Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 53 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XLV

onde, com toda a verdade, acaba

de se tirar a dúvida sobre o elmo

de mambrino e a albarda,

e acontecem outras aventuras

— Senhores — disse o barbeiro —, que achais do que estes fidalgos

afirmam, pois ainda teimam que esta não é uma bacia, mas um elmo?

— Se for cavaleiro quem disser o contrário — disse dom Quixote —,

eu mostrarei que mente; se for escudeiro, que mente mil vezes.

Nosso barbeiro — que estava presente —, como conhecia muito bem

os caprichos de dom Quixote, quis atiçar seu desatino e levar em

frente a brincadeira, para que todos rissem, e disse ao outro barbeiro:

— Senhor barbeiro, ou seja lá quem sois, sabei que eu também sou

de vosso ofício: tenho meu diploma há mais de vinte anos e conheço

muito bem todos os instrumentos da barbearia, sem que falte um.

Como fui soldado por uns tempos em minha juventude, também sei o

que é elmo, o que é morrião, o que é uma celada e outras coisas

militares, digo, que se referem às armas e armaduras dos soldados. Por

isso afirmo, salvo uma opinião mais abalizada, que esta peça que está

aí nas mãos deste bom senhor não só não é bacia de barbeiro, como

está tão longe de ser como está longe o branco do preto e a verdade da

mentira; também afirmo que este, embora seja um elmo, não é um

elmo inteiro.

— Não, é claro — disse dom Quixote —, porque falta a metade dele,

a babeira.

— É verdade — disse o padre, que já havia entendido a intenção de

seu amigo barbeiro.

A mesma coisa disseram Cardênio, dom Fernando e seus companheiros; e até o ouvidor, se não estivesse tão pensativo com a

história de dom Luís, teria ajudado na brincadeira, mas a seriedade do

assunto o mantinha tão alheado que prestava pouca atenção ou

nenhuma àqueles gracejos.

— Deus me ajude! — disse nesse ponto o barbeiro enganado. —

Como é possível que tanta gente honrada diga que esta bacia é um elmo? Uma coisa dessas pode espantar uma universidade toda, por

mais inteligente que seja. Basta. Se esta bacia é um elmo, esta albarda

também deve ser jaez de cavalo, como este senhor disse.

— Acho que é albarda — disse dom Quixote —, mas já disse que

nesse caso não me meto.

— Se é albarda ou jaez — disse o padre —, basta uma palavra do

senhor dom Quixote, porque nessas coisas de cavalaria todos nós

reconhecemos a superioridade dele.

— Por Deus, meus senhores — disse dom Quixote —, são tantas e

tão estranhas as coisas que me aconteceram neste castelo, nas duas

vezes em que me alojei aqui, que não me atrevo a afirmar

categoricamente nada sobre o que ele contém, pois imagino que tudo

são obras de encantamento. Na primeira vez, atormentou-me muito

um mouro encantado que há nele, e Sancho não se saiu muito melhor

com outros sequazes seus; e hoje à noite estive pendurado por este

braço por quase duas horas, sem saber como nem por que caí naquela

desgraça. Assim, começar agora a dar minha opinião sobre coisa tão confusa seria cair num julgamento temerário. Quanto ao que dizem

sobre esta ser bacia e não elmo, eu já respondi; mas quanto a declarar

se é albarda ou jaez, não me atrevo a dar uma sentença definitiva:

deixo o assunto ao bom julgamento de vossas mercês. Talvez, por não

terem sido armados cavaleiros como eu, os encantamentos deste lugar

não atinjam vossas mercês, e terão o raciocínio livre e poderão julgar

as coisas desse castelo como elas são real e verdadeiramente, e não

como se mostram a mim.

— Sem dúvida — respondeu dom Fernando —, como disse muito

bem o senhor dom Quixote, cabe a nós a decisão desse caso; e, para

que haja maior lisura, vou recolher em segredo os votos destes

senhores, e, seja qual for o resultado, direi tudo com a maior clareza.

Para aqueles que conheciam a loucura de dom Quixote, isso tudo era

matéria para muito riso, mas para os que a ignoravam parecia o maior

disparate do mundo, especialmente aos criados de dom Luís, ao

próprio dom Luís e a outros três viajantes que por acaso haviam

chegado à estalagem — tinham jeito de quadrilheiros da Santa

Irmandade, o que realmente eram. O que mais se desesperava, porém,

era o barbeiro, cuja bacia, diante de seus olhos, havia se transformado no elmo de Mambrino, e cuja albarda sem dúvida pensava que ia virar

um belo jaez de cavalo. Mas todos riam ao ver como dom Fernando

andava recolhendo os votos um depois do outro, falando ao ouvido

para que declarassem se era albarda ou jaez aquela joia que causara

tanta disputa; e, depois que recolheu os votos daqueles que conheciam

dom Quixote, disse em voz alta:

— Olhai, bom homem, o certo é que já me cansei de ouvir tantas

opiniões, porque todos me responderam que é um absurdo dizer que

esta seja albarda de jumento, quando é evidente que é jaez de cavalo, e

de cavalo puro-sangue. Então, tende paciência, porque, embora isso

vos desagrade e ao vosso burro, este é jaez e não albarda; e vós

argumentastes e provastes muito mal vosso caso.

— Que eu não me saia melhor no céu — disse o mencionado

barbeiro — se todos os senhores não se enganam, e que minha alma

pareça a Deus como a albarda não me parece jaez; mas é melhor nem

falar, os poderosos fazem as leis. A verdade é que não estou bêbado,

pois estou em jejum, menos de pecados.

Não causaram menos risos as tolices que o barbeiro dizia que os

disparates de dom Quixote, que nesse ponto disse:

— Não há mais o que fazer aqui além de cada um pegar suas coisas,

e que são Pedro abençoe o que foi dado por Deus.

Um dos quatro criados de dom Luís disse:

— Se isso não é uma brincadeira premeditada, não posso acreditar

que homens de bom senso como são ou parecem ser todos os presentes

se atrevam a dizer e atestar que isto não é bacia e aquilo albarda; mas,

como vejo que todos dizem e atestam, desconfio de algum mistério que

os leva a teimar numa coisa tão contrária ao que mostra a própria

experiência; quero ver minha mãe m… — e lançou a blasfêmia, letra

por letra — se alguém me convencer de que isto não seja uma bacia de

barbeiro e isso, uma albarda de burro.

— Poderia ser de uma burrinha — disse o padre.

— Tanto faz — disse o criado —, pois o caso não consiste nisso, mas

em se é ou não é albarda, como vossas mercês dizem.

Ao ouvir isso, um dos quadrilheiros, que tinha visto a briga e a

discussão, disse cheio de raiva e indignação:

 

É

— É tão albarda como meu pai é meu pai, e quem disse ou disser

outra coisa deve estar muito bêbado.

— Mentis como um patife ordinário! — respondeu dom Quixote.

E, levantando o chuço, que nunca largava, desfechou-lhe tamanho

golpe na cabeça que teria deixado o quadrilheiro estendido ali, se ele

não se desviasse a tempo. O chuço se despedaçou no chão, e os outros

quadrilheiros, que viram o trato que o companheiro recebera,

gritaram por socorro à Santa Irmandade.

O estalajadeiro, que era da Irmandade, entrou às pressas para pegar

a espada e a vara, insígnia de sua autoridade, e se postou ao lado de

seus companheiros; os criados de dom Luís rodearam-no, para que

não fugisse no meio da confusão; o barbeiro, vendo a casa agitada,

agarrou de novo a albarda, e Sancho fez a mesma coisa; dom Quixote

empunhou a espada e atacou os quadrilheiros; dom Luís dava ordens

aos criados para que o deixassem e ajudassem dom Quixote, Cardênio

e dom Fernando, que também ajudavam o cavaleiro. O padre gritava,

a estalajadeira berrava, sua filha se afligia, Maritornes chorava, Doroteia estava confusa, Lucinda, surpresa, e dona Clara, desmaiada.

O barbeiro esmurrava Sancho, Sancho batia no barbeiro; dom Luís, a

quem um criado se atreveu a segurar pelo braço para que não

interviesse, lhe deu um soco que lhe banhou os dentes de sangue; o

ouvidor o defendia; dom Fernando tinha um quadrilheiro no chão,

medindo-o a pontapés com todo o prazer; o estalajadeiro voltou a

engrossar a voz, pedindo socorro à Santa Irmandade… De modo que

toda a estalagem era choros, gritos, berros, confusões, medos, sustos,

desgraças, espadadas, sopapos, pauladas, pontapés e derramamento

de sangue. E, no meio desse caos, labirinto e pandemônio, dom

Quixote se viu em sua imaginação metido até o pescoço no tumulto

do campo de Agramante1 e por isso disse, com voz que estremecia a

estalagem:

— Detenham-se todos, todos embainhem as espadas, fiquem todos

quietos, ouçam-me todos, se todos quiserem continuar vivos!

Depois desse brado, todos pararam, e ele continuou, dizendo:

— Eu não vos disse, senhores, que este castelo era encantado e que

uma legião de demônios deve morar nele? Para confirmar isso, quero

que vejais com vossos próprios olhos como se transferiu para cá e aconteceu entre nós o tumulto do campo de Agramante. Olhai como

ali se luta pela espada, aqui pelo cavalo, lá pela águia, cá pelo elmo, e

todos lutamos e todos não nos entendemos. Venha, pois, vossa mercê,

senhor ouvidor, e vossa mercê, senhor padre, e que um sirva de rei

Agramante e o outro de rei Sobrino, e façamos as pazes. Por Deus

Todo-Poderoso, é uma grande velhacaria que tanta gente distinta

como nós se mate por causas tão levianas.

Os quadrilheiros, que não entendiam o fraseado de dom Quixote e

se viam estropiados por dom Fernando, Cardênio e seus

companheiros, não queriam se acalmar; o barbeiro sim, porque

durante a briga teve as barbas e a albarda desfeitas; Sancho, à

primeira palavra de seu amo, obedeceu, como bom criado; os quatro

criados de dom Luís também ficaram quietos, vendo que do contrário

lucrariam pouco. Apenas o estalajadeiro teimava em que se deviam

castigar as insolências daquele louco, que a todo momento arrumava

confusão na estalagem. Finalmente, o tumulto se apaziguou, e até o

dia do juízo a albarda continuou jaez, a bacia elmo e a estalagem castelo na imaginação de dom Quixote.

Então, com todos acalmados e feitos amigos pela lábia do ouvidor e

do padre, na mesma hora os criados de dom Luís insistiram de novo

para que ele se fosse com eles. Enquanto os cinco discutiam, o ouvidor

falou com dom Fernando, Cardênio e o padre sobre o que devia fazer,

contando-lhes o caso com as palavras com que dom Luís o tinha

relatado. Por fim combinaram que dom Fernando dissesse aos criados

de dom Luís quem era e que gostaria que dom Luís fosse com ele até a

Andaluzia, onde seu irmão, o marquês, o receberia como sua

importância merecia; porque, pelo que acontecera, sabiam que dom

Luís por ora não se deixaria ver pelos olhos do pai, mesmo que

fizessem picadinho dele. Os criados, entendendo a posição de dom

Fernando e a intenção de dom Luís, resolveram que três voltariam

para contar a seu pai o que se passava e que o outro ficaria para servir

dom Luís, sem deixá-lo até que voltassem para buscá-lo ou para fazer

o que o pai lhes ordenasse.

Dessa maneira se apaziguou aquela pilha de encrencas, pela

autoridade de Agramante e a prudência do rei Sobrino; mas, vendo-se

o inimigo da concórdia e adversário da paz menosprezado e enganado, e vendo o pouco que colhera ao ter posto todos em

labirinto tão confuso, resolveu tentar de novo, ressuscitando novos

conflitos e perturbações.

A verdade é que os quadrilheiros se acalmaram porque pescaram

alguma coisa sobre a posição dos homens que tinham combatido e se

retiraram por acharem que, acontecesse o que acontecesse, iam levar a

pior na batalha. Mas um deles, que tinha sido desancado a pontapés

por dom Fernando, lembrou que, entre algumas ordens de prisão que

trazia para delinquentes, havia uma contra dom Quixote, que a Santa

Irmandade mandara prender por ter libertado os condenados às galés,

como Sancho havia temido com toda razão.

Pensando nisso, quis se certificar de que a descrição que tinha

coincidia com dom Quixote e, tirando do peito um pergaminho, logo

topou com o que procurava. Começou a ler devagar, porque não era

bom leitor — a cada palavra, botava os olhos em dom Quixote,

comparando os dados da ordem de prisão com o rosto do cavaleiro, e

achou que ele sem dúvida era o homem que a ordem descrevia. Mal teve certeza disso, enrolou o pergaminho, segurando-o com a mão

esquerda, e com a direita agarrou fortemente dom Quixote pelo

colarinho, o que não o deixava respirar, e em grandes brados disse:

— Acudam a Santa Irmandade! E, para que se veja que falo sério,

leia-se isto aqui, a ordem de prisão deste salteador de estradas!

O padre pegou a ordem e viu que era verdade tudo o que o

quadrilheiro dizia, como as descrições coincidiam com dom Quixote,

que, vendo-se maltratado por aquele patife vagabundo, no auge da

raiva e com os ossos rangendo, do melhor jeito que pôde agarrou o

adversário com ambas as mãos pela garganta. Se os companheiros não

viessem em socorro, ali mesmo o quadrilheiro deixaria a vida antes

que dom Quixote a presa. O estalajadeiro, que por força devia

favorecer os de seu ofício, correu para ajudar. A estalajadeira, que viu

de novo seu marido metido numa briga, berrou de novo,

acompanhada em seguida por sua filha e Maritornes, pedindo que o

céu e os presentes intercedessem. Sancho, vendo o que acontecia, disse:

— Santo Deus, é verdade tudo o que meu amo disse do

encantamento deste castelo, pois não é possível viver uma hora

sossegada nele!

Dom Fernando separou o quadrilheiro e dom Quixote, e desprendeu

as mãos deles da gola do saio de um e da garganta do outro, para

alívio dos dois. Mas nem por isso os quadrilheiros paravam de exigir

seu preso e que ajudassem a entregá-lo amarrado e submisso, porque

assim convinha ao serviço do rei e da Santa Irmandade, em nome de

quem pediam de novo auxílio para prender aquele ladrão e salteador

de estradas e caminhos. Dom Quixote ria ao ouvir essas palavras e,

com muita calma, disse:

— Vinde cá, gente bruta e ordinária: salteador de estrada chamais a

quem dá liberdade aos acorrentados, solta os presos, socorre os

miseráveis, levanta os caídos, ajuda os necessitados? Ah, gente infame,

digna pelo mais baixo e desprezível discernimento que o céu não vos

comunique o valor que se encerra na cavalaria andante, nem vos dê a

entender o pecado e a ignorância em que estais em não reverenciar a

sombra, quanto mais a assistência de qualquer cavaleiro andante!

Vinde cá, quadrilha de ladrões, não de quadrilheiros, salteadores de

estrada com licença da Santa Irmandade, dizei-me: quem foi o ignorante que assinou a ordem de prisão contra um cavaleiro de meu

porte? Quem não sabe que os cavaleiros andantes estão livres de todos

os foros judiciais e que a lei deles é a espada, seus foros sua coragem,

seus decretos sua vontade? Quem foi o mentecapto, repito, que não

sabe que não há patente de fidalguia com tantos privilégios nem

isenções como a que um cavaleiro andante adquire no dia em que se

arma cavaleiro e se entrega ao duro exercício da cavalaria? Que

cavaleiro andante pagou qualquer tipo de imposto: peitas, alcavalas,

subsídios reais, taxa de vassalagem e pedágios? Que alfaiate lhe

cobrou pela roupa que fez? Que castelão que o acolheu exigiu que

pagasse a hospedagem? Que rei não o recebeu em sua mesa? Que

donzela não se apaixonou por ele e se entregou rendida a seus desejos

e vontade? E, por fim, que cavaleiro andante houve, há ou haverá que

não tenha brio para dar sozinho quatrocentas pauladas em

quatrocentos quadrilheiros que lhe apareçam pela frente?

 

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