Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 63 de 137

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Dom Quixote

Capítulo II

que trata da notável pendência

que sancho pança teve com a sobrinha

e a criada de dom quixote,

com outros assuntos engraçados

Conta a história que a gritaria que ouviram dom Quixote, o padre e o

barbeiro era da sobrinha e da criada, que diziam a Sancho Pança, que

lutava para entrar para ver dom Quixote, enquanto elas defendiam a

porta:

— Que quer este vagabundo nesta casa? Ide-vos embora, irmão, pois

sois vós e não outro quem alicia e desencaminha meu senhor e o

arrasta pelos quintos dos infernos.

Ao que Sancho respondeu:

— Criada do diabo, o aliciado e desencaminhado e arrastado pelos

quintos dos infernos sou eu, não teu amo: ele me levou mundo afora.

Vós vos enganais de cabo a rabo. Ele me tirou de minha casa com

engodos, prometendo-me uma ilha que espero até hoje.

— Tomara que te afogues nessas ilhas condenadas, Sancho

desgraçado — respondeu a sobrinha. — E que conversa é essa de

ilhas? É alguma coisa de comer, comilão e esganado que tu és?

— Não é de comer — replicou Sancho —, mas para governar mais e

melhor do que quatro alcaides da corte governariam quatro cidades.

— Mesmo assim — disse a criada —, não vais entrar aqui, saco de

maldades e fardo de malícias. Ide governar vossa casa e lavrar vossas

roças, e deixai de lado ilhas ou bilhas.

Muito se divertiam o padre e o barbeiro ao ouvir a conversa dos

três, mas dom Quixote, temeroso de que Sancho abrisse a matraca e

desembuchasse um monte de asneiras maliciosas e tocasse em assuntos que não cairiam bem a sua reputação, chamou-o, e fez as duas se

calarem e o deixarem entrar. Sancho entrou, e o padre e o barbeiro se

despediram de dom Quixote, desesperados com a saúde dele, vendo

como estava firme em seus pensamentos desvairados e mergulhado na

idiotice de sua mal andante cavalaria. Então o padre disse ao barbeiro:

— Já vereis, compadre, quando menos pensemos, nosso fidalgo sai

outra vez em busca de sarna para se coçar.

— Não tenho dúvida disso — respondeu o barbeiro —, mas não me

surpreendo tanto com a loucura do cavaleiro quanto com a estupidez

do escudeiro, pois acredita tão piamente no negócio da ilha que acho

que não o tirarão do bestunto quantos desenganos possam se

imaginar.

— Que Deus os ajude — disse o padre —, e fiquemos de olho: vamos

ver no que dá esse amontoado de disparates do tal cavaleiro e do tal

escudeiro, pois parece que foram forjados num mesmo molde e que as

loucuras do senhor, sem as asneiras do criado, não valeriam um

tostão.

— É verdade — disse o barbeiro. — Gostaria muito de saber o que

tratam os dois agora.

— Tenho certeza — respondeu o padre — de que a sobrinha ou a

criada nos conta depois, que não são do tipo que vão deixar de ouvir.

Enquanto isso, dom Quixote se encerrou com Sancho em seu quarto e, ficando a sós, lhe disse:

— Muito me pesa, Sancho, que tenhas dito e digas que fui eu que te

virei a vida de cabeça para baixo, sabendo que não fiquei com os pés

no chão: saímos juntos, fomos juntos e juntos peregrinamos; uma

mesma fortuna e uma mesma sorte correu por nós dois: se uma vez te

mantearam, a mim moeram cem vezes a pau, e isto é o que te levo de

vantagem.

— Isso era de esperar — respondeu Sancho —, porque, conforme

vossa mercê disse, as desgraças são mais próprias dos cavaleiros que

de seus escudeiros.

— Enganas-te, Sancho — disse dom Quixote —, conforme aquilo

quando caput dolet etc.

— Não entendo outra língua além da minha — respondeu Sancho.

— Quero dizer que, quando a cabeça dói, todos os membros doem

— disse dom Quixote. — Assim, sendo eu teu amo e senhor, sou tua

cabeça e tu, parte de mim, pois és meu criado; e, por essa razão, o mal

que me toca ou tocar vai doer em ti e em mim o teu.

— Assim devia ser — disse Sancho —, mas, quando me manteavam

como membro, minha cabeça estava atrás do muro me olhando voar pelos ares, sem sentir dor nenhuma; se os membros estão obrigados a

sentir a dor do mal da cabeça, ela devia estar obrigada a sentir a dor

deles.

— Estás querendo dizer, Sancho — respondeu dom Quixote —, que

eu não sentia nada quando te manteavam? Se dizes isso, não digas

mais, nem penses, pois mais dor eu sentia então em meu espírito que

tu em teu corpo. Mas deixemos isso de lado por ora, que logo teremos

tempo para ponderarmos e pôr tudo em pratos limpos. Mas me diz,

meu amigo Sancho, o que é que dizem de mim na vila? Que opinião

têm de mim o povo, os fidalgos e os nobres? O que dizem de minha

valentia, de minhas façanhas e de minha cortesia? O que se fala da

decisão que tomei de ressuscitar e trazer de volta ao mundo a já

esquecida ordem de cavalaria? Enfim, Sancho, quero que me digas o

que chegou sobre isso a teus ouvidos, e deves me dizer sem aumentar o

bem nem diminuir o mal em coisa alguma, que é próprio dos vassalos

leais dizer a verdade pura e simples a seus senhores, sem que a

adulação a aumente ou outro vão respeito a diminua; e quero que saibas, Sancho, que se a verdade nua e crua chegasse aos ouvidos dos

príncipes, sem as vestes da lisonja, outros séculos correriam, outras

épocas seriam consideradas mais de ferro que a nossa, pois acredito

que entre as últimas a nossa é de ouro. Sirva-te esse aviso, Sancho,

para que sábia e fielmente ponhas em meus ouvidos a verdade das

coisas que souberes sobre o que te perguntei.

— Farei isso de boa vontade, meu senhor — respondeu Sancho —,

com a condição de que vossa mercê não vai se amolar com o que eu

disser, pois quer a coisa em pelo, sem outras roupas que aquelas com

que chegaram a meu conhecimento.

— Não vou me amolar de jeito nenhum — respondeu dom Quixote.

— Podes falar livremente, Sancho, e sem rodeio algum.

— Bem, a primeira coisa que digo — disse — é que o povo considera

vossa mercê um grandessíssimo louco, e a mim não menos

mentecapto. Os fidalgos dizem que, não se contendo vossa mercê nos

limites da fidalguia, passou a se chamar “dom” e se meteu a nobre

com quatro vinhas e duas lavouras, com uma mão na frente e outra

atrás. Os nobres dizem que não gostam que os fidalgos se comparem a

eles, especialmente aqueles fidalgos pobres que acabam como escudeiros, que disfarçam os estragos nos sapatos com fuligem e

remendam as meias pretas com linha verde.

— Isso não tem que ver comigo — disse dom Quixote —, pois

sempre ando bem vestido, jamais remendado: esfarrapado, até poderia

ser, contudo mais pelas armas que pelo tempo.

— Quanto à valentia, cortesia, façanhas e à decisão de vossa mercê

— prosseguiu Sancho —, há diferentes opiniões. Uns dizem: “louco,

mas engraçado”; outros, “valente, mas desgraçado”; outros, “cortês,

mas impertinente”; e por aí vão falando tantas coisas que nem a vossa

mercê, nem a mim, deixam um osso inteiro.

— Olha, Sancho — disse dom Quixote —, onde quer que a virtude

esteja em grau eminente, é perseguida. Poucos ou nenhum dos

famosos homens do passado deixaram de ser caluniados pela malícia

alheia. Júlio César, capitão muito determinado, prudente e corajoso,

foi criticado por ambicioso e não muito limpo, nem em suas vestes

nem em seus costumes. De Alexandre, a quem suas façanhas deram o

renome de Magno, dizem que teve certos traços de bêbado. De Hércules, o dos muitos trabalhos, se conta que foi lascivo e

preguiçoso. De dom Galaor, irmão de Amadis de Gaula, mexericam

que foi mais que muito brigão; e de seu irmão, que foi chorão. Por

isso, meu caro Sancho, entre as tantas calúnias contra os bons bem

podem passar as minhas, desde que não sejam mais do que as que me

disseste.

— Este é o ponto, santo Deus! — replicou Sancho.

— Então tem mais? — perguntou dom Quixote.

— Ainda falta o pior, esfolar a cauda — disse Sancho. — Até aqui

tudo foi sombra e água fresca. Mas, se vossa mercê quer saber tudo o

que há sobre as calúnias que lhe fazem, eu trarei daqui a pouco quem

as diga todas, sem que falte um tiquinho, pois ontem à noite chegou o

filho de Bartolomé Carrasco, que estudava em Salamanca, feito

bacharel, e, quando fui lhe dar boas-vindas, ele me disse que vossa

mercê já andava em livros de história, com o nome de Engenhoso

fidalgo dom Quixote de la Mancha; e diz que fui mencionado nela

com meu próprio nome, Sancho Pança, e a senhora Dulcineia del

Toboso também, com outras coisas que passamos sozinhos, que me

benzi de susto: como o historiador que as escreveu pôde saber?

— Eu te garanto, Sancho — disse dom Quixote —, que deve ser

algum mago necromante o autor de nossa história, que deles não se

esconde nada que queiram escrever.

— Mas como era mago e necromante — disse Sancho —, se,

conforme disse o bacharel Sansão Carrasco, que assim se chama o

rapaz, o autor da história se chama Cide Hamete Berinjela?!

— Esse nome é de mouro — respondeu dom Quixote.

— Deve ser — respondeu Sancho —, porque sempre ouvi dizer em

toda parte que os mouros são amigos das berinjelas.

— Sancho — disse dom Quixote —, tu deves ter errado o sobrenome

desse Cide, que em árabe quer dizer “senhor”.

— Pode ser — replicou Sancho —, mas, se vossa mercê quiser que eu

o traga aqui, vou num pé e volto noutro.

— Seria um grande prazer, meu amigo — disse dom Quixote —,

porque me deixaste perplexo com o que me disseste e não vou comer

um bocado que me caia bem até ser informado de tudo.

— Então já vou indo — respondeu Sancho.

E, deixando seu senhor, foi buscar o bacharel, com quem voltou dali

a pouco, e os três tiveram uma conversa muito engraçada.

 

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