Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 22 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XIV

onde se transcrevem os versos

desesperados do pastor morto, com outros acontecimentos

inesperados

canção de grisóstomo

Já que queres, cruel, que se divulgue

de língua em língua, entre toda gente

a força de tua brutal severidade,

farei com que o próprio inferno comunique

ao meu triste peito um som dolente,

que distorça o tom normal de minha voz.

E junto de meu desejo, que se esforça

para dizer minha dor e tuas façanhas,

da espantosa voz irá o canto,

e nele mesclados, para maior tormento,

pedaços das míseras entranhas.

Escuta, pois, com atento ouvido,

não ao melodioso som, mas ao ruído

que do fundo de meu amargo peito,

levado por um forçado desvario,

sai por meu gosto e teu despeito.

O rugir do leão, do lobo feroz

o uivo ameaçador, o silvo horrendo

da serpente escamosa, o formidável

urro de algum monstro, o agourento

grasnar do corvo, e o estrondo

do vento contrário em mar instável;

do já vencido touro o implacável

bramido, e da viúva rolinha

o sentido arrulhar; o triste canto

da coruja invejada, com o pranto

de toda a infernal negra quadrilha,

saiam para fora com a dolente alma,

misturados num som, de tal maneira,

que se confundam os sentidos todos,

pois a pena cruel que em mim se acha

para contá-la pede novos modos.

De tanta confusão as areias

do pai Tejo não ouvirão os tristes ecos,

nem do famoso Bétis as oliveiras,

que ali se espalharão minhas duras penas

em altos penhascos e em profundas covas,

com língua morta e com palavras vivas,

ou em escuros vales ou em esquivas

praias, ermas de contato humano,

ou onde o sol jamais mostrou sua luz,

ou entre a venenosa multidão

de feras que alimenta a planície líbia.

Ainda que nos planaltos desertos

os ecos roucos de meu mal incertos

soem com tua severidade sem igual,

por privilégio de minha má sorte,

serão levados pelo amplo mundo.

Mata um desdém, abate a paciência,

verdadeira ou falsa, uma suspeita;

matam os ciúmes com rigor mais forte;

desconcerta a vida longa ausência;

contra um temor de esquecimento de nada serve

firme esperança de feliz sorte…

Em tudo há certa, inevitável morte;

mas eu, milagre nunca visto!, vivo

ciumento, ausente, desdenhado e certo

das suspeitas que me têm morto,

e no esquecimento em que meu fogo avivo,

e, entre tantos tormentos, nunca alcança

minha vista ver nem sombra da esperança,

nem eu, desesperado, a procuro,

antes, por me exaltar em minha queixa,

estar sem ela eternamente juro.

Pode-se, porventura, num instante

esperar e temer, ou é melhor fazê-lo

sendo as causas do temor mais certas?

Tenho, se o duro ciúme está em frente,

de fechar estes olhos, se hei de vê-lo

por mil feridas na alma abertas?

Quem não abrirá de par em par as portas

à desconfiança, quando olha

descoberto o desdém, e as suspeitas

oh, amarga transformação!, verdades feitas,

e a limpa verdade mentira se torna?

Oh, no reino do amor ferozes tiranos

ciúmes!, ponde-me uma arma nestas mãos.

Dai-me, desdém, uma desleal corda.

Mas ai de mim que, com cruel vitória,

vossa memória o sofrimento afoga.

Eu morro, enfim, e, para que nunca espere

sucesso nem na morte nem na vida,

pertinaz seguirei em minha fantasia.

Direi que acertado vai aquele que ama,

e que é mais livre a alma mais rendida

à antiga tirania de amor.

Direi que minha eterna inimiga

bela a alma como o corpo tem,

e que seu esquecimento de minha culpa nasce,

e que, na segurança dos males que nos faz,

amor seu império em justa paz mantém.

E com esta opinião e um duro laço,

acelerando o miserável tempo

a que me conduziram seus desdéns,

oferecerei aos ventos corpo e alma,

sem láurea ou palma de futuros amores.

Tu, que com tantas iniquidades mostras

a razão que me força que alguma faça

à cansada vida que desprezo,

pois já vês que te dá notórias mostras

esta profunda chaga do coração

de como alegre a teu rigor me ofereço,

se por sorte sabes que mereço

que o céu claro de teus belos olhos

em minha morte se turve, não o faças:

pois não quero que em nada satisfaças

ao dar-te de minha alma os despojos;

antes com riso na ocasião funesta

descobre que meu fim foi tua festa.

Mas grande ingenuidade é avisar-te disto,

pois sei que tua glória é conhecida

em que minha vida chegue ao fim tão rápido.

Venha, que já é tempo, do profundo abismo

Tântalo com sua sede; Sísifo venha

com o peso terrível de seu canto;

Tício traga seu abutre, e também

com sua roda Egeu não se detenha,

nem as irmãs que trabalham tanto,

e todos juntos seu mortal quebranto

transfiram a meu peito, e em voz baixa

— se a um desesperado já são devidas —

cantem exéquias tristes, doloridas,

ao corpo, a quem ainda se nega a mortalha;

e o porteiro infernal dos três rostos,

com outras mil quimeras e mil monstros,

levem o doloroso contraponto,

pois outra pompa melhor não me parece

que a merece um amante morto.

Canção desesperada, não te queixes

quando minha triste companhia deixes;

antes, pois que a causa da qual nasceste

com minha desgraça aumenta sua ventura,

mesmo na sepultura não fiques triste.a

A canção de Grisóstomo pareceu boa aos ouvintes, mesmo que

aquele que a leu tenha dito que achava que ela destoava com o que

tinha ouvido sobre o recato e a honestidade de Marcela, porque

Grisóstomo se queixava de ciúmes, suspeitas e ausência, tudo em descrédito da boa reputação de Marcela. Ao que Ambrósio respondeu,

sendo quem sabia muito bem dos mais ocultos pensamentos de seu

amigo:

— Para que vos livreis dessa dúvida, senhor, é bom que saibais que

quando o desgraçado escreveu essa canção estava longe de Marcela,

de quem ele se afastara por vontade própria, para ver se a ausência o

trataria com suas leis costumeiras; e, como ao apaixonado ausente não

há coisa que não o angustie nem temor que não o persiga, Grisóstomo

se angustiava com os ciúmes imaginados e com as suspeitas temidas

como se fossem verdadeiros. E com isso prevalece a verdade que a

fama apregoa sobre a honestidade de Marcela; a quem, exceto por ser

cruel e um pouco arrogante, e muito desdenhosa, a própria inveja não

pode nem deve imputar falta alguma.

— Isso é verdade — respondeu Vivaldo.

E, querendo ler outro papel dos que havia salvado do fogo, impediu-

o uma visão maravilhosa (isto ela parecia) que de repente se ofereceu a

ele: por cima do penhasco onde se cavava a sepultura surgiu a pastora Marcela, tão formosa que sua beleza ultrapassava sua fama. Os que

ainda não a tinham visto olhavam-na com admiração e silêncio; e os

que já a conheciam não ficaram menos pasmos que eles. Mas, mal a

viu, Ambrósio disse com mostras de indignação:

— Por acaso vens ver, feroz basilisco destas montanhas, se com tua

presença vertem sangue as feridas deste miserável a quem tua

crueldade tirou a vida? Ou vens vangloriar-te das cruéis façanhas de

tua índole? Ou ver dessa altura, como outro Nero desapiedado, o

incêndio de sua Roma? Ou pisar arrogante este infeliz cadáver, como a

filha ingrata pisou o de seu pai Tarquínio? Diz-nos logo ao que vens,

ou o que é que mais te agrada, porque, sabendo eu que os

pensamentos de Grisóstomo jamais deixaram de obedecer-te em vida,

farei com que mesmo ele morto te obedeçam os de todos aqueles que

se chamaram seus amigos.

— Oh, Ambrósio, não venho para nada disso — respondeu Marcela

—, mas por mim mesma, para mostrar o quanto estão enganados

todos aqueles que me culpam de suas penas e da morte de Grisóstomo.

Por isso rogo a todos os presentes que me ouçam com atenção, pois não será necessário muito tempo, nem muitas palavras, para a verdade

persuadir os sensatos.

“O céu me fez formosa, dizeis, e de tal maneira que minha

formosura vos leva a me amar sem resistência, e pelo amor que me

mostrais, dizeis e até quereis que eu seja obrigada a vos amar. Eu sei,

com o natural entendimento que Deus me deu, que tudo o que é belo

pode ser amado; mas não compreendo que, pela razão de ser amado,

quem é amado por belo tenha obrigação de amar quem o ama. E

ainda poderia acontecer que o amante do belo fosse feio e, sendo o

feio digno de ser desprezado, fica mal dizer: ‘Amo-te porque és bela:

deves me amar embora eu seja feio’. Mas, mesmo que as belezas se

equivalham, nem por isso haverão de ser iguais os desejos, pois nem

todas as belezas apaixonam: algumas alegram a vista mas não

subjugam a vontade. Se todas as belezas apaixonassem e subjugassem,

as vontades andariam desorientadas e confusas, sem saber onde iriam

parar, porque, sendo infinitas as pessoas belas, infinitos haveriam de

ser os desejos. E, conforme ouvi dizer, o amor verdadeiro não se divide e deve ser voluntário, não forçado. Sendo assim, como penso que é,

por que quereis que submeta minha vontade à força, apenas porque

me dizeis que me amais? Se não, dizei-me: se em vez de formosa o céu

me tivesse feito feia, seria justo que me queixasse de vós por não me

amardes? Depois, deveis considerar que eu não escolhi: o céu deu-me a

beleza que tenho de graça, sem que eu a pedisse nem escolhesse. E,

assim como a víbora não merece ser culpada pelo veneno que tem,

apesar de matar com ele, porque lhe foi dado pela natureza, também

eu não mereço ser repreendida por ser bela: a beleza na mulher

honesta é como o fogo afastado ou como a espada afiada, porque nem

ele queima nem ela corta quem deles não se aproxima. A honra e as

virtudes são adornos da alma, sem os quais o corpo não deve parecer

belo, embora o seja. Pois, se a honestidade é uma das virtudes que ao

corpo e à alma mais adornam e embelezam, por que deve perdê-la a

que é amada por ser bela, para satisfazer a intenção daquele que,

apenas para seu próprio prazer, com todas as suas forças e astúcias

procura que a perca?

“Eu nasci livre e, para poder viver livre, escolhi a solidão dos

campos: as árvores destas montanhas são minha companhia; as águas cristalinas destes riachos, meus espelhos; às árvores e às águas

comunico meus pensamentos e formosura. Sou fogo afastado e espada

distante. Aos que apaixonei com a vista desiludi com as palavras; e, se

os desejos se sustentam com esperanças, não tendo eu dado nenhuma

a Grisóstomo, nem a algum outro (na verdade, a nenhum deles), bem

se pode dizer que antes o matou sua teimosia do que minha crueldade.

E, se alegardes que seus pensamentos eram honestos e que por isso

estava obrigada a satisfazê-los, digo que quando me revelou a

honestidade de sua intenção, neste mesmo lugar onde agora se cava

sua sepultura, eu disse a ele que a minha era viver em perpétua solidão

e que apenas a terra gozasse o fruto de meu recolhimento e os

despojos de minha formosura; e se ele, apesar de tudo, quis lutar

contra a esperança e navegar contra o vento, quem se admira que se

afogasse no meio do oceano de seu desatino? Se eu o encorajasse, seria

falsa; se o contentasse, seria contra minhas melhores intenções e

propósitos. Teimou desiludido, desesperou sem ser desprezado: vede

então se deve se jogar em mim a culpa de sua pena! Queixe-se o enganado; desespere-se aquele a quem faltaram as prometidas

esperanças! Tenha confiança o que eu chamar; gabe-se o que eu

aceitar. Mas não me chame de cruel nem de homicida aquele a quem

eu não prometo, não engano, não chamo nem aceito.

“Até agora o céu não quis que eu amasse por destino, e pensar que

eu tenho de amar por escolha é inútil. Que esse desengano geral sirva

de lição, para seu particular proveito, a cada um dos que me cortejam,

e que se entenda daqui por diante que, se algum morrer por mim, não

morre de ciúmes nem de infelicidade, pois quem não ama ninguém a

ninguém deve causar ciúme, pois os desenganos não devem ser

tomados por desdéns. O que me chama de fera e basilisco, deixe-me

como coisa nociva e má; o que me chama de ingrata, não me corteje;

de mal-agradecida, não me conheça; de cruel, não me siga; porque esta

fera, este basilisco, esta ingrata, esta mal-agradecida e cruel nem vos

procurará, cortejará, conhecerá nem seguirá de forma alguma.

“Se a Grisóstomo matou sua impaciência e desejo impetuoso, por

que se deve culpar meu honesto procedimento e recato? Se eu

conservo minha pureza em companhia das árvores, por que devem

querer que a perca em companhia dos homens? Como sabeis, sou rica e não cobiço as riquezas alheias; sou de temperamento livre, não gosto

de me sujeitar; não amo nem odeio ninguém; não engano este nem

cortejo aquele; não zombo de um nem me divirto com outro. A

conversa honesta das pastoras destas aldeias e o cuidado com minhas

cabras me distraem. Meus desejos se limitam a estas montanhas e, se

daqui saem, é para contemplar a formosura do céu, passos com que

anda a alma para sua primeira morada.”

Dizendo isso, sem querer ouvir resposta alguma, virou-se e meteu-se

no ponto mais fechado de uma mata próxima, deixando todos

admirados tanto com sua inteligência como com sua formosura. Mas

alguns dos feridos pelas flechas de luz de seus olhos deram mostras de

querer segui-la, como se não tivessem ouvido a mais clara desilusão, o

que levou dom Quixote a pensar que era conveniente usar sua

cavalaria, socorrendo uma donzela em apuros. Com a mão no punho

da espada, em voz alta e inteligível disse:

— Nenhuma pessoa, de qualquer estado e condição que seja, se

atreva a seguir a formosa Marcela, sob pena de cair sob a fúria de minha indignação. Ela mostrou com palavras claras e mais que

suficientes a pouca ou nenhuma culpa que teve na morte de

Grisóstomo, e o quanto vive alheia em condescender com os desejos

de seus apaixonados. Por isso é justo que, em vez de ser seguida e

perseguida, seja honrada e estimada por todos os bons, pois mostra

que apenas ela vive com tão honesta intenção.

Ou fosse pelas ameaças de dom Quixote, ou porque Ambrósio lhes

disse que concluíssem o que deviam a seu bom amigo, nenhum dos

pastores se moveu nem se afastou dali até que, acabada a sepultura e

queimados os papéis de Grisóstomo, puseram o corpo na terra, não

sem muitas lágrimas de todos. Fecharam a sepultura com uma grande

pedra, até que se acabasse a lápide que Ambrósio pensava em mandar

fazer, com este epitáfio:

Jaz aqui de um amador

o mísero corpo gelado,

que foi pastor de gado,

perdido por desamor.

Morreu nas mãos do rigor

de uma esquiva e linda ingrata,

com quem seu império dilata

a tirania de amor.b

A seguir espalharam por cima da sepultura muitas flores e ramos e,

dando pêsames a seu amigo Ambrósio, todos se despediram dele. O

mesmo fizeram Vivaldo e seu companheiro. Dom Quixote se despediu

de seus anfitriões e dos viajantes, que lhe pediram que fosse com eles

para Sevilha, por ser lugar muito conveniente para aventuras, pois em

cada rua e cada esquina se oferecem mais que em qualquer outro.

Dom Quixote agradeceu a informação e a vontade que mostravam de

agradá-lo, mas disse que por ora não queria nem devia ir a Sevilha, até

que houvesse limpado aquelas serras de bandidos e ladrões, de que

todas estavam cheias, como se sabia. Vendo sua firme determinação,

os viajantes não quiseram incomodá-lo mais, despediram-se de novo e

o deixaram, prosseguindo seu caminho, onde não lhes faltou do que

falar, tanto da história de Marcela e Grisóstomo como das loucuras de

dom Quixote. Nosso cavaleiro decidiu procurar a pastora Marcela e

oferecer tudo o que podia para servi-la; mas não aconteceu como ele pensava, conforme se conta no decorrer desta história verídica, tendo

fim aqui a segunda parte.

a * Ya que quieres, crüel, que se publique,/ de lengua en lengua y de una en otra gente/ del áspero rigor tuyo la fuerza,/ haré que el mismo infierno comunique/ al triste pecho mío un son doliente,/ con que el uso común de mi voz tuerza./ Y al par de mi deseo, que se esfuerza/ a decir mi dolor y tus hazañas,/ de la espantable voz irá el acento,/ y en él mezcladas, por mayor tormento,/ pedazos de las míseras entrañas./ Escucha, pues, y presta atento oído,/ no al concertado son, sino al ruïdo/ que de lo hondo de mi amargo pecho,/ llevado de un forzoso desvarío,/ por gusto mío sale y tu despecho.// El rugir del león, del lobo fiero/ el temeroso aullido, el silbo horrendo/ de escamosa serpiente, el espantable/ baladro de algún monstruo, el agorero/ graznar de la corneja, y el estruendo/ del viento contrastado en mar instable;/ del ya vencido toro el implacable/ bramido, y de la viuda tortolilla/ el sentible arrullar; el triste canto/ del envidiado búho, con el llanto/ de toda la infernal negra cuadrilla,/ salgan con la doliente ánima fuera,/ mezclados en un son, de tal manera,/ que se confundan los sentidos todos,/ pues la pena cruel que en mí se halla/ para cantalla pide nuevos modos.// De tanta confusión no las arenas/ del padre Tajo oirán los tristes ecos,/ ni del famoso Betis las olivas,/ que allí se esparcirán mis duras penas/ en altos riscos y en profundos huecos,/ con muerta lengua y con palabras vivas,/ o ya en escuros valles o en esquivas/ playas, desnudas de contrato humano,/ o adonde el sol jamás mostró su lumbre,/ o entre la venenosa muchedumbre/ de fieras que alimenta el libio llano./ Que puesto que en los páramos desiertos/ los ecos roncos de mi mal inciertos/ suenen con tu rigor tan sin segundo,/ por privilegio de mis cortos hados,/ serán llevados por el ancho mundo.// Mata un desdén, atierra la paciencia,/ o verdadera o falsa, una sospecha;/ matan los celos con rigor más fuerte;/ desconcierta la vida larga ausencia;/ contra un temor de olvido no aprovecha/ firme esperanza de dichosa suerte…/ En todo hay cierta, inevitable muerte;/ mas yo, ¡milagro nunca visto!, vivo/ celoso, ausente, desdeñado y cierto/ de las sospechas que me tienen muerto/ y en el olvido en quien mi fuego avivo,/ y, entre tantos tormentos, nunca alcanza/ mi vista a ver en sombra a la esperanza,/ ni yo, desesperado, la procuro,/ antes, por extremarme en mi querella,/ estar sin ella eternamente juro.// ¿Puédese, por ventura, en un instante/ esperar y temer, o es bien hacello/ siendo las causas del temor más ciertas?/ ¿Tengo, si el duro celo está delante,/ de cerrar estos ojos, si he de vello/ por mil heridas en el alma abiertas?/ ¿Quién no abrirá de par en par las puertas/ a la desconfianza, cuando mira/ descubierto el desdén, y las sospechas,/ ¡oh amarga conversión!, verdades hechas,/ y la limpia verdad vuelta en mentira?/ ¡Oh en el reino de amor fieros tiranos/ celos!, ponedme un hierro en estas manos./ Dame, desdén, una torcida soga./ Mas, ¡ay de mí!, que, con crüel vitoria/ vuestra memoria el sufrimiento ahoga.// Yo muero, en fin, y porque nunca espere/ buen suceso en la muerte ni en la vida,/ pertinaz estaré en mi fantasía./ Diré que va acertado el que bien quiere,/ y que es más libre el alma más rendida/ a la de amor antigua tiranía./ Diré que la enemiga siempre mía/ hermosa el alma como el cuerpo tiene,/ y que su olvido de mi culpa nace,/ y que, en fe de los males que nos hace,/ amor su imperio en justa paz mantiene./ Y con esta opinión y un duro lazo,/ acelerando el miserable plazo/ a que me han conducido sus desdenes,/ ofreceré a los vientos cuerpo y alma,/ sin lauro o palma de futuros bienes.// Tú, que con tantas sinrazones muestras/ la razón que me fuerza a que la haga/ a la cansada vida que aborrezco,/ pues ya ves que te da notorias muestras/ esta del corazón profunda llaga/ de cómo alegre a tu rigor me ofrezco,/ si por dicha conoces que merezco/ que el cielo claro de tus bellos ojos/ en mi muerte se turbe, no lo hagas:/ que no quiero que en nada satisfagas/ al darte de mi alma los despojos;/ antes con risa en la ocasión funesta/ descubre que el fin mío fue tu fiesta./ Mas gran simpleza es avisarte de esto,/ pues sé que está tu gloria conocida/ en que mi vida llegue al fin tan presto.// Venga, que es tiempo ya, del hondo abismo/ Tántalo con su sed; Sísifo venga/ con el peso terrible de su canto;/ Ticio traiga su buitre, y asimismo/ con su rueda Egïón no se detenga,/ ni las hermanas que trabajan tanto,/ y todos juntos su mortal quebranto/ trasladen en mi pecho, y en voz baja/ — si ya a un desesperado son debidas —/ canten obsequias tristes, doloridas,/ al cuerpo, a quien se niegue aun la mortaja;/ y el portero infernal de los tres rostros,/ con otras mil quimeras y mil monstros,/ lleven el doloroso contrapunto,/ que otra pompa mejor no me parece/ que la merece un amador difunto.// Canción desesperada, no te quejes/ cuando mi triste compañía dejes;/ antes, pues que la causa do naciste/ con mi desdicha aumenta su ventura,/ aun en la sepultura no estés triste.

b Yace aquí de un amador/ el mísero cuerpo helado,/ que fue pastor de ganado,/ perdido por desamor.// Murió a manos del rigor/ de una esquiva hermosa ingrata,/ con quien su imperio dilata/ la tiranía de amor.

 

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