Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 90 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XXIX

 

da famosa aventura do barco encantado

Dois dias depois de saírem do mato de álamos, com passos contados e

alguns por contar, dom Quixote e Sancho chegaram ao rio Ebro. Ao

vê-lo, Dom Quixote teve grande prazer, porque percebeu a amenidade

de suas margens, a limpidez de suas águas, a calma de sua corrente e a

abundância de seus cristais líquidos, cuja alegre visão reviveu em sua

memória mil pensamentos amorosos. Ele se demorou especialmente no

que havia visto na caverna de Montesinos, pois, apesar de o macaco

de mestre Pedro ter dito que parte daquelas coisas era verdade e parte

mentira, ele se atinha mais às verdadeiras que às mentirosas, ao

contrário de Sancho, que considerava todas uma única e mesma

mentira.

Andando assim ao longo do rio, viu um pequeno barco sem remo

nem mastros ou velas, que estava amarrado ao tronco de uma árvore

na margem. Dom Quixote olhou em volta, mas não viu pessoa

alguma; então, sem mais nem menos, apeou de Rocinante e mandou

que Sancho também apeasse do burro e atasse os dois animais num

álamo ou salgueiro que havia ali. Sancho perguntou a causa daquela

decisão súbita. Dom Quixote respondeu:

— Deves saber, Sancho, que este barco atracado aqui está,

claramente e sem que nada possa evitar, me chamando e me

convidando a entrar nele para ir em socorro de algum cavaleiro ou de

alguma outra pessoa importante que deve estar numa grande aflição.

Porque é assim que acontecem as coisas nas histórias de cavalaria e

dos magos que se intrometem e intervêm nelas: quando algum

cavaleiro está em algum aperto de que não pode se livrar a não ser

pela mão de outro cavaleiro, mesmo que estejam distantes um do outro duas ou três mil léguas, ou mais ainda, levam-no numa nuvem

ou fazem com que tope com um barco onde entra, e num piscar de

olhos o levam, ou pelos ares ou pelo mar, aonde querem e sua ajuda é

necessária. Assim, meu caro Sancho, este barco está atracado aqui

para isso mesmo, e isto é tão verdadeiro como agora é dia; e, antes

que este termine, amarra juntos o burro e Rocinante, e que a mão de Deus nos guie, pois não deixarei de embarcar nem que frades

descalços me peçam.

— Bem, se a coisa é assim — respondeu Sancho — e vossa mercê

quer se meter a cada passo nisso que não sei se chamo de disparates,

não há o que fazer, além de baixar a cabeça e obedecer, seguindo o

ditado: “Amarra o burro conforme a vontade do dono, que ele te

agradecerá”. Mas, apesar de tudo, para descargo de minha

consciência, quero avisar vossa mercê que me parece que este barco

não é dos encantados, mas de alguns pescadores deste rio, porque aqui

se pesca a melhor sardinha do mundo.

Sancho dizia isso enquanto amarrava as montarias, deixando-as à

proteção e ao amparo dos magos, com o coração partido de dor. Dom

Quixote disse a ele que não se preocupasse com os animais, porque

aquele que os levaria por caminhos e regiões tão longínquos trataria

de cuidar deles.

— Não entendo esse negócio de logíquos — disse Sancho —, nem

nunca ouvi na vida essa palavra.

— Longínquo — respondeu dom Quixote — quer dizer à grande

distância. Não é de surpreender que não a entenda, pois não tens

obrigação de saber latim, como alguns que fazem de conta que sabem

e o ignoram.

— Já amarrei os bichos — replicou Sancho. — O que vamos fazer

agora?

— O quê? — respondeu dom Quixote. — Vamos nos benzer e

levantar âncora, quero dizer, vamos embarcar e cortar a amarra com

que está preso este barco.

Dando um salto para ele, com Sancho atrás, cortou a corda, e o

barco foi se afastando pouco a pouco da margem. Quando Sancho se

viu a cerca de dois metros dentro do rio, começou a tremer, temendo

sua perdição, mas nenhuma coisa o afligiu mais que ouvir o burro

zurrar e ver que Rocinante lutava para se desatar, e disse a seu senhor:

— O burro zurra condoído de nossa ausência e Rocinante procura se

libertar para se atirar atrás de nós. Oh, caríssimos amigos, ficai em

paz. A loucura que nos afasta de vós, transformada em desengano,

nos devolverá a vossa presença!

E então começou a chorar tão amargamente que dom Quixote,

amofinado e enraivecido, lhe disse:

— De que tens medo, covarde miserável? Por que choras, coração de

manteiga? Quem te segue ou te persegue, alma de ratão caseiro? O

que te falta, mendigo nas entranhas da abundância? Por acaso

caminhas a pé e descalço pelas montanhas da Cítia? Por acaso não

estás sentado numa tábua, como um arquiduque, deslizando pela

corrente calma deste rio agradável, de onde em breve sairemos para o

mar alto? Mas já devemos ter andado pelo menos seiscentas ou

oitocentas léguas. Se eu tivesse aqui um astrolábio com que medir a

altura dos astros, eu te diria o que já viajamos, embora ou eu saiba

pouco ou já passamos ou passaremos em seguida pela linha do

equador, que divide os polos contrários em igual distância.

— E quanto teremos andado — perguntou Sancho — quando

passarmos por esse fio de que vossa mercê falou?

— Muito — replicou dom Quixote —, porque de trezentos e

sessenta graus que o globo contém de água e de terra, conforme o cômputo de Ptolomeu, que foi o maior cosmógrafo que se conhece,

teremos andado a metade, chegando à linha de que falei.

— Por Deus — disse Sancho —, que vossa mercê me apresenta por

testemunha uma bela pessoa com um puto, o maior biógrafo de um

tolo seu, ou sei lá de quem.

Dom Quixote riu muito da interpretação que Sancho tinha dado ao

nome, ao cômputo e ao cosmógrafo Ptolomeu, e lhe disse:

— Olha, Sancho, um dos sinais que os espanhóis e os que embarcam

em Cádiz para ir às Índias Orientais observam, para saber se

ultrapassaram a linha do equador, é se morreram todos os piolhos dos

marinheiros que estão no navio, sem que tenha sobrado um. Se

ultrapassaram, não acharão piolho algum em todo o baixel, mesmo

que se pague seu peso em ouro. Então, Sancho, podes passar a mão

pela coxa, e, se topares com alguma coisa viva, sairemos dessa dúvida,

e, se não, estamos do lado de lá.

— Não acredito em nada disso — respondeu Sancho —, mas,

mesmo assim, farei o que vossa mercê me manda, ainda que não veja

necessidade da experiência, pois eu vejo com meus próprios olhos que

não nos afastamos da margem mais que cinco metros, nem descemos rio abaixo dois metros de onde estão as montarias, porque ali estão

Rocinante e o burro no mesmo lugar em que os deixamos. Dê uma

olhada e calcule, como eu fiz agora. Juro que não nos movemos nem

andamos um passo de formiga.

— Vamos, Sancho, faz a averiguação dos piolhos e não te preocupes

com outras, que tu não sabes que coisas são coluros, linhas, paralelos,

zodíacos, elípticas, polos, solstícios, equinócios, planetas, signos,

pontos, medidas, de que se compõem a esfera celeste e a terrestre.

Pois, se soubesses todas essas coisas, ou parte delas, verias claramente

quais paralelos cortamos, quais signos vimos e quais constelações

deixamos para trás e vamos deixando agora. E te digo de novo que te

apalpes e te cates, porque me parece que estás mais limpo que uma

folha de papel liso e branco.

Sancho se apalpou e, levando a mão devagar e cuidadosamente na

curva atrás do joelho esquerdo, levantou a cabeça, olhou para seu

amo e disse:

— Ou a experiência é falsa ou não chegamos aonde vossa mercê disse, nem estamos perto.

— Como? — perguntou dom Quixote. — Topaste com algum?

— E mais alguns! — respondeu Sancho.

E, sacudindo os dedos, lavou toda a mão no rio, por onde o barco

deslizava calmo no meio da corrente, sem que o dirigisse alguma

inteligência secreta nem algum mago escondido, mas apenas o curso

da água, brando e suave então.

Nisso, avistaram uns grandes moinhos localizados no meio do rio, e,

mal dom Quixote os viu, disse em voz alta a Sancho:

— Vês? Ali, meu amigo! Ali se avista a cidade, castelo ou fortaleza

onde deve estar preso algum cavaleiro, ou alguma rainha ou infanta

ou princesa embaraçada, para cujo socorro fui atraído.

— Que diabos de cidade, fortaleza ou castelo vossa mercê viu,

senhor? — disse Sancho. — Não está vendo que aqueles são moinhos

que estão no rio, onde se mói o trigo?

— Cala-te, Sancho — disse dom Quixote —, porque embora

pareçam moinhos não o são. Já te disse que os encantamentos mudam

e transformam o ser natural de todas as coisas. Não quero dizer que

as transformam em outras coisas realmente, mas a aparência delas, como demonstrou a experiência da transformação de Dulcineia, único

refúgio de minhas esperanças.

Então o barco, entrando no meio da corrente do rio, começou a

andar não tão lentamente como até ali. Os moleiros, que viram vir

aquele barco em direção aos moinhos e que ia entrar pelo canal que

movia as rodas, saíram para fora muito apressados, vários deles com

varas longas para detê-lo; e, como saíam enfarinhados, com os rostos

e as roupas cobertos pelo pó branco, pareciam uma visão tenebrosa.

Davam grandes brados, dizendo:

— Demônios desgraçados, aonde ides? Vindes tão desesperados que

quereis vos afogar e vos fazer em pedaços nestas rodas?

— Eu não te disse, Sancho — disse dom Quixote nessas alturas —,

que havíamos de chegar aonde hei de mostrar até onde vai o valor de

meu braço? Olha só que patifes e covardes me saem ao encontro!

Olha quantos monstros me atacam! Olha quantas carrancas feias nos

fazem caretas… Pois agora vereis, velhacos!

E, de pé no barco, com grandes brados começou a ameaçar os moleiros, dizendo-lhes:

— Canalha malvada e imprudente, deixai em liberdade a pessoa que

tendes presa nessa fortaleza ou prisão, plebeia ou nobre, de qualquer

tipo ou posição que seja, pois eu sou dom Quixote de la Mancha,

conhecido pela alcunha de Cavaleiro dos Leões, a quem está reservado

por ordem dos altos céus dar um feliz desfecho a esta aventura.

Dizendo isso, empunhou a espada e começou a esgrimi-la no ar

contra os moleiros, que, ouvindo sem entender aquelas asneiras,

começaram a deter o barco com as varas, pois já ia entrando na

torrente ou canal que dava nas rodas.

Sancho ficou de joelhos, pedindo devotamente ao céu que o livrasse

de perigo tão manifesto, coisa que o céu atendeu pela astúcia e

presteza dos moleiros: eles pararam o barco com suas varas, mas não

de modo que deixassem de embocá-lo e de atirar dom Quixote e

Sancho na água. A coisa teria sido feia, se dom Quixote não soubesse

nadar como um ganso, pois o peso da armadura o levou duas vezes ao

fundo. Porém, se não fossem os moleiros, que se lançaram na água e

tiraram ambos como pesos mortos, ali teria sido Troia para os dois.

Enfim em terra, estavam mais molhados que mortos de sede. Sancho,

caído de joelhos, as mãos juntas e os olhos cravados no céu, pediu a

Deus com uma longa e devota prece que o livrasse dali por diante dos

desejos e empreendimentos atrevidos de seu senhor.

Aí chegaram os pescadores donos do barco, que as rodas dos

moinhos tinham feito em pedaços. Vendo-o em lascas, trataram de

despir Sancho e pedir a dom Quixote que o pagasse. Ele, com muita

calma, como se não tivesse acontecido nada demais, disse aos moleiros

e pescadores que ele pagaria o barco com muita boa vontade, com a

condição de que lhe entregassem livre e sem resgate a pessoa ou

pessoas que mantinham presas naquele castelo.

— De que pessoas e de que castelo falas, homem sem juízo? —

respondeu um dos moleiros. — Por acaso queres levar as que vêm

moer trigo aqui?

— Basta! — disse dom Quixote a si mesmo. — Será o mesmo que

pregar no deserto querer levar esta canalha a praticar a virtude com

palavras. Nesta aventura devem ter se enfrentado dois valentes magos, e um atrapalha o que o outro tenta: um me levou ao barco e o outro

deu comigo na água. Deus me ajude, que tudo neste mundo são tretas

e tramoias, umas contrárias às outras. Eu não aguento mais.

E prosseguiu em voz alta, olhando os moinhos:

— Meus amigos, quem quer que sejais, que nessa prisão ficais

trancados, perdoai-me, pois, para minha infelicidade e para a vossa,

não posso tirá-los desta desgraça. Para outro cavaleiro deve estar

destinada e reservada esta aventura.

Depois de dizer isso, acertou-se com os pescadores e pagou

cinquenta reais pelo barco, que Sancho deu de muita má vontade,

dizendo:

— Mais dois passeios de barco como este e todo o nosso cabedal vai

ao fundo.

Os pescadores e moleiros estavam pasmos, olhando aquelas duas

figuras tão diferentes dos outros homens, e não conseguiam entender

as alegações e perguntas de dom Quixote; e, tendo-os por loucos, os

deixaram — os moleiros se recolheram a seus moinhos e os pescadores

às suas cabanas. Dom Quixote e Sancho voltaram a seus animais, e a

ser animais, e este foi o fim da aventura do barco encantado.

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