Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 72 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XI

da estranha aventura que aconteceu

ao valoroso dom quixote com o carro

ou carreta das cortes da morte

Pensativo por demais, dom Quixote seguia seu caminho, considerando

a zombaria cruel que os magos tinham feito transformando sua

senhora Dulcineia na figura miserável da camponesa, e não imaginava

de que jeito poderia vê-la de novo com sua aparência verdadeira. Esses

pensamentos o deixavam tão fora de si que, sem sentir, soltou as

rédeas de Roncinante, que, percebendo a liberdade que lhe dava, a

cada passo se detinha para pastar a grama verde que abundava

naqueles campos. Foi tirado desse alheamento por Sancho, que disse:

— Senhor, as tristezas não foram feitas para os animais e sim para os

homens, mas, se os homens se entregam muito a elas, tornam-se

animais: contenha-se vossa mercê, volte a si e pegue as rédeas de

Rocinante, anime-se e desperte, e mostre aquela galhardia que convém

que tenham os cavaleiros andantes. Que diabos se passa? Que

abatimento é esse? Estamos aqui ou no mundo da lua? Que Satanás

carregue todas as Dulcineias da face da terra, pois mais vale a saúde

de um só cavaleiro andante que todos os encantamentos e

transformações da terra.

— Cala-te, Sancho — respondeu dom Quixote com voz não muito

desanimada. — Cala-te, repito, e não digas blasfêmias contra aquela

senhora encantada, que de sua desgraça e desventura apenas eu tenho

a culpa: da inveja que me têm os maus nasceu sua má andança.

— O mesmo digo eu — respondeu Sancho. — Quem a viu e quem a

vê agora: que coração não chora?

— Isso podes dizer com toda razão, Sancho — replicou dom Quixote —, já que a viste na inteireza cabal de sua formosura, pois o

feitiço não chegou a te toldar a vista nem te ocultar a beleza dela:

somente contra mim e contra meus olhos se volta a força de seu

veneno. Mas, apesar disso, me dei conta de uma coisa, Sancho: tu me

pintaste mal sua formosura, porque, se bem me lembro, disseste que

ela tinha os olhos de pérolas, e os olhos que parecem de pérolas são antes de peixe morto que de damas; e, pelo que imagino, os de

Dulcineia devem ser verdes como esmeraldas, rasgados, com dois

arcos celestiais que lhe servem de sobrancelhas; e essas pérolas… tira-

as dos olhos e passa-as para os dentes, que sem dúvida te enganaste,

Sancho, tomando os olhos pelos dentes.

— Pode ser — respondeu Sancho —, porque tanto me perturbou sua

formosura como a vossa mercê sua fealdade. Mas vamos nos

encomendar todos a Deus, que Ele conhece todas as coisas que

deverão acontecer neste vale de lágrimas, neste mundo perverso que

temos, onde mal se acha uma coisa que não esteja misturada com

maldade, embuste e velhacaria. Uma coisa me incomoda mais que

outras, meu senhor, que é pensar que meio deve-se empregar quando

vossa mercê vencer algum gigante ou outro cavaleiro e o mandar que

se apresente diante da formosura da senhora Dulcineia: onde esse

pobre gigante ou esse cavaleiro vencido vai achá-la? Parece até que os

vejo andar por El Toboso feitos umas moscas tontas procurando por

minha senhora Dulcineia, e mesmo que a encontrem no meio da rua não a reconhecerão mais que a meu pai.

— Quem sabe, Sancho — respondeu dom Quixote —, o

encantamento não chegue ao ponto de tirar dos gigantes e cavaleiros

vencidos a faculdade de reconhecer Dulcineia. Com um ou dois dos

primeiros que eu vença e mande se apresentar a ela saberemos se a

veem ou não, ordenando a eles que voltem para me dizer o que

aconteceu.

— Olhe, senhor — replicou Sancho —, pareceu-me certo isso que

vossa mercê disse: com esse artifício saberemos o que desejamos. Mas

se ela só se oculta de vossa mercê, a desgraça será mais de vossa mercê

que de Dulcineia; agora, desde que a senhora Dulcineia tenha saúde e

alegria, nós aqui nos arrumaremos e levaremos a coisa o melhor que

pudermos, buscando nossas aventuras e deixando ao tempo que faça

das suas, pois ele é o melhor remédio para estas e outras doenças

maiores.

Dom Quixote queria responder a Sancho Pança, mas foi atrapalhado

por uma carreta que atravessou a estrada carregando os mais diversos

e estranhos personagens que poderiam se imaginar. Quem guiava as

mulas e servia de carreteiro era um demônio horroroso. A carreta vinha descoberta, sem as laterais e sem toldo. O primeiro personagem

que se ofereceu aos olhos de dom Quixote foi a própria Morte, mas

com rosto humano; perto dela vinha um anjo com asas grandes e

coloridas; a um lado estava um imperador com uma coroa na cabeça,

pelo visto de ouro; aos pés da Morte estava o deus que chamam

Cupido, sem venda nos olhos, mas com seu arco, aljava e flechas.

Vinha também um cavaleiro pronto para o combate, com armadura e

tudo, mas sem morrião ou elmo, e sim com um chapéu cheio de

plumas de diversas cores. Com essas pessoas vinham outras com

rostos e trajes diferentes. Isso tudo, visto de repente, agitou um pouco

dom Quixote e meteu medo no coração de Sancho; mas logo dom

Quixote se alegrou, acreditando que se apresentava uma nova e

perigosa aventura, e com esse pensamento, e o espírito pronto para

enfrentar qualquer perigo, se pôs diante da carreta e disse com voz

alta e ameaçadora:

— Carreteiro, cocheiro ou diabo, ou seja lá o que fores, não demores

para me dizer quem és, aonde vais e quem são essas pessoas que levas em teu coche, que mais parece a barca de Caronte que carreta das que

se usam hoje.

O diabo, parando a carreta, respondeu calmamente:

— Senhor, somos atores da companhia de Angulo, o Mau. Esta

manhã, que é a oitava depois da festa de Corpus Christi,1

apresentamos o auto As cortes da Morte num povoado atrás daquele

morro, e esta tarde devemos apresentá-lo naquele outro povoado que

se avista ali. Assim, por estarmos tão perto e querermos poupar o

trabalho de nos despirmos e nos vestirmos de novo, vamos com os

trajes com que atuamos. Aquele rapaz vai de Morte; o outro, de Anjo;

aquela mulher, que é esposa do diretor, vai de Rainha; o outro, de

Soldado; aquele, de Imperador, e eu, de Demônio, e sou um dos

personagens principais do auto, porque nessa companhia faço os

primeiros papéis. Se vossa mercê deseja saber alguma outra coisa

sobre nós, basta perguntar, que eu responderei com toda exatidão,

pois, como sou demônio, sei de tudo.

— Por minha fé de cavaleiro andante — respondeu dom Quixote —

que, mal vi esse carro, imaginei que me deparava com alguma grande

aventura, e agora me digo que é necessário tocar as aparências com a mão para sair do engano. Ide com Deus, boa gente, para vosso

espetáculo, e vede se ordenais alguma coisa em que eu possa vos servir,

pois a farei de boa vontade, porque desde rapaz fui um aficionado do

palco, e em minha mocidade perdia os olhos atrás das farândolas.

Estando nessa conversa, quis a sorte que chegasse um da companhia

vestido de bufão, com muitos guizos, e na ponta de um pau trazia três

bexigas de vaca cheias de ar. O cômico, aproximando-se de dom

Quixote, começou a esgrimir o pau e bater no chão com as bexigas e a

dar grandes saltos, fazendo tilintar os guizos. Essa visão pavorosa

assustou Rocinante, que, sem que dom Quixote pudesse dominá-lo,

tomou o freio nos dentes e desatou a correr pelo campo com muito

mais rapidez do que jamais prometera sua pobre carcaça. Sancho, que

percebeu o perigo em que seu amo estava, saltou do burro e a toda

pressa foi ajudá-lo; mas, quando se aproximou dele, já havia caído, e

Rocinante estava ao lado, pois fora ao chão com seu amo: fim e

paradeiro comuns dos arroubos e petulâncias de Rocinante.

Mas apenas Sancho deixou sua montaria para socorrer dom Quixote, o demônio dançarino das bexigas saltou sobre o burro e o

fustigou com elas. O medo e o barulho, mais que a dor dos golpes,

fizeram o burro voar pelo campo em direção ao povoado onde haveria

a apresentação. Sancho olhava a carreira de seu burro e o tombo de

seu amo, e não sabia a quem acudir primeiro, mas, como bom

escudeiro e como bom criado, pôde mais o amor por seu senhor que o

carinho pelo jumento, se bem que cada vez que via as bexigas se

levantarem no ar e depois caírem sobre as ancas do burro sentia

sobressaltos e sofrimentos mortais, e preferia antes que aqueles golpes

fossem dados nas meninas de seus olhos a no menor dos pelos do rabo

de seu burro. Com essa perplexa atribulação, chegou aonde estava

dom Quixote bem mais alquebrado do que ele desejaria, e, ajudando-

o a montar em Rocinante, lhe disse:

— Senhor, o Diabo levou meu burro.

— Que diabo? — perguntou dom Quixote.

— O das bexigas — respondeu Sancho.

— Pois vou recuperá-lo — replicou dom Quixote —, nem que se

meta com ele nos mais profundos e escuros calabouços do inferno. Segue-me, Sancho, que a carreta vai devagar, e com as mulas dela

quitarei a perda do burro.

— Não precisa mais tomar essa providência, senhor — respondeu

Sancho. — Vossa mercê contenha sua cólera, que, pelo visto, o Diabo

já largou o burro, pois ele volta ao nosso regaço.

Era a pura verdade, porque o Diabo, depois de cair para imitar dom

Quixote e Rocinante, foi a pé para o povoado, e o burro voltou para o

dono.

— Mas será bom castigar o abuso daquele demônio em algum dos

da carreta — disse dom Quixote —, nem que seja no Imperador.

— Tire vossa mercê isso da cabeça — replicou Sancho —, e ouça

meu conselho: nunca se meta com comediantes, pois é gente

favorecida. Vi ator, preso por duas mortes, sair livre e sem pagar as

custas. Saiba vossa mercê, como são pessoas alegres e de diversão,

todos os protegem, todos os amparam, ajudam e estimam, e mais

ainda se são das companhias autorizadas pelo Conselho Real, pois

todos ou a maioria parecem uns príncipes em seus trajes e modos.

— Mesmo assim — respondeu dom Quixote — não vai me escapar

todo convencido o Demônio comediante, nem que o favoreça todo o

gênero humano.

E, dizendo isso, voltou à carreta, que estava bem perto do povoado,

e disse em grandes brados:

— Detende-vos, esperai, turba alegre e brincalhona, que vos quero

ensinar como devem se tratar os jumentos e outros animais que

servem de montaria aos escudeiros dos cavaleiros andantes.

Tão altos eram os gritos de dom Quixote que os comediantes

ouviram e entenderam; e, julgando pelas palavras a intenção daquele

que as dizia, num instante a Morte saltou da carreta, e atrás dela o

Imperador, o Diabo cocheiro e o Anjo, sem ficar nem a Rainha nem o

deus Cupido, e todos agarraram pedras e se puseram em formação de

ataque, esperando receber dom Quixote na ponta dos pedregulhos.

Dom Quixote, que os viu formados em garboso esquadrão, os braços

levantados prontos para atirar com força as pedras, puxou as rédeas

de Rocinante e ficou pensando em como poderia atacar com menos

perigo para sua pessoa. Nesse instante, chegou Sancho, que, vendo-o

em pose de assalto ao bem formado esquadrão, lhe disse:

— Seria loucura completa tentar essa empresa: considere vossa

mercê, meu senhor, que para chuva de pedras, feita com pulso firme,

não há arma defensiva no mundo exceto se embutir num sino de

bronze. Também deve se considerar que é mais temeridade que

valentia um homem sozinho atacar o exército onde está a Morte e

lutam imperadores em pessoa, a quem ajudam os bons e os maus

anjos. Mas, se esta consideração não o acalmar, acalme-o saber que,

entre todos os que estão ali, embora pareçam reis, príncipes e

imperadores, com certeza não há nenhum cavaleiro andante.

— Agora sim, Sancho — disse dom Quixote —, tocaste no ponto

que pode e deve me demover da decisão que eu já tinha tomado. Não

posso nem devo sacar a espada, como muitas outras vezes te disse,

contra quem não for armado cavaleiro. Cabe a ti, Sancho, se queres te

vingar do agravo que foi feito a teu burro, que daqui eu te ajudarei

com gritos de incentivo e advertências proveitosas.

— Não há motivo para me vingar de ninguém, senhor — respondeu

Sancho —, pois a vingança não é coisa de bons cristãos, sem falar que vou convencer meu burro a pôr sua ofensa nas mãos de minha

vontade, que é viver pacificamente os dias que os céus me derem de

vida.

— Bem — replicou dom Quixote —, se esse é teu propósito, meu

bom Sancho, sábio Sancho, cristão Sancho e sincero Sancho, deixemos

esses fantasmas e vamos de novo em busca de aventuras melhores e

mais qualificadas, pois algo me diz que nesta terra não nos faltarão

muitas e das mais miraculosas.

Em seguida virou as rédeas, Sancho foi pegar o burro e a Morte e

toda a sua tropa volante voltaram para a carreta e prosseguiram

viagem. E, se a aventura assustadora da carreta da Morte teve um

desfecho feliz, graças sejam dadas ao saudável conselho que Sancho

Pança deu a seu amo, a quem, no dia seguinte, aconteceu outra com

um cavaleiro andante e apaixonado, não menos surpreendente que a

passada.

 

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