Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 44 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XXXVI

que trata da brava e descomunal

batalha que dom quixote travou com uns odres

de vinho tinto,1 com outras

coisas estranhas que aconteceram

com ele na estalagem

Estavam nisso, quando o estalajadeiro, que fora até a porta da

estalagem, disse:

— Aí vem uma bela tropa de hóspedes; se eles pararem aqui, teremos

uma boa farra.

— Quem são? — disse Cardênio.

— Quatro homens — respondeu o estalajadeiro — vêm a cavalo, à

gineta, com lanças e adargas, e todos com máscaras negras;2 e junto

com eles vêm mais dois criados a pé e uma mulher vestida de branco,

num silhão,3 também com o rosto coberto.

— Estão perto? — perguntou o padre.

— Tanto que já estão aqui — respondeu o estalajadeiro.

Ao ouvirem isso, Doroteia cobriu o rosto e Cardênio foi para o

quarto de dom Quixote, mas quase não tiveram tempo, porque

chegaram todos os que o dono anunciara. Os quatro a cavalo

apearam, todos com porte e modos refinados, e foram ajudar a mulher

que vinha no silhão. Um deles a tomou nos braços e a sentou numa

cadeira que estava à entrada do quarto onde Cardênio havia se

escondido. Durante todo esse tempo, nem ela nem eles haviam tirado

as máscaras, nem falado palavra alguma: apenas a mulher, ao se sentar

na cadeira, deu um suspiro profundo e deixou cair os braços, como

pessoa doente e desalentada. Os criados levaram os cavalos para a

estrebaria.

O padre, ansioso para saber quem eram aquelas pessoas naqueles

trajes e naquele silêncio, foi para a estrebaria e perguntou o que

desejava a um dos criados, que lhe respondeu:

— Por Deus, senhor, não sei vos dizer quem são: sei apenas que

aparentam ser muito importantes, principalmente aquele que apeou a senhora, como vistes. Digo isso porque todos os outros o respeitam e

só se faz o que ele ordena e manda.

— E a senhora, quem é? — perguntou o padre.

— Também não sei — respondeu o criado —, porque não vi o rosto

dela a viagem toda; suspirar sim, eu a ouvi muitas vezes, e gemer de

um modo que a cada gemido parecia querer entregar a alma ao

Criador. E não é de espantar que não saibamos mais do que dissemos,

porque não faz mais que dois dias que meu companheiro e eu os

acompanhamos, pois, quando nos encontramos pelo caminho, nos

imploraram e convenceram a que viéssemos com eles até a Andaluzia,

prometendo nos pagar muito bem.

— E ouvistes o nome de algum deles? — perguntou o padre.

— Não, nunca — respondeu o criado —, porque todos andam num

silêncio inacreditável: entre eles não se ouve nada exceto os suspiros e

soluços da pobre senhora, que é de dar pena. Sem dúvida achamos

que a levam à força, seja lá para onde for que a levam; e, pelo que dá

para ver pelo hábito, ela é freira ou vai sê-lo, que é o mais provável, e vai triste, como se vê, talvez porque a vida religiosa não tenha sido

escolha sua.

— Bem pode ser o caso — disse o padre.

E, deixando-os, voltou para onde estava Doroteia, que, como havia

ouvido os suspiros da mascarada, movida por natural compaixão se

aproximou dela e disse:

— Que mal sentis, minha senhora? Olhai se é algum desses que as

mulheres costumam ter experiência de tratar, que de boa vontade vos

ofereço meus serviços.

Mas a senhora mortificada permanecia calada; Doroteia insistiu com

favores maiores, mas ela não saiu de seu silêncio. Então chegou o

cavaleiro mascarado que os outros obedeciam, conforme o criado, e

disse a Doroteia:

— Não vos canseis, senhora, oferecendo coisa alguma a essa mulher,

porque costuma não agradecer nada que se faz por ela, nem espereis

que vos responda, se não quereis ouvir alguma mentira de sua boca.

— Jamais menti — disse nesse ponto a mulher que até ali estivera

calada. — É justamente por ser honesta e incapaz de mentiras que

agora me vejo infeliz assim; e disso quero que vós mesmo sejais testemunha, pois minha verdade, pura e simples, vos torna falso e

mentiroso.

Cardênio ouviu essas palavras bem clara e distintamente, porque

estava muito perto de quem as dizia, apenas com a porta do quarto de

dom Quixote entre eles; e, mal as ouviu, disse aos gritos:

— Valha-me Deus! O que ouço? Que voz é essa que chegou a meus

ouvidos?

A senhora virou a cabeça, toda sobressaltada; não vendo quem

gritava, levantou-se para ir até o quarto, mas o cavaleiro a deteve, sem

deixá-la dar um passo. Ela, na confusão e nervosismo, deixou cair o

véu com que se ocultava, revelando um rosto de incomparável e

miraculosa formosura, apesar de pálido e amedrontado; os olhos dela

rodavam, examinando todos os lugares que podia, com tanta

obstinação que parecia pessoa fora de si — esse comportamento

encheu de pena Doroteia e aos demais que a olhavam, pois não

sabiam o motivo dele. O cavaleiro, muito ocupado em segurá-la

fortemente pelos ombros, não conseguiu levantar a máscara que ameaçava cair e que por fim acabou realmente caindo; e Doroteia, que

também estava abraçada à senhora, ao erguer os olhos viu que o

homem era seu esposo dom Fernando — mal o reconheceu, deixou

escapar do íntimo de suas entranhas um longo e tristíssimo “ai!” e

caiu de costas, desmaiada. Se o barbeiro não estivesse perto para

ampará-la nos braços, ela teria se estatelado no chão.

O padre veio logo tirar o véu dela, para lhe jogar água no rosto, e,

apenas a descobriu, reconheceu-a dom Fernando (porque era ele

mesmo) e ficou como morto ao vê-la, mas nem por isso deixou de

segurar Lucinda, que era quem procurava escapar de seus braços, pois

havia reconhecido os gritos de Cardênio, como ele também a tinha

reconhecido. Cardênio, ao ouvir o “ai!” de Doroteia quando caiu

desmaiada, pensou que era de Lucinda e saiu apavorado do quarto, e

a quem viu primeiro foi dom Fernando, que ainda tinha Lucinda nos

braços. Dom Fernando também reconheceu Cardênio imediatamente

— e todos os três, Lucinda, Cardênio e Doroteia, ficaram mudos de

surpresa, quase sem saber o que havia acontecido com eles.

Todos se calaram e todos se olhavam, Doroteia a dom Fernando,

dom Fernando a Cardênio, Cardênio a Lucinda, e Lucinda a Cardênio. Mas quem primeiro quebrou o silêncio foi Lucinda, falando

a dom Fernando desta maneira:

— Senhor dom Fernando, pelo que vos obriga vossa nobreza, já que

por outra deferência não o faríeis, deixai-me chegar ao muro de quem

sou hera, à proteção de quem não puderam me afastar vossas

impertinências, vossas ameaças, vossas promessas nem vossos

presentes. Notai como o céu, por vias extraordinárias e ocultas para

nós, pôs diante de mim meu verdadeiro esposo, e bem sabeis por mil

experiências penosas que só a morte seria suficiente para apagá-lo de

minha memória. Como não podeis fazer outra coisa, que desenganos

tão cristalinos lhe sirvam, portanto, para que transformeis o amor em

raiva, o desejo em despeito, e acabai-me com a vida, que, desde que eu

a renda diante de meu bom esposo, a darei por bem empregada.

Talvez com minha morte ele se convença que mantive minha fidelidade

até o último instante.

Nesse meio-tempo, Doroteia havia se recuperado e escutara todas as

palavras de Lucinda, e assim descobriu quem ela era. Mas, vendo que dom Fernando não a soltava nem respondia, se esforçou o mais que

pôde para levantar e foi cair de joelhos a seus pés — então,

derramando quantidade de formosas e doloridas lágrimas, começou a

dizer:

— Meu senhor, se os raios desse sol que tens eclipsado entre os

braços não ofuscam a luz de teus olhos, já terás visto que a mulher

que está ajoelhada a teus pés é Doroteia, desgraçada e infeliz enquanto

tu assim quiseres. Eu sou aquela camponesa humilde a quem tu, por

generosidade ou por desejo, quiseste elevar à grandeza de poder

chamar-se tua; sou aquela que, encerrada nos limites da virtude, viveu

vida contente até que (diante dos apelos de tua insistência e, ao que

parece, justos e amorosos sentimentos) abriu as portas de seu recato e

te entregou as chaves de sua liberdade, dádiva por ti tão mal

correspondida como o mostra com clareza ter sido inevitável me

encontrar no lugar onde me encontras e eu te ver da maneira que te

vejo. Mas, apesar disso tudo, não gostaria que pudesses pensar que me

trouxeram aqui os passos de minha desonra, tendo-me trazido apenas

os da dor e do sentimento de me ver esquecida por ti. Quiseste que eu fosse tua e quiseste de maneira que, mesmo que agora não queiras

mais, já não será possível que deixes de ser meu.

“Olha, meu senhor, a formosura e a nobreza daquela por quem me

deixas bem podem ser compensadas pelo incomparável amor que

tenho por ti. Tu não podes ser da formosa Lucinda, porque és meu,

nem ela pode ser tua, porque é de Cardênio, e será mais fácil, se

pensares nisso, limitar teu desejo a querer quem te adora, que obrigar

quem te detesta a te querer. Tu assediaste minha fraqueza, tu

imploraste a minha integridade, mas não ignoraste minha condição e

sabes bem de que maneira me entreguei a teu desejo: não há como

alegares engano em nossa relação. Se isso é verdade, como sei que é, e

tu és tão cristão quanto nobre, por que tantos rodeios e demoras para

me fazer feliz no final como me fizeste no princípio? E, se não me

queres pelo que sou, tua verdadeira e legítima esposa, ao menos me

queiras ou me aceites como tua escrava, pois me julgarei feliz e bem-

aventurada estando em teu poder. Não permitas, ao me deixar

abandonada, que minha desonra alimente os mexericos; não dês a meus pais velhice tão ruim, pois não merecem os leais serviços que,

como bons vassalos, sempre prestaram aos teus.

“E, se pensas que vais aniquilar teu sangue por misturá-lo com o

meu, considera que pouca ou nenhuma nobreza há no mundo que não

tenha trilhado este caminho, e a que se toma das mulheres não é a que

importa nas descendências ilustres, tanto mais que a verdadeira

nobreza consiste na virtude, e se esta falta a ti negando-me o que com

tanta justiça me deves, eu terei mais atributos de nobreza do que tu

tens. Enfim, senhor, para encerrar te digo que, queiras ou não queiras,

eu sou tua esposa: testemunhas são tuas palavras, que não são nem

devem ser mentirosas, se é que prezas a nobreza pela qual me

desprezas; testemunha será o anel que puseste em meu dedo, e

testemunha o céu, a quem tu invocaste para selar tuas promessas. E, se

tudo isso faltar, não deverá faltar tua própria consciência, que clamará

calando tuas alegrias, trazendo de volta toda a verdade, perturbando

teus melhores prazeres e diversões.”

A desolada Doroteia disse isso e muito mais com tanto sentimento e

lágrimas que choraram até os que acompanhavam dom Fernando e as

outras pessoas que se encontravam ali. Dom Fernando escutou-a sem responder uma palavra, até que ela deu fim às suas e início a tantos

soluços e suspiros que só não se enterneceria com essas demonstrações

de dor alguém que tivesse o coração de bronze. Lucinda estava

olhando-a, não menos comovida com sua desolação que admirada

com sua grande formosura e bom senso; e, ainda que quisesse se

aproximar dela e lhe dizer algumas palavras de consolo, não a

deixavam os braços de dom Fernando, que a mantinham presa. Mas

ele, cheio de confusão e espanto, depois de um bom tempo em que

esteve olhando Doroteia atentamente, abriu os braços e, deixando

Lucinda livre, disse:

— Venceste, formosa Doroteia, venceste; não é possível ter coragem

para negar tantas verdades juntas.

Assim que dom Fernando soltou Lucinda, ela desmaiou e ia quase

caindo, mas Cardênio — que estava perto, às costas de dom Fernando

para não ser reconhecido —, vencendo todo temor e se expondo a

todo perigo, conseguiu segurar Lucinda e, com ela nos braços, disse:

— Se o céu piedoso desejar e decidir que tenhas agora algum descanso, minha leal, dedicada e formosa senhora, acredito que em

parte alguma o terás mais seguro que nestes braços que neste instante

te recebem e que em outro tempo te receberam, quando o destino quis

que eu pudesse te chamar minha.

A essas palavras, Lucinda pôs os olhos em Cardênio — havia

começado a reconhecê-lo pela voz, mas então, tendo certeza de que

era ele pela vista, quase sem sentidos e sem levar em conta nenhum

recato ou conveniência, lançou-lhe os braços ao pescoço e, colando

seu rosto ao dele, disse:

— Sim, meu senhor, sois o verdadeiro dono desta cativa, por mais

adverso que seja o destino e mais ameace esta vida, que na vossa se

ampara.

Foi uma visão estranha para dom Fernando e para todos os que

estavam ali, admirados com acontecimentos tão incríveis. Doroteia

achou que dom Fernando perdera a cor do rosto e fazia menção de

querer se vingar de Cardênio, porque o viu levar a mão à espada; mal

pensou isso, atirou-se a seus joelhos, beijando-os e abraçando-os com

força, impedindo assim o cavaleiro de se mover; e, sem parar um

instante de derramar suas lágrimas, dizia:

— Dom Fernando, meu único amparo: que pensas fazer em situação

tão inesperada? Tens tua esposa a teus pés, e a que queres está nos

braços de seu marido. Vê se fica bem ou te será possível desfazer o que

o céu fez, ou se é mais conveniente desejares elevar à estatura de tua

nobreza aquela que, vencendo todo obstáculo, confirmada em sua

virtude e fidelidade, diante de teus olhos tem os seus, banhados pelo

licor amoroso o rosto e o peito de seu verdadeiro esposo. Por quem

Deus é eu imploro e por quem tu és eu suplico, não deixes que esta

revelação clara da verdade aumente tua ira; pelo contrário, deixa que

a abrande de tal maneira que com calma e tranquilidade permitas que

esses dois amantes tenham, sem tua interferência, todo o tempo que o

céu quiser lhes conceder, e nisso mostrarás a generosidade de teu

ilustre e nobre coração, e o mundo verá que contigo a razão tem mais

força que o desejo.

Enquanto Doroteia dizia isso, Cardênio, embora abraçasse Lucinda,

não tirava os olhos de dom Fernando, à espera de algum movimento

contra si, decidido a se defender e atacar como melhor pudesse a todos aqueles que se mostrassem hostis, mesmo que isso lhe custasse a vida.

Mas então acudiram os amigos de dom Fernando, além do padre e do

barbeiro, que presenciaram tudo, sem que faltasse o bom Sancho

Pança, e todos cercaram dom Fernando, suplicando a ele que olhasse

com compaixão as lágrimas de Doroteia. Se era verdade o que ela

havia dito, como sem dúvida eles achavam que sim, não permitisse

então que ficasse frustrada em suas justas esperanças; que considerasse

que não foi por acaso que todos haviam se reunido num lugar

inimaginável desses, como parecia, mas devido à particular

providência do céu. O padre disse que apenas a morte podia separar

Lucinda de Cardênio, mas, mesmo assim, ainda que fossem separados

pelo fio de uma espada, julgariam a morte uma felicidade, e que, nos

casos sem remédio como esse, forçando-se e vencendo a si mesmo, a

suprema sensatez era mostrar um coração generoso, permitindo que,

por sua exclusiva vontade, os dois gozassem o bem que o céu já havia

lhes concedido. Também disse que, se contemplasse a beleza de

Doroteia, veria que poucas mulheres podiam se comparar a ela, ou

nenhuma, quanto mais ultrapassá-la, e que somasse à sua formosura

sua humildade e o amor extremo que lhe dedicava, mas que notasse antes de mais nada que não podia fazer outra coisa que cumprir a

palavra dada, se se orgulhava de ser cavaleiro e cristão, e que,

cumprindo-a, estaria quite com Deus e satisfaria as pessoas sensatas,

que sabem e conhecem que é prerrogativa da beleza, mesmo em gente

humilde, desde que acompanhada de virtude, poder se elevar e se

igualar a qualquer nobreza, sem um traço de desprezo por quem se

eleva e iguala a si mesmo; e, quando obedecem as leis violentas do

prazer, desde que nisso não intervenha o pecado, não deve sentir culpa

aquele que as segue.

A esses argumentos, todos acrescentaram tantos outros que o valente

coração de dom Fernando — como que por fim alimentado com

sangue azul — se abrandou e se deixou vencer pela verdade, que ele

não poderia negar nem que quisesse; e o sinal de sua rendição aos

bons conselhos dados foi se abaixar e abraçar Doroteia, dizendo a ela:

— Levantai-vos, minha senhora, que não é justo que estejais

ajoelhada a meus pés aquela que eu tenho em minha alma; e, se até

aqui não dei mostras do que digo, talvez tenha sido por determinação do céu, para que vendo eu em vós a fidelidade com que me amais

saiba vos estimar como mereceis. O que vos imploro é que não

repreendais minha má conduta e negligência, pois a mesma condição e

força que me levou a aceitar-vos como minha me impeliu a procurar

não ser vosso. Para comprovardes a verdade disso, virai-vos e olhai os

olhos da agora contente Lucinda, e neles encontrareis desculpa a todos

os meus erros. Então, como ela achou e alcançou o que desejava, e eu

achei em vós o que me cabe, viva ela segura e alegre longos e felizes

anos com seu Cardênio, que eu rogarei ao céu que me deixe viver

outros tantos com minha Doroteia.

E, dizendo isso, abraçou-a de novo e colou o rosto ao dela com tanta

emoção que lhe foi necessário se conter para que as lágrimas não

acabassem por dar sinais indubitáveis de seu amor e arrependimento.

Não foi assim com as de Lucinda e Cardênio, nem com as de quase

todos os presentes, porque começaram a derramar tantas, uns por

causa da própria alegria e outros por causa da alegria alheia, que

parecia que havia acontecido a todos alguma coisa grave e má. Até

Sancho Pança chorava, embora tenha dito depois que só chorava por

ver que Doroteia não era, como ele pensava, a rainha Micomicona, de quem ele esperava tantos benefícios. O choro e o espanto duraram

algum tempo, e depois Cardênio e Lucinda foram cair de joelhos

diante de dom Fernando, agradecendo com palavras tão corteses a

mercê que lhes havia feito que dom Fernando não sabia mais o que

lhes responder; levantou-os, então, e os abraçou com mostras de

muito amor e de muita cortesia.

Em seguida pediu que Doroteia dissesse como havia vindo parar ali,

tão longe de sua aldeia. Com poucas e medidas palavras, ela contou

tudo o que havia contado antes a Cardênio, o que agradou tanto a

dom Fernando e aos que o acompanhavam que gostariam que a

história durasse mais tempo, tal era a graça com que Doroteia narrava

suas desventuras. Quando ela terminou, dom Fernando disse o que

havia acontecido com ele na cidade depois que encontrou a carta no

seio de Lucinda, na qual declarava ser esposa de Cardênio e não poder

ser sua: quis matá-la e o teria feito se não fosse impedido pelos pais

dela. Então saiu de casa ressentido e envergonhado, disposto a se

vingar num momento mais favorável; e no dia seguinte soube que Lucinda havia sumido da casa de seus pais, sem que ninguém soubesse

dizer para onde fora; enfim, depois de alguns meses, veio a saber que

estava num mosteiro, decidida a ficar lá toda a vida, se não pudesse

passá-la com Cardênio. Assim que soube disso, escolhendo como

companhia aqueles três cavaleiros, foi para lá, mas não quis falar com

ela, com medo de que reforçassem a guarda ao saber da presença dele.

Então, esperando um dia em que a portaria estivesse aberta, deixou

dois de sentinela na entrada e com o outro entrou no mosteiro

procurando Lucinda, que acharam no claustro falando com uma

freira, e, arrebatando-a, sem lhe dar chance para nada, tinham ido a

uma aldeia se abastecer daquilo que era necessário para levá-la.

Puderam fazer tudo isso com facilidade porque o mosteiro ficava no

campo, a uma boa distância da aldeia. Finalmente, disse que Lucinda,

mal se viu em seu poder, perdeu os sentidos e que depois de voltar a si

não havia feito mais nada além de chorar e suspirar, sem dizer uma

palavra, e que, assim, acompanhados de silêncio e de lágrimas, haviam

chegado àquela estalagem, que para ele era como ter chegado ao céu,

onde culminam e têm fim todas as desventuras da terra.

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