negociações são relatadas por Charles Mérieux na correspondência com Fonseca.

26 Para obter placentas e produzir as gamaglobulinas (fração protéica do sangue, rica em anticorpos, para ser empregada em medicina após purificação), o Instituto Mérieux estava ligado a mais de mil maternidades por uma cadeia de frio que garantia a chegada em bom estado dessas placentas em Marcy-l'Étoile. Em câmaras frias (-5ºC), 25 centrifugadoras fracionavam, mensalmente, pelo álcool, sessenta toneladas de sangue placentário, o que permitia produzir, por ano, dois milhões de ampolas de gamaglobulina. O centro experimental para a criação de animais fornecia aos laboratórios, anualmente, para pesquisa e fabricação de soros: 3 mil bovinos, 1.800 macacos, 200 mil ratos e camundongos, 50 mil cobaias, 10 mil coelhos, 7 mil furões, 6 mil pintos, 250 mil ovos, 1.200 frangos e galinhas e 800 "miniporcos" (Mérieux, 1988, pp.148-9).

27 Uma equipe francesa esteve em Manguinhos por vários meses — o chefe de produção, seis ou oito técnicos — para instalar a unidade piloto e adestrar os brasileiros recém-contratados. "O chefe de produção do Mérieux ganhava oito mil dólares por mês. Um técnico médio ganhava em torno de três mil dólares, 15 mil francos. A Fiocruz não tinha condições de pagar salários deste nível" (Vinícius da Fonseca, entrevista, 04.10.1995, fita 10).

28 FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Resolução da Presidência n.º 68-77 de 06.10.1977.

29 "Relatório da visita de V. da F. à Europa realizada entre 03.02.1977 e 09.03.1977"; "Groupe d"Action Cruz — Mérieux — Pasteur pour la Production de Vaccins au Brésil", apud Santos (1999, p. 156).

30 "Exposição de motivos". Seplan nº 162, de 24.05.1998, para a Presidência da República, com despacho de aprovação sobrescrito (Santos, 1999, p. 163). Em julho de 1978, Fonseca informou ao ministro Almeida Machado que havia conseguido redução de preço, por se tratar de um contrato de dois anos envolvendo dez milhões de doses, o que garantiria as necessidades brasileiras para 1979 e 1980. O preço caíra de 1 FF para 0,76 por dose, efetuando-se o pagamento em cruzeiros. Para Vinícius, a operação representava "a primeira etapa do programa de plena autonomia brasileira na produção dessa vacina, podendo a Fiocruz assumir tal encargo a partir da segunda metade do exercício de 1979, com a cepa e tecnologia adquiridas do próprio Instituto Mérieux, ou de outra fonte". Ofício nº 397/78 — PR/Fiocruz de 10.07.1978 de Vinícius da Fonseca para Ministério da Saúde.

31 Fundação Oswaldo Cruz. Implantação de uma Unidade Industrial de Vacinas e Reativos para Diagnóstico (BIO-MANGUINHOS): documento preliminar. Rio de Janeiro., nov. 1978, anexo ao Ofício nº 548/78 — PR de 28.11.1978, de Vinícius da Fonseca ao Ministério da Saúde. Ver também Santos (1999, p.165).

32 Carta de Ch. Mérieux a Vinícius da Fonseca, em 15.12.1975 com cópia da nota: "Pour réaliser l'Unité de la Biologie Brésilienne: vaccins, sérums, gamma-globuline", mesma data, apud Santos (1999, p.147).

33 O apoio financeiro veio da Secretaria de Cooperação Econômica e Técnica Internacional da Seplan. O projeto executado pela Brasvacin seria coordenado pelo Ministério da Saúde com colaboração técnica da Fiocruz. Termo aditivo nº1 ao Convênio 032/78, firmado em 11.07.1978 entre SUBIN e SG/MS, referese à rescisão do convênio. Através do decreto nº 15.479, de 07.08.1980, o governo de São Paulo desativou o Brasvacin. Fundo Presidência, caixa 171, maço 2.

34 Guilardo Martins Alves destacaria "entre os parceiros da Fiocruz a Universidade de Osaka (Japão), Universidade da Flórida e da Califórnia (Estados Unidos da América), Organização Mundial de Saúde e Organização Pan-Americana de Saúde, Instituto Mérieux (França), Instituto Bernard Nocht (Hamburgo, Alemanha), universidades federais, Secretarias de Saúde dos estados, Diretorias de Saúde dos Ministérios militares, Secretaria de Tecnologia do Ministério da Indústria e do Comércio, Instituto Nacional de Assistência Médica e Previdência Social, Conselho Nacional de Pesquisas, Secretaria de Planejamento da Presidência da República, Finep e outros órgãos e instituições do Brasil." Nota ao Senhor Ministro da Saúde de 24.03.1981. Fundo Presidência, caixa 98, maço 03.

35 Knosuke Fukai, do Instituto de Pesquisas Microbianas (Biken) da Universidade de Osaka; Yoshiomi Okuno, também da Universidade de Osaka, Heihachito, diretor geral do Instituto de Pesquisa em Poliomielite do Japão e Elichi Shirashi, da JICA. Informativo Fiocruz, Rio de Janeiro, ano IV, nº 51, nov. 1982. "O papel do líder da negociação do lado japonês, o professor Fukai, foi absolutamente importante" (Akira Homma, entrevista, 05.03.2001, fita 1, lado A).

36 Além dos recursos próprios da ordem de cinqüenta milhões de cruzeiros, a produção de vacina contra sarampo recebeu recursos através do FIPEC/BB e da Finep, num total de Cr$ 335.791.000. Fazia parte do Pró-Imuno. Informativo Fiocruz , Rio de Janeiro, ano V, nº 53, jul./ago. 1982.

37 Segundo Maria da Luz F. Leal (entrevista, 04.02.2001, fita 1, lado A), o estudo de Biomanguinhos para a vacina vírus 3 potencializado deu origem à nova formulação para a vacina contra poliomielite, adotada pela OMS como padrão para países tropicais. A etiologia da poliomielite foi esclarecida por Landsteiner e Popper, em 1909. Em 1931 levantou-se a suspeita de que a doença poderia ser causada por mais de um tipo de vírus. Em 1949, descobriu-se finalmente, a existência de três tipos de poliovírus: o tipo 1 (ou Brunhilde), o tipo 2 (ou Lansing) e o tipo 3 (ou Leon). Na infecção natural, o vírus "selvagem" penetra no organismo por via digestiva, multiplicando-se na orofaringe e no intestino. Ao ser eliminado pelas vias aéreas e fezes, propicia o contágio. Ao passar para o sangue, desencadeia uma viremia. Pode atingir o sistema nervoso central, penetrar nos neurônios motores e produzir lesões de vários graus, que causam paralisias. Estas não são obrigatórias na evolução da doença. Existem as formas de poliomielite paralíticas e não paralíticas. Ambas conferem imunidade duradoura (Amato Neto et al., 1968, pp.33-5).

38 A Comissão Interministerial foi instituída pela portaria MS/MPAS nº 1 de 09.05. 1979 (Diário Oficial da União, 15.05). Participaram dela os drs. José Carlos Seixas, secretário nacional de Ações Básicas de Saúde; Akira Homma, da Fundação Oswaldo Cruz; Celso Mário de Araújo Pugliese, diretor da Divisão Nacional de Epidemiologia, Estatística e Informação, da Fundação Serviços de Saúde Pública; Mário Moraes, secretário de Ciência e Tecnologia; João Baptista Risi Junior; Orlando Ribeiro Gonçalves; Antônio Monteiro e Milton Luiz Braga.

39 Segundo Ciro Quadros, a idéia de realizar a vacinação contra a poliomielite num único dia foi defendida originalmente por Albert Sabin, que não encontrou condições políticas para executar o plano nos Estados Unidos. O primeiro país a realizar campanha naqueles moldes foi Cuba, também o primeiro a erradicar a poliomielite, já no começo da década de 1960 (Quadros, entrevista, 2001).

40 Houve 42 casos em 1984; 329 em 1985; 612 em 1986; 196 em 1987; 106 em 1988 e 35 em 1989 (Ministério da Saúde, 1986, pp. 2-3).

41 Faziam parte da comissão presidida por Taylor: Hésio Cordeiro, na época reitor da UFRJ, Felicity Cutts, da Escola de Higiene e Saúde Püblica de Londres, Dean Jaminson, da Universidade da California, Efraín Otero, da Fundação Santa Fé de Bogotá, Julia Walsh, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard. O grupo de pesquisa era formado por diversas equipes nacionais, sendo a brasileira composta por Fernando Laender (coord.), Márcio Pantaleão Ghiu, Eduardo Maranhão, Cibeli Verani e Maria Lina Leão Teixeira.

42 O decreto-lei nº 6.360, de 23.09.1976, regulamentou a vigilância sanitária no que dizia respeito ao controle e registro de drogas, medicamentos e outros produtos farmacêuticos e biológicos. O Laboratório Central de Controle de Drogas e Medicamentos foi instituído pela lei nº 2.187, de 16.02.1954, incorporando em seguida o controle de alimentos. O LCCDMA foi transferido para a Fiocruz pelo decreto nº 82.801, de 30.08.1978, recomeçando as suas atividades em 1979.

43 Em 1984, contava 150 funcionários, sendo 6% alocados em funções administrativas e 94% em atividades técnicas (15% com mestrado e 7% com doutorado). No âmbito do Acordo Brasil — Alemanha, foi estabelecida a cooperação entre o Ministério da Cooperação Técnica da Alemanha Ocidental e a Fiocruz para a implantação do Sistema de Controle de Qualidade de Drogas, Medicamentos e Alimentos. Nota ao Senhor Ministro da Saúde de 24.03.1981. Fundo Presidência, caixa 98, maço 03.

44 Os exames foram realizados pelos laboratórios do Instituto de Saúde Pública do Chile e do Food and Drug Administration/FDA dos EUA, a pedido do Ministério da Saúde, que também constatou falhas no processo de produção da empresa.

45 Em outubro de 1980, técnicos da CEME, de oito laboratórios produtores e do Ministério da Saúde planejaram o Pró-Imuno, a ser implementado através da CEME e da Fiocruz. (Jornal de Brasília, 30.10.1980). Segundo memorando nº 011/SBM/81 (Fundo Presidência, caixa 98, maço 3) do superintendente em exercício de Bio-Manguinhos, Eduardo Walter Leser, ao presidente da Fiocruz, Guilardo Martins Alves, em 16.01.1981, a Finep havia liberado verba para o Pró-Imuno. Na época, Bio-Manguinhos buscava o apoio da Interbras (Petrobras) para obter preços mais competitivos no mercado externo. Com os recursos do Projeto Pró-Imuno seria instalada, no segundo andar do Pavilhão Rocha Lima, a unidade piloto para produção de vacina contra o sarampo; no térreo do Pavilhão Rockefeller, ampliação do setor de envasamento e liofilização; no Pavilhão Henrique Aragão, modernização do laboratório de produção de vacina contra febre amarela.

46 "O dr. Otávio Oliva informou que do ponto de vista operacional o laboratório de febre amarela não deveria ficar na DPII e sim na DPIII..... O dr. Fonseca enfatizou que o Laboratório de Febre Amarela já encontra-se tão bem estruturado que não causaria problemas à DPII" (Ata da11ª reunião dos coordenadores e chefes de laboratórios e setores de 1986, em 16.10.1986).

47 Em 1987, enquanto transcorriam, nacionalmente, as discussões sobre a redemocratização do país, a Superintendência de Planejamento apresentou documento para discussão intitulado "Bases e diretrizes para a formulação de um projeto institucional para a Fiocruz" (SUPLAN/Presidência Fiocruz, nov. 1987). Depoimentos por nós recolhidos indicam que, nas décadas de 1980 e 1990, por diversas vezes foram preparados diagnósticos da situação da Fiocruz tendo em mira mudanças nos rumos da instituição. As dificuldades de integração entre as unidades e a falta de definição de prioridades para a organização como um todo dificultam a implementação de mudanças. As parcerias entre unidades, como, por exemplo, Bio-Manguinhos e IOC, são o resultado mais do esforço individual de pesquisadores do que de uma política institucional.

48 O Conselho Técnico Administrativo foi instituído em 25.08.1987, durante a gestão de Akira Homma, para ser o órgão de assessoramento do diretor de Bio-Manguinhos e tratar de "todos os assuntos ligados direta ou indiretamente à unidade, em especial aos que envolvem atividades de tecnologia, produção e desenvolvimento de imunobiológicos e reativos para diagnóstico" (Resolução n.º 31/DBM/87 de 25.08.1987, Regulamentação interna do Conselho Técnico-Administrativo do Instituto de Tecnlogia em Imunobiológicos de Manguinhos —Bio-Manguinhos, artigo 1).

49 "Nosso futuro, vocação e ideal". Carta à comunidade de Bio-Manguinhos. Correspondência recebida. Bio-Manguinhos, DEPRO II/LAFA, s.d., p. 1.

50 A unidade tinha problemas nas áreas de administração; aquisições; instalações prediais; equipamentos e recursos humanos. "Consolidado sobre a situação de degradação ambiental e operacional de Bio-Manguinhos, como percebida pelos funcionários". Correspondência recebida. Bio-Manguinhos, DEPRO II/LAFA, s.d., p. 2.

51 O novo formato institucional deveria garantir àquelas unidades: "adequação de sua estrutura organizacional e agilidade decisória compatível com suas atividades; total autonomia administrativa e financeira com relação à Fiocruz; possibilidade de estabelecer e manter salários adequados ao mercado; possibilidade de contratação de pessoal no regime CLT; aquisição de materiais de consumo, serviços e equipamentos com a agilidade e qualidade indispensáveis à atividade produtiva" "Propostas de Bio-Manguinhos para o II Congresso Interno". Correspondência recebida. Bio-Manguinhos, DEPRO II/ LAFA, s.d. p. 1.

52 "An initiative to strengthen vaccine production and control:1995", apud Gadelha et al., 1997. Em vista dos diagnósticos apresentados e das discussões havidas em Bio-Manguinhos e na Fiocruz, fez-se uma tentativa de obter recursos do BNDES, em 1996, para que a unidade pudesse reerguer-se e concluir as obras da nova planta industrial. O banco pediu um estudo sobre a situação da unidade, que foi realizado por Gadelha e Temporão (1999). Os autores analisaram a situação não apenas de Bio-Manguinhos, como de toda a produção nacional e do Programa de Auto-Suficiência em Imunobiológicos. O projeto apresentado em 08.07.1998 por Marcos de Oliveira, novo diretor de Bio-Manguinhos, acabou sendo recusado pelo BNDE, três meses depois, sob a alegação de que o banco não tinha familiaridade com a área.

53 Segundo o artigo 7 da seção II, seu diretor é um "profissional de notória e reconhecida capacidade técnica e de gestão" que não precisa pertencer aos quadros da instituição. Sua designação e demissão são propostas pelo Conselho Superior de Administração de Biomanguinhos ao presidente da Fiocruz, que ouve o Conselho Deliberativo. O diretor não tem mandato fixo, ficando sua permanência no cargo condicionada aos resultados obtidos no tocante às metas estabelecidas no Termo Anual de Compromisso de Gestão, firmado entre Bio-Manguinhos e a fundação. (Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos de Manguinhos/Bio-Manguinhos. Regimento interno, 06.01.1998, p. 6).

54 Ofício nº 6/VFA, 01.04.1976. COC/Fundo Presidência, caixa 19, maço 3; "Conferência discute o impacto de doenças virais no desenvolvimento", Informativo Fiocruz, ano IV, nº 44, out. 1981.

55 Antunes, P. C. A.; Severo, O. Pinto e Veríssimo, S. "Report of the Commission for the Evaluation of the Aedes aegypti Program in the United States". Washington, D. C., Pan American Health Organization. (mimeografado). Apud Soper, 1977, p. 352. John Duffy (pp. xiii-xiv), o editor das memórias de Soper, não partilha de sua indignação e justifica: "A tradição anglo-saxã de sacralizar o lar, a propriedade privada e os direitos individuais se coaduna mal com a concessão de autoridade total à saúde pública ou a qualquer funcionário do governo. Além disso, tal programa teria sido muito caro e certamente teria provocado a indignação dos ecologistas e outros grupos de pressão".

56 O cultivo de plantas como as jibóias também se tornou elemento importante de difusão do mosquito nas cidades. A Divisão Nacional de Controle da Febre Amarela da SUCAM, chefiada por Antônio Carlos Rodopiano aplicava dentro das casas o inseticida Abaeté, e nos espaços externos, o Smithion. Detalhes sobre Aedes aegypti em Santos em O Estado de S. Paulo, 29.02.80; A Folha de S. Paulo, 04.03.80 e O Estado de S. Paulo, 24.04.81.

57 O Estado de S. Paulo (22.12.81) e O Globo (13.07.82). Segundo o ministro da Saúde, as medidas de combate ao mosquito estavam sofrendo uma revisão crítica, tendo sido destinados Cr$ 2,5 bilhões para custear a nova fase da campanha (Folha de S. Paulo, 24.12.82). A Tribuna da Imprensa (24.04.82) atribuía a organização do programa de vigilância em áreas não infestadas ao diretor regional da SUCAM no estado do Rio, Pelágio Parigô de Souza, que priorizava o ataque às larvas e não aos mosquitos adultos. O jornal criticava o fato de a fiscalização se restringir aos portos e aeroportos, desprezando as rodovias.

58 Jornal de Brasília (13.02.81). Segundo o diretor regional da SUCAM, Pelágio Parigot, o único posto existente no Rio de Janeiro, localizado na Inspetoria de Saúde dos Portos, na praça Quinze atendia cerca de cinqüenta pessoas por dia: 1.479 em novembro, 1.827 em dezembro e 1.417 em janeiro (O Globo, 02.02.81).

59 Cerca de dois milhões de doses de vacina iam ser aplicadas imediatamente nas áreas vulneráveis (O Globo, 26.02.82). Cinco mil pessoas tinham procurado espontaneamente a delegacia da SUCAM em Mato Grosso do Sul para serem vacinadas (O Globo, 28.02.82). Desde o início do ano, 46.179 pessoas tinham sido imunizadas, sem contar a vacinação na região crítica de Nioaque (idem).

60 Fiocruz/C. Social, matéria sem identificação, 17.07.82, Clippings, v. VI, p.1048.

61 Na mesma época, o senador Gabriel Hermes Filho (PDS-PA) comunicou o aparecimento de cinco casos de febre amarela num trecho da ferrovia em contrução entre as minas de Carajás e o porto de Itaqui, no litoral maranhense (A Província do Pará, 29.07.82). Segundo o deputado Alziro Gomes (PDS), a população do Bico do Papagaio e do extremo norte de Goiás também estava sendo atacada (Fiocruz/C. Social, Clippings ,v. V, p.958).

62 Outro estudo feito em 1970 chegara às mesmas conclusões. Ambos foram patrocinados pelo Bureau Sanitário Pan-Americano e custeados pelo governo norte-americano, que os engavetou. Robert R. Nathan Associates, Inc. Cost-Benefit aspects of preventing Aedes aegypti-borne diseases in the Western Hemisphere. A study for the Pan American Health Organization. Washington, D.C., 1970. Arthur D. Little, Inc. The prevention of diseases transmitted by Aedes aegypti in the Americas: A cost-benefit study. Report prepared for the Pan American Health Organization, Cambridge, 1972; Pan American Organization. Proceeedings. 68th Meeting of the Executuive Committee. Washington, D. C., 1972, p. 30 (Official Document). Os dois estudos são citados por Soper (1977, p. 356).

63 Primeira Reunião da Comissão Técnica Assessora sobre o Programa de Febre Amarela no Brasil, realizada nos dias 28 e 29 de fevereiro de 1980, 5 p. COC/Fundo Presidência.

64 Em reunião feita em Washington, em 1981, para debater a modernização da vacina, apresentaram-se evidências prelimanares de que o macaco Cynomolgus era ligeiramente menos sensível que o rhesus ao teste de neurotropismo, diferença não significativa estatisticamente. Para os testes de viremia e produção de anticorpos, o desempenho era similar. Sugeriu-se que outras espécies do Novo Mundo ainda não estudadas o fossem (PAHO, WHO, 1981, p. 6).

65 O complexo das leucoses aviárias compreende diversos tipos de paralisias que afetam o organismo das aves. Presentes sobretudo nas galinhas, manifestam variados sintomas e lesões, podendo atingir quase todos os tecidos e as várias partes do corpo dos animais. Em 1908, Ellerman e Bang descobriram que a leucose aviária era causada por um vírus filtrável e incluíram a doença no grupo das viroses oncogênicas. Em 1937, Johnson descreveu o transmissor, o Dermanyssus gallinae. No mesmo ano, Durant e Mac Dougle provaram que a doença era transmitida pelo ovo de aves enfermas, tese confirmada por Lee e Wilcke em 1941. Guidow e outros (1940), seguindo uma pista aberta por Blakewon em 1939, afirmaram a possibilidade de transmissão também por contágio, sustentando que a linfomatose era geralmente contraída pelos pintos antes de completarem 12 semanas de vida. Mais tarde, Johnson sugeriu que as vacinações poderiam propagar o vírus. Enciclopédia de conhecimentos práticos. 1956, v. 1, pp. 586-98.

66 As referências citadas por Monath são: Harris, R.J. C; Dougherty, R. M.; Biggs, P. M. et al. "Contaminant viruses in two live virus vaccines", Journal of Hygiene, Cambridge, 1966, nº 64, pp. 1-7. Rubin, H; Fanshier, L; Cornelius, A.; Hilaghes, W. F. "Tolerance and immunity in chicken after congenital and contact infection with an avian leukosis virus", Virology, 1962, nº 17, pp. 143-56. Piraino, F; Krumbiegel, E. R.; Wisniewski, H. J. "Serologic survey of man for avian leukosis virus infection", Journal of Immunology, 1967, nº 98, pp. 702-6. Rickman, A. V.; Alusio, C. G.; Jahnes, W. G.; Tauraso, N. M. "Avian leukosis antibody response in individuals fiven chicken embryo derived vaccines", Proceedings of the Society for Experimental Biology and Mededicine, 1972, nº 139, pp. 235-7. Melnick, J. L. "Latent virus infections in donor tissues and in recipients of vaccines", Natl Cancer Inst Mongr, 1968, nº 29, pp. 337-49. Draper, C. C. "A yellow fever vaccine free from avian leukosis viruses", Journal of Hygiene, Cambridge, 1967, nº 65, pp. 505-13. Taurase, N. M.; Spector, S. L.; Jahnes, W. G., Shelokov, A. "Yellow fever vaccine: I. Development of a vaccine seed free from contaminanting avian leukosis viruses", Proceedings of the Society of Experimental Biology and Medicine, 1968, nº 127, pp. 116-20.

67 O Instituto Pasteur de Dacar também conseguira limpar suas sementes do vírus da leucose aviária. O Laboratório de Febre Amarela de Bio-Manguinhos chegou a produzir lotes a partir da semente cedida pela OMS, mas não os utilizou para a produção de vacinas em ovos embrionados. No Simpósio de Belém, em 1980, deliberou-se que, embora fosse desejável a vacina livre de leucose aviária, o custo disso seria muito elevado. Não havia evidências de que os milhões de doses aplicadas no passado, presumivelmente infectadas com o vírus da leucose aviária, houvessem causado efeitos indesejáveis. Os especialistas presentes ao encontro realizado em Wasghington, em 1981, reconheceram que não era viável livrar todas as vacinas da leucose aviária. Trabalho de T. D. Waters et al., "Yellow fever vaccination, avian leukosis virus and cancer risk in man"(Science, 1972, nº 177, pp. 76-7), reforçara a convicção de que o vírus não era cancerígeno para o homem. "As sementes atualmente em uso continuarão a ser usadas" (PAHO, WHO, 1981, p. 6).

68 Ofício nº 6/VFA, de 01.04 1976. Fundo Presidência, caixa 19, maço 3.

69 Dr. Digoutte. Relatórios em 03.04.1981 e 24.08.1981. Fundo Presidência, caixa 9, maço 3; caixa 111, maço 8.

70 Ofício nº 201/82-PR, de 11.05.1982, de Guilardo Alves para o secretário geral do Ministério da Saúde, dr. Mozart de Abreu e Lima. COC/Fundo Presidência, caixa 145, maço 2.

71 Convênio "Desenvolvimento de Tecnologias em Imunobiológicos: Desenvolvimento Tecnológico das Vacinas Contra Poliomielite e Febre Amarela". COC/Fundo Presidência, caixa 167, maço1.

72 Em 1982, o ministro Waldir Arcoverde obteve do Conselho de Desenvolvimento Social Cr$ 3,5 bilhões de cruzeiros para sete frentes que considerava prioritárias. Desse total, 1,7 milhão de cruzeiros destinavam-se aos programas de febre amarela, malária e doença de Chagas. Cerca de 350 milhões de cruzeiros chegaram à Fiocruz para custear a reforma das instalações de algumas unidades, principalmente a Escola Nacional de Saúde Pública e o laboratório produtor da vacina antiamarílica.(Fiocruz/C. Social, Jornal da Caixa, 1982, Clippings, v. 7, p. 1401). Segundo O Diário Popular (São Paulo, 28.06.1982) e a Gazeta de Notícias (Rio de Janeiro, 29.06.1982), a verba destinada ao Ministério da Saúde teria sido de quatro bilhões de cruzeiros; a Fiocruz teria recebido 320 ou 355 milhões de cruzeiros.

73 Vinícius da Fonseca diz que passaram o ano de 1977 com a fabricação da vacina suspensa: "... fizemos um estoque grande. ... Chamei o Fonseca [da Cunha] e todo mundo para fazer uma revisão naquele negócio, aplicar nova tecnologia de ovos embrionados. E aí era um tal de procurar gente que produzisse esse ovo absurdamente caro. Cada ovo custava um dólar, era o preço de quatro vacinas de meningite, de quatro não, de cinco. A vacina comprada na França custava a quinta parte de um ovo!" (4a entrevista, 03.10.1995). Em fins de 1981, o LAFA já recebia 1.800 ovos S.P.F. por semana, trazidos de Sorocaba por via aérea (Informativo Fiocruz , ano IV, nº 44, out. 1981).

74 Burrus, H. W.; Hargett, M. V. "Yellow fever vaccine inactivation studies", Public Health Report, 1947, nº 62, pp. 940-56. Robin, Y.; Saenz, A. C.; Outschoorn, A. S. et al. "Étude de la thermostabilité du vaccin anti-amaril sur des échantillons de huit lots provenant de divers pays", Bulletin of the World Health Organization, 1971, n º 44, pp. 729-37. Apud Monath (1996, pp. 182).

75 Em artigo publicado nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, em 1989, quando o problema já tinha sido corrigido, Ricardo V. Gshak e Hauer Collin, da London School of Tropical Medicine, fizeram severas críticas à vacina de Manguinhos.

76 World Health Organization, Weekly Epidemiological Record, 1987, v. 62, nº 25, pp. 181-8).

77 Titulações em cultura de células foram realizadas após armazenagem da vacina a 37ºC, em datas sucessivas, até se completarem 32 dias. O grupo recomendou a adoção de uma preparação de referência internacional para ser usada na determinação da potência das vacinas. No ano seguinte, a OMS publicou norma estabelecendo que cada lote de vacina fosse testado para verificar se atendia a esse padrão de estabilidade (World Health Organization. "Requirements for yellow fever vaccine, Addendum 1987". World Health Technical Reports Series nº 771, Anexo 9, 1988; pp. 208-9). Segundo documento contemporâneo da OPAS/OMS (fevereiro de 1984, p. 5), existiam ainda dificuldades para determinar a potência de algumas vacinas usando-se cultura de tecidos. As normas da OMS exigiam que a dose humana contivesse pelo menos 1.000 LD ou título equivalente em PFU. Verificou-se, porém, quecom algumas vacinas 50 "a relação entre PFU/ LD é bastante variável, variando de 1 para 100 com lotes de vacina consecutivos 50 preparados a partir da mesma semente secundária" Assinalava-se a necessidade de se investigar se a potência da vacina estava "ligada ao componente neurotrópico para os camundongos ou à sua infecciosidade, como é determinada pela titulação em cultura de células".

78 Em entrevista concedida logo em seguida ao Simpósio Internacional sobre Febre Amarela e Dengue realizado na Fiocruz em 1988, Fonseca da Cunha (entrevista em 1988, fita 7) declarou que "o fato mais importante nesse momento é o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo dr. Oscar de Souza Lopes ... para a produção da vacina contra a febre amarela ... em cultivo de células vero, que é um velho sonho dos homens de laboratório ... Nós acreditamos que a vacina será um sucesso dentro de algum tempo". No congresso teria sido formado um grupo para preparar o protocolo para teste da vacina em campo, em humanos.

79 Quando Souza Lopes começou a trabalhar nesse projeto em Bio-Manguinhos, um laboratório na Inglaterra [referia-se ao Wellcome] cultivou o vírus em células vero, como fez Lopes; porém, o produto matou parte dos macacos inoculados. Verificaram que não bastava semear o vírus. Era preciso fazer uma 'clonagem', obter uma colônia que mantivesse as mesmas características da cepa original, sem neurovirulência ou viscerotomismo (Fonseca da Cunha, 14ª entrevista, 21.10.88). O projeto dos ingleses falhou.

80 Souza Lopes testou três meios diferentes: M199, Dulbecco e soro bovino. Obteve o melhor rendimento com o Dulbecco, mas escolheu o M199, por ser mais fácil de adquirir. A concentração de células por ml foi similar às concentrações obtidas com soro fetal bovino.

81 Vacina contra a febre amarela de baixa virulência, lote semente secundário WHO 213/77/Br.-1B/86, e vacina de controle de alta neurovirulência (lote 102/84).

82 Lopes e Marcheski tinham demonstrado: "ambos os sistemas de cultivo produzem vírus de tamanho de placa heterogêneo, aparentemente ambos têm as mesmas características em termos de temperatura de fim de incubação (shut-off temperature) e inativação térmica, e os escores relativos à neurovirulência em macacos eram iguais" (Halstead, 1988, p. 237).

83 Segundo Monath (1991, pp. 34-5), que publicou com eles, em 1983, "Monoclonal antibodies distinguish wild and vaccine strains of yellow fever virus by neutralization, hemagglutination, inhibition and immmune precipitation of the virus envelope protein" (Virology, nº 125, pp. 8-17), Schlesinger e Brandiss "também demonstraram que uma glicoproteína não estrutural (NS1) induzia uma reação imune, conceito que subjaz às linhas atuais de pesquisa que visam desenvolver vacinas contra flavivírus".

84 Miller, B. R.; Monath, T. P.; Tabachnick, W. J.; Ezike, V. I. "Epidemic yellow fever caused by an incompetent mosquito vector", Tropical Medicine and Parasitology, 1989, nº 40, pp. 396-9.

85 No Arquivo do LAFA encontram-se sete fichários e dois volumes avulsos que contêm variada documentação relativa ao acordo de cooperação Nigéria/ Fiocruz: currículos dos participantes do projeto e seus relatórios de treinamento (1988-94); memorandos, telex, atas, correspondência em geral (1987-1993); relação de equipamentos; correspondência anual (1987-91 e 1992-94); relatórios de viagem etc. Há trabalhos do dr. Nasidi: "Modernization and expansion of the Yellow Fever Vaccine Laboratory, Federal Vaccine Production Laboratory, Yaba, Lagos, Nigéria"; "Urban Yellow Fever Epidemic im Western Nigeria, 1987"; Relatório sobre Projeto Febre Amarela Nigéria, de julho de 1991 a janeiro de 1992. Encontram-se ainda nos fichários relatórios da Comissão Mista Brasil — Nigéria; do IDRC, de consultores técnicos e "Demanda de Vacina para Nigéria: exportação de Bio-Manguinhos (1972-1986, 1987, 1988)".

86 A mensagem de Arcoverde à 28ª reunião do Conselho Diretor da OPAS é comentada em O Estado de São Paulo (22.09.1981). Ver declarações de Pedro Luiz Tauil, diretor do Departamento de Erradicação e Controle de Epidemias do Ministério da Saúde, sobre a posição norte-americana em O Globo (13.07.1982). A OMS estaria disposta a patrocinar uma campanha de erradicação do mosquito através de inseticidas, do Canadá ao Uruguai (Jornal de Brasília, 29.11.1980). Em 1981, o conselho do Ministério determinou que um grupo de estudo sobre febre amarela e dengue propusesse condutas de ação regional à XXI Conferência Sanitária Pan-Americana, em maio de 1982 (Correio Brasiliense, 18.10.1981). Esperava-se que a campanha intercontinental contra o Aedes Aegypti começasse em junho de 1982 (O Estado de S. Paulo, 22.12.81).

87 No acordo com o Paraguai, as doenças contempladas eram febre amarela, doença de Chagas, esquistossomose e malária. No acordo com os venezuelanos, figuravam, também, a oncocerose, hanseníase, leishmaniose, tuberculose, hepatite e doenças venéreas (O Estado de São. Paulo, 14.08.1982).

88 Os recursos anuais da OPAS eram da ordem de 120 milhões de dólares. Metade era fornecida pela OMS, a outra metade eram doações de países membros. Os Estados Unidos vinham em primeiro lugar, com 30 milhões de dólares, e o Brasil, em segundo, com 3,18 milhões de dólares. Quatro e meio milhões de dólares seriam destinados aos programas de controle de doenças no Brasil (O Globo, 29.09.1982).

89 O Globo (14.05.85). Esse número pode estar superestimado. Em 21 de agosto, o superintendente da SUCAM, José Fiúza declarou que naquele ano tinham sido confirmados 44 casos de febre amarela, sendo 31 fatais (aumento de 733% em relação a 1983). Atribuía o crescimento da incidência da doença nos últimos dez anos à falta de vacinação nas áreas de difícil acesso O Globo, 21.08.1984.

90 Os bairros mais atingidos foram Penha, Nova Holanda, Campo Grande, Santa Teresa, e os municípios de São João de Meriti, Duque de Caxias e Niterói. Em maio de 1986, investigadores do Instituto Evandro Chagas que estiveram em Niterói para coletar materiais de estudo voltaram para Belém preocupados com o pânico dos habitantes da então capital fluminense. Para acalmar os niteroienses, o entomologista Nicolas Degalier e a virologista Amélia Travassos explicaram que eram remotas as possibilidades de ocorrerem casos de dengue hemorrágico e febre amarela ("Medo em Niterói assusta técnicos", Jornal do Brasil, 15.05.86).

91 Os produtos químicos utilizados eram o Sumithion (inseticida) e Abate (larvicida), segundo O Globo, de 23.05.84. O secretário estadual de Saúde, Eduardo Costa, declarou, durante a abertura do I Encontro de Mulheres de Prefeitos, que, apesar da reinfestação de todo o estado do Rio de Janeiro pelo mosquito transmissor da febre amarela, não havia risco de surto ou epidemia da doença (O Globo, 24.05.1984).

92 "Sua distribuição, no Brasil, ainda é associada à presença do homem, utilizando como o Ae. aegypti, os criadouros propiciados pela atividade humana. Contudo, é um mosquito que se espalha com facilidade no ambiente rural, semi-silvestre e silvestre ... É comumente encontrado, por isso, nas áreas onde a população humana é escassa, nas bocas de matas e plantações, onde o Ae. aegypti é ausente ou muito raro. ... populações de Ae. albopictus existentes no Brasil demonstraram, experimentalmente, suscetibilidade e capacidade de veicular horizontalmente os quatro sorotipos do vírus da dengue e de transmitir verticalmente (transovarianamente) os sorotipos 1 e 4 ... As mesmas populações não foram transmissoras eficientes do vírus da febre amarela, embora capazes de infectar-se com esse microrganismo, experimentalmente" (Consoli e Oliveira, 1994, pp. 118-9).

93 Os índices por ano são: 86,6% em 1996; 100% em 1997; 38,2% em 1998; 36,8% em 1999 e 45,8% em 2000. Até março de 2001, tinham sido registrados 22 casos em Minas Gerais, sendo que 50% resultaram em mortes (Folha de S. Paulo, 02.03.2001).

94 Jatene chefiou a pasta por período igualmente curto durante o governo de Fernando Collor de Melo (1990-1992). Em janeiro de 1992, o ministro da Saúde, Alceni Guerra, tornou-se alvo de denúncias na imprensa por omissão, diante do surto de cólera que invadira a Amazônia e se espalhara pelo Nordeste. Foi também acusado de corrupção na compra de materiais para o programa de agentes comunitário de saúde. Foi substituído, interinamente, por José Goldenberg, então secretário de Ciência e Tecnologia, até a posse de Jatene, em fevereiro de 1992. Este permaneceu no cargo só até outubro, quando o vice-presidente Itamar Franco assumiu, interinamente, a presidência em razão do afastamento de Collor, para que o Senado pudesse julgar o pedido de impeachment. Em janeiro de 1995, Jatene foi convidado pelo presidente eleito e recém-empossado Fernando Henrique Cardoso para chefiar outra vez o ministério. Exonerou-se em 6 de novembro, depois de abrir conflitos em várias frentes, inclusive com as instituições que fraudavam o SUS (Fundação Getúlio Vargas, 1984).

95 Alguns destes problemas foram apresentados pelo dr. Edmar Cabral (FUNASA/MS), em "Controle de vetores: o Aedes aegypti", no seminário Perspectivas Tecnológicas em Saúde: os Desafios da Leishmaniose e da Febre Amarela, promovido por Bio-Manguinhos em comemoração aos seus 25 anos, em 10-11 de maio de 2001, no Rio de Janeiro.

96 Integravam a comissão o dr. Jarbas Barbosa da Silva Júnior, diretor do Centro Nacional de Epidemiologia/FUNASA; dr. Expedito Luna, coordenador de Vigilância Epidemiológica/FUNASA; dra. Maria de Lourdes S. Maia, coordenadora do Programa Nacional de Imunizações; dr. Thomas P. Monath, do Laboratório Ora Vax; dr. Marty Cetron, do CDC; drs. Francisco Pinheiro, Otávio P. de Oliva, Bernardus Ganter e Angel Valencia, da Organização Pan-Americana de Saúde; dr. Ricardo Galler, do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz; dr. Pedro Fernando da Costa Vasconcelos e dra. Vera Lúcia R. S. Barros, ambos do Instituto Evandro Chagas; dra. Cristina Laval, da Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia; drs. Luís Jacinto da Silva, Gabriel Oselka e José Cássio de Moraes, da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo; dra. Luísa Terezinha de Souza, do Instituto Adolfo Lutz; dras. Rosely Cerqueira da Oliveira e Zouraide G. Antunes Costa, da Coordenação de Vigilância Epidemiológica/ CENEPI; dr. Emanuel de Carvalho Martins, da COLAB/CENEPI; dr. Ademir de Lima e Silva, da COPNI/CENEPI e dra. Maria da Luz Leal, de Bio-Manguinhos/Fiocruz (FUNASA, maio de 2000).

97 Camundongos especiais, quando sensibilizados pelo antígeno, produzem na cavidade abdominal fluido rico em anticorpos monoclonais, neste caso específicos para febre amarela.

98 Tal resultado é inesperado, uma vez que o vírus 17DD é tipicamente neurovirulento para camundongos de todas as idades, quando inoculados por via intracraniana.

99 O seqüenciamento do genoma dos vírus ficou sob a responsabilidade direta dos drs. Galler e Pugachev.

100 Ainda assim, os autores recomendaram que o vírus recuperado do caso de Americana fosse "caracterizado fenotipicamente" em infecções experimentais em rhesus. Embora considerassem improvável que a alteração pudesse explicar os eventos adversos "neste caso em particular, representa a única alteração no genótipo viral que pode ser considerada suspeita".

101 "Assessment of acceptability in principle of yellow fever vaccine by Biomanguinhos, Fiocruz, for supply to UN agencies, 24-27 August, 1999". Draft. Report of Mission by Chung Keel Lee, Jackie Fornier Caruana and Nora Dellepiane. Paho representatives: Otavio Oliva and Dario Pinto Miranda. "Maria da Conceição F. Soares e N. Phanebecker Goulart, inspetoras da Agência Nacional de Vigilância Sanitária acompanharam a equipe durante toda a visita".

102 As vacinas MMR, por exemplo. O Butantã está tentando licenciar uma vacina contra a raiva produzida em células vero que inclui albumina humana. A SmithKline está em vias de registrar uma vacina MMR sem a substância. A posição da vigilância sanitária brasileira tem sido a de mantê-la nas vacinas já licenciadas, proibindo-as nas novas vacinas.

103 Bhamarapravati, N.; Yoksan, S. "Live attenuated tetravalent dengue vaccine", Vaccine, 2000, 18, pp. 44-7. Citado por Bonaldo, Caufour, Freire e Galler (2000).

104 O dr. Francisco Pinheiro discutiu a questão no seminário "Perspectivas tecnológicas em saúde: os desafios da leishmaniose e da febre amarela", promovido por Bio-Manguinhos em comemoração a seus 25 anos, em 10-11 de maio de 2001, no Rio de Janeiro.

105 Monath, T. P.; Kinney, R. M.; Schlesinger, J. J.; Brandiss, M. W.; Bres, P. "Ontogeny of yellow fever 17D vaccine: RNA oligonucleotide fingerprint and monoclonal antibody analyses of vaccines produced world-wide". Journal of General Virology, 1983, 64, pp. 627-37. Apud Monath (1996, pp. 176, 182).