Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 54 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XLVI

 

da notável aventura dos quadrilheiros

e da grande ferocidade de

nosso bom cavaleiro dom quixote

Enquanto dom Quixote dizia isso, o padre tentava persuadir os

quadrilheiros da falta de juízo dele, como podiam ver por suas ações e

palavras, e de que não tinham por que levar adiante aquele negócio,

pois, mesmo que o prendessem e levassem, logo teriam de soltá-lo por

ser louco. O da ordem de prisão respondeu que não cabia a ele julgar

a loucura de dom Quixote, mas fazer o que seu superior tinha

ordenado e, desde que o prendesse, para ele dava na mesma que o

soltassem trezentas vezes.

— Mas desta vez — disse o padre — não ireis levá-lo, nem ele se

deixará levar, pelo que vejo.

Realmente, tão bem o padre soube falar e tantas loucuras dom

Quixote soube cometer que os quadrilheiros seriam mais loucos ainda

se não notassem os desatinos dele. Assim, acabaram se acalmando por

bem e servindo ainda de mediadores para selar a paz entre o barbeiro

e Sancho Pança, que continuavam brigando com grande rancor. Por

fim, como membros da justiça, eles arbitraram a causa de modo que

ambas as partes ficaram mais ou menos descontentes e mais ou menos

satisfeitas, porque trocaram as albardas, mas não as cinchas e os

cabrestos. E, quanto ao elmo de Mambrino, o padre, às escondidas,

sem que dom Quixote percebesse, deu oito reais por ele, e o barbeiro

lhe passou um recibo em que se comprometia a não reclamar nunca

mais a bacia, para todo o sempre, amém.

Resolvidas então essas duas pendências, que eram as mais

importantes e sérias, faltava que os criados de dom Luís aceitassem a volta de três e que um ficasse para acompanhá-lo aonde dom

Fernando o queria levar. Mas, como a boa sorte havia começado a

quebrar lanças e a resolver as dificuldades em favor dos amantes e dos

valentes da estalagem, quis acabar o serviço e dar a tudo um desfecho

feliz, porque os criados se resignaram ao que dom Luís desejava, coisa que alegrou tanto dona Clara que ninguém que olhasse o rosto dela

naquele momento deixaria de perceber o regozijo de sua alma.

Zoraida, embora não entendesse bem todos os acontecimentos que

havia presenciado, se entristecia e se alegrava ao sabor do momento,

conforme via e notava os rostos de cada um, especialmente de seu

espanhol, de quem não despregava os olhos e tinha a alma pendente.

O estalajadeiro, a quem não passara em branco a recompensa que o

padre havia dado ao barbeiro, incluiu na despesa de dom Quixote o

estrago nos odres e a perda do vinho, jurando que não deixaria

Rocinante sair da estalagem, nem o jumento de Sancho, sem que antes

se pagasse tudo até o último tostão. O padre o acalmou e dom

Fernando o pagou, mesmo que o ouvidor, de muito boa vontade,

também houvesse se oferecido para pagar. Assim, de tal maneira todos

ficaram em paz e harmonia que a estalagem já não parecia o tumulto

do campo de Agramante, como dom Quixote dissera, mas a própria

paz e quietude da época de Otaviano1 — por tudo isso, foi opinião

geral que se deviam agradecer as boas intenções e a grande eloquência do senhor padre e a incomparável prodigalidade de dom Fernando.

Dom Quixote, vendo-se livre e desembaraçado de tantas pendências,

tanto suas como de seu escudeiro, achou por bem continuar a viagem

começada e terminar aquela grande aventura a que tinha sido

chamado e escolhido. Assim, com resoluta determinação, foi se

ajoelhar diante de Doroteia, que não lhe consentiu que falasse uma

palavra até que se levantasse, e ele, para obedecê-la, se levantou e

disse:

— Diz um provérbio conhecido, formosa senhora, que a diligência é

a mãe da boa sorte, e em muitas e graves coisas a experiência mostrou

que a solicitude do negociante leva a desfecho feliz um litígio

duvidoso; mas em coisa nenhuma essa verdade se mostra melhor que

nas coisas da guerra, onde a celeridade e a presteza previnem os

movimentos do inimigo e alcançam a vitória antes que ele fique na

defensiva. Digo isso tudo, nobre e preciosa senhora, porque me parece

que nossa estadia neste castelo já não tem serventia e até poderia nos

ser muito prejudicial, como talvez vejamos algum dia, pois quem sabe

se através de espiões ocultos e diligentes nosso inimigo, o gigante, já

não foi informado de que eu vou destruí-lo e, se o tempo for suficiente, poderá se abrigar em algum castelo inexpugnável ou

fortaleza, onde valessem pouco meus empenhos e a força de meu

braço incansável? Então, minha senhora, como já disse, antecipemo-

nos aos desígnios dele com nossa diligência, e partamos logo para a

boa ventura, que vossa grandeza não demorará mais em tê-la como

deseja do que eu demorarei em me bater com vosso adversário.

Dom Quixote se calou e nada mais disse — esperou com muita

calma a resposta da formosa infanta, que, com maneira senhoril e

ajustada ao estilo de dom Quixote, respondeu assim:

— Eu vos agradeço, senhor cavaleiro, o desejo que mostrais possuir

de me socorrer em minha grande aflição, como bom cavaleiro a quem

cabe e concerne socorrer os órfãos e desvalidos, e queira o céu que o

vosso e o meu desejo se cumpram, para que vejais que há mulheres

agradecidas no mundo. Quanto a minha partida, que seja logo, pois

não tenho mais vontade que a vossa: disponde de mim como vos

aprouver, que aquela que uma vez vos entregou a defesa de sua pessoa

e pôs em vossas mãos a restauração de seus domínios não deve querer ir contra o que vossa prudência ordenar.

— Com a graça de Deus — disse dom Quixote. — Como vossa

senhoria se humilha diante de mim, não quero perder a oportunidade

de levantá-la e pô-la no trono que herdou. Que a partida seja

imediata, porque, como se costuma dizer que na demora está o perigo,

me esporeia o desejo de me pôr a caminho. E, como o céu não criou

nem o inferno viu ninguém que me espante nem acovarde, encilha o

Roncinante, Sancho, e prepara teu jumento e o palafrém da rainha. E

agora digamos adeus ao castelão e a esses senhores e vamos embora de

uma vez.

Sancho, que presenciara tudo, meneou a cabeça de um lado para

outro e disse:

— Ai, ai, ai, ai, senhor, há mais mal na vilinha do que diz a vizinha,

diga-se com perdão das honradas… cortesãs.

— Que mal pode haver em qualquer vila, ou em todas as cidades,

que possa ser dito contra mim, seu desgraçado?

— Se vossa mercê se aborrece — respondeu Sancho —, vou me calar:

não direi o que sou obrigado como bom escudeiro e como deve um

bom criado dizer a seu amo.

— Diz o que quiseres — replicou dom Quixote —, porque tuas

palavras não me metem medo: se tens medo, ages como quem és; se eu

não tenho, ajo como quem sou.

— Não é nada disso, pelo amor de Deus! — respondeu Sancho. — É

que eu tenho por certo e comprovado que essa senhora que se diz do

grande reino Micomicão não é mais rainha que minha mãe, porque se

fosse não andaria pelos cantos se beijocando com um dos presentes.

Doroteia ficou vermelha ao ouvir as palavras de Sancho, porque era

verdade que seu esposo dom Fernando, algumas vezes, às escondidas

de outros olhos havia colhido com os lábios parte do prêmio que

mereciam seus desejos, o que Sancho tinha visto e achado que aquela

faceirice era mais própria de dama cortesã que de rainha de um reino

tão grande. Então Doroteia não pôde nem quis responder o que

Sancho havia dito, deixando-o continuar aquela conversa, e ele foi

dizendo:

— Digo isso, senhor, porque se depois de ter batido muitas estradas e

caminhos, ter passado noites ruins e dias piores ainda, o fruto de nossos trabalhos será colhido por quem está se divertindo aqui na

estalagem, não há por que ter pressa de encilhar Rocinante, preparar o

jumento e aprontar o palafrém, pois será melhor ficarmos quietos, e

que cada puta trate de sua vida, e vamos comer em paz.

Oh, valha-me Deus! Com que fúria dom Quixote ouviu as palavras

insolentes de seu escudeiro! Digo que foi tanta que, gago e confuso,

lançando fogo vivo pelos olhos, disse:

— Oh, canalha miserável, seu merda, indecente, ignorante, bruto,

linguarudo, abusado, caluniador e mexeriqueiro! Tens a ousadia de

dizer essas palavras em minha presença e na destas ínclitas senhoras?

Tens a ousadia de meter em tua mente confusa essas injúrias e

indecências? Some de minha presença, aborto da natureza, depósito de

mentiras, fosso de embustes, celeiro de velhacarias, inventor de

maldades, divulgador de tolices, inimigo do decoro que se deve às

pessoas reais! Vai-te, e nunca mais me apareças, sob pena de provocar

minha ira!

E, dizendo isso, arqueou as sobrancelhas, inchou as bochechas,

olhou para todos os lados e deu com o pé direito uma grande pancada

no chão — sinais da fúria que lhe queimava as entranhas. A essas palavras e atitudes furibundas, Sancho ficou tão encolhido e medroso

que seria um alívio se naquele instante a terra se abrisse debaixo de

seus pés e o tragasse, e não soube o que fazer, exceto dar as costas e

sumir da presença raivosa de seu amo. Mas a atilada Doroteia, que

compreendia muito bem o gênio de dom Quixote, disse, para acalmá-

lo:

— Não vos indigneis, senhor Cavaleiro da Triste Figura, com as

tolices que vosso bom escudeiro disse, pois talvez não as diga sem

motivo. Nem de seu bom discernimento e consciência cristã pode se

suspeitar que levante falso testemunho contra ninguém; pelo

contrário, devemos acreditar sem dúvida nenhuma, porque como neste

castelo, segundo dizeis, senhor cavaleiro, todas as coisas correm e

ocorrem por obra de encantamentos, Sancho poderia muito bem ter

visto por esse ângulo diabólico o que ele diz ter presenciado, que é tão

ofensivo a minha virtude.

— Juro pelo Deus onipotente que vossa grandeza acertou o alvo —

disse nessas alturas dom Quixote —, e que alguma visão nefasta cortou mesmo o caminho de nosso pecador Sancho e o fez ver o que

seria impossível exceto por encantamentos, pois conheço bem a

bondade e a inocência desse desgraçado que não sabe levantar falso

testemunho contra ninguém.

— É isso mesmo — disse dom Fernando. — Então vossa mercê, dom

Quixote, deve perdoá-lo e trazê-lo de volta ao seio de vossa

indulgência, sicut erat in principio,2 antes que as visões o façam perder

o juízo.

Dom Quixote respondeu que o perdoava, e o padre foi buscar

Sancho, que veio muito humilde e, ajoelhando-se, pediu a mão de seu

amo. Ele a deu e, depois de tê-la deixado beijar, deu a bênção ao

escudeiro, dizendo:

— Agora enfim tu compreendes, Sancho, meu filho, que é verdade

tudo o que te disse outras vezes sobre as coisas deste castelo serem

obras de encantamento.

— É o que eu acho — disse Sancho —, exceto pelo negócio da

manta, que certamente foi obra da realidade.

— Não acredite nisso — respondeu dom Quixote —, pois, se fosse

assim, eu teria te vingado então, ou vingaria agora mesmo. Mas nem então nem agora vi em quem vingar teu ultraje.

Todos quiseram saber que negócio era esse da manta, e o

estalajadeiro lhes contou tintim por tintim as acrobacias aéreas de

Sancho Pança, de que não se riram pouco, e de que não menos se

envergonharia Sancho se seu amo não lhe garantisse de novo que era

tudo encantamento, embora a estupidez de Sancho não chegasse ao

ponto de não acreditar que a verdade pura e simples, sem dose

nenhuma de engano, era que tinha sido jogado com a manta por

pessoas de carne e osso, não por fantasmas sonhados ou imaginados,

como seu senhor pensava e afirmava.

Fazia dois dias que aquele grupo ilustre estava na estalagem; e,

parecendo a todos que já era tempo de partir, buscaram uma maneira

para que o padre e o barbeiro pudessem levar dom Quixote como

desejavam até sua terra e lá tentar curá-lo de sua loucura, sem que

Doroteia e dom Fernando se dessem ao trabalho de acompanhá-lo,

com a mentira da liberdade da rainha Micomicona. E o que fizeram

foi combinar com o dono de um carro de bois, que por acaso passava por ali, para que o levasse numa espécie de jaula que tinham

construído, com grades de pau, onde dom Quixote podia caber

folgadamente. Depois dom Fernando e seus companheiros, com os

criados de dom Luís, os quadrilheiros e mais o estalajadeiro — todos

sob as ordens e orientação do padre — se disfarçaram cada um de um

jeito, com os rostos cobertos, para que dom Quixote não pensasse que

se tratava das pessoas que tinha visto no castelo.

Então, em grande silêncio, entraram onde ele descansava das

refregas passadas. Aproximando-se dele, que dormia livre e

despreocupado com aqueles acontecimentos, agarraram-no à força,

amarrando muito bem as mãos e os pés, de modo que quando ele

acordou assustado não pôde se mexer nem fazer outra coisa que ficar

pasmo ao ver diante de si caras tão estranhas. Mas logo estava às

voltas com o que sua incessante e desvairada imaginação criava:

pensou que todas aquelas figuras eram fantasmas do castelo e que sem

dúvida nenhuma já estava encantado, pois não podia se mexer nem se

defender — exatamente como o padre, o maquinador daquela

tramoia, pensara que aconteceria. Apenas Sancho, de todos os

presentes, estava em seu próprio juízo e com sua própria estampa. Mas ele, embora estivesse perto de sofrer da mesma doença do amo,

não deixou de reconhecer quem eram todas aquelas pessoas

disfarçadas. Não ousou, porém, abrir o bico, até ver em que ia dar

aquele ataque e prisão de seu senhor, que também não dizia uma

palavra, à espera do desfecho de sua desgraça — que foi meterem-no

na jaula, quando a trouxeram e pregaram as grades tão fortemente

que não poderiam ser arrancadas nem com mil puxões.

Em seguida carregaram a jaula nos ombros, e, quando saíam do

aposento, se ouviu uma voz tenebrosa — tanto quanto o conseguiu o

barbeiro, não o da albarda, mas o outro — que dizia:

— Oh, Cavaleiro da Triste Figura! Não te mortifique a prisão em

que vais, pois assim convém ao término mais célere da aventura em

que tua grande valentia te pôs. Ela acabará quando o furibundo leão

manchado e a pomba branca tobosina se tornarem um, depois de

humilhadas as nobres cervizes ao brando jugo matrimonial, de cujo

inaudito consórcio sairão à luz do orbe os bravos filhotes que imitarão

as garras rompantes do pai valoroso; e isto ocorrerá antes que o perseguidor da ninfa fugitiva visite por duas vezes as imagens

brilhantes em seu curso rápido e natural.

“E tu, o mais nobre e obediente escudeiro que teve espada na

cintura, barbas no rosto e olfato nas ventas, não te desanime nem te

descontente ver assim diante de teus próprios olhos a flor da cavalaria

andante, pois logo, se for desejo de quem moldou o mundo, te verás

tão nobre e louvado que nem te reconhecerás, e não serão frustradas

as promessas que te fez teu bom senhor; e te garanto, de parte da

maga Mentironiana, que teu salário será pago conforme teu trabalho,

como verás; e segue as pegadas do cavaleiro valente e encantado, pois

convém ires até o fim da jornada. E, como não me é lícito dizer mais

nada, fica com Deus, que eu sei para onde volto.”

E, ao fim da profecia, elevou o tom da voz e depois a diminuiu tão

docemente que até mesmo os que conheciam a farsa estiveram a ponto

de acreditar que era verdade o que ouviam.

Dom Quixote se sentiu consolado com a profecia, porque

rapidamente compreendeu todo o significado dela: prometiam que se

veria unido em santo e devido matrimônio com sua querida Dulcineia

del Toboso, de cujo feliz ventre sairiam os filhotes, que eram seus filhos, para a glória perpétua da Mancha; e, acreditando piamente

nisso, deu um grande suspiro e disse, levantando a voz:

— Oh, tu, quem quer que sejas, que tanto bem me profetizaste!

Rogo-te que peças de minha parte ao mago que se encarrega de

minhas coisas que não me deixe perecer nesta prisão onde agora me

levam, até ver cumpridas promessas tão alegres e incomparáveis como

as que aqui me fizeram. Pois, se assim for, terei por glória as aflições

de meu cárcere, por alívio estas correntes que me cingem e não por

duro campo de batalha este catre em que me deitam, mas por cama

macia ou tálamo feliz. E, quanto ao consolo de Sancho Pança, meu

escudeiro, eu confio em sua generosidade e bom comportamento: ele

não me deixará nem durante a boa nem a má sorte, porque, se devido

à dele ou à minha pouca sorte, eu não puder lhe dar a ilha ou outra

coisa equivalente que prometi, pelo menos seu salário não poderá se

perder, pois em meu testamento, que já está feito, deixo registrado o

que se deve dar a ele, não conforme seus muitos e bons serviços, mas

conforme minhas possibilidades.

Sancho Pança se inclinou com muita compostura e lhe beijou ambas

as mãos — uma só não poderia, pois estavam amarradas.

Em seguida aqueles fantasmas levaram a jaula nos ombros e

acomodaram-na no carro de bois.

 

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