Febre amarela: a doença e a vacina

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 45 de 87

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Febre amarela: a doença e a vacina

Aquisição e incubação dos ovos

Álbum LAFA/Bio-Manguinhos/Fiocruz

 

Aquisição e incubação dos ovos

Os ovos utilizados na fabricação da vacina eram fornecidos, semanalmente, por uma granja comum, variando o número de acordo com a fertilidade presumida e a produção programada. Ao chegarem, eram examinados à contraluz — diz-se 'ovoscopia por transiluminação' —, eliminando-se os que já continham embriões formados. Logo se comprariam somente ovos brancos leghorn, mais fáceis de observar, com até uma semana de idade (Penna, 1956, p. 69). Os lotes de ovos eram numerados e armazenados a cerca de 20ºC. No dia seguinte à sua chegada, providenciava-se a incubação. Bandejas com capacidade para sessenta a setenta unidades eram apoiadas em armações de madeira nas paredes do quarto de incubação, com renovação de ar e controle de umidade. Esta era mantida a 50% e, diariamente, se abria a porta do quarto por cerca de uma hora, pois se havia constatado que um curto resfriamento diário dos embriões estimulava seu crescimento.

O tamanho dos lotes incubados dependia da quantidade de vacina que se queria produzir e da fertilidade dos ovos, que era geralmente de 80%, diminuindo no verão para 50%, às vezes menos. Em 1942, para se obter um lote com 900 c.c. de vacina feita com soro humano, inoculavam-se aproximadamente 160 embriões, o que requeria a incubação de duzentos a trezentos ovos. Com o novo tipo de vacina sem a adição de soro, era preciso inocular trezentos embriões de cada vez, o que requeria o dobro de ovos.

Em 1956, já se havia estabelecido que a fertilidade não podia ser inferior a 70%, de maneira a economizar espaço de incubação. Normatizou-se, também, o tamanho dos ovos: não podiam — e essa regra vale ainda hoje — atravessar uma abertura de 4 cm de diâmetro, pois ovos menores não se sustentariam nos anéis de borracha do aparelho Penna-Picckels, que passara a ser usado para a remoção dos embriões. O laboratório consumia, então, dois mil ovos por semana (Penna, 1956, p. 69). Atualmente, são oito mil, com menos de cinco dias de postura, limpos já na granja, acondicionados em caixa de papelão com baixa concentração de formol. Desde 1982, Bio-Manguinhos utiliza somente os chamados ovos SPF — Specific Pathogenic Free, ou livres de agentes infecciosos específicos. Quinze vezes mais caros, mas permitindo o controle de quinze vírus aviários que contaminam ovos normais, são produzidos por uma única granja, que detém total controle do mercado.

A incubação a 37,8ºC durava oito a nove dias. No quinto dia, submetiam-se os ovos à transiluminação e se retiravam os "brancos" (estéreis) e os que continham embriões mortos. Em 1942 e ainda em 1956, era preciso girar os ovos todos os dias, manualmente, durante o período de incubação. No oitavo ou nono dia, eram de novo examinados à contraluz. Mais embriões mortos eram descartados, marcando-se com lápis, na casca dos ovos aproveitados, a posição do embrião vivo e da câmara de ar que o envolvia. Os ovos eram mantidos com a face marcada para cima até a manhã seguinte, quando eram novamente examinados para se eliminar, ainda uma vez, quaisquer embriões mortos.

Hoje, realizam-se duas incubações semanais, de nove dias, em aparelhos muito mais sofisticados que garantem temperatura de 37,8ºC, umidade interna de 55% a 60% e viragem automática dos ovos. Antes de cada operação, é feita a descontaminação das incubadoras por fumigação com solução de formol e permanganato de potássio.

Suporte rotativo com ovos prontos para serem inoculados com

o vírus vacínico. Antes, esses ovos passaram por nova

ovoscopia, que permitiu marcar com lápis, sobre a casca, a

posição da câmara de ar e do embrião. A marca deve ser

mantida para cima, quando da inoculação. Rio de Janeiro, RJ,

1941-1943.

Manual da Vacina/LAFA/Bio-Manguinhos/Fiocruz