Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 7 de 137

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Dom Quixote

O engenhoso fidalgo dom Quixote de la Mancha

O engenhoso fidalgo

 

dom Quixote

 

de la Mancha

 

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primeira parte

 

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Prólogo

Desocupado leitor: podes crer, sem juramento, que eu gostaria que este

livro, como filho da inteligência, fosse o mais formoso, o mais

galhardo e o mais arguto que se pudesse imaginar. Mas não consegui

contrariar a ordem da natureza, em que cada coisa gera seu

semelhante. Então o que poderia criar meu árido e mal cultivado

engenho a não ser a história de um filho seco, murcho, caprichoso e

cheio de pensamentos desencontrados que não passaram pela

imaginação de nenhum outro, exatamente como alguém que foi

concebido num cárcere, onde todo incômodo tem seu assento e onde

toda triste discórdia faz sua moradia?1 O sossego, o lugar agradável, a

amenidade dos campos, a placidez dos céus, o murmúrio das fontes e

a tranquilidade do espírito são de grande ajuda para que as musas

mais estéreis se mostrem fecundas e ofereçam ao mundo partos que o

encham de maravilha e alegria.

Acontece de um pai ter um filho feio e sem graça alguma, e o amor

que tem por ele venda-lhe os olhos para que não veja seus defeitos,

tomando-os antes por sagacidades e belezas, e fala deles aos amigos

como de exemplos de espírito e elegância. Mas eu — que, embora

pareça pai, sou padrasto de dom Quixote — não quero seguir a

corrente costumeira, nem te suplicar quase em lágrimas, como outros

fazem, caríssimo leitor, que me perdoes ou toleres os defeitos que vires

neste meu filho, pois não és parente nem amigo dele, tens tua alma em

teu corpo e teu livre-arbítrio como o melhor entre os melhores, e estás

em tua casa, onde és senhor, como o rei de seus tributos, e sabes que

cada um pensa o que bem quer, ou não se costuma dizer que

“embaixo de meu manto, ao rei mato”? Tudo isso te isenta e te deixa

livre de todo respeito e obrigação, de modo que podes dizer tudo aquilo que pensares da história, sem medo de que te caluniem pelo

mal ou te premiem pelo bem que disseres dela.

Gostaria somente de te dar esta história nua e crua, sem o

ornamento de um prólogo nem do inumerável catálogo dos habituais

sonetos, epigramas e elogios que se costuma pôr no começo dos livros.

Porque posso te garantir que, embora tenha me custado algum trabalho escrevê-la, nenhum foi maior do que fazer esta introdução

que vais lendo. Muitas vezes peguei a pena para escrevê-la e muitas a

deixei, por não saber o que escreveria; e estando numa delas

empacado, com o papel na frente, a pena atrás da orelha, o cotovelo

na mesa e a mão no queixo, pensando no que diria, lá pelas tantas

entrou um amigo meu, espirituoso e inteligente, que, vendo-me tão

meditativo, me perguntou a causa. Não a ocultando, eu disse que

pensava no prólogo que tinha de fazer para a história de dom Quixote

e me achava num estado em que nem queria fazê-lo, nem muito menos

publicar as façanhas de tão nobre cavaleiro sem ele.

— Pois como quereis vós que não me deixe confuso o que dirá o

antigo legislador que chamam povo quando vir que, ao cabo de tantos

anos como estes em que durmo no silêncio do esquecimento, saio

agora, com o peso da idade nas costas,2 com um livro seco como

palha, longe da invenção, franzino de estilo, pobre de conceitos e

carente de toda erudição e doutrina, sem notas nas margens e sem

comentários no fim, como vejo em outros livros, ainda que sejam de ficção e profanos, tão cheios de frases de Aristóteles, de Platão e de um

bando todo de filósofos, que deixam os leitores admirados e os levam

a pensar que os autores são homens lidos, eruditos e eloquentes? E

quando citam a Sagrada Escritura, meu caro? Dizem no mínimo que

são uns Santos Tomases e outros tantos doutores da Igreja, adequando

o estilo de modo tão engenhoso que numa linha pintam um amante

devasso e em outra fazem um sermãozinho cristão, que é uma alegria e

uma dádiva ouvi-lo ou lê-lo. Disso tudo há de carecer meu livro,

porque não tenho o que anotar nas margens nem comentar no fim,

muito menos sei que autores sigo nele para nomeá-los no começo,

como fazem todos, na ordem do abc, começando em Aristóteles e acabando em Xenofonte e Zoilo ou Zêuxis, mesmo que um fosse

maledicente e o outro, pintor. Meu livro também há de carecer de

sonetos no princípio, pelo menos de sonetos cujos autores sejam

duques, marqueses, condes, bispos, damas ou poetas célebres, embora,

se eu os pedisse a dois ou três amigos do ofício, sei que seria atendido,

e os fariam sem que os igualassem os versos daqueles que têm mais

nome em nossa Espanha. Enfim, meu senhor e amigo — continuei —, resolvi que o senhor dom Quixote fique sepultado em seus arquivos na

Mancha até que o céu apresente quem o adorne com todas essas coisas

que lhe faltam, porque eu me acho incapaz de supri-las devido a

minha insuficiência e poucas letras, e também porque sou acomodado

e preguiçoso por natureza para andar procurando autores que digam

o que eu sei dizer sem eles. Daí nasce o embaraço e a indecisão em que

me achastes: causa suficiente para me pôr assim como vos falei.

Ao ouvir isso, meu amigo me disse, dando uma palmada na testa e

disparando uma salva de risos:

— Por Deus, meu irmão, acabo de perceber um engano em que

acreditei há muito tempo, desde que vos conheço: sempre vos julguei

inteligente e sensato em todas as ações. Mas agora vejo que estais tão

longe disso como o céu da terra. Como é possível que coisas de tão

pouca monta e tão fáceis de remediar possam ter forças para meter

nesse embaraço e alheamento um engenho tão maduro como o vosso,

sempre pronto a atropelar e demolir outras dificuldades maiores? Com

certeza, isso não nasce por falta de habilidade, mas por excesso de preguiça e penúria mental. Quereis ver se é verdade o que digo?

Prestai-me atenção e vereis como, num piscar de olhos, abato todas as

vossas dificuldades e corrijo todas as deficiências que dizeis que vos

embaraçam e acovardam, impedindo-vos de apresentar ao mundo a

história do famoso dom Quixote, luz e espelho de toda a cavalaria

andante.

— Dizei: de que modo pensais preencher o vazio de meu temor e

levar a claridade ao caos de minha confusão? — repliquei, ouvindo o

que me dizia.

A isso, ele me disse:

— O reparo que fazeis sobre os sonetos, epigramas ou elogios que

vos faltam para o princípio, que devem ser de personagens sérios

detentores de títulos, pode se remediar desde que vós mesmo queirais

ter o trabalho de fazê-los e depois batizá-los, pondo-lhes o nome que

quiserdes, atribuindo-os até ao Preste João das Índias ou ao imperador

da Trebizonda, que foram poetas dignos de fama, pelo que se diz.

Mas, se por acaso não o tenham sido e houver alguns pedantes e

tagarelas que pelas costas vos detratem e cochichem sobre essa verdade, não vos deis por achado, porque, ainda que investiguem a

mentira, não vos cortarão a mão com que a escrevestes.

“Quanto a citar nas margens os livros e autores de onde tirastes as

frases e ditos que inseristes em vossa história, não tendes mais a fazer

que encaixar algumas sentenças ou latins que saibais de memória, ou

pelo menos que vos deem pouco trabalho achar, como será dizer,

tratando-se de liberdade e escravidão:

Non bene pro toto libertas venditur auro.3

“E depois, na margem, citar Horácio, ou quem a disse. Se tratardes

do poder da morte, atacai logo com

Pallida mors æquo pulsat pede pauperum tabernas, regumque

turres.4

“Se for da amizade e amor que Deus manda que se tenha pelo

inimigo, entrai logo no assunto pela Sagrada Escritura, o que podeis

fazer com um tiquinho de cuidado, dizendo no mínimo as palavras do

próprio Deus: Ego autem dico vobis: diligite inimicos vestros.5

“Se tratardes de maus pensamentos, vinde com o Evangelho: De

corde exeunt cogitationes malæ.6 Se for da inconstância dos amigos, aí

está Catão, que vos dará seu dístico:

Donec eris felix, multos numerabis amicos.

Tempora si fuerint nubila, solus eris.7

“E com esses e outros latinzinhos vos terão até por gramático, o que

não é de pouca honra e proveito nos dias de hoje.

“No que toca a anotações no final do livro, sem temor podeis fazer

desta maneira: se mencionardes algum gigante em vosso livro, fazei

com que seja o gigante Golias. Apenas com isso, que vos custará quase

nada, tereis um bom comentário, pois podeis dizer: ‘O gigante Golias

ou Goliat foi o filisteu a quem o pastor Davi matou com uma boa

pedrada, no vale do Terebinto, conforme se conta no Livro dos Reis’,

no capítulo que vós achardes que está escrito.

“Em seguida, para vos mostrardes cosmógrafo e erudito em

humanidades, fazei com que em vossa história se mencione o rio Tejo

e tereis logo outra famosa anotação, escrevendo: ‘O rio Tejo foi assim

chamado por causa de um rei das Espanhas; nasce em tal lugar e

morre no mar Oceano, beijando os muros da famosa cidade de

Lisboa, e se diz que tem as areias de ouro’ etc. Se tratardes de ladrões, eu vos darei a história de Caco, que sei de cor; se de mulheres lascivas,

aí está o bispo de Mondoñedo, que vos emprestará Lâmia, Laida e

Flora, cuja anotação vos dará grande reputação; se de mulheres cruéis,

Ovídio vos entregará Medeia; se de magas e feiticeiras, Homero tem

Calipso e Virgílio, Circe; se de capitães valentes, o próprio Júlio César

vos emprestará a si mesmo em seus Comentários, e Plutarco vos dará

mil Alexandres. Se tratardes de amores, com duas pitadas que saibais

da língua toscana topareis com Leão Hebreu, que vos encherá as

medidas. E, se não quereis andar por terras estranhas, em casa tendes

Fonseca, Del amor de Dios, onde se anota tudo o que vós e o mais

engenhoso escritor poderiam desejar em tal matéria. Enfim, nada mais

tendes a fazer que procurar dizer esses nomes, ou aludir na vossa essas

histórias de que falei, deixando a meu cargo escrever as anotações e os

comentários, que vos juro encher as margens e gastar uma resma de

papel no fim do livro.

“Vamos agora à citação dos autores que os outros livros têm, mas

que falta ao vosso. O remédio para isso é muito fácil, porque não haveis de fazer outra coisa que achar um livro que os aponte todos,

desde o A até o Z, como dissestes. Poreis então esse mesmo abecedário

em vosso livro; e, ainda que se veja claramente a mentira, pela falta de

necessidade que tínheis de vos servir de tantos autores, pouco importa,

sem falar que talvez haja alguém tão simplório que acredite que todos

eles tenham sido utilizados em vossa simples e singela história; e, se o

longo catálogo não servir para nada, servirá pelo menos para dar um

imprevisto ar de autoridade ao livro. Além do mais, não haverá quem

se dê ao trabalho de averiguar se os seguistes ou não, não lucrando

nada com isso. Depois, se entendi direito, vosso livro não tem

necessidade de nenhuma daquelas coisas que dizeis que lhe faltam,

porque todo ele é uma invectiva contra os livros de cavalaria, de que

nunca se lembrou Aristóteles, nem disse nada São Basílio, nem pensou

Cícero; também não entram na conta de seus disparates fantasiosos as

minúcias da verdade, nem as observações da astrologia; nem lhe

importam as medidas geométricas, nem a refutação dos argumentos de

quem se serve da retórica, nem tem motivo para fazer sermão a

ninguém, misturando o humano com o divino, combinação de água e

óleo que nenhum espírito cristão deve experimentar.

“Tendes de vos aproveitar da imitação apenas no que fordes

escrevendo, pois, quanto mais perfeita ela for, tanto melhor será vosso

livro. E, como essa vossa escrita não deseja mais que desbancar a

autoridade e a aceitação que os livros de cavalaria têm no mundo e no

gosto do povo, não careceis de andar mendigando frases de filósofos,

conselhos da Sagrada Escritura, fábulas de poetas, orações de

retóricos, milagres de santos, mas sim procurar que, sem pompa, com

palavras expressivas, honestas e bem colocadas, vossas sentenças e

proposições saiam sonoras e festivas, pintando vossa intenção em tudo

que alcançardes e for possível, dando a entender vossos conceitos sem

emaranhá-los e obscurecê-los. Procurai também que, lendo vossa

história, o melancólico se ria, o risonho gargalhe, o tolo não se

aborreça, o inteligente se admire da invenção, o circunspecto não a

despreze nem o ponderado deixe de louvá-la. Enfim, levai a mira posta

na destruição dos descosidos enredos desses livros de cavalaria,

desdenhados por tantos e enaltecidos por muitos mais. Se alcançardes

isso, não tereis alcançado pouco.”

Em total silêncio escutei o que meu amigo dizia, e de tal maneira me

impressionaram as palavras dele que sem discussão as aceitei por boas

e delas mesmas quis fazer este prólogo, onde verás, caro leitor, o tino

de meu amigo, minha boa sorte em achar em tempo conselheiro de

que eu necessitava tanto, e o alívio que sentirás ao encontrar a história

tão sincera e sem rodeios do famoso dom Quixote de la Mancha, de

quem todos os habitantes do campo de Montiel dizem ter sido o mais

casto apaixonado e o mais valente cavaleiro que desde muitos anos até

hoje se viu naquelas paragens. E não quero encarecer o serviço que te

presto ao te apresentar tão nobre e honrado cavaleiro, mas quero que

me agradeças o conhecimento que terás do famoso Sancho Pança, seu

escudeiro, em quem, me parece, te dou a síntese de todas as graças

escudeiris que se encontram espalhadas na enxurrada dos inúteis

livros de cavalaria. E, com isto, Deus te dê saúde e não se esqueça de

mim. Vale.8

 

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