Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 97 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XXXVI

onde se conta a estranha e jamais imaginada aventura da ama

dolorida, alcunha

da condessa trifaldi, com uma carta que sancho pança escreveu a sua

mulher teresa pança

O duque tinha um administrador, muito malicioso e desembaraçado

— aquele que havia representado o papel de Merlin, fizera todos os

arranjos da aventura passada, compusera os versos e persuadira um

pajem a se passar por Dulcineia —, que, por ordem de seus senhores,

organizou outra aventura, a mais estranha, burlesca e engenhosa que

se possa imaginar.

No dia seguinte, a duquesa perguntou a Sancho se havia começado a

cumprir a penitência que devia fazer pelo desencantamento de

Dulcineia. Ele disse que sim, e que naquela mesma noite havia se dado

cinco açoites. A duquesa perguntou com que ele havia se açoitado.

Respondeu que com a mão.

— Isso é palmada — replicou a duquesa —, não açoite. Tenho a

impressão de que o sábio Merlin não deve estar satisfeito com tanta

brandura: será necessário que o bom Sancho use uma boa vara de

marmelo ou um chicote de couro trançado, para que sinta, pois se

aprende com sangue, sem falar que não vai se dar liberdade tão barata

a uma senhora tão cara como é Dulcineia. Sancho deve reparar que as

obras de caridade feitas com mornidão e desleixo não têm mérito nem

valem nada.1

Ao que Sancho respondeu:

— Dê-me vossa senhoria algum chicote ou uma vara na medida que

eu me baterei com ele, desde que não me doa demais; porque garanto

a vossa mercê que, mesmo eu sendo um grosso, minhas carnes têm mais de algodão que de estopa, e não fica bem que eu me moleste pelo

proveito alheio.

— Muito bem, Sancho — respondeu a duquesa —, amanhã vos darei

um chicote que venha a calhar e se ajuste à delicadeza de vossas carnes

como se fosse irmão delas.

Ao que Sancho disse:

— Saiba vossa alteza, senhora de minha alma, que eu escrevi uma

carta para minha mulher, Teresa Pança, contando tudo o que me

aconteceu depois que me afastei dela. Eu a tenho aqui no peito,

prontinha, só falta endereçar. Gostaria que vossa sabedoria a lesse,

porque me parece digna de governador, digo, que foi escrita ao modo

que devem escrever os governadores.

— E quem a concebeu? — perguntou a duquesa.

— Quem, por meus pecados, havia de conceber senão eu? —

respondeu Sancho.

— E também a escrevestes? — disse a duquesa.

— Nem em sonhos — respondeu Sancho —, porque eu não sei ler

nem escrever, embora saiba assinar.

— Então vamos ver — disse a duquesa —, pois certamente mostrais

nela a capacidade e a qualidade de vosso engenho.

Sancho tirou do peito uma carta aberta, e, pegando-a, a duquesa viu

que dizia isto:

carta de sancho pança a teresa pança, sua mulher

Se bons açoites me davam, bem montado eu ia, como disse o ladrão

ao carrasco:2 se um bom governo tenho, bons açoites me custa. Por

ora, tu não entenderás isto, minha querida Teresa, mas logo te

explicarei. Deves saber, Teresa, que resolvi que andes de carruagem,

porque é o que convém — de qualquer outro jeito é andar de quatro.

És mulher de um governador: olha só se não falarão por tuas costas!

Aí te mando um traje verde de caçador que me deu minha senhora, a

duquesa: reforma de modo que dê para fazer um vestido para nossa

filha. Dom Quixote, meu amo, segundo ouvi nesta terra, é um louco

manso e um mentecapto engraçado, e eu não fico muito atrás.

Estivemos na caverna de Montesinos, e o sábio Merlin lançou mão

de mim para desencantar Dulcineia del Toboso, que por aí se chama

Aldonza Lorenzo: com três mil e trezentos açoites, que devo me

aplicar, menos cinco, ela ficará desencantada como a mãe que a

pariu. Não deves comentar nada disso com ninguém, porque, se

pedes opinião sobre teus negócios, uns dirão que é branco e outros

que é preto. Daqui a poucos dias partirei para o governo, aonde vou

louco de vontade de fazer dinheiro, porque me disseram que isso

acontece com todos os governadores novos; tomarei o pulso da

situação e te avisarei se deves ou não vir para ficares comigo. O ruço

está bem e te manda muitas lembranças, e não penso deixá-lo

mesmo que me levem para ser califa da Turquia. Minha senhora a

duquesa te beija as mãos mil vezes: retribui com dois mil, pois não

há coisa que dê menos trabalho nem saia tão barato que a cortesia,

conforme me disse meu amo. Deus não permitiu que eu topasse com

outra maleta com cem escudos como aquela, mas não te preocupes,

minha querida Teresa, porque está a salvo quem dá o alarme de

longe, e vou tirar a limpo as tramoias do governo. Só o que me

preocupa é que me dizem que, depois de sentir o gostinho, darei um

braço para continuar no cargo, e, se for assim mesmo, não me

custaria muito barato, embora os aleijados e manetas já tenham sua

renda nas esmolas que pedem — portanto, de um modo ou de outro,

terás boa sorte e serás rica. Deus te proteja como puder, e a mim

guarde para te servir.

Deste castelo, vinte de julho de 1614.

Teu marido, o governador

Sancho Pança

Ao acabar a leitura da carta, a duquesa disse a Sancho:

— Em duas coisas o bom governador anda meio extraviado: uma, ao

dizer ou dar a entender que lhe deram este governo em troca dos

açoites, sabendo ele, pois não o pode negar, que quando o duque, meu

senhor, o prometeu, nem se sonhava haver açoites no mundo; outra é

que se mostra muito cobiçoso, mas nem tudo são flores, porque a

cobiça rompe o saco, e governador cobiçoso faz justiça desgovernada.

— Eu não quis dizer isso, senhora — respondeu Sancho. — E, se

vossa mercê acha que esta carta não está como deve, não há mais nada

a fazer que rasgá-la e escrever outra nova, mas talvez saia pior ainda,

se a deixarem por minha conta.

— Não, não — replicou a duquesa —, está boa, e quero que o duque

a veja.

Com isso, foram a um jardim onde haveriam de almoçar naquele

dia. A duquesa mostrou a carta de Sancho ao duque, o que lhe deu

grande prazer. Comeram e, depois de tirada a mesa, depois de terem se divertido um bom tempo com a deliciosa conversa de Sancho, se ouviu

de repente o som tristíssimo de um pífaro e o de um tambor rouco e

desafinado. Todos se inquietaram com a confusa, marcial e

melancólica harmonia, especialmente dom Quixote, que não se

aguentava em sua cadeira, tão agitado estava; sobre Sancho não há o

que dizer, exceto que o medo o levou ao refúgio de sempre, que era ao

lado da duquesa ou se agarrar às saias dela, porque o som que se

ouvia era realmente sombrio e desconsolado.

Estavam todos abismados, quando viram entrar no jardim dois

homens vestidos de luto, com roupas tão compridas que arrastavam

pelo chão. Eles vinham tocando dois grandes tambores, também

cobertos de negro. Ao lado, vinha o tocador de pífaro, cor de alcatrão

como os outros. Seguia os três um personagem gigantesco, mais

enrolado que vestido com uma sotaina negríssima, cuja fralda também

era descomunal de grande. Por cima da sotaina lhe cingia, cruzando o

peito, um talim também negro, de onde pendia um alfanje

desmesurado com guarnições e bainha negras. Tinha o rosto coberto por um véu negro, mas transparente, por onde se entrevia uma longa

barba branca como a neve. Andava ao som dos tambores, com muita

calma e gravidade. Enfim, seu tamanho, seu andar, sua negrura e seu

séquito poderiam — e puderam — surpreender todos aqueles que o

olhavam sem conhecê-lo.

Chegou então com a lentidão e a solenidade referidas para cair de

joelhos diante do duque, que o aguardava em pé, com os demais

presentes. Mas o duque não consentiu de modo algum que ele falasse

antes de se levantar. O espantalho prodigioso obedeceu e afastou o

véu do rosto, revelando a mais horrenda, a mais longa, a mais branca

e a mais cerrada barba que até então olhos humanos tinham visto.

Então, depois de cravar os olhos no duque, arrancou do peito forte e

largo uma voz grave e sonora para dizer:

— Nobilíssimo e poderoso senhor, a mim chamam Trifaldin da

Barba Branca;3 sou escudeiro da condessa Trifaldi, conhecida também

como Ama Dolorida, da parte de quem trago a vossa grandeza um

recado: ela gostaria que vossa magnificência lhe desse autorização e

licença para entrar e lhe contar sua desgraça, que é uma das mais

estranhas e admiráveis que a mente mais infeliz do orbe possa ter pensado. Mas primeiro quer saber se está neste vosso castelo o

valoroso e jamais vencido cavaleiro dom Quixote de la Mancha, a

quem busca a pé e sem descanso desde o reino de Candaia4 até vossos

domínios, coisa que se pode e se deve ter por milagre ou atribuir à

força de encantamentos. Ela está à porta desta fortaleza ou casa de

campo, e só aguarda vosso beneplácito para entrar. Tenho dito.

Em seguida, tossiu e afagou a barba de cima a baixo com ambas as

mãos, e com muita calma ficou ouvindo a resposta do duque, que foi:

— Há muitos dias, meu bom escudeiro Trifaldin da Barba Branca,

que temos notícia da desgraça de minha senhora a condessa Trifaldi, a

quem os magos fazem chamar de Ama Dolorida. Então, estupendo

escudeiro, podeis dizer a ela que entre e que aqui está o valente

cavaleiro dom Quixote de la Mancha, de cujo temperamento generoso

pode se esperar com certeza todo o amparo e toda a ajuda. Também

podeis lhe dizer de minha parte que, se precisar de meu favor, não hei

de lhe faltar, pois a isso estou obrigado por ser cavaleiro, a quem cabe

e concerne favorecer a toda espécie de mulheres, em especial as amas viúvas, desprezadas e doloridas, como deve estar sua senhoria.

Ao ouvir isso, Trifaldin dobrou o joelho até o chão e, fazendo um

sinal aos parceiros para que tocassem o pífaro e os tambores, com a

mesma música e com o mesmo passo que havia entrado saiu de novo

do jardim, deixando todos admirados de sua presença e compostura.

E o duque disse, virando-se para dom Quixote:

— Em suma, famoso cavaleiro, nem as trevas da malícia nem as da

ignorância podem encobrir e obscurecer a luz da coragem e da virtude.

Digo isto porque há seis dias apenas vossa bondade está neste castelo

e já vos vêm procurar de terras distantes e remotas, e não de carroças

nem montados em dromedários, mas a pé e em jejum, os tristes, os

aflitos, confiantes em que irão achar nesse fortíssimo braço o remédio

para suas penas e dificuldades, graças a vossas grandes façanhas, cujas

notícias correm e percorrem toda a terra conhecida.

— Eu gostaria, senhor duque — respondeu dom Quixote —, que

estivesse aqui aquele bendito religioso que outro dia mostrou, à mesa,

tanta aversão e antipatia pelos cavaleiros andantes, para que visse com

os próprios olhos se os ditos cavaleiros são necessários no mundo:

pelo menos poderia comprovar de modo palpável que os extremamente aflitos e desconsolados, nas grandes adversidades e nas

desgraças enormes, não vão procurar ajuda na casa dos letrados, nem

na dos sacristãos de aldeia, nem vão ao cavaleiro que nunca se

aventurou fora de sua terra, nem ao cortesão preguiçoso que prefere ir

atrás de notícias para contar que empreender feitos e façanhas para

que outros as contem e as escrevam: o remédio para as aflições, o

socorro das necessidades, o amparo das donzelas, o consolo das

viúvas, em nenhum tipo de pessoa se encontra melhor que nos

cavaleiros andantes. E, por eu ser um deles, dou infinitas graças ao

céu, e dou por muito bem empregada qualquer desgraça e dificuldade

que neste tão honroso exercício possa me acontecer. Venha então essa

ama e peça o que quiser, que eu garanto seu socorro com a força de

meu braço e a intrépida resolução de meu espírito corajoso.

 

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