Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 108 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XLVII

 

onde se continua a contar como sancho pança

se portava em seu governo

Conta a história que do tribunal levaram Sancho Pança a um palácio

suntuoso, onde, numa grande sala, estava posta uma mesa régia e

muito limpa. Mal Sancho entrou ali, soaram charamelas e apareceram

quatro pajens com água para lavar as mãos, que Sancho recebeu com

toda a seriedade.

A música cessou e Sancho se sentou à cabeceira da mesa, porque não

havia outro assento nem outros talheres. A seu lado ficou de pé um

personagem que depois se soube que era médico, com uma vareta feita

com uma barbatana de baleia na mão. Levantaram uma toalha branca

riquíssima com que estavam cobertas as frutas e uma grande

diversidade de pratos com manjares variados. Um dos pajens, que

parecia estudante, abençoou a refeição e outro botou um babeiro com

rendas em Sancho; um terceiro, que agia como mordomo, aproximou

dele um prato de frutas; mas, mal Sancho tinha comido um bocado, o

da barbatana tocou o prato com ela, e o prato foi tirado com grande

rapidez. Então o mordomo aproximou outro prato com outro manjar.

Sancho ia prová-lo, mas, antes que o tocasse ou mesmo que chegasse

perto, já a barbatana tinha batido nele, e um pajem o levou com tanta

pressa como o da fruta. Vendo isso, Sancho ficou surpreso e, olhando

para todos, perguntou se havia de comer como num jogo das cadeiras.

— Não deve comer nada, senhor governador — o da barbatana

respondeu —, que não seja uso e costume nas outras ilhas onde há

governadores. Eu sou médico, senhor, e estou empregado nesta ilha

para tratar dos governadores dela, e olho por sua saúde muito mais

que pela minha, estudando de noite e de dia e sondando a compleição do governador, para poder curá-lo quando cair doente. A coisa

principal que faço é assistir a seus almoços e jantares, para deixá-lo

comer o que me parece conveniente e tirar do senhor o que imagino

que será prejudicial e nocivo ao estômago. Por isso mandei tirar o

prato de frutas, por elas serem úmidas demais, e também mandei tirar

o outro prato por ser quente demais e conter muitas especiarias, coisa que aumenta a sede, e quem bebe muito mata e consome o humor

radical,1 que é a essência da vida.

— Dessa maneira, aquele prato de perdizes assadas que está ali (e,

pelo que vejo, bem temperadas) não vai me prejudicar.

O médico respondeu:

— Essas perdizes o governador não comerá enquanto eu estiver vivo.

— Mas a troco de quê? — disse Sancho.

O médico respondeu:

— Porque nosso mestre Hipócrates, norte e luz da medicina, num

aforismo, disse: Omnis saturatio mala, perdicis autem pessima. Isso

quer dizer: “Toda indigestão é má, mas a da perdiz é péssima”.

— Se é assim, senhor doutor — disse Sancho —, veja entre esses

manjares que estão na mesa qual me fará bem e qual será menos

nocivo, e me deixe comer sem espancar os pratos. Pois eu juro pela

vida do governador, se é que Deus vai me deixar desfrutá-la, que

morro de fome, e me negar a comida, embora pese ao senhor doutor e

por mais que ele me diga, será acabar com minha vida em vez de aumentá-la.

— Vossa mercê tem razão, senhor governador — respondeu o

médico —, de modo que, em minha opinião, vossa mercê não deve

comer daqueles coelhos refogados que estão ali, porque é comida

muito arriscada. Daquela vitela, se não fosse assada e marinada, até

poderia provar, mas assim de jeito nenhum.

E Sancho disse:

— Aquele pratão que está ali fumegando não é uma olha-podrida?

Olhe, pela diversidade de carnes e legumes que há nas olhas-podridas,

não poderei deixar de topar com alguma coisa que me dê prazer e não

me faça mal.

— Absit!2 — disse o médico. — Longe de nós tão mau pensamento:

não há prato mais indigesto no mundo que uma olha-podrida. Fiquem

as olhas-podridas para os cônegos ou para os reitores de colégios ou

para os casamentos na roça, e deixemos livres as mesas dos

governadores, onde tudo deve ser primoroso, feito com todo o

cuidado. A razão disso, em qualquer lugar e para qualquer um, é que

os remédios simples são sempre melhores que os compostos, pois nos

simples não se pode errar, e nos compostos sim, alterando a quantidade das coisas de que são feitos. Mas o que eu sei que o senhor

governador deve comer agora, para conservar a saúde e fortalecê-la, é

um pirão de farinha e umas fatias fininhas de marmelada, que lhe

assentem o estômago e o ajudem na digestão.

Ouvindo isso, Sancho se encostou no espaldar da cadeira e olhou

fixamente o dito médico, e com voz sombria perguntou a ele como se

chamava e onde havia estudado. Ao que ele respondeu:

— Eu, senhor governador, me chamo doutor Pedro Recio de Agüero,

e sou natural de uma aldeia chamada Tirteafuera, que fica entre

Caracuel e Almodóvar del Campo, à direita, e tenho o diploma de

doutor pela Universidade de Osuna.3

Ao que Sancho respondeu, pegando fogo de raiva:

— Pois olhe, senhor doutor Pedro Recio do Mau Agouro, natural de

Tirteafuera, aldeia que fica à direita se vamos de Caracuel a

Almodóvar del Campo, diplomado em Osuna, caia fora já da minha

frente: se não, juro pelo sol que nos ilumina que pego um porrete e

que a porretadas, começando pelo senhor, não vai sobrar um médico em toda a ilha, pelo menos daqueles que eu entenda que são

ignorantes, porque os médicos sábios, sensatos e sensíveis respeitarei

acima de tudo e os honrarei como a pessoas divinas. E repito, vá

embora daqui, senhor Pedro Recio, ou pegarei esta cadeira onde estou

sentado e a despedaçarei em sua cabeça, e me peçam contas disso no

fim de meu mandato, que eu me livrarei ao dizer que fiz um serviço a

Deus ao matar um péssimo médico, verdugo da república. E me

sirvam logo este jantar ou, então, tomem de volta o governo, que

ofício que não dá de comer a seu dono não vale duas favas.

O doutor se perturbou, vendo o governador tão encolerizado, e quis

cair fora da sala, mas naquele instante soou a corneta de um

mensageiro na rua. O mordomo espiou pela janela e voltou, dizendo:

— Mensageiro do duque para meu senhor: deve trazer algum

comunicado importante.

O mensageiro entrou assustado e suando. Tirou do peito uma carta,

que pôs nas mãos do governador, e que Sancho pôs nas do

administrador, a quem ordenou que lesse o sobrescrito, que dizia

assim:

a dom sancho pança,

governador da ilha logratária,

em suas próprias mãos

ou nas de seu secretário.

Ouvindo isso, Sancho disse:

— E quem é meu secretário?

Um dos pajens presentes respondeu:

— Eu, senhor, porque sei ler e escrever. E sou basco.4

— E, de quebra, basco! Bem podeis ser secretário do próprio

imperador — disse Sancho. — Abri essa carta e olhai o que diz.

Foi o que fez o recém-nascido secretário e, tendo lido o que dizia,

disse que era negócio para ser tratado a sós. Sancho mandou esvaziar

a sala, que ninguém ficasse ali exceto o administrador e o mordomo.

Quando o médico e os demais foram embora, o secretário leu a carta,

que dizia assim:

Chegou ao meu conhecimento, senhor dom Sancho Pança, de que

uns inimigos meus e dessa ilha vão tentar um violento ataque uma

noite dessas, não sei qual: convém velar e ficar alerta, para que não

vos peguem desprevenido. Sei também, por espiões confiáveis, que

entraram na aldeia quatro pessoas disfarçadas para vos tirar a vida,

porque temem vossa astúcia: abri o olho e vede quem chega para vos

falar, e não comais de coisas que vos presentearem. Eu terei o

cuidado de vos socorrer se vos virdes em apuros, e em tudo deveis

proceder como se espera de vosso entendimento. Desta aldeia,

dezesseis de agosto, às quatro da manhã.

Vosso amigo

O Duque

Sancho ficou surpreso, e os presentes também. Virando-se para o

administrador, Sancho disse:

— O que deve ser feito agora, e rápido, é meter num calabouço o

doutor Recio, porque se há alguém que quer me matar é ele, e de

morte lenta e horrível, como é a da fome.

— Também acho melhor que o senhor não coma nada de tudo o que

está nesta mesa — disse o mordomo —, porque esses pratos foram

presenteados por umas monjas, e, como se costuma dizer, atrás da

cruz às vezes se esconde o diabo.

— Não nego — respondeu Sancho —, e agora me dê um pedaço de

pão e umas quatro libras de uvas, que nelas não poderá vir veneno. A

verdade é que não posso passar sem comer e, se temos de estar

prontos para essas batalhas que nos ameaçam, é preciso estar bem

alimentados, porque saco vazio não para em pé. E vós, secretário,

respondei ao duque meu senhor que se fará o que manda e como

manda, sem faltar um detalhe. E, de minha parte, deveis beijar as

mãos de minha senhora a duquesa e dizer que lhe suplico que não se

esqueça de mandar um mensageiro com minha carta e minha trouxa

de roupas a minha mulher Teresa Pança, que será um grande favor

para mim, e terei muito cuidado de servi-la com tudo o que minhas

forças permitirem. Bem, de passagem podeis encaixar meus

cumprimentos a meu senhor dom Quixote de la Mancha, para que

veja que não cuspo no prato em que comi. E vós, como bom secretário

e como bom basco, podeis acrescentar tudo o que quiserdes e o que

mais vier a calhar. E tirem essa mesa e me deem de comer, que saberei

pegar de jeito quantos espiões e matadores e magos caírem sobre mim e sobre minha ilha.

Nisso entrou um pajem e disse:

— Está aqui um camponês litigante que quer falar a vossa senhoria

sobre um negócio, segundo ele diz, da maior importância.

— Gente esquisita esses litigantes — disse Sancho. — É possível que

sejam tão burros que não vejam que não se deve vir incomodar com

litígios a uma hora dessas? Por acaso nós que governamos e somos

juízes não somos homens de carne e osso? Não sabem que é preciso

que nos deixem descansar o tempo que a necessidade exige? Ou

esperam que sejamos feitos de mármore? Juro por Deus e por minha

honra que, se o governo me durar, embora eu tenha um palpite

contrário, vou botar nos eixos mais de um demandante. Agora dizei a

esse bom homem que entre, mas vede bem se não é algum dos espiões

ou matadores.

— Não, senhor — respondeu o pajem —, porque parece um anjo.

Ou muito me engano ou ele é bom como pão.

— Não há o que temer — disse o administrador —, pois estamos

todos aqui.

— Seria possível, senhor mordomo — disse Sancho —, que, agora

que o doutor Pedro Recio não está aqui, eu pudesse comer alguma

coisa de peso e sustância, mesmo que fosse um pedaço de pão e uma

cebola?

— Esta noite, na ceia, se resolverá a falta do jantar e vossa senhoria

ficará inteiramente satisfeito — disse o mordomo.

— Queira Deus — respondeu Sancho.

E nisso entrou o camponês, que tinha muito boa presença, e de mil

léguas se notava que era bom e de alma simples. A primeira coisa que

disse foi:

— Quem é o senhor governador?

— Quem poderia ser, senão o que está sentado na cadeira? —

respondeu o secretário.

— Humilho-me, então, diante de sua presença — disse o camponês.

E, caindo de joelhos, pediu a Sancho a mão para beijar. Ele a negou e

mandou que o homem se levantasse e dissesse o que queria. O

camponês obedeceu e disse:

— Eu, senhor, sou camponês, natural de Miguel Turra, uma vila que

está a duas léguas da Ciudad Real.

— Puxa, temos outro Tirteafuera! — disse Sancho. — Continuai,

meu irmão. O que posso garantir é que conheço Miguel Turra muito

bem e que não fica muito longe de minha terra.

— O caso, meu senhor — prosseguiu o camponês —, é que eu, pela

misericórdia de Deus, sou casado no preto e no branco, no cartório e

na santa Igreja Católica Romana; tenho dois filhos estudantes, o

menor será bacharel e o mais velho, licenciado; sou viúvo, porque

minha mulher morreu ou, melhor dizendo, matou-a um mau médico,

que lhe deu purgante quando estava grávida, e se Deus quisesse que

ela desse à luz e fosse um filho, eu poria o menino a estudar para ser

doutor, para não ter inveja de seus irmãos, o bacharel e o licenciado.

— Quer dizer — disse Sancho — que, se vossa mulher não tivesse

morrido, ou não a tivessem matado, agora vós não seríeis viúvo?

— Não, senhor, de jeito algum — respondeu o camponês.

— Estamos bem arrumados! — respondeu Sancho. — Em frente,

meu irmão, que são horas de dormir, não de conversar.

— Bem — disse o camponês —, meu filho que vai ser bacharel se

apaixonou lá na vila mesmo por uma donzela chamada Clara

Perolítica, filha de Andrés Perolítico, camponês riquíssimo. Esse nome,

Perolítico, não vem dos antepassados nem nada, mas porque todos

desta família são paralíticos, e para melhorar o nome se chamam

Perolíticos. Agora, se vamos dizer a verdade, a donzela é realmente

uma pérola oriental, e vista pelo lado direito parece uma flor do

campo; pelo esquerdo nem tanto, porque falta aquele olho, que

perdeu com a varíola. Embora os buracos no rosto sejam muitos e

grandes, dizem os que gostam dela que não são buracos, mas

sepulturas onde se enterram as almas de seus apaixonados. É tão

limpa que, para não sujar o rosto, traz as narinas, como dizem,

arreganhadas, pois não parece senão que estão fugindo da boca. Mas,

apesar de tudo, parece bela ao extremo, porque tem a boca grande e,

se não lhe faltassem uns dez ou doze dentes e molares, poderia se

gabar de deixar as mais bem constituídas comendo poeira lá atrás.

Dos lábios não tenho o que dizer, porque são tão sutis e delicados que, se pudéssemos desfiá-los, se poderia fazer um novelo deles; mas, como

têm uma cor fora do comum, parecem miraculosos, porque são

matizados de azul, verde e roxo. Mas me perdoe, senhor governador,

se vou pintando com tantos detalhes as qualidades daquela que cedo

ou tarde vai acabar sendo minha filha, pois a quero bem e não me

parece feia.

— Pintai o que quiserdes — disse Sancho —, pois vou me recreando

com a pintura. Se tivesse jantado, não haveria melhor sobremesa para

mim que vosso retrato.

— Isso ainda tenho para servir — respondeu o camponês —, mas

tempo virá em que sejamos servidos, se agora não somos. E digo,

senhor, que se pudesse pintar sua estatura e elegância, seria coisa de

espantar, mas não posso, porque ela está curvada e encolhida, e tem os

joelhos na boca, mas mesmo assim demonstra que, se pudesse se

levantar, bateria a cabeça no teto. E ela teria dado a mão como esposa

a meu bacharel, se a pudesse estender, mas está como um gancho. No

entanto, nota-se sua bondade e bom caráter nas unhas longas e

rachadas.

— Muito bem — disse Sancho —, fazei de conta, meu irmão, que já

a pintastes dos pés à cabeça. O que quereis agora? E vamos ao que

interessa, sem conversa fiada, sem tirar nem pôr.

— Gostaria, senhor — respondeu o camponês —, que vossa mercê

me fizesse a mercê de me dar uma carta de recomendação para o sogro

de meu filho, suplicando a ele que aceite que esse casamento se realize,

pois não somos diferentes em bens materiais nem nos espirituais.

Porque, para dizer a verdade, senhor governador, meu filho é possesso,

e não há dia sem que três ou quatro vezes não o atormentem os

espíritos malignos, e, por ter caído uma vez no fogo, tem o rosto

enrugado como um pergaminho e os olhos um tanto chorosos e

remelentos. Mas tem o temperamento de um anjo e, se não tivesse

ataques e esmurrasse a si mesmo, seria um santo.

— Quereis mais alguma coisa, bom homem? — replicou Sancho.

— Sim, mais uma coisa — disse o camponês —, só que não me

atrevo a falar. Mas enfim, vá lá, melhor que não me apodreça no

peito, cole ou não cole. Eu gostaria, senhor, que vossa mercê me desse trezentos ou seiscentos ducados para ajudar no dote de meu bacharel,

sabe, para ajudar a montar sua casa, porque, enfim, devem viver por

si, sem estar sujeitos às impertinências dos sogros.

— Vede se quereis outra coisa ainda — disse Sancho —, e não

deixeis de falar por timidez nem por vergonha.

— Não, com certeza — respondeu o camponês.

E, mal disse isso, o governador se levantou, agarrou a cadeira em

que estava sentado e disse:

— Juro, seu grosso estúpido, que, se não vos afastardes e sumirdes

logo de minha presença, vos quebro e racho a cabeça! Velhaco

fiadaputa, pintor do diabo em pessoa, isso são horas de virdes me

pedir seiscentos ducados? E de onde os tiro, hediondo? E por que eu

vos daria, mesmo que os tivesse, patife e mentecapto? E que me

importa Miguel Turra ou toda a família dos Perolíticos? Desaparecei,

repito, ou, pela vida do duque meu senhor, faço o que prometi! Não

deveis ser de Miguel Turra coisa nenhuma; com certeza algum patife,

para me tentar, vos enviou do inferno. Dizei-me, desalmado, se ainda

não faz um dia e meio que sou governador, como quereis que eu já

tenha seiscentos ducados?

O mordomo fez uns sinais para que o camponês saísse da sala, e ele

saiu cabisbaixo e parecendo com medo de que o governador desse

vazão a sua cólera, pois o velhaco desempenhara muito bem sua parte.

Mas deixemos Sancho com sua cólera, e haja paz e boa vontade

entre os homens, e voltemos a dom Quixote, que deixamos sendo

atendido e com curativos no rosto por causa das feridas gatescas, de

que não sarou em oito dias. Foi num deles que aconteceu ao cavaleiro

o que Cide Hamete Benengeli promete contar com a exatidão e a

meticulosidade com que costuma narrar as coisas desta história, por

mínimas que sejam.

 

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