Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 25 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XVII

onde prosseguem as inumeráveis

atribulações que o bravo dom quixote

de la mancha e seu bom escudeiro

sancho pança passaram na estalagem,

que o fidalgo, para mal de seus pecados,

pensou que era castelo

A essas alturas dom Quixote já tinha se recuperado do desmaio e, com

o mesmo tom de voz com que havia chamado seu escudeiro no dia

anterior, quando estava estendido no vale dos bastões, começou a

chamá-lo, dizendo:

— Sancho, meu amigo, dormes? Dormes, meu amigo Sancho?

— Dormir, eu?! Pobre de mim — respondeu Sancho, cheio de

angústia e rancor —, até parece que todos os diabos se divertiram

comigo esta noite!

— Podes crer, sem dúvida — responde dom Quixote —, porque ou

sei pouco ou este castelo é encantado. Deves saber… Mas tens de jurar

que manterás em segredo até minha morte o que quero te dizer agora.

— Sim, juro — respondeu Sancho.

— Digo-o — replicou dom Quixote — porque sou inimigo de que se

manche a honra de alguém.

— Sim — repetiu Sancho —, juro que calarei até o fim dos dias de

vossa mercê, mas, se Deus quiser, que eu possa contar amanhã.

— Tantos males te causo, Sancho — respondeu dom Quixote —, que

queres me ver morto tão depressa?

— Não é por isso — respondeu Sancho —, mas porque sou inimigo

de guardar muito as coisas, e não gostaria que apodrecessem aqui

dentro.

— Seja como for — disse dom Quixote —, confio em teu amor e em

tua cortesia. Por isso, saibas que esta noite me aconteceu uma das

mais estranhas aventuras que eu poderei enaltecer: para ser breve,

saibas que há pouco veio ter comigo a filha do senhor deste castelo,

que é a mais graciosa e linda donzela que se pode achar em grande

parte da terra. O que poderia te dizer dos ornamentos de sua pessoa? O que dizer de seu espantoso discernimento? O que dizer de outras

coisas ocultas, que, para manter a fidelidade devida a minha senhora

Dulcineia del Toboso, deixarei passar intactas e em silêncio? Quero te

dizer apenas que o céu, invejoso de toda a ventura que o destino me

havia posto nas mãos, ou talvez (isso é o mais provável) por este

castelo estar encantado, como disse, no instante em que eu estava com

ela em dulcíssimas e amorosíssimas conversas, sem que eu visse nem

soubesse por onde vinha, surgiu uma mão presa ao braço de algum

gigante descomunal e me acertou um murro nos queixos, mas um

murro, Sancho, que ainda os tenho banhados em sangue; e depois me

moeu de tal modo que estou pior do que ontem quando os galegos,

por causa das folias de Rocinante, nos fizeram a afronta que bem

lembras. Disso deduzo que algum mouro encantado deve guardar o

tesouro da formosura dessa donzela, que não deve ser para mim.

— Para mim também não — respondeu Sancho —, pois mais de

quatrocentos mouros me espancaram de tal maneira que a sova dos

bastões foi travessura de criança. Mas diga-me, senhor, como chama essa aventura de boa e estranha, tendo saído dela como saímos? Vossa

mercê pelo menos teve nos braços aquela incomparável formosura de

que falou, mas eu, o que tive senão as maiores porradas que penso

receber em toda a minha vida? Pobre de mim e da mãe que me pariu,

que não sou cavaleiro andante nem penso ser jamais, e de todas as

mal-andanças me cabe sempre a pior parte!

— Quer dizer que também foste surrado? — perguntou dom

Quixote.

— Diacho, já não lhe disse que sim?! — disse Sancho.

— Não fiques triste, meu amigo — disse dom Quixote —, porque

agora mesmo farei o precioso bálsamo que nos curará num piscar de

olhos.

Nisto, o homem da Santa Irmandade acabou de acender o candeeiro

e voltou para ver aquele que dera por morto. Sancho, vendo-o entrar,

muito mal-encarado, de camisolão, com uma touca na cabeça e o

candeeiro na mão, perguntou a seu amo:

— Senhor, por acaso não será o mouro encantado? Vai ver, não

acabou o serviço e volta para nos castigar.

— Não pode ser o mouro — respondeu dom Quixote —, porque os

encantados não se deixam ver por ninguém.

— Se não se deixam ver, deixam-se sentir — disse Sancho —, que o

digam meus lombos.

— Também os meus poderiam dizer — respondeu dom Quixote —,

mas isso não é indício suficiente para se pensar que esse aí seja o

mouro encantado.

O quadrilheiro chegou e ficou pasmo ao achá-los naquela conversa

mansa. Mas é bem verdade que dom Quixote ainda estava de barriga

para cima sem poder se mexer, de tão moído e emplastrado. O

quadrilheiro se aproximou dele e disse:

— Então, como vai, bom homem?1

— Se eu fosse vós, seria mais bem-educado — respondeu dom

Quixote. — É costume nesta terra falar assim com os cavaleiros

andantes, sua besta?

O quadrilheiro, vendo-se tratar tão mal por um homem com aquela

péssima aparência, não se aguentou e, levantando o candeeiro com todo o seu azeite, deu com ele na cabeça de dom Quixote, deixando-o

muito bem escalavrado. E, como tudo ficou às escuras, saiu às pressas.

Sancho Pança disse:

— Sem dúvida, senhor, este é o mouro encantado. Deve guardar o

tesouro para outros, e para nós guarda apenas os murros e os

candeeiraços.

— É verdade — respondeu dom Quixote. — Mas não devemos fazer

caso dessas coisas de encantamentos, nem ficar com raiva nem nos

irritarmos com elas porque, como são invisíveis e fantásticas, não

acharemos de quem nos vingar, por mais que procuremos. Levanta-te,

Sancho, se puderes, e chama o alcaide desta fortaleza e vê se me

arranjam um pouco de azeite, vinho, sal e alecrim para fazer o

bálsamo revigorante, pois na verdade acho que estou bem necessitado

dele: está escorrendo muito sangue da ferida que o fantasma me fez.

Sancho se levantou com muita dor nos ossos e saiu, às escuras, em

busca do estalajadeiro; mas, encontrando o quadrilheiro, que escutava

para ver o que faria seu inimigo, lhe disse:

— Senhor, quem quer que sejais, fazei-nos o favor e benefício de nos

dar um pouco de alecrim, azeite, sal e vinho, que é preciso para curar um dos melhores cavaleiros andantes que há na terra e jaz naquela

cama, gravemente ferido pelas mãos do mouro encantado que está

nesta estalagem.

Quando o quadrilheiro ouviu isso, achou que Sancho não tinha

miolos; como já começava a amanhecer, abriu a porta da estalagem e,

chamando o estalajadeiro, disse a ele o que aquele bom homem

queria. O estalajadeiro lhe deu tudo quanto quis, e Sancho o levou

para dom Quixote, que estava com as mãos na cabeça, queixando-se

da dor do candeeiraço, que não havia feito outro mal que lhe levantar

dois galos de bom tamanho, e o que ele pensava ser sangue não era

senão suor, que lhe brotava devido à agonia da tormenta passada.

Enfim, recebeu os ingredientes e, misturando-os todos, fez um

composto que cozinhou por um bom tempo, até que pensou que

estava no ponto. Pediu então uma garrafa para guardá-lo, mas, como

não havia nenhuma na estalagem, resolveu pô-lo numa almotolia ou

azeiteira de lata, que o estalajadeiro lhe presenteou com prazer. Depois

rezou sobre a azeiteira mais de oitenta padre-nossos e outras tantas ave-marias, salve-rainhas e credos, acompanhando cada palavra com

um sinal da cruz, à maneira de benzedura. A tudo isso assistiam

Sancho, o estalajadeiro e o quadrilheiro, porque o tropeiro tinha ido

calmamente tratar de seus burros.

Feito isso, o próprio fidalgo quis experimentar de uma vez a virtude

que ele imaginava ter aquele bálsamo precioso e assim bebeu do que

sobrara na panela onde havia fervido, por não caber na azeiteira:

quase um litro. Mal acabou de beber, começou a vomitar tanto que

nada lhe ficou no estômago; e, com as ânsias e contrações do vômito,

suou copiosamente; e por isso ordenou que o agasalhassem e o

deixassem sozinho. Assim fizeram, e ele dormiu mais de três horas;

quando acordou, sentiu o corpo aliviadíssimo, a tal ponto melhor de

sua prostração que se deu por curado, acreditando verdadeiramente

que acertara o bálsamo de Ferrabrás e que dali por diante, com aquele

remédio, podia enfrentar sem temor algum quaisquer desastres,

batalhas e lutas, por mais perigosos que fossem.

Sancho Pança, que também considerou milagre a melhora do amo,

pediu que lhe desse o que ainda restava na panela, que não era pouco.

Dom Quixote concordou e ele, pegando-a com ambas as mãos, com toda a fé e boa vontade, emborcou com sofreguidão um pouco menos

que seu amo. Mas acontece que o estômago do pobre Sancho não

devia ser tão delicado quanto o de seu amo e assim, em vez de

vomitar, o escudeiro teve tantas ânsias e cólicas, com tantos suores e

tonteiras, que pensou que realmente tinha chegado sua hora

derradeira; e, vendo-se tão aflito e agoniado, maldizia o bálsamo e o

patife que o tinha dado. Vendo-o assim, dom Quixote lhe disse:

— Eu acho, Sancho, que todo este mal te acontece por não teres sido

armado cavaleiro, pois esta bebida não deve ser boa para os que não o

são.

— Se vossa mercê sabia disso — replicou Sancho —, por que

permitiu que a provasse?! Maldito seja eu e toda a minha parentela!

Bem aí a beberagem fez efeito e o pobre escudeiro começou a

desaguar pelos dois canais, com tanta rapidez que a esteira de junco

onde voltara a se deitar e a manta de estopa com que se cobria ficaram

imprestáveis. Suava e tressuava com tais paroxismos e vertigens que

não apenas ele como todos pensaram que sua vida se acabava. Esse temporal durou quase duas horas e no fim ele não ficou como seu

amo, mas tão abatido e alquebrado que nem se aguentava.

Mas dom Quixote, que se sentiu aliviado e são, como se disse, quis

partir de uma vez em busca de aventuras, parecendo-lhe que todo o

tempo que ali se demorava era roubado ao mundo e aos necessitados

de seu favor e amparo, ainda mais agora, com a confiança que tinha

em seu bálsamo. Então, forçado por esse desejo, ele mesmo encilhou

Rocinante e preparou o jumento de seu escudeiro, a quem ajudou a se

vestir e a montar. Pôs-se logo a cavalo e, aproximando-se de um canto

da estalagem, agarrou um chuço que estava ali, para que lhe servisse

de lança.

Ficaram olhando-o todos os que se achavam na estalagem, mais de

vinte pessoas. Também o olhava a filha do estalajadeiro, e ele não

tirava os olhos dela, às vezes dando um suspiro que parecia que

arrancava do fundo das entranhas, o que levava todos a pensar que

era por causa da dor que sentia nas costelas, ou pelo menos assim

pensavam os que o tinham visto cheio de emplastros na noite anterior.

Estando os dois a cavalo, na porta da estalagem, dom Quixote

chamou o estalajadeiro e lhe disse, com voz grave e muito calma:

— Muitas e muito grandes são as mercês, senhor alcaide, que recebi

neste vosso castelo, e me sinto obrigadíssimo a agradecê-las todos os

dias de minha vida. Se puder pagá-las vingando-vos de algum soberbo

que vos tenha feito alguma afronta, sabei que meu ofício não é outro

senão valer pelos que podem pouco: lutar pelos humilhados e castigar

as traições. Examinai vossa memória e, se achardes alguma coisa dessa

natureza que me encomendar, basta dizê-la, que eu vos prometo, pela

ordem de cavaleiro que recebi, satisfazer e reparar plenamente vosso

desejo.

O estalajadeiro respondeu com a mesma calma:

— Senhor cavaleiro, eu não tenho necessidade de que vossa mercê

me vingue nenhuma afronta, porque sei me vingar como se deve,

quando me ofendem. Só é necessário que vossa mercê me pague o

gasto que fez nesta estalagem, esta noite, como o jantar e as camas,

mais a palha e a cevada para seus animais.

— O quê?! — replicou dom Quixote. — Isto é uma estalagem?

— E muito honrada — respondeu o estalajadeiro.

— Vivi enganado até agora — respondeu dom Quixote —, pois na

verdade pensei que era um castelo, e não dos piores. Contudo, se não

é castelo, mas estalagem, o que poderá se fazer é que me perdoeis a

dívida, porque não posso contrariar a ordem dos cavaleiros andantes,

dos quais sei com certeza, sem ter lido até hoje nada em contrário, que

nunca pagaram pousada nem outra coisa nas estalagens em que

estiveram, pois se deve a eles por lei e por direito qualquer

acolhimento que lhes façam, em pagamento pelo insuportável trabalho

que padecem buscando aventuras de noite e de dia, no inverno e no

verão, a pé e a cavalo, com sede e com fome, com calor e com frio,

sujeitos a todas as inclemências do céu e a todos os incômodos da

terra.

— Não tenho nada a ver com isso — respondeu o estalajadeiro. —

Pague o que me deve, e deixemos de histórias e de cavalarias, pois

nada mais me interessa que cobrar meus serviços.

— Sois demente e mau hospedeiro — respondeu dom Quixote.

E, metendo a espora em Rocinante, o chuço apoiado no ombro, se

foi da estalagem, distanciando-se um bom pedaço sem ver se seu

escudeiro o seguia.

Ao vê-lo ir sem pagar, o estalajadeiro tratou de cobrar de Sancho

Pança, que disse que, se seu senhor não quisera pagar, também ele não

pagaria, pois sendo escudeiro de cavaleiro andante, como era, valia

para ele a mesma regra e razão que para seu amo: não pagar coisa

alguma nas estalagens e hospedarias. O estalajadeiro se irritou muito

com isso e o ameaçou: se não pagasse por bem, pagaria por mal.

Sancho respondeu que, pela lei da cavalaria que seu amo professava,

não pagaria um só tostão, mesmo que lhe custasse a vida, porque não

havia de ser por causa dele que se perderia a boa e antiga tradição dos

cavaleiros andantes, nem iriam se queixar dele os escudeiros que

estavam por vir ao mundo, censurando-o pela quebra de norma tão

justa.

Quis a má sorte do desgraçado Sancho que entre as pessoas que

estavam na estalagem se achassem quatro cardadores de Segóvia, três

fabricantes de agulhas do Potro de Córdoba e dois moradores da Feira

de Sevilha — gente alegre, bem-intencionada, maliciosa e brincalhona

—, que, instigados e movidos quase que pelo mesmo espírito, se aproximaram de Sancho, apearam-no do burro e com ele entraram na

casa. Um deles foi pegar a manta da cama do hóspede, na qual

atiraram Sancho, mas, levantando os olhos, viram que o teto era um

pouco mais baixo que o necessário para o serviço e decidiram ir para

o pátio, que tinha o céu por limite. Lá, com Sancho no meio da

manta, começaram a atirá-lo para cima, divertindo-se com ele como se

faz com os cachorros no carnaval.

Os berros do miserável manteado foram tantos que chegaram aos

ouvidos de seu amo, que, detendo-se para escutar atentamente, pensou

que aí vinha uma nova aventura, até que percebeu claramente que era

seu escudeiro que gritava. Virou as rédeas e, galopando a custo,

chegou à estalagem; achando-a fechada, rodeou-a, para ver se

encontrava por onde entrar; mas, mal havia se aproximado dos muros

do pátio, que não eram muito altos, viu a peça que pregavam a seu

escudeiro. Viu Sancho descer e subir pelo ar, com tanta graça e rapidez

que, se a cólera lhe permitisse, penso que teria rido. Tentou passar do

cavalo para a borda do muro, mas estava tão abatido e alquebrado

que não pôde nem apear; e assim, de cima do cavalo, começou a dizer

tantos vitupérios e palavrões aos que manteavam Sancho que não é possível escrevê-los aqui. Nem por isso eles pararam com o riso e com

o serviço, nem o voador Sancho deixava suas queixas, às vezes

misturadas com ameaças, às vezes com súplicas. Mas nada disso

adiantou e só o deixaram de puro cansaço.

Trouxeram-lhe o burro, montaram-no e embrulharam-no com seu

gabão, mas a compassiva Maritornes, vendo-o tão acabado, achou

por bem socorrê-lo com um jarro de água, que trouxe do poço, por

ser mais fria. Sancho o pegou, mas se deteve ao levá-lo à boca, porque

seu amo lhe gritava:

— Sancho, meu filho, não bebas água; não bebas, filho, que te

matará. Vês? Aqui tenho o santíssimo bálsamo — e lhe acenava com a

azeiteira da beberagem. — Com duas gotas dele sem dúvida ficarás

curado.

A esses gritos, Sancho olhou atravessado para seu amo e disse, com

gritos mais altos ainda:

— Por acaso vossa mercê esqueceu que não sou cavaleiro?! Ou quer

que eu vomite as tripas que me sobraram esta noite? Com todos os diabos, guarde seu bálsamo e me deixe em paz!

Acabar de dizer isso e começar a beber foi uma coisa só; mas como,

no primeiro gole, viu que era água, não quis continuar e pediu a

Maritornes que lhe trouxesse vinho. E ela de muito boa vontade o

trouxe, pagando-o com seu próprio dinheiro, pois de fato se diz dela

que, embora estivesse naquela vida, ainda tinha alguma sombra ou

vestígio de cristã.

Mal Sancho acabou de beber, deu com os calcanhares no burro e,

abrindo o portão da estalagem de par em par, saiu dela muito contente

por não ter pago nada como era sua intenção, embora tenha sido à

custa de seus habituais fiadores, os lombos. A verdade é que o

estalajadeiro ficou com seus alforjes, em pagamento pelo que devia;

mas Sancho nem se deu conta, de tão perturbado que estava. O

estalajadeiro quis trancar a porta assim que o viu fora, mas os

manteadores não permitiram, porque eram pessoas que, mesmo se

dom Quixote fosse realmente um dos cavaleiros da Távola Redonda,

não dariam dois tostões por ele.

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