Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 79 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XVIII

do que aconteceu a dom quixote no castelo

ou casa do cavaleiro do

gabão verde, com outras coisas extravagantes

Dom Quixote achou a casa de dom Diego de Miranda ampla como

todas as de aldeia. Mas o brasão, embora de pedra tosca, ficava em

cima da porta da rua; a adega, no pátio; a despensa, num porão logo à

entrada, e em volta muitos potes de barro, que, por serem de El

Toboso, reavivaram as memórias de sua encantada e transformada

Dulcineia. Suspirando, sem pensar no que dizia nem diante de quem

estava, disse:

Oh, doces prendas, por mim mal achadas,

doces e alegres quando Deus queria!1

“Oh, potes de El Toboso, que me trouxestes à memória a doce prenda

de minha maior amargura!”

O estudante poeta filho de dom Diego ouviu-o dizer isso, pois havia

saído com sua mãe para recebê-lo — e mãe e filho ficaram surpresos

ao ver a estranha figura. Dom Quixote, apeando de Roncinante, foi

com muita cortesia pedir as mãos da dona da casa para beijá-las,

enquanto dom Diego disse:

— Recebei, senhora, com vossa habitual amabilidade ao senhor dom

Quixote de la Mancha, que é quem tendes a vossa frente, cavaleiro

andante, e o mais corajoso e o mais sábio que há no mundo.

A senhora, que se chamava dona Cristina, recebeu-o com

demonstrações de muito afeto e cortesia, e dom Quixote ofereceu seus

préstimos com toda consideração e deferência. Disse quase as mesmas

palavras ao estudante, que, ao ouvir dom Quixote, considerou-o

inteligente e sensato.

Aqui o autor pinta todos os detalhes da casa de dom Diego,

descrevendo-nos o que contém a morada de um camponês rico, mas o

tradutor achou melhor deixar essas e outras ninharias semelhantes em

silêncio, porque não se ajusta bem ao propósito principal desta

história, que tem sua maior força na verdade que nas frias digressões.

Levaram dom Quixote a uma sala, Sancho tirou a armadura dele,

deixando-o de calções largos e gibão de camurça, todo sujo de

ferrugem, com gola valona, sem goma nem rendas, à moda estudantil;

os borzeguins eram marrons e os sapatos, encerados. Cingiu sua leal

espada, que pendia de um talim de pele de lobo-marinho, pois,

segundo dizem, por muitos anos esteve doente dos rins;2 depois se

cobriu com uma capa de boa flanela parda. Mas, antes de mais nada,

com cinco ou seis baldes de água — pois há divergência sobre a

quantidade de baldes — lavou a cabeça e o rosto, deixando a água cor

de soro, graças à gulodice de Sancho e à compra de seus negros

requeijões, que tão branco deixaram seu amo. Com os referidos

atavios e com as maneiras graciosas e galantes, dom Quixote foi para

outra sala, onde o estudante o esperava para entretê-lo enquanto

punham a mesa, pois, devido à presença de tão nobre hóspede, a

senhora dona Cristina queria mostrar que sabia e podia receber

quantos chegassem a sua casa.

Enquanto dom Quixote esteve tirando a armadura, dom Lorenzo, que assim se chamava o filho de dom Diego, teve oportunidade de

dizer a seu pai:

— Quem poderá ser esse cavaleiro, senhor, que vossa mercê trouxe

para nossa casa? Pois o nome, a aparência e a afirmação de que é

cavaleiro andante nos deixaram surpresos, a mim e a minha mãe.

— Olha, meu filho, não sei o que dizer — respondeu dom Diego —,

exceto que o vi fazer as coisas mais loucas do mundo e dizer coisas tão

sensatas que apagam e desmentem seus feitos. Mas fala com ele, avalia

o que ele sabe e, como és perspicaz, formarás tua opinião sobre qual

deles é superior, seu bom senso ou sua estupidez, embora eu o

considere, para te dizer a verdade, mais louco que sensato.

Depois disso, dom Lorenzo foi entreter dom Quixote, como foi dito,

e, entre outras conversas que os dois tiveram, dom Quixote disse a

dom Lorenzo:

— O senhor dom Diego de Miranda, seu pai, me deu notícia da rara

habilidade e do sutil engenho que vossa mercê tem, mas,

principalmente, de que vossa mercê é um grande poeta.

— Poeta, pode ser — respondeu dom Lorenzo —, mas grande, nem

em sonhos. É verdade que sou um tanto afeiçoado à poesia e a ler bons poetas, mas não a ponto de que se possa me chamar de grande

como disse meu pai.

— Não me parece má essa humildade — respondeu dom Quixote —,

porque não há poeta que não seja arrogante e pense de si mesmo que é

o maior poeta do mundo.

— Não há regra sem exceção — respondeu dom Lorenzo —, e deve

haver algum que o seja e não pense.

— Poucos — respondeu dom Quixote. — Mas me diga que versos

tem agora entre as mãos, pois o senhor seu pai me disse que trazem

vossa mercê um tanto preocupado e pensativo? Se os versos são

alguma glosa, eu gostaria de conhecê-los, porque entendo um pouco

da arte. Agora, se são de um torneio literário, procure vossa mercê

ganhar o segundo prêmio: o primeiro sempre é dado como um favor

ou devido à posição da pessoa; o segundo é dado apenas por justiça, e

o terceiro vem a ser o segundo, e o primeiro, por essa conta, será o

terceiro, à maneira das qualificações que dão nas universidades. Mas,

apesar de tudo, a palavra “primeiro” sempre faz grande figura.

“Até agora — dom Lorenzo disse a si mesmo — não posso julgá-lo

louco. Vamos em frente.” E disse a dom Quixote:

— Parece-me que vossa mercê frequentou a universidade: que

ciências estudou?

— A da cavalaria andante — respondeu dom Quixote —, que é tão

boa como a poesia, ou dois dedinhos mais.

— Não sei que ciência é essa — replicou dom Lorenzo —, e até

agora não tive notícias dela.

— É uma ciência — replicou dom Quixote — que encerra em si

todos ou a maioria dos conhecimentos do mundo, porque quem a

professa deve ser jurisconsulto e conhecer as leis da justiça distributiva

e comutativa, para dar a cada um o que é seu e o que lhe convém;

deve ser teólogo, para poder discorrer sobre a lei cristã que professa,

clara e distintamente, onde quer que lhe for pedido; deve ser médico,

principalmente herborista, para reconhecer no meio dos campos e

ermos as ervas que têm a virtude de curar as feridas, pois um cavaleiro

não pode andar a todo instante em busca de quem o trate; deve ser

astrólogo, para conhecer, pelas estrelas, que horas são da noite e em

que lugar e em que clima do mundo se acha; deve saber matemática, porque a cada passo tem necessidade dela; e, deixando de lado que

deve estar adornado de todas as virtudes teologais e cardinais,

descendo a outras minúcias, digo que deve saber nadar como nadava

o peixe Nicolás ou Nicolau;3 deve saber ferrar um cavalo e consertar a

sela e o freio, e, voltando às coisas mais elevadas, manter a fé em Deus

e em sua dama; deve ter pensamentos castos, palavras honestas,

atitudes generosas, ser valente nas façanhas, resignado com seus

padecimentos, caritativo com os necessitados e, por fim, ser um

defensor da verdade, mesmo que lhe custe a vida lutar por ela. De

todas essas grandes e mínimas qualidades se compõe um bom

cavaleiro andante. Então, senhor dom Lorenzo, veja vossa mercê se os

saberes que um cavaleiro estuda e pratica são coisas de criança, ou se

podem ser igualados aos mais nobres que se ensinam nas escolas e

universidades.

— Bem, se for assim — replicou dom Lorenzo —, eu digo que essa

ciência leva vantagem a todas as outras.

— Como se for assim? — respondeu dom Quixote.

— O que quero dizer — disse dom Lorenzo — é que tenho dúvidas

de que tenham existido, nem existam agora, cavaleiros andantes e

adornados de tantas virtudes.

— Muitas vezes eu disse — respondeu dom Quixote — o que volto a

repetir agora: que a maior parte das pessoas é de opinião de que não

houve cavaleiros andantes no mundo; e por me parecer que, se o céu

milagrosamente não mostra a essas pessoas a verdade de que existiram

e que existem, qualquer esforço meu é inútil, como muitas vezes me

mostrou a experiência. Assim sendo, não quero me deter agora em

tirar vossa mercê do erro que compartilha com muitos; o que penso

fazer é rogar ao céu que o tire dele e o faça compreender o quanto

foram proveitosos e necessários ao mundo os cavaleiros andantes dos

séculos passados, e o quanto seriam úteis no presente se estivessem em

voga; mas agora, devido à vida de pecado das pessoas, triunfam a

preguiça, a ociosidade, a gula e a luxúria.

“Agora nosso hóspede desembestou”, disse a si mesmo dom Lorenzo

nessas alturas. “Mas, apesar de tudo, é um louco bizarro, e eu seria

um idiota rematado se não pensasse assim.”

Aqui acabou a conversa deles, porque foram chamados para o

almoço. Dom Diego perguntou ao filho o que tinha tirado a limpo

sobre o estado da mente do hóspede. Ele respondeu:

— Nem todos os médicos ou escrivães poderão passar a limpo o

rascunho de sua loucura, mas não é um louco varrido, pois tem

muitos momentos de lucidez.

Foram almoçar, e a comida era como dom Diego havia dito na

estrada que costumava oferecer a seus convidados: limpa, farta e

saborosa. Mas o que mais prazer deu a dom Quixote foi o

maravilhoso silêncio que havia em toda a casa, que se parecia com um

mosteiro de cartuxos. Depois de tirada a mesa e dadas graças a Deus e

água às mãos, dom Quixote pediu veementemente a dom Lorenzo que

declamasse os versos da competição literária, ao que ele respondeu:

— Para não me parecer com aqueles poetas que se negam, quando

lhes pedem que digam seus versos, mas os vomitam quando não lhes

pedem, eu declamarei minha glosa, da qual não espero prêmio algum,

pois a fiz apenas para exercitar o espírito.

— Um amigo e sábio — respondeu dom Quixote — era de opinião

que ninguém devia se cansar escrevendo glosas de versos, porque,

dizia ele, a glosa jamais podia chegar ao texto, e que muitas ou na

maioria das vezes saía fora da intenção e propósito do que se pedia

que se glosasse, e mais, que as leis da glosa eram demasiadamente

estreitas, que não suportavam interrogações, nem “disse”, nem

“direi”, nem substantivar verbos, nem mudar o sentido, com outras

amarras e acanhamentos com que se manietam os que glosam, como

vossa mercê deve saber.

— Realmente, senhor dom Quixote — disse dom Lorenzo —, eu

gostaria de pegar vossa mercê num deslize, mas não consigo, porque

me escapa das mãos como uma enguia.

— Não entendo o que vossa mercê disse nem o que quer dizer —

respondeu dom Quixote — com isso de deslizes e enguias.

— Logo eu me explicarei — respondeu dom Lorenzo —, mas por

ora preste vossa mercê atenção aos versos glosados e à glosa, que

dizem assim:

Se meu foi voltasse a é,

sem esperar mais será,

ou viesse o tempo já

do que será depois…!

glosa

Enfim, como tudo passa,

passou o bem que me deu

fortuna, por um tempo nada escassa,

e nunca voltou a mim,

nem abundante nem em gotas.

Há séculos que já me vês,

fortuna, atirado a teus pés:

torna-me a ser venturoso

que meu ser será ditoso

se meu foi voltasse a é.

Não quero outro prazer ou glória,

outra palma ou conquista,

outro triunfo, outra vitória,

mas voltar à alegria

que é dor em minha memória.

Se tu me devolveres para lá,

fortuna, apagado está

todo o rigor de meu fogo,

mais ainda se este bem vir logo,

sem esperar mais será.

Coisas impossíveis peço,

pois voltar o tempo a ser

depois que foi uma vez

não há na terra poder

que tenha chegado a tanto.

Corre o tempo, voa e vai

ligeiro, e não voltará,

e erraria quem pedisse

que o tempo já se fosse

ou viesse o tempo já.

Viver em perplexa vida,

ora esperando, ora temendo,

é morte bem conhecida,

e é muito melhor, morrendo,

buscar à dor uma saída.

Por mim escolheria

morrer, mas não posso,

pois, com melhores razões,

me dá a vida o temor

do que será depois.a

Quando dom Lorenzo acabou de declamar sua glosa, dom Quixote

se pôs de pé e apertou-lhe a mão direita, dizendo em voz tão alta que

parecia um grito:

— Certo como Deus está lá no alto, meu nobre rapaz, sois o melhor

poeta do orbe, e mereceis ser laureado, não por Chipre nem por

Gaeta, como disse um poeta, que Deus o perdoe, mas pelas academias

de Atenas, se ainda existissem, e pelas que existem hoje em Paris,

Bolonha e Salamanca! Roguemos aos céus que os juízes que vos

roubarem o primeiro prêmio sejam flechados por Febo, e que as musas jamais ultrapassem os umbrais de suas casas. Agora, senhor, se vos

agradar, recitai-me alguns hendecassílabos, pois quero sentir o pulso

de vosso admirável engenho em todo o seu alcance.

Não é ótimo que dom Lorenzo tenha se rejubilado ao ouvir os

elogios de dom Quixote, mesmo o considerando louco? Oh, força da

adulação, até onde vais, e quanto são dilatados os limites de teus

aprazíveis domínios! Dom Lorenzo confirmou essa verdade, pois

atendeu ao pedido e desejo de dom Quixote, declamando este soneto

para a fábula ou história de Píramo e Tisbe:

soneto

Rompe a parede a donzela formosa

que abriu o galhardo peito de Píramo;

parte de Chipre o Amor e vai direto

ver a fresta estreita e prodigiosa.

Ali fala o silêncio, porque não ousa

a voz entrar por fenda tão estreita;

as almas sim, pois o amor costuma

facilitar a coisa mais difícil.

O desejo saiu da linha, e o passo

da imprudente virgem solicita,

por seu prazer, sua morte. Vede que história:

a ambos, num instante, oh, estranho caso!,

mata, sepulta e ressuscita

uma espada, um sepulcro, uma memória.b

— Abençoado seja Deus — disse dom Quixote depois de ouvir o

soneto de dom Lorenzo —, pois, entre a infinidade de poetas

consumidos que há por aí, enfim vi um poeta consumado como vossa

mercê, meu senhor: assim me revela a habilidade com que compôs esse

soneto!

Dom Quixote esteve quatro dias refesteladíssimo na casa de dom

Diego, ao fim dos quais pediu licença para ir embora, dizendo que lhe

agradecia a mercê e o bom tratamento que havia recebido, mas, por

não ser bom que os cavaleiros andantes se entreguem por muitas horas

ao ócio e à boa vida, gostaria de ir cumprir com seu ofício, buscando

aventuras, que, pelo que sabia, eram abundantes naquela terra, onde esperava passar o tempo até que chegasse o dia das justas em

Zaragoza, que era o destino de sua viagem. Primeiro haveria de entrar

na caverna de Montesinos, de que tantas e tão admiráveis coisas se

contavam por aquelas bandas, investigando e descobrindo também o

nascimento e os verdadeiros mananciais das sete lagoas chamadas

vulgarmente de Ruidera.4 Dom Diego e seu filho elogiaram sua

honrosa determinação e lhe disseram que pegasse em sua casa e em

sua fazenda tudo o que desejasse, que lhe serviriam na medida do

possível, pois a isso os obrigava o valor de sua pessoa e sua nobre

profissão.

Chegou então o dia de sua partida, tão alegre para dom Quixote

como triste e aziaga para Sancho Pança, que se sentia muito bem com

a abundância da casa de dom Diego e renegava voltar à fome que se

passa nas florestas e nos despovoados e à austeridade de seus mal

providos alforjes, que, apesar de tudo, encheu até a boca do que mais

achou necessário. Ao se despedir, dom Quixote disse a dom Lorenzo:

— Não sei se falei antes a vossa mercê, mas, se lhe falei, repito

agora: quando vossa mercê quiser poupar caminho e trabalho para

chegar ao inacessível topo do templo da Fama, não tem de fazer mais nada além de deixar de lado a trilha da poesia, um tanto estreita, e

tomar a estreitíssima trilha da cavalaria andante, que basta para fazê-

lo imperador num piscar de olhos.

Com essas palavras, dom Quixote acabou de encerrar o processo

contra sua loucura, e mais ainda com as que acrescentou, ao dizer:

— Sabe Deus que eu gostaria de levar comigo o senhor dom

Lorenzo, para lhe ensinar como se perdoa os oprimidos e como se

submete e se humilha os soberbos, virtudes inerentes a minha

profissão. Mas, como não o permite sua pouca idade nem admitem

suas louváveis atividades, me contento apenas em avisar vossa mercê

de que, sendo poeta, poderá ser famoso caso se guie mais pela opinião

alheia que pela própria, porque não há pai nem mãe a quem seus

filhos pareçam feios, e esse engano mais acontece em relação aos filhos

da mente.

Pai e filho se admiraram de novo das entrelaçadas palavras de dom

Quixote, ora sensatas, ora disparatadas, e da mania que tinha de se

agarrar a todo momento à busca de suas desventuradas aventuras, que tinha por meta e alvo de seus desejos. Reiteraram-se as ofertas e

cortesias, e, com a boa licença da senhora do castelo, dom Quixote e

Sancho partiram, montados em Rocinante e no burro.

*** ¡Si mi fue tornase a es,/ sin esperar más será, o viniese el tiempo ya/ de lo que será después…! — Glosa — Al fin, como todo pasa,/ se pasó el bien que me dio/ fortuna, un tiempo no escasa,/ y nunca me le volvió,/ ni abundante ni por tasa./ Siglos ha ya que me ves,/ fortuna, puesto a tus pies:/ vuélveme a ser venturoso,/ que será mi ser dichoso/ si mi fue tornase a es.// No quiero otro gusto o gloria,/ otra palma o vencimiento,/ otro triunfo, otra victoria,/ sino volver al contento/ que es pesar en mi memoria./ Si tú me vuelves allá,/ fortuna, templado está/ todo el rigor de mi fuego,/ y más si este bien es luego,/ sin esperar más será.// Cosas imposibles pido,/ pues volver el tiempo a ser/ después que una vez ha sido/ no hay en la tierra poder/ que a tanto se haya extendido./ Corre el tiempo, vuela y va/ ligero, y no volverá,/ y erraría el que pidiese,/ o que el tiempo ya se fuese/ o viniese el tiempo ya.// Vivir en perpleja vida,/ ya esperando, ya temiendo,/ es muerte muy conocida,/ y es mucho mejor muriendo/ buscar al dolor salida./ A mí me fuera interés/ acabar, mas no lo es,/ pues, con discurso mejor,/ me da la vida el temor/ de lo que será después.

**** Soneto — El muro rompe la doncella hermosa/ que de Píramo abrió el gallardo pecho;/ parte el Amor de Chipre y va derecho/ a ver la quiebra estrecha y prodigiosa.// Habla el silencio allí, porque no osa/ la voz entrar por tan estrecho estrecho;/ las almas sí, que amor suele de hecho/ facilitar la más difícil cosa.// Salió el deseo de compás, y el paso/ de la imprudente virgen solicita/ por su gusto su muerte. Ved qué historia:// que a entrambos en un punto, ¡oh extraño caso!,/ los mata, los encubre y resucita/ una espada, un sepulcro, una memoria.

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