Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 10 de 137

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Dom Quixote

Capítulo II

que trata da primeira

saída que o engenhoso dom quixote

fez de sua terra

Tomadas essas providências, não quis esperar mais tempo para pôr

seus planos em prática, incitando-o a falta que pensava que fazia no

mundo com sua demora, por causa das afrontas que queria reparar,

erros que corrigir, injustiças que emendar, abusos que sanar e dívidas

que cobrar. Assim, sem avisar pessoa alguma de sua intenção e sem

que ninguém o visse, bem cedinho, antes que nascesse um dos dias

mais quentes do mês de julho, vestiu a armadura e montou em

Rocinante; posto o mal composto elmo, enfiou o braço na adarga,

empunhou a lança e saiu para o campo pela porta dos fundos do

quintal, com enorme contentamento e alvoroço por ver com que

facilidade havia começado seu bom desejo. Contudo, mal se viu no

campo, assaltou-lhe um pensamento terrível, que por pouco não o fez

abandonar a empresa: veio-lhe à memória que não era armado

cavaleiro e que, conforme a lei da cavalaria, nem podia nem devia

pegar em armas contra nenhum cavaleiro; e, mesmo que o fosse, tinha

de levar armas brancas,1 como cavaleiro estreante, sem divisa no

escudo, até que com sua coragem a ganhasse. Esses pensamentos o

fizeram vacilar em seu propósito, mas, podendo mais sua loucura que

qualquer outra razão, lembrou de se fazer armar cavaleiro pelo

primeiro com que topasse, como muitos outros que assim fizeram,

conforme havia lido nos livros que o deixaram nesse estado. Quanto

às armas, pensava limpá-las de tal maneira, tendo oportunidade, que

ficariam mais brancas que um arminho. Com isso se tranquilizou e

prosseguiu seu caminho, sem ir por outro que não aquele que seu cavalo queria, achando que nisso consistia a força das aventuras.

Enquanto caminhava, nosso flamante aventureiro dizia consigo

mesmo:2

— Quem duvida que, nos tempos futuros, quando sair à luz a

história verídica de meus famosos feitos, o mago que os escrever não o

faça desta maneira, quando contar esta minha primeira saída tão cedo?: “Mal o rubicundo Apolo havia estendido pela face da ampla e

vasta terra as douradas madeixas de seus formosos cabelos, e mal os

pequenos e coloridos passarinhos com suas línguas afinadas haviam

saudado com doce e melíflua harmonia a vinda da rosada aurora, que,

deixando a macia cama do ciumento marido, pelas portas e varandas

do horizonte da Mancha aos mortais se mostrava, quando o famoso

cavaleiro dom Quixote de la Mancha, abandonando seu ocioso

colchão de penas, montou em seu famoso cavalo Rocinante e começou

a andar pelo antigo e conhecido campo de Montiel”.

E era verdade que caminhava por ele. E continuou dizendo:

— Afortunada época e século afortunado aquele em que sairão à luz

minhas famosas façanhas, dignas de se moldar em bronze, de se

esculpir em mármores e se pintar em telas, para lembrança no futuro.

Oh, tu, velho mago, quem quer que sejas, a quem há de tocar ser o

cronista desta incrível história, rogo-te que não te esqueças de meu

bom Rocinante, companheiro eterno em todos os meus caminhos e

carreiras!

Depois continuava dizendo, como se realmente estivesse apaixonado:

— Oh, princesa Dulcineia, senhora deste cativo coração! Muito me

ultrajastes ao despedir-me e reprovar-me com a rigorosa obstinação de

mandar-me não aparecer diante de vossa formosura. Comprazei-vos,

senhora, recordar deste vosso subjugado coração, que tantas penas

padece por vosso amor.

Com esses ia alinhavando outros disparates, todos da maneira que

seus livros haviam lhe ensinado, imitando sua linguagem o quanto

podia. Por isso caminhava devagar — e o sol subia tão rápido e tão

ardente que poderia derreter os miolos dele, se tivesse alguns.

Andou quase todo aquele dia sem que acontecesse coisa alguma

digna de se contar, o que o desesperava, porque gostaria de topar de

uma vez com alguém que lhe permitisse experimentar o valor e a força

de seu braço. Há autores que dizem que sua primeira aventura foi a de

Puerto Lápice, outros dizem que a dos moinhos de vento, mas o que

pude averiguar nesse caso e encontrei escrito nos anais da Mancha é

que andou todo aquele dia até a noite, quando ele e seu pangaré se

encontraram cansados e mortos de fome. Olhando para todos os lados

para ver se descobria algum castelo ou refúgio de pastores onde se recolher e remediar suas grandes necessidades, o cavaleiro viu uma

estalagem, não longe da estrada por onde ia, e foi como se visse uma

estrela que o encaminhasse, não aos portais, mas aos palácios de sua

redenção. Apressou-se, então, chegando a ela ao anoitecer.

Por acaso estavam à porta duas mulheres jovens, dessas que chamam

da vida, que iam a Sevilha com uns tropeiros que naquela noite

combinaram pousar na estalagem; e como ao nosso aventureiro tudo

quanto pensava, via ou imaginava parecia ser feito e acontecer da

maneira como havia lido, logo que avistou a estalagem pensou que era

um castelo com suas quatro torres de telhados cônicos de prata

cintilante, sem faltar a ponte levadiça e o fosso profundo, com todos

aqueles acessórios que se pintam em semelhantes construções. Foi se

aproximando da estalagem que a ele parecia castelo e, quando estava

perto, puxou as rédeas de Rocinante, à espera de que algum anão se

pusesse entre as ameias para anunciar com uma trombeta que chegava

um cavaleiro. Mas, como viu que demorava e que Rocinante se

apressava para chegar à estrebaria, foi até a porta da estalagem e viu as duas jovens cortesãs, que a ele pareceram duas formosas donzelas

ou duas graciosas damas que se entretinham diante da porta do

castelo. Por acaso aconteceu que um guardador de porcos (que, sem

perdão, assim se chamam) que andava recolhendo seus animais de uns

restolhos tocou uma trompa, a cujo sinal eles obedeciam. No mesmo

instante pareceu a dom Quixote o que desejava: que algum anão o

anunciava. E assim, com singular contentamento, chegou à estalagem

e às damas, que, ao verem se aproximar um homem daquele tipo, de

armadura, lança e adarga, cheias de medo iam entrar; mas dom

Quixote, percebendo pela fuga o medo delas, levantou a viseira de

papelão e, descobrindo o rosto seco e empoeirado, com tom gentil e

voz calma disse:

— Não se esquivem vossas mercês nem temam algum desaguisado,

cá à ordem de cavalaria que professo não pertence nem tange agravar

ninguém, muito menos a tão nobres donzelas como vossos feitios

demonstram.

As moças olhavam-no, buscando o rosto que a péssima viseira

encobria; mas, como ouviram ser chamadas de donzelas, coisa tão alheia a sua profissão, não puderam conter o riso, que foi tanto que

dom Quixote chegou a se irritar e lhes dizer:

— Bem parece a mesura nas fermosas e, ademais, é sandice o riso

que procede de causa acanhada. Mas não vos profiro isso para que

vos acabrunheis nem mostreis mau talante, que o meu não é outro que

vos servir.

A linguagem, não entendida pelas senhoras, e o mau porte de nosso

cavaleiro aumentavam nelas o riso, o que aumentava nele a irritação, e

a coisa teria ido adiante se naquele ponto não saísse o estalajadeiro,

homem que, por ser muito gordo, era muito pacífico, e que vendo

aquela figura despropositada, munida de armas tão desiguais como

eram a brida, a lança, a adarga e o corselete, não esteve longe de

acompanhar as donzelas nas mostras de sua alegria. Mas, na verdade,

com medo de todos aqueles apetrechos, resolveu falar comedidamente,

dizendo então:

— Se vossa mercê, senhor cavaleiro, procura pousada, tudo achará

nesta estalagem em grande abundância, exceto o leito, porque não há nenhum.

Dom Quixote, vendo a humildade do alcaide da fortaleza, que isso

lhe pareceu o estalajadeiro e a estalagem, respondeu:

— Para mim, senhor castelão, qualquer coisa serve, “porque meus

adornos são as armas, meu descanso, lutar” etc.3

O hospedeiro achou que fora chamado de castelão porque dom

Quixote pensou que ele era de Castela, embora fosse andaluz, e

daqueles da praia de Sanlúcar, não menos ladrão que Caco nem menos

meliante que um pajem experiente, e respondeu:

— Então, “as camas de vossa mercê serão duras rochas, e seu

dormir, sempre velar”. Assim sendo, pode apear, com a certeza de

achar nesta choça muitas oportunidades para não dormir um ano

todo, quanto mais uma noite.

E, dizendo isso, foi segurar o estribo para dom Quixote, que apeou

com muita dificuldade e trabalho, porque não tinha comido nada

durante todo aquele dia.

Em seguida, disse ao hospedeiro que tivesse muito cuidado com seu

cavalo, porque era a melhor joia que pastava no mundo. O

estalajadeiro olhou para ele e não o achou tão bom como dom Quixote dizia, nem mesmo a metade, mas, acomodando-o na

estrebaria, voltou para ver o que o hóspede ordenava. As donzelas,

que já haviam se reconciliado com ele, estavam lhe tirando a

armadura. Embora houvessem sacado o peitilho e as costas do

corselete, jamais souberam nem puderam lhe desencaixar o gorjal nem

lhe tirar o elmo mal-ajambrado, preso com umas fitas verdes, que era

preciso cortar por causa dos nós, coisa que dom Quixote não

consentiu de jeito nenhum, ficando assim toda aquela noite com o

elmo posto — a mais engraçada e estranha figura que se podia

imaginar. E, enquanto o ajudavam, como ele pensava que aquelas

pobres que passaram de mão em mão eram algumas das grandes

senhoras e damas do castelo, disse com muita elegância:

— Nunca fora cavaleiro

de damas tão bem servido

como fora dom Quixote

quando de sua aldeia veio:

donzelas tratavam dele;

princesas, de seu pangaré,4

ou Rocinante, que esse é o nome de meu cavalo, minhas senhoras, e

dom Quixote de la Mancha, o meu. Embora eu não quisesse me

apresentar até que as façanhas feitas a vosso serviço e proveito me

revelassem, a necessidade de adaptar ao propósito presente esse velho

romance de Lancelot foi a causa de que viésseis a saber meu nome

antes do tempo. Mas dia virá em que vossas senhorias me ordenem e

eu obedeça, e o valor de meu braço mostre o desejo que tenho de vos

servir.

As moças, que não tinham sido feitas para ouvir semelhantes

retóricas, não diziam uma palavra; só perguntaram se ele queria comer

alguma coisa.

— Qualquer coisa seria um manjar — respondeu dom Quixote —,

porque, pelo visto, qualquer uma me calharia bem.

Casualmente aquele dia era uma sexta-feira e em toda a estalagem só

havia um pouco de um peixe que em Castela chamam badejo,

bacalhau na Andaluzia e peixe seco, ou truchuela, em outros lugares.

Perguntaram ao cavaleiro se por acaso sua mercê comeria truchuela, já

que não havia outro peixe para lhe oferecer.

— Se houver muitas trutinhas — respondeu dom Quixote —,

poderão valer uma truta, porque para mim tanto faz se me dão oito

reais inteiros ou trocados. Sem falar que pode ser que essas trutinhas

sejam como a vitela, que é melhor que a vaca, ou o cabrito, que é

melhor que o bode. Mas, seja lá o que for, venha logo, porque não se

pode levar o trabalho e o peso das armas sem o governo das tripas.

Puseram-lhe a mesa à porta da estalagem, por ser mais fresco, e o

hospedeiro trouxe uma porção do bacalhau que mal tinha ficado de

molho e fora mais mal cozido ainda, e um pão tão negro e imundo

como sua armadura. Agora, era coisa muito engraçada vê-lo comer,

porque, como tinha o elmo posto e a viseira erguida com as mãos, não

podia pôr nada na boca se outro não o fizesse, o que levou uma

daquelas senhoras a fazer esse trabalho. Mas dar de beber a ele não

foi possível, nem o seria, se o estalajadeiro não houvesse furado uma

taquara e posto uma ponta em sua boca, derramando vinho pela

outra. Dom Quixote aceitava tudo com paciência, em troca de não

arrebentar as fitas do elmo. Então chegou um castrador de porcos que, mal entrou, soprou sua flauta de taquaras quatro ou cinco vezes, o

que acabou de confirmar a dom Quixote que estava em algum famoso

castelo e que lhe serviam com música, que o peixe seco eram trutas, o

pão do melhor, as meretrizes damas, o estalajadeiro castelão — e

assim dava por bem empregada sua decisão e saída. Mas o que mais o

incomodava era não se ver armado cavaleiro, por lhe parecer que não

poderia legitimamente se lançar na aventura sem receber a ordem de

cavalaria.

 

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